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segunda-feira, fevereiro 25, 2019

na morte de João Bigotte Chorão

Ensaísta, crítico e também diarista, ao lermos a reunião dos seus ensaios em volumes como O Escritor e a Cidade, Galeria de Retratos ou O Espírito da Letra ou ainda sínteses modelares como O Essencial sobre Camilo Castelo Branco, verificamos que ele pertence àquele grupo de autores, que não é multidão, que tem a literatura como alimento espiritual (não exclusivo, é certo) e paixão, que a serve em vez de dela se servir. Era o maior camilianista vivo; e a escritores, como Carlos Malheiro Dias, João de Araújo Correia, Francisco Costa ou Tomás de Figueiredo, entre muitos outros, deu o brilho da sua inteligência e a elegância do seu estilo.
Entre nós, alguns encontros, após aquele primeiro em que, já não sei porquê, evocámos a função salvífica dos sonetos do Shakespeare na vida periclitante de Stefan -- herói do Bosque Proibido, do Mircea Eliade --, numa circunstância dramaticamente incerta.

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Arnaldo Matos

Uma vez, em Vila Franca de Xira, numa sessão sobre o romance Emigrantes, de Ferreira de Castro, apareceu o histórico do PCTP/MRPP Arnaldo Matos. Ouviu, atento, e foi o primeiro a aplaudir. Fiquei contente.

segunda-feira, novembro 26, 2018

os ladrões cinéfilos

Em 1990, depois do nascimento da nossa primeira filha, deixámos temporariamente o minúsculo apartamento e assentámos arraiais em casa da minha avó, para que ela e a minha mãe (que hoje faria 82 anos) nos dessem competências puericulturais. Num dia em que tive de ir a  casa, provavelmente buscar roupa limpa, dei com o canhão da porta arrombado e esperei o pior. Felizmente, não se confirmaram os meus receios de vandalismo: os larápios haviam aberto gavetas, mas deixaram tudo impecável. Em falta, apenas uma velha televisão, o leitor de vídeo e dois filmes que os ditos foram escolher criteriosamente à pequena videoteca: ambos do Bertolucci, La Luna e O Último Imperador, o primeiro em gravação manhosa feita em casa, a partir duma emissão da RTP, o outro, comprado na loja, bastante mais apresentável. Poderiam ter levado mais, gravados por mim ou em edição de mercado, mas não, negligenciaram o Howard Hawks, o John Ford, o Lawrence Kasdan ou o Woody Allen, só quiseram o Bertolucci. Critérios de ladrões cinéfilos e civilizados... 

quinta-feira, novembro 15, 2018

criadores & criatura



Stan Lee, Steve Ditko e Spider Man / O Homem-Aranha


terça-feira, maio 22, 2018

segunda-feira, maio 21, 2018

um verso de António Arnaut

«Só a linha recta ousa o infinito!» Nobre Arquitectura (2003)

domingo, janeiro 28, 2018

Mort Walker

imagem
O Recruta Zero (Beetle Bailey) é uma das melhores recordações de infância. Criatura genial, antimilitarista involuntário, por desastrado e preguiçoso em extremo (uma espécie de Gaston Lagaffe, do Franquin, made in USA), saído da cabeça e do lápis de Mort Walker, que morreu ontem. No Vietname, deviam rir-se com ele; por cá, as revistas da RGE creio que chegaram já após o fim da Guerra Colonial. Além dessas revistas e dições especiais, tenho um voluminho de tiras que tive de mandar encadernar, tal o uso que lhe dei. E um livro-de-bolso comprado há 35 anos em Copenhaga para me distrair na passagem do Estreito da Jutlândia. 

sexta-feira, julho 21, 2017

Chester Bennington

Foi a minha filha mais velha, então teenager, quem mo apresentou, e gostei daquele som que misturava metal e hip-hop, e da raiva. Tanta raiva, que não me surpreendeu saber que fora sexualmente violentado aos sete anos. Em 2005 escrevi três linhas a propósito.
  «O som e a fúria. Há nos Linkin Park uma autenticidade que não me deixa indiferente. Aquela ira, aquele mal-estar, aqueles sintomas da sujidade endémica do nosso quotidiano.» 
Bennington enforcou-se  este quinta-feira, em casa.

quinta-feira, junho 01, 2017

Armando Silva Carvalho [Poetas de qualidade, como ele, ficam para aí dois ou três, quatro ou cinco.]


Tu tinhas esse lindíssimo timbre
das primas-donas espanholas.
Preparavas todas as manhãs o branco
da garganta com vários goles de vinho
e praguejavas alto para que os teus filhos
(cada um de seu pai)
te fossem por recados e merendas.
O teu ofício era vender pedras de cal
aos gordos fazendeiros
que te percorriam o ventre inchado
nas noites de dezembro
e iam mijar depois dentro das bilhas
de água.
Ainda não morreste no meu tempo
mulher de cal e mágoa.
Cada casa caiada é a pele do teu corpo.


(Alexandre Bissexto, 1983)



sábado, fevereiro 18, 2017

Dick Bruna

Era a minha irmã quem os recebia, mas eu deleitava-me com aqueles desenhos e o génio com que o Dick Bruna os dispunha na página quadrada, assim o formato dos seus livros. Quando tive filhos, comprei-lhes todos quantos pude. E é o rapaz quem agora me entra por aqui adentro a perguntar "Sabes que morreu o Dick Bruna?"

segunda-feira, janeiro 09, 2017

é só para chatear a canalha ressabiada

Samora Machel e Mário Soares, com Kenneth Kaunda, Lusaka, Junho de 1974

Dizem-me que o Facebook é o vomitório dos atrasos de vida do costume. Ora aqui vai o Soares com Samora, o tal de quem os racistas analfabetos de cá contavam anedotas, julgando ver-se ao espelho.
A foto é do DN, ilustrando uma entrevista cujo título é «"Tenho muita honra em ter participado na descolonização, diz Mário Soares"».

sábado, janeiro 07, 2017

sempre do lado certo da História - depoimento de um não-soarista

Quem ande por aqui saberá que nunca simpatizei com Soares. Sempre me pareceu um homem de corte e demasiado sensível à lisonja. Também nenhum político em Portugal, depois do 25 de Abril, foi tão adulado quanto ele, na política e no jornalismo, por essa categorial assaz desprezível de criaturas a que os brasileiros dão o bem apanhado nome de puxa-saco.
Voltando a Soares, com quem estive pessoalmente algumas vezes, a primeira das quais era eu um adolescente parecido com o homem de meia-idade que sou hoje. Soares candidatava-se de novo a governante, à frente do PS, e queria ouvir os jovens, Lá fui a Nafarros, com o meu amigo e colega do Liceu de S. João do Estoril Paulo Campos, que por essa altura já transpirava política por todos os poros, Éramos cerca de dez, e eu fui fazer o papel do extremista da esquerda (pelo menos foi assim que fui entendido por uma jornalista presente, sabe-se lá porquê...). Soares e Maria Barroso, impecáveis, de enorme afabilidade e bonomia. Podia falar também das restantes três ou quatro vezes em que o encontrei, já no meu âmbito profissional, mas não tem grande interesse. 
O que me importa escrever, neste dia da sua morte, é que Soares, nas grandes linhas que definem a acção dum político, esteve sempre do lado certo da História, desde a juventude:
1. - na segunda metade da década de quarenta, jovem comunista, contra Salazar no MUD Juvenil e na candidatura de Norton de Matos;
2, - na luta contra o colonialismo português -- criminoso, como todos os colonialismos -- liderando, de resto, o processo de descolonização. A extrema-direita e os ressentidos do costume, que o vituperaram por causa da descolonização a que ironicamente chamaram exemplar, não tiveram nem têm a honestidade intelectual e/ou os dedos de testa suficientes para analisarem o momento histórico particular, interna e externamente, que o país e as colónias atravessavam. Isto para dizer que ninguém, poderia ter feito melhor do que ele e outros fizeram;
3. - no enfrentamento do sovietismo 'comunista' da miséria moral, dos candidatos a apparatchiks ou a polícia ou bufo, que sempre os houve em todos os regimes, e também a uns tipos cheios de acne revolucionário, que quarenta anos depois não passam de -- usando a boa linguagem da época -- serventuários do capital;
4. . finalmente, e já não é pouco: a liderança no processo de adesão à CEE, fundamental para a nossa liberdade política (ameaçada pelos sovietizantes, e inevitáveis oportunistas e idiotas úteis), e também para recuperarmos do atraso que quarenta anos de salazarismo nos deixou, cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir na sociedade, com o seu baixíssimo nivel médio de instrução e sentido crítico, a começar pelas chamadas élites, políticas, académicas & outras.

quarta-feira, dezembro 28, 2016

JornaL

Gado. Santos Silva, um homem do Norte, mandou uma piadola regional a Veira da Silva pelo seu sucesso na concertação social. O divertido Carlos Abreu Amorim logo veio berrar para as 'redes sociais' pela demissão do governante. Eles estão por tudo, qualquer caca serve. Continuem, que o país agradece.
Monumentos. É triste e é uma vergonha o estado reconhecer a sua incapacidade e incompetência na preservação do património cultural. Castelos, palácios, fortes, conventos, igrejas vão ser concessionados a privados para impedir que caiam. Prefiro assim, mas não deixa de ser vergonhoso e uma tristeza. Por isso também me meteu um bocado de nojo as estúpidas indignações a propósito da Cornucópia. Qualquer dia escrevo algo sobre a questão dos subsídios às artes.
Ferrovia. Em 2009, um governante idiota mandou ou permitiu o encerramento do troço Covilhã-Guarda. Quem assim procedeu tem uma puta duma noção de país que não interessa a ninguém. O governo mandou reactivar. Vivó Governo.
Catalunha. Um autarca catalão foi preso por dizer que não acatava a decisão do tribunal e defender a independência do país. Esta direita castelhana, talvez mais indigente do que a portuguesa, não aprende nada. O que se seguirá? Mais posições de força? Palhaços...
Islamofobia. O presidente romeno, da minoria étnica alemã, recusou dar posse à líder do paartido mais votado, muçulmana.. E pode? Ou é já o neo-fascismo miasmático da Europa Central a infectar os ares?
Pearl Harbour. A visita de Abe marca mais uma importante acção diplomática de Obama, que já visitara Hiroxima, a juntar ao acordo com o Irão e ao retomar das relações diplomáticas com Cuba. Obama falhou, contudo, e em toda a linha, onde mais importava: o conflito israelo-palestino.
Princesa Lea. Conheci-a na sala de cinema do Casino Estoril, em 1977, tinha eu treze anos. Demasiado nova para renunciar.
P&R. «É o nome da sua primeira viola? Ainda a tem? Tenho e essa não vendo nem por nada! Está guardadinha. Ainda faz algumas canções, porque estou sempre a meter-lhe cordas novas, a tocar. Tem graça, porque quando pego nessa viola saem sempre coisas boas -- não sei se é pela relação que tenho com ela. Até tenho violas muito caras, com a marca xpto, mas aquela Janine não tem comparação. Antes de ter filhos, eu dizia que se tivesse uma filha ia chamá-la de Janine por causa da minha viola. Tenho três rapazes e não tenho meninas. Então a Janine é a filha que não tive.» Entrevista de Matias Damásio, músico angolano, a Bruno Martins, no i de hoje. 

sexta-feira, dezembro 09, 2016

a morte ronda

Faz-me um bocado de impressão quando a morte começa a dizimar os supergrupos que encheram os estádios nos anos 70.
Morte por velhice e complicações associadas, não a dos que morreram jovens, trágico lugar-comum, não só em rock.
Agora foi o Greg Lake (King Crimson, Emerson, Lake & Palmer), aliás duas formas de estar no prog, simpatizando eu mais com a da banda de Robert Fripp, menos histriónica, do que com os fogos-de-artifício do grupo de Keith Emerson, suicida do ano anterior.
Os ELP eram três que foram quatro, como os Três Mosqueteiros. E foi o quarto o primeiro a morrer: Cozy Powell, baterista extraordinário, num acidente de viação, que em certo momento e em certo regresso substituiu o agora único sobrevivente: Carl Palmer.
Morre Greg Lake nesta quadra que também foi sua, ele que acreditava no Pai Natal.

sábado, novembro 26, 2016

os dois Fidéis

O Fidel Castro da revolução, o guerrilheiro da Sierra Maestra, o que se levantou contra os plutocratas que governavam o país, o que tinha vergonha na cara por Havana ser a casa de putas da máfia e dos magnatas americanos; o que teve políticas sociais incomparáveis que fazia com que, por exemplo, desde há décadas Cuba tivesse uma taxa de mortalidade infantil ao nível da da Suécia, enquanto que os salvadores, as honduras, as guatemalas, os haitis (!) eram (e são) esgotos a céu aberto por onde correm as dejecções de todos os somozas que os governam -- eis o Fidel interessante e que aprecio.
O Fidel demolhado pelo poder, paternalista, moralista, monarquista, ditatorial e sem habanos, esse não me interessa. 
A História irá absolvê-lo? O purgatório está-lhe certamente reservado; mas em comparação com muitos dos seus homólogos, ela, a História, talvez não deixe de pesar tudo isso a seu favor.
P.S. Fidel, no início, não era comunista; foi a crónica burrice dos americanos em mat´ria de política externa que o empurrou para os braços da União Soviética.

sexta-feira, setembro 30, 2016

Shimon Peres

Perez foi um dos políticos israelitas que mais admirei. A sua morte poderá ser, desgraçadamente, o remate de um longo processo de anomia em que decai o estado de Israel, um país com uma génese entusiasmante, das práticas comunitárias e libertárias dos kibutz; um país com todo o direito a existir, pátria histórica e efectiva dos judeus, mas sem direito algum a aprisionar os palestinos no seu próprio território.
Shimon Perez, um histórico do Partido Trabalhista, morre deixando o país num impasse que parece inultrapassável pelos cidadãos esclarecidos, tutelados por um governo liderado por um político sem princípios, aliado a racistas e religiosos, e cuja política criminosa dos colonatos ainda fará correr muita tinta, e sangue. 

terça-feira, março 15, 2016

Nicolau Breyner

Nicolau Breyner, ontem falecido, foi-me servido em criança e na juventude como humorista, condição que dificilmente compara com Raul Solnado ou Herman José. Ele foi, essencialmente, um actor completo em vários registos, nem sempre com a dita de ter textos à altura do seu talento. No cinema, que preferia ao teatro, foi excepcional muitas vezes, e muitas vezes o que de melhor se aproveitava de filmes frouxos. Como não cultivo a bisbilhotice, havia características suas que desconhecia, e que só hoje, no jornal, fiquei a saber, a principal das quais era a de ter sido uma boa pessoa; e de, apesar de ter conseguido, não apenas um lugar ao sol mas também o seu território, e de nele abrigar vários colegas da sua profissão e das que lhe estão adjacentes -- portanto, detentor também do seu poder e da sua influência --, não se lhe conhecer um inimigo, o que diz muito da pessoa. 
Ah, e sim, como lembra Ana Sá Lopes hoje no i, ele será sempre, para a nossa geração, o Sr. Contente.


quarta-feira, março 09, 2016

O George Martin é que era o 5,º Beatle


Produtor genial, harmonizador e cúmplice dos 'Fab Four'