São o carinho e a memória que demarcam a sinceridade deste livro, o seu carácter e o seu denso significado… Este livro é escrito por uma democrática selecção de autores, não se limita a escritores profissionais, mas nasce de gente vinda das mais diversas facetas da vida.
Frank X. Gaspar, na introdução a Untamed Dreams: Faces Of América
Vamberto Freitas
Antes de falar sobre este livro como um dos mais belos títulos que eu li nestes últimos tempos, Untamed Dreams: Faces Of América/Sonhos à Solta: Rostos da América, organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues, não posso nem quero deixar de dar os parabéns, na pessoa de Tony Goulart, picoense imigrado nos EUA há muitos anos, pela iniciativa que foi a fundação de uma editora que tem como objectivos principais motivar a investigação nos mais variados campos da nossa vida naquela sociedade. Portuguese Heritage Publications of California é dirigida por indivíduos ligados a várias associações comunitárias, e o seu catálogo já contém um número substancial de títulos em todos os géneros, desde história, ficção e poesia, assim como algumas biografias e autobiografias., abrangendo os mais variados temos: baleação, agricultura, indústria lacticínia, e Festas do Espírito Santo, esses ritos religiosos e profanos celebrados anualmente em todos os aglomerados de maioria açoriana, e talvez o evento que mais coesão traz ao nosso povo naquelas vastas paragens, promovendo a cultura ancestral entre os luso-descendentes, e desse modo permitindo sobretudo a continuidade da nossa cultura, da nossa memória histórica, mesmo que em língua inglesa e por outras formas de actuação e estilos de vida. Olho para essa lista editorial e fico espantado com o número de autores, uma lista longa de mais para que eu possa destacar nomes e títulos, uns mais conhecidos do que outros, e que inclui ainda escritores residentes nas ilhas mas viram algumas das suas obras mais pertinentes para o tema da imigração traduzidas e divulgadas entre todos os leitores da nossa diáspora americana. Para entendermos inteiramente a audácia de tal projecto bastará lembrar a todos que tudo isto é feito sem subsídios oficiais, o que não exclui, como me diria um dos seus responsáveis, a ocasional distribuição gratuita por escolas e bibliotecas numa boa parte do estado da Califórnia, e não só. Raramente estes livros chegam ao arquipélago, e isso passa a ser indesculpável – são essenciais para os nossos próprios investigadores e escritores, fazem parte do cânone literário e cultural português, com especial relevo para as ilhas dado que a grande parte dos nossos imigrantes no oeste americano é de origem açoriana. Só que entre esses nomes e obras estão também presentes autores e bem-feitores de origem continental. Pelo menos deixo aqui os rótulos das colecções que venho mencionando neste texto: Heritage Collection, Colecção Décima Ilha (onde encontramos também os livros de poesia), Pioneer Collection, Fiction Collection e Children’s Collection. Não, não é pouco. O que me leva, uma vez mais, a apelar aos responsáveis pelos diversos sectores oficiais do Governo Regional dos Açores a tomar a iniciativa de fazer chegar a nós, às nossas instituições de ensino a todos os níveis, todo este rico arquivo da nossa história e criatividade no além-fronteiras, na lonjura do Pacífico, que nunca nos esquece ou ignora, que sempre perpetuou voluntária e orgulhosamente a nossa memória colectiva dentro e fora do território nacional. Por uma questão de pura justiça intelectual, não posso deixar de mencionar as inúmeras edições de autores luso-americanos e açorianos, no original ou em tradução, das editoras Gávea-Brown Publications (Brown University) e Tagus Press at UMass Darthouth. Foi a partir de todos eles que muitos dos nossos autores nos Estados Unidos foram publicados e tornaram-se parte do que já é a nossa Tradição Literária.
A crescente dupla nacionalidade dos filhos e netos da primeira geração imigrada quase torna sem significado a expressão“território nacional”. Untamed Dreams: Faces Of America leva-nos dos primórdios da nossa emigração para a América, os que nadavam furiosamente até aos barcos baleeiros no Corvo e noutras ilhas aos que partiam via Pan American, de Santa Maria, e os que ainda hoje dão um salto em busca da sua sorte. A imagem primeira que sobressai deste livro é como um pequeno povo, numericamente falando, construiu algumas das mais prósperas e bem organizadas comunidades no oeste americano. Não se trata só de trabalhadores em busca do ouro no século XIX, mas ainda dos que hoje estão colocados nos mais distintos e importantes sectores do estado mais rico da nação mais rica do mundo. Não falo aqui nem de nacionalismo nem de sobrevalorização do chamado “sucesso” novo-mundista. Falo da coragem e determinação de um povo ilhéu que nunca se deixou intimidar pela mais avançada e sofisticada economia e sociedade do Ocidente. De um extremo de um estado como a Califórnia, dos baleeiros de San Diego em tempos idos aos nossos contemporâneos nos mais diversos ramos de vida e actividade económica a norte, desde o Vale de São Joaqueim no centro interior ao Sillicon Valley e San José e arredores, falo dessa audácia e desse destemor na sua permanência e formação numa complexa sociedade multi-étnica e cultural. Agricultura, invenção da mais avançada indústria lacticínia planetária, de bem-feitores comunitários, uma vez mais, através de associações de seguradoras até aos professores universitários, a comunidade portuguesa na América é de uma organização e segurança estrutural como muito poucas outras. Os primeiros aventureiros açorianos, quase sempre sem entender uma frase completa em inglês, até aos seus descendentes de segunda e demais gerações criaram uma vida sem par na Diáspora, sem nunca esquecer e muito menos trair as suas origens. Estão neste livro uma boa parte exemplificativa do que acabo de dizer. O homem de botas altas a trabalhar a terra dando lugar aos que, em inglês, celebram, memorizam, dignificam essa história. Untamed Dreams: Faces Of America desmente muitos dos mitos que rodeiam a nossa presença na América. Pais analfabetos e uns poucos outros com formação formalista mandaram para os estudos, a todos os níveis, os seus filhos e filhas. O resultado está mais do que à vista: cientistas, empresários, escritores e poetas marcam o seu lugar na grande tradição intelectual da América, que a maioria dos europeus ainda faz e prega que não existe, os vaidosos medíocres de um continente sem rumo nem ideias a olhar com desdém os fazedores de tudo. Frank X. Gaspar, nascido em Providence de famílias piscatórias é hoje um poeta publicado pela grande revista The New Yorker. Katherine Vaz, grande escritora das melhores editoras nova-iorquinas e já traduzida no nosso e noutros países, segue os passos de um pai de nome August Mark Vaz, nascido na Califórnia, crescido na Agualva, da Ilha Terceira, e que anda hoje me é uma referência no seu livro sobre a história da nossa emigração no Pacífico, Lara Gularte traça as suas origens até aos caçadores do ouro em tempos muito recuados nalguma da melhor poesia publicada em língua inglesa, e Millicent Borges Accardi, de pai italiano e mãe açoriana, desenvolve uma poética quase sem precedentes entre nós, se esquecermos por um instante um George Monteiro, nascido na Costa Leste americana de pais continentais, e que desbravou antes de todos nós este território da imaginação e arte. Nem por um segundo esqueço, e muito menos ignoro, os que em língua portuguesa poetizaram, sublimaram, a nossa vivência naquelas partes. As suas palavras são um espelho claríssimo, o qual deveríamos todos espreitar, e revermo-nos nas suas imagens e metáforas. Este é um livro em língua inglesa, e o seu lugar espera novas traduções. Os que nos vão seguir terão a obrigação de conhecer as suas origens, e são nessas páginas que reside para sempre parte do seu ser e sorte.
“Então uma só vida – escreve Katherine Vaz sobre o seu recentemente falecido pai, que para além do ensino e da escrita, também pintava quadros – poderá ser uma lição paternal única, a salvação de uma pequena criatura como eu, um espaço desenhado, uma insistência em que deveremos sonhar a vida a cores, uma rosa que brota do nada e se torna milagrosa. August Mark Vaz escreveu os seus livros sobre a sua adorada herança açoriana, mas foi-tão só a sua existência que, para mim, musicou a melhor nota de como devemos agarrar e refazer o mundo. Viajo sempre com um dos seus quadros inacabados, uma rapariga abraçada a uma bandeira portuguesa e a chorar”.
Untamed Dreams: Faces Of America passa a ser uma das nossas mais eloquentes fontes sobre a vida quotidiana e da imaginação do nosso povo na distante Callifórnia. Curiosamente, foi António Ferro, que após uma viagem àquele país nos anos 20, e em que ele insistiu, muito antes de muitos, em visitar essas nossas comunidades, escreveria em termos muito semelhantes no seu singular Novo Mundo Mundo Novo (1930) sobre como os portugueses precisavam de espaços livres e grandiosos para exercer o seu talento e coragem no trabalho quotidiano, quer fosse em terras cultivadas, quer fosse nas mais criativas profissões e instituições a que se dedicavam. Viu, como vemos neste livro agora, a capacidade de reinventarmos o nosso ser e modo de estar. Era e é um Portugal cuja modernidade só agora começa a ser vivida na nossa geografia natal. É isto e muito mais que nos espelha este livro.
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Untamed Dreams: Faces Of America (organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues), San José, Portuguese Heritage Publications of California, 2017. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Outubro, 2017.




