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domingo, 31 de janeiro de 2016

GLÓRIA AOS REVOLUCIONÁRIOS DE 31 DE JANEIRO DE 1891

 
 
Comemorações do 31 de Janeiro em Lisboa de 1946 - Manifestação organizada pelo MUD, a propósito das comemorações do 31 de Janeiro em Lisboa. Homenagem a António José de Almeida.  [via Casa Comum] - CLICAR NA FOTO
 
Texto de José Augusto Seabra, in "O 31 de Janeiro e a cultura cívica europeia", República nº 7, Maio 2001
 
J.M.M.


sábado, 4 de abril de 2015

Armando Adão e Silva (1909-1993)


Armando Adão e Silva nasceu em Lisboa, em 24 de Fevereiro de 1909 [cf. “Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo, 1945-1973 – Um Dicionário", Texto, 2009]. Depois dos estudos liceais no Gil Vicente, frequenta a Universidade de Direito de Lisboa, onde se forma [em 1931; foi colega de curso de Acácio Gouveia, Fernando Olavo, José Magalhães Godinho, Teófilo Carvalho dos Santos e Nuno Rodrigues dos Santos – cf. José Ribeiro dos Santos, “Memórias da memória, Rolim, 1986, p. 109], seguindo a profissão de advogado, especializado em questões de matéria comercial.
Adão e Silva é iniciado na maçonaria [n.s.Mestre de Avis”] a 27 de Janeiro de 1935, na Loja Liberdade, nº 197, do qual foi Venerável durante a clandestinidade [a Loja Liberdade foi das poucas lojas que se manteve em actividades durante a clandestinidade – sobre a Loja Liberdade ver AQUI; consultar Adão e Silva e a Loja Liberdade no livro “Uma História da Maçonaria”, de António Ventura, 2013]

Em 1943, Adão e Silva, é membro fundador da União Democrato-Socialista
[UDS – núcleo antifascista, que é criado após a formação do NDAS (Núcleo de Doutrinação e Acção Socialista, que tem como apoiantes, entre outros, António Macedo, Artur Santos Silva, Costa e Melo, Fernando Valle, Gustavo Soromenho, Manuel Mendes, Mário Cal Brandão, Mário Castro, Paulo Quintela, Teixeira Ribeiro, Vitorino de Magalhães Godinho), de que faziam parte, além de Adão e Silva, Fernando Mayer Garção, José Joaquim Gaita, Carlos Sá Cardoso. Publicou o periódico clandestino “V” – ver “Socialistas na Oposição ao Estado Novo, de Susana Martins, 2005],
que fundindo-se com o NDAS, dá origem, em 1944 [ou finais de 1943?], à União Socialista, mantendo-se em actividade até à década de 50 [cf. “Socialistas …, ibidem]. Refira-se que surge Adão e Silva [juntamente com Teófilo Carvalho dos Santos, Vasco da Gama Fernandes, Carlos Vilhena e Mayer Garção] como filiado num “Partido Trabalhista Português”, que segundo José Pacheco Pereira [citado no "Socialistas …”, ibidem, p. 50] resulta de “uma mistura entre uma organização política clandestina e um grupo de inspiração maçónica   
Armando Adão e Silva integra o MUNAF (1943-44), participa na célebre reunião de 8 de Outubro de 1945, no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, que origina a constituição do MUD


[é um dos subscritores do requerimento ao governador civil de Lisboa a pedir autorização para essa célebre reunião, juntamente com Afonso Costa (filho), Alberto Candeias, Guilherme Canas Pereira, Gustavo Soromenho, José Magalhães Godinho, Luís da Câmara Reis, Manuel Catarino de Castro, Mário Lima Alves, Manuel Mendes, Teófilo Carvalho dos Santos; a reunião, num sala repleta, foi presidida pelo prof. Barbosa de Magalhães - na FOTO acima Adão e Silva é o 3º, a contar da direita, de braços cruzados; a FOTO marca a presença da Comissão Central do MUD na saída do governo civil, a 6 de Novembro de 1945, onde foi apresentar as listas de apoiantes - via Casa Comum],
fazendo parte da sua primeira comissão central. Na campanha de Norton de Matos (1949) apoia o “grupo dos 24” [pró-atlantista e pró-americano], que rompe com o PCP. Participa em 1949, ainda, no Directório Democrato-Social [grupo de republicanos, conhecidos por “Os Barbas”, onde se integravam Acácio Gouveia, António Sérgio, Azevedo Gomes, Carlos Sá Cardoso, Jaime Cortesão, Nuno Rodrigues dos Santos, Raul Rego].
Em Maio de 1953 é um dos fundadores da “Comissão Promotora do Voto”, uma “iniciativa de António Sérgio [e de Luís de Almeida, Manuel Duarte, Mayer Garção, João Pedro dos Santos, Nuno Rodrigues dos Santos], em vésperas da eleições legislativas de Novembro desse ano e quando a oposição de encontrava profundamente dividida” [cf. José Pacheco Pereira, in Ephemera] e que contava com “o apoio do Directório Democrato-Social” [ibidem].
Em 1954, é Adão e Silva um dos subscritores da tentativa de fundação da associação política “Causa Republicana”, que foi indeferida pelo Estado Novo [fez parte da sua comissão fundadora, que integrava, entre outros, Barbosa Magalhães, Azevedo Gomes, Cunha Leal, Marques Guedes, José Domingos dos Santos, Ramada Curto, Câmara Reis, Ramon De La Feria, Dias Amado, Mayer Garção, Casais Monteiro, Sá Cardoso, Acácio Gouveia, Nuno Rodrigues dos Santos, Gustavo Soromenho; do mesmo modo integrava, a 5 de Outubro de 1954, o Secretariado da projectada associação - ver TUDO AQUI]
Curiosamente, Adão e Silva, não integra a Acção Socialista, nem adere à fundação do Partido Socialista. Apoia, sempre, as campanhas eleitorais contra a ditadura, tendo sido candidato nas eleições de 1953, 1965 e 1969.
Foi preso em 1959 e, na sequência de ter sido um dos 62 signatários do “Programa para a Democratização da República” [1961], é de novo levado para a prisão [cf. “Candidatos da Oposição …, ibidem]. Pertenceu à Liga Portuguesa dos Direitos do Homem [fundada em 1923 por Sebastião Magalhães Lima], fazendo parte do seu directório, bem como fez parte dos corpos directivos da Ordem dos Advogados. Foi por diversas vezes advogado dos presos políticos do Estado Novo, nos tribunais plenários.   
Após o 25 de Abril, a 15 de Julho de 1974, faz parte, com Adelino da Palma Carlos [e Almeida Ribeiro, Norberto Lopes, António Waldemar, Paradela de Abreu], do denominado “Partido Social-Democrata Português”, de raiz humanista racionalista, que desaparece, sem êxito. Adere ao Partido Socialista, demitindo-se em 1978, seguindo os “renovadores”, integrando o “Grupo de Acção Renovadora”. É eleito deputado pela Aliança Democrática, nas eleições intercalares de Dezembro de 1979, pelo círculo de Aveiro. Ainda, como curiosidade, registe-se que fez parte do “conselho jurisdicional do Sport Lisboa e Benfica e foi presidente da Associação de Futebol de Lisboa”.
Após o 25 de Abril de 1974, Armando Adão e Silva esteve presente na reorganização do GOL [acompanhando nessa missão outros dedicados maçons, como A. H. de Oliveira Marques, Carlos Sá Cardoso, o comandante Simões Coimbra, Luís Dias Amado, Luís Gonçalves Rebordão, entre outros] e foi importante na restituição do Palácio Maçónico [ver, p. expl., os jornais de 7 de Maio de 1974, onde é apresentado um comunicado assinado por Adão e Silva, Dias Amado e o comandante Simões Coimbra, como representantes do “Grémio Lusitano”. O Palácio Maçónico tinha sido ocupado - como resultado da Lei 1901 contra as Associações Secretas - pela Legião Portuguesa, em 1937, com o confisco dos seus bens. A Lei 1901 foi anulada a 4 de Novembro de 1974 e o Palácio foi restituído aos seus legítimos proprietários]. Foi, Adão e Silva, Presidente do Conselho da Ordem do GOL e em 1981, sucedeu a Dias Amado como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, mantendo-se no cargo até 1984.
Morre, em Lisboa, a 1 de Abril de 1993.

FOTO de Adão e Silva, via António Ventura Facebook, com a devida vénia.

J.M.M.

domingo, 1 de junho de 2014

O DR. SEBASTIÃO RIBEIRO [1894-1979] PARTE III


O dr. Sebastião Ribeiro teve “muitos clientes e muitos processos disciplinares” da Ordem dos Advogados, sendo neste último teimosamente reincidente [a sanha de Sebastião Ribeiro contra a Ordem dos Advogados tinha, decerto, origem numa disputa com a Ordem em torno do caso Cunha e Costa, atrás referida). Assim, no exercício da profissão de advogado, confrontou-se por várias vezes com o Conselho Superior da Ordem dos Advogados, tendo sido suspenso por dois meses, seis meses (16 de Junho de 1952 – o Edital foi divulgado nos periódicos) por “injúrias” à Ordem e aos seus membros, sendo presidente da Ordem o dr. Adelino da Palma Carlos, três anos e depois castigado com “dez anos de suspensão” (cf.Seis Casos, p. 63) e irradiado dos quadros da Ordem (acórdão de 25 de Novembro de 1953).
 
[sobre a questão esgrimida com a Ordem dos Advogados e as sanções disciplinares a que teve sujeito, S. Ribeiro publica o panfleto, “Os Coriscos da Ordem”, o que lhe valeu um processo-crime pela Ordem, a que se seguiu nova resposta de S. Ribeiro com novo opúsculo, “No Panteão dos Insignes”, uma diatribe contra Adelino da Palma Carlos, e, nessa querela, outros mais folhetos se lhe seguiram. Imparável! Curioso é a análise que faz sobre o pedido pelo Ministério Público das assinaturas das listas do MUD, então nas mãos do dr. Mário de Castro e dos factos que se lhe sucederam – ver pp. 96-102, de “Os Coriscos da Ordem”; pp. 105-117, e do “No Panteão dos Insignes”. Diga-se, ainda, que o dr. Eduardo Ralha (que era, então, membro do Conselho Superior da Ordem e relator do processo que expulsara S. Ribeiro da OA), despeitado publicamente por S. Ribeiro (ver “Os Coriscos da Ordem”, “Sá, Ralha & C.ª”, “Lobos e Cordeiros”, etc.) replica com um opúsculo ao seu detractor, “Desfazendo calúnias do Dr. Sebastião Ribeiro”, Porto, 1956]



Foi preso pela PIDE, em Vila Nova de Gaia, a 24 de Abril de 1963, juntamente com o dr. Leite Faria e enviado para o Aljube (esteve preso 15 dias). Os motivos, com base em escutas telefónicas, prendiam-se com uma suposta cumplicidade com Henrique Galvão (sobre Galvão e a sua prisão pela PIDE, ver o opúsculo de S. Ribeiro, “Seis Casos” e, também, “A Confusão”. Refira-se que Sebastião Ribeiro foi advogado de Henrique Galvão, em substituição de Vasco da Gama Fernandes) e Humberto Delgado (cf. Sebastião Ribeiro, in "Anotações ao Presente", I vol, s.d. Foi “conselheiro jurídico” do general Delgado). É de novo preso no dia 28 de Maio de 1963, acusado de “intervir nos acontecimentos de Beja”, ou “golpe de Beja”, dado terem-lhe apreendido uma carta supostamente comprometedora do general Humberto Delgado e terem em seu poder cartas de Henrique Galvão, para si dirigidas, que a PIDE tinha confiscado. Como companheiro de prisão tem o dr. Maldonado de Freitas, o dr. Vieira de Almeida (filho). Assinou as Listas do MUD e apoiou a candidatura de Humberto Delgado (1958) à Presidência da República.
 

Colaborou em diversas revistas e jornais, como o “Diário Liberal” (colaborava na secção dos “Ecos” e publicou uma serie de artigos sobre as reformas de justiça pós-28 de Maio, que sofreu o corte da censura), no “Emancipador” (de Lourenço Marques, Moçambique) e na “Vida Contemporânea” [revista cujo proprietário e director era Cunha Leal; a revista existiu de Maio de 1934 a Abril de 1936].
 
Publicou os seguintes livros e opúsculos (muitos deles foram, de imediato, apreendidos, e motivo de processo crime, “por virtude de injúrias a autoridades”): “Resposta Pronta” (1929); “A Opipara Inquisição do Maculusso”; “O Conselho Superior Judiciário das Colónias”; “Palavras Claras sobre Jurisprudência Escura” (1936); “A Minha Razão” (1939); “A Razão Deles” (1940); “No Seio da Ordem” (1943); “A Miragem da Ordem” (1943); “Os Coriscos da Ordem” (1952); “No Panteão dos Insignes” (1953); “Sá, Ralha & C.ª” (1955); “Lobos e Carneiros” (1956); “Os Fariseus” (1956); “Só Ralha” (1956); “Seis Casos” (1957); “A Confusão” (1958); “Equidade e Iniquidade” (1963); “O Rescaldo”; “Recordações do Passado” (1967); “Anotações do Presente”, vol. I e II.

Morre em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1979.

J.M.M.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

MUD – CIRCULAR DA COMISSÃO DOS ESCRITORES, JORNALISTAS E ARTISTAS DEMOCRÁTICOS


Circular da Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD, “Solicitando a sua adesão à Comissão” [Novembro de 1945] - clicar na FOTO

Signatários: Adolfo Casais Monteiro, Álvaro Salema, Alves Redol, Aquilino Ribeiro, Armindo Rodrigues, Carvalhão Duarte, Fernando Lopes Graça, Ferreira de Castro, Flausino Torres, Irene Lisboa, João Gaspar Simões, João da Silva, José Bacelar, Manuel Mendes, Manuel Rodrigues Lapa, Mário Dionísio, Mário Neves, Rocha Martins [via Casa Comum]
J.M.M.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

ROCHA MARTINS - CONTRA O PODER, ESCREVER, ESCREVER


"Perante um país sufocado, deprimido e amordaçado pela ditadura de Salazar ouviam-se, em períodos eleitorais, os ardinas de Lisboa, ao fim da tarde, que gritavam ao anunciar a jornal "República". Fala o Rocha! Fala o Rocha! Fala o Rocha... Eram os libelos, em forma de cartas, da autoria de Francisco José Rocha Martins. Tinham como principais destinatários o primeiro-ministro, Salazar; o Presidente da República, general Óscar Carmona ("o general de tomates cor de rosa" conforme o definiu Raul Proença); o patriarca de Lisboa, cardeal Gonçalves Cerejeira, e outras personalidades das cúpulas que asseguraram a manutenção e funcionamento das estruturas do regime.

Rocha Martins - jornalista ardoroso e combativo que se evidenciara, logo no começo do seculo XX, entre políticos e intelectuais, e, fundamentalmente, junto das camadas populares - tinha um percurso versátil, mas possuía capacidade de enfrentar o poder constituído. Principiou a carreira num jornal monárquico, o "Diário Popular", de Mariano de Carvalho; prosseguiu na "Vanguarda", dirigida par Magalhães Lima, grão-mestre da maçonaria; ligou-se depois a João Franco e à ditadura que implantou, no "Jornal da Noite"; foi braço direito de Malheiro Dias na "Ilustração Portuguesa".

Proclamada a Republica combateu-a no "Liberal". Editou os panfletos "Fantoches", notas semanais escaldantes sobre acontecimentos políticos arrasando Afonso Costa e a Partido Democrático. Foi deputado no consulado de Sidónio Pais. Fundou e dirigiu a semanário "ABC" (de 1920 a 1930) que apoiou a 28 de Maio e a arrancada do general Gomes da Costa. Contava com a publicidade do Bristol Club - famoso cabaré e urna das mais concorridas salas de jogo. Os anúncios do Bristol Club estavam explícitos no alto das capas concebidas par Jorge Barradas, Stuart, António Soares, Emmérico Nunes e outros artistas do Modernismo. Da redacção faziam parte desde burocratas para serviços de expediente até nomes em ascensão literária como Ferreira de Castro, Mário Domingues e Reinaldo Ferreira, a mítico, mitómano e cocainómano Repórter X.

Rocha Martins dirigiu de 1932 a 1943 o "Arquivo Nacional", outro semanário que divulgava factos, acontecimentos, biografias e memórias de contemporâneos e de figuras de outras épocas, quase sempre marcadas pela controvérsia. Era editor Américo de Oliveira, maçom e carbonário, chefe dos civis que resistiram ao lado de Machado Santos, na Rotunda.

Quando muitos se surpreendiam por vê-lo, com a oposição republicana, a insurgir-se contra o salazarismo e a reclamar a República, Rocha Martins, justificava que se libertara da fidelidade ao rei e a monarquia com a morte de D. Manuel, em Julho de 1932.

No "ABC" e no "Arquivo Nacional" publicou (para depois reunir em volume) João Franco, a sua política, os seus políticos e adversários; os reinados turbulentos de D. Carlos e D. Manuel; os governos de Pimenta de Castro e Sidónio Pais; a tentativa de restauração monárquica, liderada por Paiva Couceiro, em 1919; os bastidores e o triunfo da ditadura militar de 1926 e a chegada ao poder de Salazar.

Na continuidade dos folhetins de Pinheiro Chagas, Campos Júnior e Eduardo Noronha, a história em rodapé de jornais e em fascículos a vender ao domicílio, lançou com efabulação patriótica, emocional e satírica, diversos romances e editou com prefácio e notas "Palmela na Emigração", que lhe valeu o acesso a sócio correspondente da Academia das Ciências, a partir de 13 de Março de 1916. Os historiadores e eruditos apontavam-lhe falhas e erros. Foi, mais tarde, rejeitada a candidatura a sócio efectivo da Academia das Ciências.

Viveu exclusivamente da escrita. Encerradas as redacções do "ABC" e do "Arquivo Nacional", repartia-se em colaborações assíduas no "Diário de Notícias", no "Primeiro de Janeiro", no "Comércio do Porto" e no "República". A popularidade de Rocha Martins ganhou nomeada no tempo do MUD, na candidatura de Norton de Matos e de Quintão Meireles, devido as cartas, estampadas a toda a largura da primeira página, do jornal "República".

Privou de perto com muita gente de todos os sectores políticos e partidários. Poi iniciado na maçonaria - conforme comprovei no arquivo do Grande Oriente Lusitano (GOL) - na loja Simpatia e União, a 31 de Maio de 1906, tal corno Carlos Malheiro Dias, em 1896, na loja Luís de Camões, no tempo em que lá estava Luz de Almeida. Ambos saíram mas ficaram a conhecer o que lhes interessava. Um contínuo de "O Século" que pertencia à Carbonária, a troco de pequenos favores, deu a Rocha Martins muitas informações, a avaliar pelo que escreveu em "Vermelhos Brancos e Azuis".

Rocha Martins deixou a sua biblioteca a Sociedade Voz do Operário, mas é muito difícil de consultar. Escreveu memórias políticas e pessoais. Ao falecer, a 23 de maio de 1952, Rocha Martins tinha em preparação a "História da Ditadura Portuguesa" e o acabamento de pormenores das memórias, cujo manuscrito tive oportunidade de ver, numa letra quase ilegível. Encontrava-se na posse de Jaime Carvalhão Duarte, já falecido, um dos filhos de Carvalhão Duarte, director do "República". Disse-lhe que estava disponível para anotar e publicar, desde que o texto fosse decifrado.
 
As memórias de Rocha Martins não foram legadas a Fundação Mário Soares, com outros documentos, por Sérgio Carvalhão Duarte e sua mulher, Luísa Irene Dias Amado. Tem contributos de muito interesse - pelo que verifiquei na altura - para esclarecer, no contexto dos séculos XIX e XX, versões bastante divergentes da História conhecida e do papel atribuído a alguns protagonistas"
 
ANTÓNIO VALDEMAR - "Rocha Martins Contra o Poder, escrever, escrever", in Revista do EXPRESSO (100 Anos 100 Portugueses), 1 de Junho de 2013, p. 62 - sublinhados nossos.
 
J.M.M.

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUÍS ERNÂNI DIAS AMADO (Parte III)


Colaborou no Congresso dos Anatomistas em 1933 e no Congresso de Anatomia, realizado em Lisboa em 1941.

A propósito da publicação da sua obra Organização da Matéria Viva foi organizado um relatório pelo Secretariado de Propaganda Nacional, de Maio de 1942 (Relatório nº 1764), devido à censura exercida sobre este título.

Por decreto de 18 de Junho de 1947 foi afastado do serviço de assistente na Faculdade de Medicina por motivos políticos.

Trabalhou também, ainda que oficiosamente, no Instituto Português de Oncologia, onde publicou alguns trabalhos.

Em 1957, era membro do Movimento Nacional de Defesa da Paz e da Comissão Cívica Eleitoral e foi um dos signatários da exposição enviada ao Presidente da República, no dia 1 de Outubro, explicando os motivos pelos quais a oposição não se apresentava a sufrágio. No ano seguinte, foi escolhido para a Comissão Nacional Pró-Candidatura do Eng. Cunha Leal à Presidência da República, candidatura que não vingou. Fez depois parte da comissão central dos serviços de candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República. Foi presidente da Comissão Administrativa da Liga dos Direitos do Homem (1950) e, em 1961, foi um dos subscritores do Programa para a Democratização da República, pelo que foi preso durante alguns dias. Ainda nesse ano foi candidato a deputado pela oposição pelo círculo de Lisboa em 1961, juntamente com João Maria Paulo Varela Gomes, Nikias Ribeiro Skapinakis, Augusto Casimiro dos Santos e Agostinho de Sá Vieira, entre outros.

A 2 de Janeiro de 1960 é reactivada a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem, que se filia na Fedération Internationale des Droits de L’Homme. Em Maio desse ano assume a presidência deste grupo para-maçónico Luís Ernâni Dias Amado.

Voltaria a ser preso, em Dezembro de 1963, acusado de «actividades contra a segurança do Estado», por pertencer às Juntas de Acção Patriótica, tendo sido julgado em Outubro do ano seguinte e absolvido.

Até o jornal Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português, que se publicava clandestinamente (nº 334, Janeiro de 1964) assinalava no seu artigo "Abaixo a Repressão" (p. 4, col. 2-3) a acção repressiva do governo salazarista que tinha detido nessa mesma altura entre outros: Mário Cal Brandão, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel de Oliveira (realizador de cinema), Jaime Moreira, Pedro Alvim, Manuel Durão, entre muitos outros.
Foi um dos fundadores a Acção Socialista Portuguesa.

Em Fevereiro de 1969 foi um dos subscritores da Exposição da Comissão Promotora do Voto, juntamente com Luís Filipe Lindley Cintra, Henrique de Barros, Gustavo Soromenho, Francisco Lino Neto, Nuno Teotónio Pereira, José de Magalhães Godinho, Rui Grácio, Virgílio Ferreira, Maria Keil Amaral, Álvaro Salema, Fernando Namora, Alberto FerreiraMário Sottomayor Cardia, José Vasconcelos Abreu, João Bénard da Costa, Gonçalo Ribeiro Teles, António Ribeiro Reis, José Gomes Ferreira, José Carlos Serras Gago, Jaime José Matos da Gama, José Luís do Amaral Nunes, José Guimarães, António Galhordas, Nuno Brederode Santos, Nuno Portas, Joel Serrão, Alfredo Barroso, Joaquim Mestre, Francisco Pereira de Moura, Maria Joana de Meneses Lopes, Cascão de Anciães, José Pinto Correia, António Alçada Baptista, José Pinheiro Lopes de Almeida, Eugénio Augusto Marques da Mota, Emídio Santana e Fernando Veiga de Oliveira.

Foi um dos autores da exposição que deu entrada na Assembleia Nacional em 1971 visando a reclamação de um conjunto de liberdades e direitos fundamentais, entre o direito à resistência à violência e ao arbítrio, procurando impedir as situações de deportação ou exílio e limitar as prisões a um período máximo de 24 horas e não por tempo indefinido, como na prática acabava por acontecer.

Em 1973, é um dos subscritores do manifesto "A Nação", onde se insurge contra os falsos sinais de liberalização introduzidos pelo governo de Marcelo Caetano.

Após o 25 de Abril de 1974 foi reintegrado na Universidade simbolicamente como professor catedrático.

Foi iniciado na Loja Madrugada em 1928. Adoptou inicialmente o nome simbólico de Garcia de Orta, e, mais tarde, por motivos de segurança, devido à vigilância e à proibição das sociedades secretas e consequente ilegalização da Maçonaria adoptou o nome simbólico de Zacuto Lusitano. Segundo se consegue saber é dos poucos casos em que tal circunstância foi permitida. Em 1931 atingiu o 7º RF e tornou-se venerável da Loja Madrugada (1931-35). Foi Vice-Pres. Cons. Ordem (1945?-1957) e Grande Secretário das Relações de Justiça (1937-1951). Desempenhou depois, durante a clandestinidade, as funções de Grão-Mestre Adjunto (1957-1974). Depois da renúncia de Luís Gonçalves Rebordão, assumiu de forma interina foi Presidente do Conselho da Ordem (1957-1974) e, mais tarde, Grão-Mestre interino, depois definitivo (1974-81). Segundo o Prof. Oliveira Marques, foi um dos grandes responsáveis pela manutenção da actividade maçónica durante a clandestinidade e desempenhou papel de destaque na reorganização após Abril de 1974.

Um elemento curioso, que deve ser pouco conhecido da maioria dos que conhecem a sua vida, é que sendo ele filho de Luís Dias Amado, farmacêutico com algum sucesso, natural de Portimão e que se radicou em Lisboa, onde desenvolveu a sua actividade profissional. A razão do sucesso deste residiu na criação/invenção, do Depurativo Dias Amado que era preparado na Farmácia Ultramarina, situada na Rua de S. Paulo, nº 99, em Lisboa. Este medicamento acabou por obter reconhecimento do Rei D. Carlos, que concedeu a Luís Dias Amado o título de Visconde de Santa Isabel e que, por direito, devia ser transmitido a Luís Ernâni Dias Amado. Porém, como este era republicano acabou por nunca usar o título e passou-o para seu irmão, Luís Osvaldo Dias Amado, monárquico convicto e também ele médico, que acabou por se dedicar à indústria cinematográfica em Espanha.

Fez parte do Directório Democrático e Social que tinha como líder o Prof. Azevedo Gomes.

Na sua actividade profissional, foi chefe dos Serviços de Análise Clínica dos Hospitais Civis de Lisboa. Conferencista e articulista, com colaboração em diversos jornais e revistas.
Pertenceu à Sociedade Portuguesa de Anatomia; Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais; Sociedade Portuguesa de Biologia; Universidade Popular Portuguesa.
Em plena sessão parlamentar de 22 de Janeiro de 1981, o então deputado José Luís Nunes, formula os seus votos de pesar e recordava:
Combatente antifascista, grande professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, demitido pelo Governo Salazar, fiel aos princípios de liberdade do espírito, da razão, do racionalismo, do livre exame, da filosofia das luzes, grão-mestre da maçonaria é uma grande perda para o nosso país, para todos nós, para todos os antifascistas portugueses, para todos os democratas e para todos aqueles para quem a tolerância, o diálogo de ideias, a compreensão humana e os direitos do homem não são uma palavra vã.
Foi graças a homens como o Prof. Luís Hernâni Dias Amado que nós hoje podemos estar aqui presentes; foi graças a homens como o Prof. Luís Hernâni Dias Amado, que depois de 28 Maio de 1926 souberam manter no mais alto grau a luta cultural pela tolerância e pelos direitos do homem, que não caímos numa ditadura totalitária de sinal contrário; foi graças a homens como o Prof. Luís Hernâni Dias Amado que se apostou, desejou e conseguiu lutar pela construção de um mundo novo, pela construção de uma ideia nova e pela construção de uma cidade nova, que hoje nos encontramos também aqui a construir uma cidade nova, um mundo novo para Portugal.
O Prof. Luís Hernâni Dias Amado não pertence a nenhum partido político porque a sua mensagem espiritual vai para além daquilo que possa ficar em cada um dos partidos políticos. Creio que toda a sua vida política, toda a sua vida profissional, todo o exemplo que foi para todos nós se pode encerrar numa palavra: defesa dos direitos do homem, tolerância, respeito pela diversidade, dentro daquele célebre princípio enunciado por Saint-Exupéry, que dizia "Irmão, se diferes de mim, não me empobreces, antes me enriqueces." São estas as palavras que creio era dever de todos nós dizer nesta Assembleia. E porque Luís Hernâni Dias Amado nunca foi bandeira de qualquer partido político, ouso pedir a esta Assembleia que aprove um voto de profundo pesar pela sua morte e que guarde um minuto de silêncio por aquele que foi o Prof. Doutor Luís Hernâni Dias Amado, cuja memória, comovidamente, hoje evocamos.
Todos os outros grupos parlamentares acompanharam este deputado na sua evocação a que se seguiu um minuto de silêncio.

Publicações de índole científica:
- Contribuição para o estudo das células de Nicolas;
- Sur l'existance de cellules argentaffines dans le tissu conjuntiv des villosités intestinales;
- Sur la signification des cellules de Nicolas;
- Un processus de regéneration de l'epithelium intestinal;
- L'élimination du rouge neutre par l'estomac;
- Micoses do aparelho respiratório;
- Exame Laboratorial das discrasias sanguíneas;
- Organização da Matéria Viva,1942;
- Argentofilia e Argentafinidade, 1944;
- Étude du noyau des cellules argentofiles de l'intestin du Cobaye, et ses relations avec ceux des autres cellules de l'epithelion intestinel;
- L'injection souscutanné d'hydroquinne (étude citologique);
- Mácula Densa - Estudo Citológico, 1943;
- Tumores Carcinóides do Apêndice, 1944;
- A Organização Fundamental dos Seres Vivos, 1944;
- Mecanismos Reguladores da Secreção Renal, 1944;
- Images Citologiques obtenues par des Injections souscutanées d' Hydroquinone, 1944;
- Les Élements Argentophiles de la Parathyroidée (colab. Carlos Correia), 1944;
- L'Étude du Noyau des Céllules Argentaffines, 1945;
- Breves Considerações sobre um caso de Quistadenoma Pseudomuscoso do Ovário, 1945;
- Les Amas Céllulaires de Beches du Rein de Herisson, 1945;
- Aspectos Morfológicos e Fisiológicos da Circulação dos Ossos Fetais do Coelho (colab. Augusto Lamas e Celestino da Costa), 1946;
- L'Épithelium Placentaire du Cobaye, 1947;
- Colheita dos Produtos e Interpretação dos dados das Análise Clínicas, 1948;
- O Exame Funcional do Intestino pela Análise Coprológica, 1949;
- Doseamento fraccionado das Proteínas, 1950;
- O Prof. Egas Moniz e a investigação científica, 1950;
- Bioquímica do Terreno Canceroso, 1951;
- Morfologia e Histoquímica Placentária e suas relações com o cancro, 1951;
- O Adenograma normal e Patológico, 1951;
- Cancro e Hereditariedade, 1952;
- O Laboratório nas alterações funcionais da Tiroideia, 1953;
- Actualização dos Nossos Conhecimentos sobre  a Substância Fundamental, 1953;
- Vitaminas e Avitaminosas, 1953;
- Diagnóstico Laboratorial em Endicrinologia, 1954;
- A Irrigação dos Ossos, 1954;
- Laboratório e Clínica, 1956;
- Enciclopédia Médico-Cirúrgica Luso-Brasileira, 1960;
- Líquidos Orgânicos: Metabolismo da Água, Electrólitos e Ácido-Base, 1968;
- Reografia Intracardíaca: fundamentos teóricos e experimentais e algumas das suas contribuições hemodinâmicas, Lisboa, 1980.
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira;

Colaborações na Imprensa:
- O Diabo;
- Globo;
-Técnica;

O médico e combatente antifascista faleceu em Lisboa, a 22 de Janeiro de 1981. Para ver alguns depoimentos sobre o biografado ver o que se dizia nas páginas do jornal A Capital de 23 de Janeiro de 1981 AQUI.

Bibliografia consultada:
- GODINHO, José de Magalhães, "Dias Amado, uma vida ao serviço da liberdade", Diário de Lisboa, Lisboa, 27-11-1980, p. 3 e p. 22.
- LEMOS, Mário Matos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Col. Parlamento, Lisboa, Assembleia da República/Texto Editores, 2009, p. 101;
- MARQUES, A. H. de Oliveira, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, Lisboa, Editorial Delta, 1986, col. 56-57;
- MATEUS, Luís Manuel, Franco-Mações Ilustres nas Ruas de Lisboa, Biblioteca-Museu República e Resistência, Lisboa, 2003, p. 47;
- GEPB, vol. 8, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, s. d., p. 943;
- GEPB, vol. 39, Editorial Enciclopédia, Lisboa/Rio de Janeiro, s. d., p. 477-478;
- Rosas, Fernando; BRITO, José Maria Brandão de (direcção). Dicionário de História do Estado Novo. Venda Nova: Bertrand Editora, 1996. 2 vol. vol. I, pgs 41-42 (sv Luís Hernâni Dias Amado, por Luís Farinha)

[NOTA IMPORTANTE: A data do falecimento do Prof. Luís Ernâni Dias Amado surge em alguns locais publicada com lapsos. Alguns apontam 1 de Janeiro de 1981, e outros referem Junho de 1981, outros apontam o ano de 1991. A referência que apresentamos é segura porque a confrontamos com a imprensa da época que nos dá conta do infausto acontecimento, bem como o excerto da citação do Diário da Assembleia da República onde se homengeia o combatente da Liberdade e pela Democracia.]

A.A.B.M.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

LUÍS ERNÂNI DIAS AMADO (Parte II)






















Em 1934 participa na Liga Contra a Guerra e o Fascismo. Tendo sido um dos primeiros participantes do Núcleo de Doutrinação e Acção Socialista (1942) que se viria a transformar na União Socialista em 1944, de que viria a ser um dos fundadores. Participou no Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (M.U.N.A.F.), 1943-44, e no Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.) em 1945.

Estando já referenciado pela polícia política em 1946, que o considerava um dos dissidentes do antigo Partido Socialista Português.

Envolve-se activamente nas campanhas de 1948 (Norton de Matos), 1951 (Quintão Meireles) e 1958 (Humberto Delgado). Na sequência do seu apoio a Norton de Matos foi preso em 19 de Agosto desse ano. No ano seguinte (1949), é um dos apoiantes de dois manifestos publicados sob o título Aos Democratas Portugueses, documento assinado por vários indivíduos, sendo o primeiro signatário Afonso Costa (filho), sobre criação de uma organização oposicionista com vista a actuar nas eleições à Assembleia Nacional em Novembro desse ano.

(NOTA: Clicar nos documentos para aumentar.
Os documentos foram, com a devida vénia, retirados da Casa Comum via Fundação Mário Soares)



A.A.B.M.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A SESSÃO DE 30 DE NOVEMBRO DE 1946 DO M.U.D.


A SESSÃO DE 30 DE NOVEMBRO DE 1946 DO MOVIMENTO DE UNIDADE DEMOCRÁTICA, Edição da Comissão Central do M.U.D. Lisboa. 1946. [Imprensa Beleza. Lisboa], p. 62.

"Início das «Palavras prévias»: “Constitue o que se segue um extenso e precioso relato do que se passou na memorável sessão de 30 de Novembro do ano corrente, realizada no salão de «A Voz do Operário», com a assistência entusiástica de alguns milhares de democratas.

E o que se passou foi a reclamação das seguintes medidas:”(...) dissolução da Assembleia da República, novas eleições; novo recenseamento. Naquela que foi a última sessão realizada fora dos períodos eleitorais, Bento de Jesus Caraça intervém sobre os problemas do ensino, Francisco Ramos da Costa sobre a política económica do Estado Novo, Fernando da Fonseca sobre os problemas da assistência, e Ferreira de Castro sobre a vida intelectual portuguesa. Mário Soares apresenta a comunicação A Juventude não está com o Estado Novo.”

“ (...) É ao país inteiro que se oferecem os documentos constantes deste relato, aos que estão connosco, como aos adversários e a essa massa, que parece continuar sendo importante, dos indiferentes, desapercebidos ou ignorantes dos seus deveres de cidadãos. (...)”

Peça importante para a história de um dos mais importantes movimentos de oposição ao regime de Salazar, encabeçado por Norton de Matos e organizado pelo M.U.D. (Movimento de Unidade Democrático) ”

via In-Libris

J.M.M.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O MAL E A CARAMUNHA - JOAQUIM ALVES CORREIA



O MAL E A CARAMUNHA - reprodução do artigo publicado no jornal "REPÚBLICA", de 23 de Outubro de 1945 pelo Padre Joaquim Alves Correia

Edição: Comissão Directiva do Porto do Movimento de União Democrática.

[clicar na foto para ler]

J.M.M.

domingo, 29 de novembro de 2009

MÁRIO SACRAMENTO - NOTA BREVE


Mário Emílio de Morais Sacramento nasce em Ílhavo [Largo do Oitão] a 7 de Julho de 1920. Filho de Artur Sacramento (comissário de bordo da marinha mercante, culto e de biblioteca farta) e de Rita Sarmento, de famílias liberais. Frequenta o Liceu José Estêvão (Aveiro) e dirige (em 1935), sob sugestão do Agostinho da Silva, o jornal dos alunos do liceu ("A Voz Académica") até 1938, tendo sido o jornal posteriormente suspenso e Mário Sacramento (então aluno do antigo 7º ano) tem aí a sua primeira prisão (10 de Junho). Antes, a 7 de Abril, subscreve, na qualidade de presidente dos estudantes, uma mensagem escrita a Homem Cristo, no decurso da homenagem ao jornalista aveirense.

Matricula-se em Medicina em Coimbra, tendo-se mudado posteriormente para o Porto, "a fim de nesta ter Pulido Valente como mestre". Em 1945 é aluno da Universidade de Lisboa, onde completa o seu curso médico. Faz parte da Comissão Central do MUD Juvenil [a sua primeira comissão central era constituída, além de Mário Sacramento, por António Abreu, Francisco Salgado Zenha, José Borrego, Júlio Pomar, Maria Fernanda Silva, Mário Soares, Nuno Fidelino Figueiredo, Octávio Pato, Óscar dos Reis e Rui Grácio] e aproxima-se do Partido Comunista [ou já era mesmo membro ou simpatizante]. Fixa-se na sua terra natal, onde exerce clínica (curiosamente na Rua José Estêvão).

Em 1953 “sofre a segunda prisão de ano e meio, e escreve em Caxias a estimada obra, ‘Fernando Pessoa – Poeta da Hora Absurda”. Volta a ser preso em 1955, e em 1957 abre consultório em Aveiro (em frente ao café Trianon), onde se fixa. Faz parte da comissão promotora do I Congresso Republicano [comissão onde se encontravam outros intelectuais aveirenses, como Manuel das Neves (pres.), Álvaro Seiça Neves, João Sarabando, Júlio Calisto, Armando Seabra, Alfredo Coelho de Magalhães, Manuel da Costa e Melo, Joaquim José Santana, Horácio Briosa] e que decorreu no Teatro Aveirense, dia 6 de Outubro de 1957, sob presidência de António Luís Gomes, ele próprio natural do distrito de Aveiro, e único sobrevivente do Governo Provisório [de referir que é também em Aveiro que o II Congresso Republicano se realiza (15 a 17 Maio de 1969 e já depois da morte de Mário Sacramento) e mesmo o III, então denominado Congresso da Oposição Democrática, em 1973. A realização do I Congresso teve a autorização do então governador civil, Vale Guimarães, amigo pessoal de Mário Sacramento e que era conotado com a linha “reformista” do então regime].

Em 1962 sofre mais uma prisão (a quarta), que cumpre em Caxias. Começa a escrita dos seus “Ensaios de Domingo” (publicada em 1974). Participa (1965), em representação da Sociedade Portuguesa de Escritores, em Itália, no Congresso dos Escritores Europeus.

Em 1969, participa, no que será a sua última intervenção política, nas comemorações do 31 de Janeiro, no Teatro Aveirense. Ainda aparece a impulsionar o II Congresso Republicano, mas a sua morte, a 27 de Março desse ano, impede-o de participar.

Mário Sacramento colabora, ao longo da sua vida, em vários periódicos: Árvore (nº3, em 1952), Bandarra, Colóquio Letras, O Comércio do Porto, Cronos, O Diabo (desde o nº26), Diário de Lisboa, Estrada Larga, Europa, O Litoral, Mundo Literário, Pensamento, Seara Nova, Sol Nascente, Vértice. Como ensaísta e crítico literário (inserido na corrente neo-realista) publica obras estimadas sobre alguns dos mais eminentes vultos nacionais, como Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Cesário Verde, Moniz Barreto ou Fernando Namora.

a consultar: Aveiro e o seu Distrito, nº20.

J.M.M.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

NORTON DE MATOS: NOTAS BREVE - PARTE III


Norton de Matos: nota breve – Parte III

José Mendes Ribeiro Norton de Matos parte para Angola onde desempenha o cargo de Governador-Geral (1912-1915). É eleito deputado entre 1915-1917 e 1921-1925, sendo membro do Directório do Partido Democrático. Entretanto surge como Ministro das Colónias em 1915, depois Ministro da Guerra (1915-17) e "interinamente Ministro dos Negócios Estrangeiros" [1915; 1916. cf. Oliveira Marques, 1986]. Faz parte da Junta Revolucionaria da revolta de 14 de Maio de 1915, conspirando contra a ditadura de Pimenta de Castro. Não por acaso exila-se (1917-1919) no consulado Sidonista, ao mesmo tempo que é demitido de exército.

Em 1919 é delegado à Conferencia da Paz e, de novo, tem importante função em Angola, agora como Alto-Comissário (1920-1924). De 1924 a 1926 é o Embaixador de Portugal em Londres. Após a revolução de 28 de Maio de 1926, aparece como tendo acções de resistência, pelo que foi preso e colocado sob residência fixa (1927-1929) nos Açores.

[vidé sobre este período, e a propósito, a correspondência entre Norton de Matos, o General Sousa Dias e os combatentes de Fevereiro de 1927 in "O General Sousa Dias e as Revoltas Contra a Ditadura 1926-1931", por A. H. de Oliveira Marques, Dom Quixote, 1975. Note-se, ainda, a tentativa de criar um Comité Militar para fazer a "revolução", que seria chefiado por Norton de Matos, o que para o efeito levou à entrada clandestina de Jaime de Morais (em Junho de 1927) em Portugal (estava exilado na Galiza), para estabelecer acordos com o grupo do tenente-coronel Ribeiro de Carvalho]

Regressa Norton de Matos a Lisboa, mas de novo volta a exilar-se (1931-1932) no decorrer do 26 de Agosto de 1931. Nessa altura (Julho de 1931) liderava Norton de Matos a Aliança Republicana e Socialista

[movimento formado sob iniciativa de Sá Cardoso, que juntava várias correntes políticas unidas contra a Ditadura, pretendendo obter direitos como partido político e apostando na via legal contra a ditadura, de que faziam parte, além do General Norton de Matos, Mendes Cabeçadas, Hernâni Cidade, Duarte Leite, Ramada Curto, Mário de Azevedo Gomes, Mário de Castro e Tito de Morais, entre outros. A iniciativa de formar uma organização partidária, que aliás colhe alguma abertura por parte do general Carmona não tem efeito, dado a repressão verificada após a tentativa de revolta de 26 de Agosto de 1931, que põe fim às putativas intenções “pluralistas e liberais” do regime, sendo portanto "o canto do cisne do reviralhismo republicano" (cf. História Portugal, de José Mattoso, Vol. VII, 1994)]

Retorna Norton de Matos, em 1933, à sua casa em Algés, passando à reforma compulsiva da Função Pública em 1935. Surge como Presidente do Conselho Nacional do MUNAF (1943-45)

[Movimento de Unidade Nacional Antifascista, constituído em 1943, que editava o jornal Libertação Nacional. Diga-se que só aparece a sigla MUNAF em 1946. Até então o movimento assina CNUAF, ou Conselho Nacional Unidade Antifascista, de que faziam parte, além de Norton de Matos, Bento de Jesus Caraça, Mário de Azevedo Gomes, António Sérgio, Barbosa de Magalhães, José Magalhães Godinho, Fernando Piteira Santos, Moreira de Campos, Dias Amado (via GOLU), Alberto Candeias (via Seareiros), elementos do PCP, do Partido Socialista, da União Socialista, do Partido Republicano, da CGT, entre outros. Desaparece em Outubro de 1945, quando face à inoperância verificada é "lançado" o MUD (cf. Mattoso, 1994). Voltaremos, oportunamente, a este curioso tema]

Candidata-se o General Norton de Matos à Presidência da República (1948-1949) pela Oposição Democrática, vindo a desistir nas "vésperas das eleições". Intervém, ainda, nas eleições de 1953 para a Assembleia Nacional.

Morre em Ponte de Lima, a 2 de Janeiro de 1955.

[a continuarParte IV . A candidatura do General Norton Matos à Presidência da República]

J.M.M.M