a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

08/04/2019

Na camanha (o sotaque adorável)

Na sala do pequeno almoço do hotel madeirense, sento-me a uma mesa que está de frente para a janela e toda esta aberta de par em par a dar para a piscina. Na piscina, a chuva faz círculos de água que não se atrapalham entre si na propagação circular. O chão de pedra onde se instalam mesas e cadeiras de plástico em torno do espaço está molhado a condizer. Na água, deixo pousar o meu olhar a perder-se numa espessura muito para além daquilo tudo. Agradeço esvair-me assim por um momento. Enquanto a azáfama de gente a servir-se do buffet anda aqui em redor. O empregado simpático que ontem me serviu o jantar vem dar-me os bons dias, arrancando-me a alma de dentro da água estendida à chuva e à beira da piscina. Então, está sozanha?! Já ontem ele achara estranho eu estar sozanha. Disse-me que podia levar uma sandezanha para comer más tarde, ou então uma banana. Sempre era uma companhia, pensei eu que pensou ele. Escolhi mentalmente a última, agradecendo. Quando ele se afastou e antes de ter tempo de regressar para a beira da piscina molhada aninhando lá a alma por mais um bocado, ouço uma sua colega dizer para os copos atrás do balcão, suspirando alto.
- Esta chuva agora! E eu tão bem na camanha!

07/04/2019

Wooden Island*

Afinal a ilha da Madeira é bem mais bonitinha do que eu tinha em memória. Na minha, que a do telefone esperto ainda não era nascida da última vez que a vi. Mas ainda bem, assim ficarei mais em consonância quando ouvir alguém dizer que a Madeira é muito bonita e escuso de vasculhar vasculhar a ver se me lembrava de qualquer coisinha tirando as flores, claro, hum. Mas agora estou pronta para mudar de ideias, por exemplo, entre hoje e amanhã, estou estou.
No átrio do hotel onde aguardo por um quarto pronto, está um grupo de senhoras velhotas (mas não muito velhotas) a conversar em francês todas animadas. Aposto que aguardam por quartos prontos também. Ao fundo da sala, que é grande (se calhar isto não é bem um átrio, mas sim uma sala ao lado de um átrio) está um grupo de crianças a jogar snooker (as saudades que eu já tenho) e a fazer barulho de crianças a jogar snooker, um barulho muito bem feitinho. Para mim. Mas está lá uma mãe de algumas delas a fazer um ssshhhhhhh para as crianças a cada minuto bem alto e isso não tem graça nenhuma. Mesmo assim, não está a dar para fazer a Madeira quase resvalar para não tão bonitinha outra vez.

Mas claro, quem sabe eu fazia um ssshhhhhhhh parecido quando as minhas próprias crianças estavam junto de mim, brincando e fazendo pois barulho de crianças brincando junto de mim (as saudades que eu tenho, estas bem mais e maiores, estas sim). É melhor ficar caladinha.

*a minha primeira experiência com um tradutor automático incluía esta bela expressão, não esquecerei não.

03/04/2019

Pescadinha de rabo na boca (se não é parece)

Faltava meia hora para fechar o supermercado que fecha em último lugar aqui nas redondezas e saímos de casa à pressa, a minha filha Saminhas e eu, para lá irmos abastecer-nos de produtos que aliviassem a má-disposição que nela se instalara sem se saber nem como nem porquê. Na garagem do prédio, encontramos a nossa vizinha do terceiro que vinha a chegar, e que é companhia deveras agradável tanto para mim como para as minhas filhas, ou seja, parámos a pressa. Ela trazia novidades, como já é de seu hábito e, entusiasmada e luminosa, fala-nos da sessão a que tinha acabado de assistir sobre a obra de Kafka chamada “Metamorfose”. A minha filha iluminou-se acima da má-disposição que levava num sorriso contente por poder dizer “ah, eu li esse livro!”. A nossa vizinha, não me recordo se já inventei um nome para ela aqui no blogue, só me lembro que já nela falei umas vezes, disse, entre outras coisas, uma que eu retive: o orador que discursava sobre a obra declarou-se não grande apreciador desta por ser uma pessoa solar e na obra haver muito pouco de sol, digamos. Não sei se foram estas as palavras da vizinha, mas “solar” sei que ela proferiu. Isto foi no domingo e como queríamos chegar ao supermercado ainda em estado de aberto, não explorei mais o assunto.
Hoje, três dias depois, saio à hora do almoço para a reunião no meu cliente Mais Novo e noto o sol na rua e em todo o lado (uma alegria). Pensei cá para dentro de mim que é tão boa a ideia de me poder também afirmar Solar, agora até vai com maiúscula, quando for de novo acusada de estar sempre bem-disposta e claro que sem razão, como já me aconteceu umas quinhentas mil oitocentas e trinta e nove vezes na vida. É irritante, quase isso me põe maldisposta, eu disse quase. Portanto a partir de agora, isto pensava eu no caminho até ao meu cliente Mais Novo, para não perdermos o norte, vou atirar a quem me acusar de alegria desmesurada e inoportuna, não é nada sexy ser-se alegre e isso, já percebi, mas vou atirar com esta noção de eu ser uma pessoa Solar! Tem muito mais nível, por um lado, e sempre foi definido por um orador de certeza respeitável, por outro. Mi aguardji.
Chegada a casa, e antes de me atirar ao trabalho do meu cliente Primeiro, vou ler um ou outro blogue para aquecer e deparo-me com isto. Que giro.

02/04/2019

Quem telefona tem prioridade sobre quem está*

Aproveitei a hora do almoço e entrei numa loja de plantas naturais e artificiais, cestos, bonecos fofinhos para decorar lugares vazios em cima dos móveis e, ainda, verdade, uma ou duas peças de mobiliário que se assemelham a mesas de cabeceira, mas são até bastante melhores que isso (porque são giras). Posso desde já acrescentar que certas peças de mobiliário não me agradam nada em termos conceptuais e as mesas de cabeceira do tipo caixote com três gavetas estão no primeiro lugar da lista. Super feias. Uma cadeira ou uma pilha de livros ganha, para mim, o estatuto de mesa de cabeceira mais facilmente, e ficamos por aqui para não cansar, uma vez que o problema é meu.
Ando à procura de umas flores muito bonitas em tecido e em branco, grandes, bem grandes, maiores do que as naturais podem ser nem que venham dos Açores. Mas vi outra coisa, uma dessas mesas de tipo cabeceira que me dava para outro fim, e me agradou logo à cabeça. No entanto, a lojista estava ocupada ao telefone a dizer, pois, pois, vê lá tu, intercalando com achegas que fazia lá para a fogueira que alguém do outro lado mantinha acesa de indignação. Cirandei um bocadito entre as flores a experimentar se me sentia uma para matar o tempo, não senti, crendo ainda que ela desligava e me dava atenção num instante seguinte. Passou um, passaram dois e depois três minutos, o pois, pois, vê lá tu ganhava-me aos pontos e eu não querendo incomodar mais a lojista com a minha presença indiscreta, é evidente que saí da loja sem saber o preço nem trazendo vontade de lá voltar. Ora vejamos: se nos podemos dar ao luxo de optar por manter uma conversa telefónica de chacha em vez de atender trabalho, e possivelmente fazer negócio, é porque vendemos com preços altos, demasiado altos, ou não será?

* há anos que noto isto

01/04/2019

Bege miragem

No final das obras, quando ele chegar, e completamente atrasado chegará, o difícil vai ser escolher o lugar de cada quadro a pendurar nas paredes. Continuam, quase todos, encostados uns aos outros, pousados no chão, por aí. Limpinhos de pó, é certo, cobertos com placas moles de esponja para não se magoarem nos encostanços mútuos. Nem nos encostanços mútuos nem fazerem a tinta nova da parede que tem nome e tudo de linda que é (ver título) onde eles se encostam há meses e meses lascar. Ou coisa terrível idêntica. Não sei se os ouço, aos quadros, suspirar de impaciência, se sou eu que estou aqui estou a explodir dela.
Mas, como em tanto na vida que nos calha, de repente, digerir, aguento-me. Luto, pois é evidente que luto. Faço telefonemas, escrevo na agenda, depois espero, a seguir risco da agenda, faço mais telefonemas. Mas a minha luta surte poucochinho. Surtiria, começo a crer, pusera-me eu aos gritos a lançar palavrões e a espumar da boca que nem uma louca. Com outros surtiu largo, que eu vi com estes olhos que não sei quê como diz o povo acompanhando de um gesto ilustrativo (o povo). Quanto a mim, um dia destes sou capaz de experimentar.