Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

AUSENTE MAS PRESENTE
A presença de Pedro Passos Coelho numa acção de campanha do PSD bastou para perturbar a campanha socialista. Ao ponto de usarem essa esporádica aparição do anterior primeiro-ministro como fio condutor de um mini-comício promovido ontem pelo PS em Aveiro.
Valia mais que os dirigentes do partido do Governo evitassem abordar este tema. Para não serem confrontados sobre a ausência, nesta mesma campanha, do primeiro-ministro que antecedeu Passos Coelho. Eles sabem muito bem que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos quem foi.

Em vésperas de eleições europeias impera a preocupação com nacionalismos e com extremismos. Mas há um nacionalismo que escapa à preocupação apesar de ser responsável por mais de 800 homicídios e de defender esse legado de violência a partir de instituições democráticas.
Até para precaver reincidências, importa chamar as coisas pelos nomes. No referente à ETA, as palavras “rebeldes” e “separatistas” são equívocos que devem ser evitados, pois foi uma organização terrorista. Defendo este argumento hoje, no Observador.
A propósito da aparição de Passos Coelho em campanha, registe-se que o embaraço do PS não é só o de Sócrates ser um ex-líder inapresentável em público. Na própria lista de Pedro Marques há um homem invisível. Os outros candidatos socialistas aparecem em arruadas, em encontros, falam, existem. Já o nº 3 nunca se vê, tamanha é a vergonha.


CINCO EM DEBATE
Anteontem à noite, a RTP voltou a fazer um debate com cabeças de lista às europeias do próximo domingo. Desta vez circunscrito aos representantes dos cinco maiores partidos parlamentares. Este debate voltou a ser (bem) conduzido por Maria Flor Pedroso.
Fica um resumo do que lá se disse, seguidos de breves anotações minhas.
João Ferreira (CDU)
Frases
«Há imensos aspectos positivos que decorrem destes 30 anos [de integração europeia]. É evidente que é positivo que possa existir uma liberdade de circulação de cidadãos e de possibilidades de mobilidade dos estudantes no espaço europeu, é positivo que haja maior proximidade entre Estados.»
«[Nestes 30 anos] 400 mil explorações agrícolas portuguesas fecharam portas, 700 mil hectares de superfície agrícola útil deixaram de ser cultivados. Isto teve como consequência um défice agro-alimentar que hoje andará na casa dos 3 mil milhões de euros/ano.»
«Cerca de 50% da nossa frota pesqueira foi abatida. Hoje, apesar de termos uma das maiores zonas económicas exclusivas de toda a UE, dependemos em cerca de 70% de pescado que é importado, capturado por outras frotas.»
Positivo
Foi convicente, sobretudo ao pronunciar-se sobre as questões das pescas e da agricultura. Sabe falar em nome próprio, deixando por vezes de lado o característico "nós" impessoal do PCP. Mostrou-se seguro, domina bem os temas europeus e fica bem de gravata: parece encontrado o sucessor de Jerónimo como secretário-geral do partido da foice e do martelo.
Negativo
«Nos últimos anos Portugal teve o investimento público esmagado», reclamou. Como se o PCP não tivesse aprovado sem pestanejar os últimos quatro orçamentos do Estado, que ditaram todos esses cortes.
Marisa Matias (BE)
Frases
«Não concordamos com o PS em questões europeias.»
«Um dos combates da nossa vida é o combate às alterações climáticas.»
«A União Europeia transformou-se numa espécie de paraíso para uma política fiscal completamente injusta, numa espécie de câmara oculta em que alguns países se permitem confiscar a base fiscal dos outros.»
Positivo
Consegue dirigir-se às pessoas em geral e não apenas aos nichos de convertidos. Fala sem chavões, com naturalidade. E mostra humildade democrática quando alude aos eleitores: «Não somos donos dos votos das pessoas.»
Negativo
Sente visível incómodo sempre que se aborda a questão do sistema monetário europeu, designadamente quando lhe recordam anteriores posições do Bloco em defesa do fim da circulação do euro em Portugal, optando por fórmulas vagas e meramente retóricas, de modo a contornar estas contradições: «Se tivermos de escolher algum dia entre a moeda e as pessoas, escolheremos as pessoas.» Devia poupar mais a voz.
Nuno Melo (CDS)
Frases
«É impossível falarmos neste projecto [de integração europeia] sem falarmos na paz. A nossa geração é a primeira que foi poupada a uma guerra.»
«85% do investimento público [em Portugal] é possível apenas apenas por causa do dinheiro da UE.»
«Portugal não converge com a UE desde 2016, somos o terceiro país mais pobre da zona euro, somos o sétimo país mais pobre na UE, em 2017 fomos ultrapassados pela Estónia e pela Lituânia, em 2018 fomos ultrapassados pela Eslováquia, e as previsões da Comissão apontam que vamos ser ultrapassados pela Polónia.»
Positivo
Lembrou a colagem dos comunistas ao regime despótico de Caracas: «Nunca votei com o PCP [no Parlamento Europeu] a favor do regime ditatorial da Venezuela.» E deixou claro que se opõe a qualquer tentativa de retirada do direito de veto a Portugal na Comissão Europeia, sem confundir europeísmo com federalismo.
Negativo
Exibe por vezes um ar sarcástico que facilmente pode confundir-se com desrespeito pelos adversários. Soa a demagogia proclamar a palavra de ordem «plásticos zero» - ainda por cima num estúdio televisivo onde não faltava material plástico.
Pedro Marques (PS)
Frases
«O acesso à água e ao saneamento [em Portugal] são grandes adquiridos do processo de adesão europeia.»
«Nós hoje somos uma sociedade completamente diferente do ponto de vista da participação das mulheres na sociedade e no mercado de trabalho.»
«É desrespeito pelo voto dos portugueses falar em voto fútil.» (Para Paulo Rangel)
Positivo
Conseguiu passar a mensagem de que o comissário europeu Carlos Moedas, que foi secretário de Estado adjunto de Passos Coelho no Executivo PSD, fez rasgados elogios ao Governo socialista em geral e ao primeiro-ministro António Costa em particular, transformando essas declarações em trunfo eleitoral do PS.
Negativo
Ficou associado à redução de 7% dos fundos de coesão para Portugal por ter exercido essa área ministerial até há poucas semanas. Caso se confirme tal corte, isso equivale a menos 1,6 mil milhões de euros para os nossos cofres públicos. Para aproximar os países mais débeis economicamente dos países mais ricos. Enquanto vários países são beneficiados com o reforço dessas verbas: mais 5% para a Finlândia, mais 6% para Itália, mais 8% para a Bulgária e a Roménia. Pareceu pouco convincente na tentativa de rebater tais alegações.
Paulo Rangel (PSD)
Frases
«É benéfico [o PSD apresentar-se sozinho nas urnas, sem o CDS].»
«Há um país antes da integração europeia e um país depois da integração.»
«Pedro Marques é o recordista das manipulações. No Polígrafo já foi desmentido seis vezes.»
Positivo
Não hesitou em fazer reparos críticos à «incapacidade» das instituições de Bruxelas em reformar a união economica e monetária - e em particular ao facto de «não termos conseguido concluir a união bancária». Acentuou que o balanço da integração é «negativo no nosso sector pesqueiro e na indústria que lhe estava associada» devido às «perdas que ainda não foram recuperadas».
Negativo
Olha quase sempre de frente para as câmaras, ignorando quem está em estúdio: isto confere-lhe uma imagem de arrogância. Apertado por Pedro Marques, viu-se forçado a pedir desculpa por ter feito alusões ao «voto fútil» noutros partidos.

Uma Gaiola de Ouro, de Camilla Läckberg
Tradução de Elin Baginha
Romance
(edição Suma de Letras, 2019)

João Carvalho: «Ainda ontem Jaime Gama teve de repetir uma chamada de atenção na sessão plenária com o governo. O presidente da Assembleia da República precisou de conter o ministro Manuel Pinho, que insistia em dirigir-se aos parlamentares tratando-os por "vocês". Cada vez mais elegantes, os nossos políticos.»
Jorge Assunção: «O que se passou hoje à noite no Jornal Nacional da TVI é um bom retrato daquilo em que se está a transformar este país.»
José Gomes André: «A forma como encaramos a velhice tornou-se num dos maiores paradoxos do nosso tempo: procuramos prolongar a vida humana, de modo quase obsessivo, mas, simultaneamente, criámos um modelo social e cultural que menospreza a velhice. Na sociedade contemporânea, o homem orgulha-se da sua longevidade, mas envergonha-se da sua velhice.»
Teresa Ribeiro: «Quantos tempos tem um A? Não sabe? E quantos tempos tem um T? Também não? E acaso sabe dizer qual a diferença entre o mambo e o cha cha cha? Pois se não consegue responder a nada disto fique desde já ciente que caso frequentasse o 12.º ano arriscar-se-ia a chumbar a... Educação Física.»
Eu: «Empobrece a capacidade argumentativa, desaparece a arte do diálogo, esmorece a circulação de ideias. As gerações mais jovens, por culpa exclusiva das gerações mais velhas, arriscam-se a tornar-se seres passivos, socialmente amorfos, enclausurados em quotidianos muito solitários e nada solidários.»
Olhemos bem para Vénus: tem uma atmosfera composta por 96% de dióxido de carbono e tão densa que, à superfície, a pressão é 92 vezes maior do que na Terra; está completamente oculto por um espesso manto de nuvens de ácido sulfúrico; o seu efeito de estufa é tão intenso que a temperatura média à superfície ronda os 460º C.
Dificilmente se conseguiria imaginar local mais hostil. Parece-me, por isso, uma estranha premonição que os Antigos, sem saberem tais factos, tenham dado a este planeta capaz de nos asfixiar, esmagar, corroer e queimar - o nome da deusa do amor.
Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana
Conheci Chico Buarque no gira-discos da minha irmã - eu menino, 8 ou 9 anos (mana terei eu dito, confessado, já nestes meus tantos 54s, que tu és "o meu amor"?). Deram-lhe agora o Camões - e o meu querido magnífico Nataniel Ngomane participou nisso, e é assim ainda mais belo. Não sei da justificação do júri, nem verdadeiramente importa, tantas as imensas canções que me (nos) fizeram a vida. Terá sido, creio, até certo disso, ao "escritor de canções", libertados os jurados das algemas dos "estilos" por via do rumo do nobel.
E é também lindo por ser Chico um alvo dos polícias da mente da agora. E, ainda por cima, rio-me, por ser ele, enquanto ficcionista, tão .... reaccionário. Tão ... Buarque de Holanda.
Vénia, poeta-cantor. Bebamos do teu cálice.
E
é uma obra vida vasta Deixo (mais para os mais novos) uma hora e meia excepcional. Entre tantas outras ...

LIVRE: TRÊS PROPOSTAS
Do programa eleitoral, Novo Pacto para a Europa
Ontem estava a passar na RTP um debate entre os principais candidatos às eleições europeias. Achei esse debate tão maçador que mudei imediatamente de canal, passando a assistir a um filme sobre um comboio desgovernado. Fiquei a pensar que esse canal tinha decidido apresentar uma metáfora sobre a forma como estão a decorrer estas eleições em Portugal e na Europa.

Aos 70 anos travou o seu último combate, a derradeira corrida de uma vida plena de sacrifícios, glória, coragem, dor e intransigente respeito pela sua condição de homem e de piloto.
Espalhou classe e desportivismo pelas pistas de todo o mundo, numa época em que a Fórmula Um se fazia com cavalheiros, com homens e não com meninos.
Deu dois títulos mundiais à Ferrari (1975/1977), um terceiro à McLaren (1984), mas se me perguntarem o que de mais vivo tenho na memória, talvez fruto da minha condição de Alfista, foram as vitórias em Anderstop, no Grande Prémio da Suécia (1978), com o Brabham-Alfa Romeo BT 46-B com efeito de solo, e em Monza, no mesmo ano.
A primeira constituiu um duelo entre o motor Cosworth DFV do Lotus 79 de Mario Andretti, que viria a ser nesse ano o campeão do mundo, e o fabuloso motor de 12 cilindros da Alfa Romeo, que conduzido pela lenda austríaca esmagou toda a concorrência. A segunda foi uma corrida atípica, com muitos acidentes e interrupções, num fim-de-semana aziago em virtude do falecimento de Ronnie Peterson.
Lauda deixará mais um espaço por preencher na galeria dos notáveis que nos deixaram muito cedo. Que tenha o merecido descanso.
(foto daqui)

DUAS CADEIRAS VAZIAS
Cumprindo as suas obrigações de serviço público, a RTP promoveu no dia 13 de Maio - em sinal aberto, no seu canal generalista - um debate entre os cabeças de lista dos partidos que não têm representação no Parlamento Europeu. Doze, no total.
Foi um bom modelo de debate, que só não permitiu uma verdadeira discussão de ideias devido à notória inépcia de alguns candidatos, impreparados e recorrendo a chavões inconsistentes.
Destaque, pela positiva, para a competente moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, directora de informação do canal público.
Destaque, pela negativa, para a ausência de dois cabeças de lista. Um, por aparente amuo, recusou comparecer. Outro preferiu discutir bola, à mesma hora, noutro canal - peculiar noção de prioridade cívica por parte de quem gasta muita saliva a apregoar responsabilidade e ética.
Só ontem pude assistir a este debate. Fica uma breve resenha do que lá se disse - e do que ficou por dizer.
André Ventura (Basta). Preferiu palrar sobre futebol, à mesma hora, na CMTV.
António Marinho e Pinto (PDR). Não compareceu por discordar do «critério editorial» da RTP. Aparentemente, este eurodeputado que em 2014 foi eleito sob a sigla MPT desejaria ter participado num debate entre os partidos já representados no Parlamento Europeu. Esteve muito bem o canal público, uma vez que o PDR - partido que nem existia há cinco anos - se candidata pela primeira vez a uma eleição europeia.
Fernando Loureiro (PURP). Quer aproximar os salários das pensões. Não explicou como.
Era o mais velho neste debate. E foi o único candidato que esteve sempre de esferográfica na mão.
A frase: «Setenta e cinco por cento das pessoas ligadas à política são altamente corruptas. E não devo estar a exagerar.»
Francisco Guerreiro (PAN). Quer assegurar uma licença de maternidade de um ano em todo o espaço europeu. Como? Com verbas do orçamento comunitário, desviando dinheiro hoje atribuído ao investimento na actividade pecuária.
Foi o único candidato a aparecer com uma argola na orelha.
A frase: «Se todos os europeus consumissem como um português, nós teríamos consumidores para dois planetas.»
Gonçalo Madaleno (PTP). Quer uma «bolsa de arrendamento», à escala europeia, para assegurar «habitação digna para todos». Não explicou como.
Estudante de Direito, é o candidato mais jovem. E era também o mais nervoso.
A frase: «A sociedade é composta de seres humanos.»
João Patrocínio (PNR). Afirmou-se defensor de «uma política de natalidade». Sem entrar em pormenores, eventualmente embaraçosos.
Foi o candidato que elevou mais a voz.
A frase: «Esta Europa está moribunda.»
Luís Júdice (MRPP). Quer Portugal fora da União Europeia a partir de agora para «ganharmos soberania». Não chegou a citar a célebre frase «orgulhosamente sós», mas andou lá perto.
Foi o único a aparecer todo vestido de preto.
A frase: «Trabalharemos afincadamente para a dissolução da União Europeia e para a dissolução do euro como moeda única»
Paulo Morais (Nós, Cidadãos). Quer uma entidade externa - supostamente paga por dinheiros públicos - a «fiscalizar os eurodeputados», em nome da transparência. Mas quem fiscalizaria por sua vez a referida entidade?
Foi um dos dois candidatos a usar gravata (o outro foi Paulo Sande).
A frase: «Os cidadãos europeus, e os portugueses em particular, têm todo o direito de saber para onde vai o dinheiro dos seus impostos.»
Paulo Sande (Aliança). Quer «aproximar a Europa dos portugueses». Como? A Assembleia da República deve «ter muito mais a dizer sobre políticas europeias». Na «coesão», por exemplo. Provavelmente, nem todos os telespectadores terão entendido.
Foi um dos dois candidatos a usar gravata (o outro foi Paulo Morais).
A frase: «Os extremos à esquerda e os extremos à direita tocam-se em quase tudo. A moderação é hoje quase um novo radical.»
Ricardo Arroja (IL). Quer «menos burocracia, menos impostos, mais liberdade.» Como? Aumentando a concorrência. «Há que questionar se as leis da concorrência têm vindo a ser aplicadas em Portugal.»
Foi o que falou em tom mais cordato.
A frase: «Temos de reconhecer, no espaço da UE, todas as categorias profissionais.»
Rui Tavares (Livre). Quer «uma esquerda verde e europeísta» que possa implantar uma «rapidíssima transição energética» na «maior democracia transnacional do mundo». Não ficou bem claro como pretende criar «milhões de empregos» na «economia verde», cor que parece ter substituído o vermelho no imaginário de certa esquerda contemporânea.
Foi o candidato que usou mais palavras por minuto.
A frase: «O novo Pacto Verde é um Plano Marshall da nossa geração.»
Vasco Santos (MAS). Quer criar um «salário mínimo europeu» de 900 euros, tendo como referência o que existe em Espanha. Sem esclarecer como.
É o candidato mais magrinho. Ou elegante, para usar um eufemismo em voga.
A frase: «Se continuarmos desta maneira, a espécie humana não tem futuro possível.»

A Rapariga Sem Pele, de Mads Peder Nordbo
Tradução de Jorge Pereirinha Pires
Romance
(edição Planeta, 2019)

Adolfo Mesquita Nunes: «E lá se arranjou forma de afastar Lopes da Mota sem afastar, o que dá bem conta de como as coisas se passam no caso Freeport, em que se investiga sem investigar e suspeita sem suspeita. É como o Sol de Inverno: brilha mas não tem calor.»
Ana Vidal: «Em tempos de crise generalizada - inclusivamente de valores - e de um desalento que vai avançando, imparável, minando todas as vontades e iniciativas, é bom saber que a consciência social ainda existe nos espíritos de quem pode, realmente, ser parte da solução dos problemas.»
Cristina Ferreira de Almeida: «O Montepio quer comprar o BPN, mas sem o passivo: acho lindamente. Não calha nada nos objectivos comprar um banco com 1,8 mil milhões de euros de passivo. Depois avisem-me quando a compra estiver concluída para eu dar um saltinho ao balcão do BPN. Queria comprar o duplex do meu prédio, mas não me convinha aumentar a dívida do crédito à habitação e preciso de um banco que me compreenda.»
João Carvalho: «Lembrei-me do antigo presidente do banco [BPP]: João Rendeiro garantiu que ia fazer pagar caro aos que se atreveram a apontar o dedo à sua gestão. Entretanto, passou-se a falar claramente das fortes suspeitas de grandes irregularidades em operações da sua lavra. E o que é que tem acontecido? Rendeiro rendeu-se ao silêncio. Acho que faz bem.»
Jorge Assunção: «Sou absolutamente contra qualquer tipo de quota.»
Eu: «Vital Moreira é um entusiasta declarado do Tratado de Lisboa, Paulo Rangel também. Vital Moreira acha normalíssimo que o PS tenha violado a promessa eleitoral de referendar o Tratado Constitucional (de que o de Lisboa é um óbvio sucedâneo), Paulo Rangel faz como ele. O PS aplaude a entrada da Turquia na União Europeia, embora sem explicar aos portugueses quanto nos custaria essa adesão, e o PSD também aplaude.»

INICIATIVA LIBERAL: TRÊS PROPOSTAS
Do programa eleitoral, Liberdade, Tolerância e Prosperidade
«Terra ou terra?
A terra tem coisas boas. O meu irmão comia terra. Falta de ferro – opinou o pediatra que também era meu tio.
Eu preferi bosta de vaca, quentinha, acabada de fazer. Saí largado para casa e trouxe uma colher. Sentei-me no chão, bosta entre as pernas abertas e comi à colherada até que a Luzia, cozinheira da casa, me pegou ao colo horrorizada.
Há gostos para tudo. Talvez a comida aquecida fosse da minha preferência e, sobretudo, não arranhava os dentes.
Sabemos que a dieta tem consequências futuras. Tenho 1,80 m e o meu irmão ficou-se pelos 1,65. Prova que merda de vaca é melhor que terra crua.
E mesmo quanto à Terra, sou geólogo porque sempre me fascinaram os minerais e os cristais. E depois as falhas, as dobras e até o cavalgamento que o Canadá resolveu fazer à Península Ibérica. Fascinante!
Arrastou consigo os sedimentos que estavam no fundo do mar. Foram mesmo buldeziriados, dobrados, esticados e acamados numa série com centenas de metros de histórias para contar.
Esta é a Grande História de Portugal. Os sedimentos, assim esmagados e comprimidos transformaram-se em xisto. E nesse xisto, que consegue reter água mesmo em períodos de seca grave, se produziu o milagre do Vinho do Porto.
Quanto ao meu irmão, ficou-se pelo curso de História. Do Vinho do Porto apenas sabe uma coisinhas do Marquês de Pombal e da chegada dos ingleses para o comercializar.
Fica para sempre o civismo e simpatia dos portuenses, mesmo com palavrões à mistura. Talvez tenham sido os ingleses a tornar única esta cidade que não é nem parece mediterrânica. É atlântica. Adoro-a e não sou de lá.»
Do nosso leitor José Carlos Menezes. A propósito deste meu texto.

TEMPOS DE ANTENA: ALGUMAS FRASES
«Queremos dizer "não" a todas as visões nacionalistas, xenófobas, racistas, sexistas, especistas, homofóbicas e transfóbicas.»
André Silva, deputado do PAN
«Chega desta miséria humana política em que nos encontramos.»
André Ventura, cabeça de lista da coligação Basta
«Vamos derrotar a política do ódio.»
António Capelo, actor e mandatário nacional do BE, em voz off
«Sois vós, jovens de Portugal, que tereis de denunciar e derrubar os novos bezerros de ouro com que praticamente todos os governos e todos os partidos políticos parlamentares têm enganado as gerações actuais.»
António Marinho e Pinto, cabeça de lista do Partido Democrático Republicano
«A dignidade do ser humano é inviolável e deve ser respeitada e protegida.»
Dario Fonseca, candidato do Partido Unido dos Reformados e Pensionistas
«Alguns dirão que sou demasiado jovem. Todavia, considero que a idade me proporciona uma outra visão e sentido prático de contribuir para a resolução dos problemas.»
Gonçalo Madaleno, cabeça de lista do Partido Trabalhista Português
«Procurem descobrir as diferenças entre PS, PSD e CDS.»
Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP
«Para nós, não há géneros. Há meninos e meninas. E há sexos.»
João Patrocínio, candidato do PNR
«Estamos presos a um euro que nos empobrece ano após ano.»
José Preto, advogado e candidato independente na lista do MRPP
«O CDS é a única escolha possível para quem é de direita em Portugal.»
Nuno Melo, cabeça de lista do CDS
«Vamos pugnar por uma Europa e um Portugal mais transparentes.»
Paulo de Morais, cabeça de lista do Nós, Cidadãos
«Queremos melhor Europa e mais Portugal.»
Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD
«Propomos uma eleição nacional feita por voto electrónico.»
Paulo Sande, cabeça de lista da Aliança
«É incrível. Se nós conseguirmos que estes filhos do nosso país regressem [a Portugal], já ganhámos.»
Pedro Marques, cabeça de lista do PS
«A Europa precisa de um 25 de Abril.»
Rui Tavares, cabeça de lista do Livre
«Nós fizemos uma revolução neste país para acabar com o fascismo. Eles querem ressurgir a tortura, a prisão, o DELITO DE OPINIÃO.»
Vasco Santos, assistente operacional no Hospital de Barcelos e cabeça de lista do Movimento Alternativa Socialista
«É hora de liberalizar. Olha que vais gostar.»
Voz off, cantando, no tempo de antena da Iniciativa Liberal

As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís
Prefácio de António Barreto
Romance
(reedição Relógio d' Água, 3.ª ed, 2019)