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sábado, março 02, 2019

vozes da biblioteca

«Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

«Hoje o tempo não me enganou.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«Naturalmente, também, se vieste aqui hoje foi para não estares fechada... -- disse João Garcia, sorrindo e desenrolando um fio de despiques pequeninos, a linha mais excitante de um namoro em que era a quarta ou quinta vez que se falavam.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

terça-feira, maio 19, 2015

o sorriso vadio do demónio

«E José pousou o copo vazio no balcão, e junto à sua pele, sob a luz, sob as palavras, instantâneo, materializou-se o sorriso vadio do demónio. Sorria. Era o único que não trazia a pele escura do sol, trazia camisa e calças passadas e vincadas, cabelo penteado entre a boina e as saliências dos cornos. Era o único que sorria. Dois copos de tinto, pediu sorrateiramente. José não precisou de o olhar. Em silêncio, esperou os copos cheios até à gota que lhes faltou para que transbordassem.»

José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

era noite

«Trazia ainda no corpo a roupa ruça do sol, na pele a luz ocre da terra, trazia no rosto um sorriso reverente.»

José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

segunda-feira, dezembro 29, 2014

escuro

Um romance sobre a vivência trágica da vida, escuro, por vezes obscuro.
Trata-se do primeiro romance de Peixoto (de 2000), e podemos detectar algumas influências, umas reais, outras talvez sugestão minha. Quanto às reais, é inegável que o estilo de José Saramago aqui se faz muito sentir; subjectivamente, ouvi os ecos de algum José Régio, das narrativas alentejanas, e Manuel da Fonseca, alguns contos seus. 

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

porca miséria

Nos topes da Ler, a indigência é esmagadora. Dos 30 livros que por lá aparecem, apenas um existe na minha biblioteca e só dois teriam hipóteses de lá chegar:
Top Fnac não ficção, reinam a culinária & outros livros úteis. Nada contra, nem a favor. O 6.º mais vendido, A Infância de Jesus, de Joseph Ratzinger (Principia), não será uma compra óbvia para um ateu, mas enfim, trata-se da biografia de um famoso.
Top ficção da Bertrand, desesperante. Salva-se A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe (Alfaguara), 7.º lugar. O resto: mistérios & fodilhices de trazer por casa, que eu suspeito não passarem pelo crivo da literatura.
Top geral Wook, socorro, expectativa apenas pelo 6.º, Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto (Quetzal).


quarta-feira, outubro 12, 2005

Antologia Improvável #62 - José Luís Peixoto

SETEMBRO, FIM DE TARDE

a varanda era o respeito e o silêncio de onde a casa se erguia.
a minha mãe talvez fosse a sua própria voz. eu era muito novo.

a paisagem e a vida diante de mim. os pombos levavam o
meu peito em círculos no céu.

e havia uma fonte, porque há sempre uma fonte distante
na voz da minha mãe.

A Casa, a Escuridão

José Luís Peixoto