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segunda-feira, janeiro 08, 2018

a coisa púbica

Por exemplo:
o comportamento mafioso dos partidos políticos, tratando do seu financiamento e fazendo dos portugueses estúpidos; máxime a falta de vergonha do CDS, partido com cadastro nesta matéria, como bem lembrou Luís Fazenda (uma estreia neste blogue);
a situação dos CTT, negociata feita nas barbas dos cidadãos (e talvez nos barbos das cidadãs), com avisos generalizados, não apenas para as implicações no serviço postal, que estão à vista, mas também o desfechar de mais uma machadada na coesão nacional;
cereja no topo do bolo: a indigência do debate no PSD, sem surpresa, porém, para quem lhe acompanhou o historial: a dissidência que esteve na origem da ASDI, com a saída dos grandes quadros políticos do partido, a morte de Sá Carneiro e as contingências do Poder transformaram-no naquilo que politicamente tem sido -- nada. O debate exibiu ao país esse nada;
...e o Hospital de Faro e a Escola Superior de Dança e muita e tanta coisa que anda por aí mais ou menos escondida. Escrever sobre esta coisa púbica é-me um bolsar que me estraga o interesse dos dias.

(e, já agora):  o preocupante comportamento persecutório de um organismo governamental que dá pelo nome de CIG, a propósito dum artigo de José António Saraiva (outra estreia; isto anda a perder qualidades...): comportamento censório e fascizante. Dizer que o artigo do Saraiva «é susceptível de favorecer a prática de atos de violência homofóbica e transfóbica» é duma ordinária vigarice intelectual que não pode passar em claro. Era o que faltava, ó CIG. Espero que o DIAP faça não apenas o que lhe compete, arquivando a queixa, como admoeste severamente estas criaturas, que lhe andam a fazer perder tempo.


terça-feira, março 28, 2017

da Ponte Salazar ao Aeroporto Cristiano Ronaldo: o país entregue à bicharada

Não que Cristiano Ronaldo não seja credor de enorme admiração, sendo o atleta excepcional que é, um dos maiores futebolistas de todos os tempos. No entanto, nem há distância -- o homem, nos seus trinta e poucos, continua o maior nos relvados -- nem, por muito extraordinário que seja, chegou ainda à categoria de 'mito'.

É verdade que os aeroportos não deixam de ser infraestruturas a que foram dados nomes de políticos que as circunstâncias enobreceram e alçaram acima do nível geral dos congéneres. É o caso notório de Charles de Gaulle, um homem que impôs que o país resistisse à barbárie, ou John Kennedy, cujo assassínio em directo comoveu os seus concidadãos e o mundo, coroando, assim, um carisma que vinha sendo construído, pairando sobre o imaginário utilitarista norte-americano.

Por cá, a atribuição, há dias, do nome de Humberto Delgado ao aeroporto de Lisboa, participa dessa intenção de homenagear alguém que se agigantou e perdurou na memória colectiva, independentemente da pobre condição humana que lhe assistia. Delgado desafiara o todo-poderoso Salazar, galvanizara um povo que há mais de três décadas vivia em ditadura, opressão e pobreza, concorrera a eleições fraudulentas e mesmo assim -- não restam dúvidas -- ganhou-as; foi destituído, perseguido, exilado e, no fim, assassinado pelo mesmo regime que afrontara, e de que ele, militar, fora um dos fundadores, em 1926. Ah, e além disso, dirigiu a criação da TAP. É um nome absolutamente incontroverso.

Podendo haver casos anteriores, dou pela parvoíce logo com a Ponte Salazar. Os untuosos e puxa-sacos (expressão brasileira que adoro) do costume resolveram besuntar o então Presidente do Conselho, em plenas funções, oferecendo o seu nome à espantosa obra de engenharia que ligava as duas margens do Tejo, em Lisboa. E o homem deixou que o besuntassem. Há quase quarenta anos no poder, ele é que era o dono disto tudo, nada no país se fazia contra a sua vontade. Foi uma das fraquezas do Salazar. a humaníssima vaidade.

Depois, o caso caricato do Aeroporto Francisco de Sá-Carneiro, a ponta visível duma epidemia toporreica que atravessou Portugal, não havendo lugarejo que não tivesse a sua Rua Sá Carneiro e, em seguida, o seu beco Adelino Amaro da Costa. Na minha vila de Cascais, uma das praças teve de ser baptizada com o nome do dito, e, para o CDS não ficar atrás, deram ao Amaro da Costa a mais comprida avenida. Não é preciso dizer que o portuense Sá-Carneiro e o alentejano Amaro da Costa nenhuma relação notória tiveram com Cascais, e assim com os trezentos municípios do país que sobram; havia, porém, que marcar pontos políticos e pessoais de vária natureza.


Isto seria só ridículo, se não fosse mais um sinal evidente de como o país está entregue à bicharada, ao descaso, quando não a um rasteirismo sórdido: se há alguém que deveria ter um nome num aeroporto, esse seria Gago Coutinho, para não falar dos restantes pioneiros da aviação. Mas bastaria lembrar os navegadores. Se Portugal tem um lugar de destaque na história universal, este deve-se às navegações dos portugueses e, portanto, não vejo melhor nome para um aeroporto do que os desses homens corajosos e aventureiros que muitas vezes pereceram no mar, como Bartolomeu Dias ou os irmãos Corte Real, entre tantos da mesma estirpe.


Compare-se Aeroporto Gago Coutinho ou Aeroporto Bartolomeu Dias e Aeroporto Cristiano Ronaldo. Não joga, pois não?...


*Já agora, como o velho almirante tinha raízes algarvias, corram a dar-lhe o nome ao aeroporto em Faro, antes que Marcelo se lembre do Cavaco.

segunda-feira, novembro 24, 2014

José Sócrates (1)

A situação que o país vive hoje, com a prisão preventiva de José Sócrates, reveste-se de uma gravidade sem paralelo na história recente do país. Desta magnitude, só me ocorrem dois factos, aliás muito diferentes: a queda de Marcelo Caetano, com o cerco, a saída do Quartel do Carmo em chaimite, o desterro para a madeira e exílio no Brasil; e a morte de Sá Carneiro, em exercício de funções.