Egrégora: Carrancas Literárias
Literatura, Cultura e Arte de Vanguarda
Difícil fotografar o silêncio - Manoel de Barros
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
Henry & June - Relato intenso da intimidade e autobiografia sensual de Anaïs Nin
Tirado dos diários de Anaïs Nin [1903-1977], Henry & June é um relato íntimo do florescer sexual da autora. Cobre um só ano – dos últimos meses de 1931 ao final de 1932 – da vida de Anaïs Nin em Paris, período em que ela conheceu o escritor americano Henry Miller e sua bela mulher, June. Anaïs Nin apaixonou-se pela beleza de June e pela escrita de Miller; logo iniciou com ele um affair que a libertou sexual e moralmente, minou o seu casamento e a levou à psicanálise.
Considerado por muitos o melhor livro de Anaïs Nin, Henry & June foi publicado na década de 1980, após a morte da autora. Não constou dos diários publicados em sete volumes a partir de 1969. Discute-se o quanto de ficção e fantasia ele contém – o que não tira em nada a força do texto de Anaïs; somente reforça a questão: não será a própria Anaïs a mulher misteriosa e complexa que a atraiu em June? Em 1990, o livro foi adaptado para o cinema, com Maria de Medeiros e Uma Thurman nos papéis de Anaïs e June.
Para ler um trecho, acesse:
Para saber mais sobre a obra e a autora, acesse:
Transposição da obra para o cinema: Henry & June, filme estadunidense de 1990, do gênero drama erótico e biográfico, dirigido por Philip Kaufman é uma adaptação cinematográfica da obra Henry, June and me, de Anaïs Nin. O filme conta o início da relação de Henry Miller com Anaïs Nin. Henry vai viver na França e é convidado pelo marido de Anaïs a visitá-los. Anaïs, à procura de algo novo, mais espontâneo, apaixona-se pela vivacidade de Henry. Porém, Henry está apaixonado por June.
Anaïs, nutrindo admiração por Henry, começa a observá-lo, e apaixona-se pelo amor que ele tem por June. Essa paixão também a faz apaixonar-se por June. No meio desses sentimentos, inicia-se uma relação de Henry com Anaïs, transformando suas vidas, tanto de escritores como de amantes.
Parabólicas e Mandacarus - Um lugar chamado Riopara - Conto I
UM LUGAR CHAMADO RIOPARA
As cidades, do mesmo modo que os seres vivos que se originam de
minúsculas células, nascem de minúsculos vilarejos anteriores, reproduzem-se,
desenvolvem-se, conurbam-se. Há aquelas que eventualmente morrem. Umas são de
índole agreste, são selvagens, violentas, cheiram mal, confundem e suicidam
lentamente seus habitantes; há outras que, de tão aprazíveis, tudo à sua volta iluminam
e suavizam, parecem avencas altivas e delicadas. Entre as derradeiras, desde
sempre, esteve Riopara.
JUSTINO JATOBÁ, EM SEU ÚLTIMO DISCURSO COMO PREFEITO
O homem chega, já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
[...]
Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento Sé.
Adeus, Pilão Arcado, vem o rio te engolir.
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira.
Por cima da cachoeira o gaiola vai, vai subir.
Vai ter barragem no salto do Sobradinho,
e o povo vai-se embora com medo de se afogar.
O sertão vai virar mar.
Dá no coração
o medo que algum dia o mar também vire sertão...
SÁ & GUARABYRA
Vim a Riopara porque me disseram que ela vai desaparecer. Vão represar o
rio no Salto de Santana do Sobrado, meu pai me disse em sua última carta.
- Luiz, vamos até o morro do cruzeiro, de lá do alto dar pra gente ver
tudo.
Meu pai chamou e me fitou com olhar de quem sabe ler no rio o revés que estava por vir.
Meu pai chamou e me fitou com olhar de quem sabe ler no rio o revés que estava por vir.
- Vamos agora porque a água em pouco tempo começa a cobrir o cais.
Outras pessoas nos seguiram. Pairava no ar o prenúncio de que algo ia terminar e alguma coisa indeterminada ia começar quando a água irrompeu pelas frestas da balaustrada do cais.
Outras pessoas nos seguiram. Pairava no ar o prenúncio de que algo ia terminar e alguma coisa indeterminada ia começar quando a água irrompeu pelas frestas da balaustrada do cais.
No alto do antigo cruzeiro, sobre a parte que ainda restava da bela base
maciça de alvenaria, eu e meu pai Justino Jatobá contemplávamos com absoluta
consternação o rio avançar sobre a cidade em vaga fluvial volumosa e numa enchente
diluviana, submergir vastas extensões de terra, vilarejos, veredas, plantações;
templos, terreiros e antigos casarões; praças, ruas, estradas e o sepulcro das
almas que nos eram familiares, e que, segundo os olhos videntes de meu pai, a
água afogava até o espírito dos mortos, e estes julgando que já fosse o juízo
final, haviam saído de seus túmulos para andar sobre as águas à procura dos
caminhos que se bifurcam para o inferno, purgatório ou direto ao paraíso.
Março, manhã, mormaço no vale do São Francisco, luz solar intensa, lume
cintilante sobre a superfície das águas quando chegou o dia de Riopara partir
em derradeira viagem para imergir no fluxo universal do tempo. Levou tudo
consigo: singularidade, crenças, histórias e reminiscências; sua essência
fluviocatingueira, sonhos, pesadelos e pecados cometidos. Nas últimas horas
daquele apocalipse adiantado no tempo submergiu com seu antigo e vistoso
casario, não adiantou a força e a fúria de seus deuses, totens, anjos e
demônios; desapareceu com sua concepção do mundo, sua ancestralidade, seu modo
de menina, suas idiossincrasias, seus imponderáveis e sua felicidade libertina.
“Adeus, Riopara, o rio veio te engolir.” “O sertão vai virar mar, dá no
coração o medo que algum dia o mar também vire sertão...”, Justino Jatobá
cantarolou baixinho, desconsolado, e com uma marca de dor estampada na face, falou: Riopara não tem mais dimensão, não tem mais geografia, virou um labirinto imaginário, universo
imaterial.
Na flor da idade, sem ter ainda conhecido mulher, sem ter feito qualquer coisa de memorável e desolado com a destruição, me imaginei morto sob as águas reencarnado
noutra forma de vida, revivendo num Salminus
brevidens - peixe tubarana, piraju, peixe dourado. E naquele instante em
que reiniciara vivência com outra aparência física, um cheiro forte de terra
seca desvirginada pelas águas da cheia impregnou a atmosfera. Talvez faltasse apenas
uma hora, talvez menos, até Riopara ficar invisível e imergirem-se no horizonte os últimos vestígios de sua estrutura física e
imaterial.
Naquele momento vi que Riopara inexistia; seu corpo tridimensional, agora intangível, jazia imerso numa planície líquida sob a vastidão de um lago antrópico;
transubstanciara-se. Aves itinerantes cruzavam o céu em arribação na busca de
pouso noutras paragens; por baixo d'água, a vida inteira daquele lugar
repousava na memória, no aroma e no remanso das águas do “Velho Chico”. Suavemente, Riopara encantou-se; e, antes que o sol
desse dia decaísse, sua alma surreal sumiu no seio do rio...
Para ler o primeiro conto, acesse:
[carrancasliterarias.blogspot.com/2011/11/parabolicas-e-mandacarus]
Parabólicas e Mandacarus - Autorretrato - Conto II
AUTORRETRATO
Uma teoria bizarra
assegura que a escassez de cabelos na cabeça influi na quantidade do sono.
Adormecido ou acordado, minha cabeça e nariz apontam para os chapadões da caatinga
nordestina, na linha do nada onde tudo se reparte em aura de mistério, em livusias, livros, ideias, pessoas e abstrações. Minha alma confirma tudo: tenho boca ávida pela vida e
pela água do “Velho Chico”, meu coração sertanejo quer entranhar
o mundo em mim enquanto meus olhos miram atentos e abarcam todas as paisagens do sertão
profundo.
Amamentado pela
minha biblioteca, moro na estrada, caminho pelo mundo. Sem saber filosoficamente quem sou e nem
por que vim, vou seguindo. Quando nasci, lá pelo ano 1957, trouxe comigo uma
grande alegria para meus pais que até aquele momento não contabilizavam mais o
feito, de após dez anos, ter mais um filho. Sob o olhar perplexo, interrogativo
e desconfiado de familiares, amigos e vizinhos surgia um ser temporão no seio
familiar dos Neves de Castro.
Fluviocaatingueiro, das barrancas do são-franciscano, cresci no seio leitoso da caatinga
navegando em barcos ou montado em jumentos; descalço, livre e exalando do
corpo aquele indefinível cheiro da juventude, entre mandacarus,
veredas e plantações, tive os pés regulados para andar por esses caminhos e veredas ouvindo os sons de uma fauna alegre e bucólica; matuto, vivia absorto contando
estrelas, nadando na terceira margem do rio, entregue a fantasias e devaneios.
Em Riopara, na
adolescência, conheci o amor e as delícias do sexo, aprendi a fumar e a beber,
matei aulas no Colégio para estripulias amorosas, fui apresentado a um
anjo safado de grande sabedoria, autor de uma canção cuja letra dizia:
Vai Luiz, ser torto na vida.
Passei um tempo pela
terra do Menino da Porteira e o meu coração que até então era vadio, ficou
barroco-mineiro. Subi e desci ladeiras da pátria Minas imaculada onde foram inventados o
silêncio, a liberdade e a terceira margem do rio. Descobri que
na vida existem mais hipóteses que teoremas. Supor é melhor que demonstrar e na
dúvida mora a vontade de continuar a viver.
Depois deixei a
memória, o patrimônio de séculos construído pelas mãos do homem, o silêncio
das montanhas e a voz interna de minha alma na terra onde o oculto do mistério
se escondeu. Calcei chinelos, peguei o trem, e vim pra cá onde as ruas ora são
largas, ora estreitas, antissimétricas e calçadas de pedras polidas pisadas de pretos, os sons das sirenes são atabaques; padres, pastores e poetas são da noite, o vizinho que mora ao lado é Quincas
Berro D’água, os malucos são beleza, as árvores são centenárias e sagradas, o
cantar das aves é intrigante, a religião oficial, como bem disse o jornalista Fernando Vita, é eclética, bela e eficaz,
mistura santo com comida, pipoca-branca com hóstia, encruzilhada com catedral e
coruja-ebó com monsenhor; e o acarajé, especialidade magnífica da culinária afro-baiana, é o hambúrguer do povo.
Em Salvador nasci pela segunda vez, meu coração bateu aflito. Mas logo que vi o mar, serenei, pois tudo que havia existido voltou subitamente, e volta sempre, quando vou caminhando pelo calçadão que vai do Porto da Barra ao Largo das Gordinhas em Ondina ou circundando as sinuosas curvas do enigmático Dique do Tororó embaixo das sombras sonoras de árvores centenárias.
Em Salvador nasci pela segunda vez, meu coração bateu aflito. Mas logo que vi o mar, serenei, pois tudo que havia existido voltou subitamente, e volta sempre, quando vou caminhando pelo calçadão que vai do Porto da Barra ao Largo das Gordinhas em Ondina ou circundando as sinuosas curvas do enigmático Dique do Tororó embaixo das sombras sonoras de árvores centenárias.
Nesta terra de todos
os santos nasceram Eliana e Luiza minhas filhas lindas. Juliano, meu filho, nasceu em
Aracaju, cidade coirmã. Às mulheres que amei e com quem convivi devo muito do
que sou naquilo que possa ter de virtuoso. Aí, o que foi e o que poderia vir a ser andam comigo, incluindo o
sonho e a liberdade de um libertino a vaguear pelas virtuosas e belas ruas da Bahia.
Entusiasta da
liberdade, não gosto que me deem ordens nem me digam o que devo fazer, por isso
gosto tanto de viajar por esse mundo afora onde “ninguém dirige aquele que Deus extravia”.
Sou de Leão, anjo
torto, um traquinas que não consegue contrariar o seu signo de baiano, de
vagabundo iluminado da Latinoamérica, pois tenho a convicção de que morrerei, segundo a canção de Gilberto Gil e Capinan, de “amores, de susto, de bala ou vício” entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços nos braços, nos olhos, nos braços de uma mulher.
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