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quarta-feira, dezembro 26, 2018

vozes da biblioteca

«Chamo-o docemente: "Platero", e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...» Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu (1914) (tradução de José Bento)

«No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.» Gabriel García Márquez, Crónica de uma Morte Anunciada (1981) (tradução de Fernando Assis Pacheco)

«O relógio de pêndulo, esse, que balançava na sua caixa de vidro luxuosamente esculpida em madeira, e, no seu balanceiro de cobre amarelo, cortava em bocadinhos o dia que parecia interminável, mostrava a hora: meio-dia e trinta minutos.» Deszö Kosztolányi, Cotovia (1924) (tradução de Ernesto Rodrigues)

quinta-feira, abril 19, 2018

«Fluida, indecisa, volátil, / inconcreta, a ideia não se submete facilmente / ao cerco insidioso / da palavra.» Rui Knopfli, «Ideia do poema», O Corpo de Athena (1984)

«Que o nome que era o seu o persigam os ecos, / O gritem no deserto as gargantas com sede, / O murmurem no escuro os mendigos com frio, / O clamem na cidade as crianças com fome, / O soluce o amante de súbito impotente, / O maldigam no exílio as almas sem descanso.» José Carlos Ary dos Santos, «In memoriam», A Liturgia do Sangue (1963)

«de toda a mais volátil / é a categoria tempo» Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)

quarta-feira, abril 11, 2018

«"Se fores meiguinho / vou gostar de ti" / e eu de mansinho / tão bem a comi» Dick Hard, «Fofinha e prendada»De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (2004)

« entretanto falhamos porque estas coisas batem / no plexo solar viciam o salto / vamos dar com os cornos tristemente / no sítio onde a piscina é mais baixa» Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)


«A tinta prolonga / o sangue / consome o saber das sílabas» Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta (2001)

quarta-feira, março 21, 2018

«Eu ontem encontrei-a, quando vinha, / Britânica, e fazendo-me assombrar; / Grande dama fatal, sempre sòzinha, / E com firmeza e música no andar!» Cesário Verde, «Deslumbramentos», O Livro de Cesário Verde (póstumo, 1887)

«O meu íntimo é uma catedral / que ninguém viu.» Alexandre Dáskalos, Poesia (póstumo, 1961)

«é inacreditável como há dezassete anos / comecei a geração contigo / num ferry-boat sobre o moliço» Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976) 

sexta-feira, março 16, 2018

«e sequem-se-me os dedos a cabeça / estoire e não fique de tudo uma palavra / se a maldição for tanta que eu te esqueça» Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)



«E na mesma noite   noite boa   noite branca / fumei Estoril   Valetes   Kayakes e bebi Compal / depois da Salus e da Schweppes / fumei quilómetros e quilómetros de prazer / quilómetros e quilómetros -- há um Ford no meu futuro -- / mais facturas mais fomes mais prazer / e agora já não sei qual dos cigarros com filtro / me soube melhor.» Fernando Namora, «Marketing», Marketing (1969) 


«A lama enrola-se / nas veias, que o álcool nocturno espessa -- nenhuma notícia / confirma que a dívida tem que ser / paga e é prudente desconhecer quem a contraiu ou porquê.» José Alberto Oliveira, «Proposição», Mais Tarde (2003) 

segunda-feira, julho 17, 2017

Fernando Assis Pacheco, António Gentil Martins e a porcaria dos novos inquisidores

No último sábado li Walt, a noveleta do Fernando Assis Pacheco publicada em 1978. Nela são recorrentes expressões utilizadas pelo narrador-alferes -- um alter ego do próprio FAP --, como paneleirices ou fufas. Estou em crer que tivesse o FAP meditado escrever algo semelhante por este ano de 2017, se autosupliciaria, se autocensuraria, pois ao usar, num registo realista, palavras do nosso léxico como paneleirice ou fufa, pensaria três ou quatro vezes se estaria na disposição de aturar o fogo de artilharia pesada dos censores do costume, mais os patetas acoplados. E, extremamente fodido, provavelmente renunciaria a.


Parece que no último sábado o Expresso publicou uma entrevista a António Gentil Martins, cujos ecos só agora me chegaram. Tenho um familiar próximo cuja vida, ainda com meses, foi salva por ele. E assim com milhares de crianças. Não é por isso que deixarei de estar distante do médico, desde logo a começar pela religião. Deus sabe o quão ateu sou. Nasce-se homossexual, não se escolhe sê-lo. (Quem disser o contrário, não passa dum aldrabão.) Estando fora da norma, não deixa de ser um fenómeno natural (e não contranatura, como defendem os seus perseguidores) e, por isso, deve ser encarada com naturalidade nas sociedades civilizadas e evoluídas.

Ora, este senhor de 87 anos terá tido uma expressão bastante infeliz, qualquer coisa como "sou completamente contra os homossexuais". Talvez tivesse querido dizer que era contra a promoção da homossexualidade, e, aí, estaria bastante melhor, do meu ponto de vista.


Recuo um sábado: estava em Évora, entro numa tabacaria para comprar o jornal e dou de caras com a capa duma revista com o nome duma parola que esganiça por essas bardatelevisões além, dois marmanjos em ósculo envolvente --  o triunfo do kitsch em todo o seu horror. O cúmulo da miséria moral é que certamente não existe, em quem empreende a folha de couve, a mínima intenção cívica e pedagógica de promoção da tolerância, mas tão-só o propósito de arrebanhar mais uns cobres. O mercenarismo de mãos dadas com o merceeirismo.

Mas isto é a minha sensibilidade, o meu gosto, a minha educação, a minha mundividência essencialmente conservadores e tradicionais a falar. Nunca me passaria pela cabeça escrever sobre o assunto, por duas razões: a homossexualidade pertence à esfera íntima de cada um; a exteriorização feérica dela, embora seja um dos avatares do mau gosto em que estamos imersos, não é suficientemente importante para que me dê ao trabalho. Há coisas muito mais sérias, graves e urgentes. Faço-o agora, só para dizer -- porque me apetece e por ser conflituoso --, que a homossexualidade, enquanto desvio do padrão, enquanto prática minoritária, está, objectivamente, fora da norma, é portanto, nesse sentido, uma anomalia -- como o ser-se albino ou, dizem, ter os olhos azuis.


É provável que Gentil Martins não esteja a ser apenas um técnico -- altamente qualificado, sublinhe-se, daqueles que são (deveriam ser) orgulho de uma comunidade --, e a sua afirmação esteja contaminada pelo vírus religioso. É uma maçada, mas é a sua opinião, não só legítima, como expressa no seio de uma sociedade liberal, incompatível, pois com atitudes de bufo, de reles denunciantes que foram apresentar queixa à Ordem dos Médicos, que por sua vez vai abrir um inquérito ou palhaçada semelhante.

Gentil Martins esteve também mal ao pessoalizar a questão das barrigas de aluguer. Podia referir-se-lhe sem trazer à colação o Cristiano Ronaldo, e da forma como o fez. Nunca me debrucei sobre o assunto, não tenho grande opinião, salvo uma rejeição instintiva, embora possa estar aberto a aceitar a prática em situações extremas, com as quais, felizmente, nunca fui confrontado. Mas há uma coisa que eu sei: uma criança não é uma coisa que se compre como quem vai à loja dos animais à procura dum bicho de estimação.


Tudo isto é controverso, e é natural que assim seja. O que não pode ser tolerado é a perseguição, fanática e pidesca, a quem exprime as suas opiniões, conservadoras, tradicionalistas e confessionais -- e com todo o direito a fazê-lo. 

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

livros que me apetecem








O Árabe do Futuro 2 - Ser Jovem no Médio-Oriente, Riad Sattouf (Teorema)
Estrada Nacional, Rui Lage (IN-CM)
O Último Amante, Teresa Veiga (Tinta-da-china)
Tenho Cinco Minutos para Contar uma História, Fernando Assis Pacheco (Tinta-da-China)

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Que me importa, agora que me importas, / que batam, se não és tu, à porta?

Fernando Assis Pacheco

domingo, março 13, 2011

pior que o meu estado de saúde / é a corrupção nas altas esferas
Fernando Assis Pacheco

quarta-feira, novembro 23, 2005

JornaL

1) Li apressadamente na livraria duas páginas do último de António Lobo Antunes, D'este viver neste papel aqui descripto -- as cartas enviadas a sua mulher. Soberbas. Não tenho dúvida de que se trata de um grande acontecimento cultural no sentido mais lato: a correspondência dum jovem alferes médico saudoso e apaixonado, atolado numa guerra tão estúpida que foi criminosa -- desde logo pela sua desnecessária estupidez. Um livro para a História. Tenho a certeza disso.
2) As cartas hoje publicadas pelo JL, de Fernando Assis Pacheco, Manuel Beça Múrias e Afonso Praça, mostram isso mesmo. Como há tanto material humano de primeira qualidade ainda a conhecer...
3) Miguel Real lança dois livros duma assentada: o ensaio O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa e um romance, a suceder ao excelente Memórias de Branca Dias: A Voz da Terra. Diz ele em micro-entrevista: «O romance histórico não deve reproduzir ficcionalmente a História, mas iluminá-la, abrindo-a a outras interpretações.»
4) A ler: Andrade Corvo, Perigos (Fronteira do Caos); Frederico Lourenço, A Odisseia de Homero adaptada para jovens; Graciliano Ramos, S. Bernardo (Cotovia); Miguel Real, A Voz da Terra e O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa (Quidnovi); Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Malva 62 (Quasi); Pedro Rodrigues, António Victorino d'Almeida Conta 50 Anos de Música (Quimera); Urbano Tavares Rodrigues, O Mito de D. Juan e Outros Ensaios de Escreviver (Imprensa Nacional); Paul Teyssier, A Língua de Gil Vicente (Imprensa Nacional); Miguel de Unamuno, A Vida de D. Quixote e Sancho (Assírio & Alvim).
5) A ouvir: Bach, Cantatas Profanas pelo Collegium Vocale de Gent, dirigido por Philippe Herreweghe (Harmonia Mundi); Mafalda Arnauth, Diário (Universal); António Chainho e Marta Dias, Ao Vivo no CCB (Movieplay); Clã, Gordo Segredo ((EMI-VC).

terça-feira, julho 19, 2005

Antologia Improvável #32 - Fernando Assis Pacheco

Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade

a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade

a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade

azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade

Lisboa
28-IV-94
Respiração Assistida
(edição de Abel Barros Baptista)

Fernando Assis Pacheco

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