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domingo, setembro 11, 2016

microleituras

Expulso da universidade pela repressão do salazarismo, antes de exilar-se no Brasil -- onde foi professor do bom embaixador José Aparecido de Oliveira, o pai da transviada CPLP --, Agostinho da Silva promoveu a edição de de livros e folhetos de difusão de um vastíssimo saber. Uma dessas iniciativas foi esta colecção «Antologia -- Introdução aos Grandes Autores», pouco mais do que folhetos na sua dimensão física, de periodicidade quinzenal, e cujo número avulso custava 1$20...
Fénelon (1651-1715 -- cuja ano de nascimento é o mesmo do nosso grande diplomata, historiador e memorialista José da Cunha Brochado), bispo de Cambrai, foi uma das mais notáveis figuras da Igreja no período barroco, numa França ainda exangue das Guerras de Religião e da Fronda. Ele próprio não fica imune à complicada heterodoxia religiosa do tempo, jansenismo, quietismo, tendo abraçado este último desvio, e posteriormente forçado a retractar-se, sendo desterrado por Luís XIV.
Deste Diálogo dos Mortos (1712), colóquios de ética política, dir-se-ia que ad usum delphini, em que são convocadas figuras mitológicas e históricas da Antiguidade, sobressai o escopo de de exaltação do bom governo do soberano, limitado pela lei e pelo bem-comum, ao arrepio do qual todo o poder se torna injusto, redundando em tirania. Muito apropriado nesses anos de chumbo em que Agostinho da Silva, idealisticamente, exercia a sua pedagogia.

primeiro diálogo:

«REMO -- Eis-te, enfim, meu irmão, no mesmo estado em que me encontro; para isto, não valia a pena teres-me matado. Acabaram os poucos anos em que reinaste; deles nada resta: e muito melhor os terias passado se tivesses vivido em paz, se comigo tivesses partilhado o poder.
RÓMULO -- Se tivesse tido essa moderação, não teria fundado a poderosa cidade que estabeleci, nem feito as conquistas que me imortalizaram.»

sexta-feira, março 18, 2016

uma carta de José da Cunha Brochado

Das Cartas editadas por António Álvaro Dória, em 1944. Missiva a desconhecido, estava então Brochado em Paris, como secretário do embaixador, o 2.º Marquês de Cascais, D. Álvaro Pires de Castro. Muito reveladora da assertividade do diplomata a apreciação sobre a comédia humana em Versalhes, comparando-a com a  da corte de D. Pedro II, tentando consolar um nobre saudoso do fausto  tornado distante -- dum modo que a este não deixaria de ser lisonjeiro --, chegando a ser divertido o modo como procura menorizar a corte de Luís XIV. Fá-lo Brochado por lisonja? Provavelmente não, que ele, muito sério e competente, também não era bom de se assoar; antes por deferência devida -- e porventura sincera -- a quem lhe estava, por estado e condição, acima na pirâmide social, como era de uso na estratificação da época.

(ler aqui)


quarta-feira, julho 02, 2014

um embaixador pelintra

Após a Revolução de 1688, em Inglaterra, D. Pedro II incumbiu o Conde de Pontével de acompanhar o regresso a Portugal da viúva de Carlos II, Catarina de Bragança, sua irmã, tendo para o efeito obsequiado D. Nuno da Cunha de Ataíde com generosas "ajudas de custo".
Chegado a França, este foi confrontado com a impossibilidade do regresso imediato de D. Catarina, pelo que ficou por Paris, aguardando por instruções.
José da Cunha Brochado conta ser a avareza de Pontével de tal forma exacerbada, que o comportamento do aristocrata -- recorde-se, embaixador do rei de Portugal -- envergonhava, por, em tudo, do alojamento ao modo como se fazia deslocar, ser indigno dessa condição. Não esqueçamos, também, que estamos em plena corte de Luís XIV, o Rei-Sol, na qual se codificou a etiqueta -- que era muito mais do que um regulamento de boas maneiras --; e que as atitudes impróprias de um representante do Pacífico, comprometiam o estatuto do país e do seu soberano.
Brochado termina este apontamento "calando mil outras indignidades", informando que o conde aproveita boleia no navio para Lisboa do recém-nomeado embaixador de França em Portugal, que tudo tentou para eximir-se ao frete, sem sucesso, lançando aquele mão dos "mais infames meios" para ser bem sucedido, acabando por sujeitar-se "a vir mal acomodado, e de uma maneira indecente ao seu carácter." (isto é, categoria).

Início: «Resolvendo a Rainha D. Catarina voltar para Portugal depois da última revolução de Inglaterra mandou El-Rei o Conde de Pontével para a conduzir em qualidade de Embaixador a quem deu grossas ajudas de custo.»

Um parágrafo: «Sendo Paris uma Corte em que todo o mundo anda em carroça, ele andava a pé sem nenhuma autoridade, imaginando que em levar diante de si os seus Gentis-homens mal vestidos, tinha a equipagem que lhe bastava; e sendo advertido que devia alugar uma carroça, respondeu muito deveras que queria fazer exercício, como se este se fizesse andando atropelado pelas ruas, e fossem para isso piores os passeios, e os jardins públicos.»

Memórias de José da Cunha Brochado, edição de Mendes dos Remédios [1909], fac-símile, Cascais, Câmara Municipal, 1996, pp. 1-4. 

quinta-feira, novembro 02, 2006



Com Lost in Transaltion, Sofia Coppola já me dera um dos grande filmes dos últimos anos. Marie Antoinette, que vi ontem, ficará como um dos filmes mais impressivos que guardarei na memória.
Kirsten Dunst está admirável, não repisarei mais o que já outros disseram; ela é a Maria Antonieta que gostávamos tivesse de facto existido.
A atenção da realizadora aos pormenores de conforto e luxo é primorosa e um dos aspectos mais bem conseguidos do filme: do mobiliário e da indumentária às iguarias, desembocando nos ceremoniais e nas festividades, tudo concorrendo para dar de Versalhes o brilho da corte de «grande estrondo» -- nas palavras do diplomata português José da Cunha Brochado, que representara o nosso país junto de Luís XIV.
Gostei particularmente da abordagem de Sofia Coppola ao cerimonial de corte, divertidíssima -- embora, ao contrário do que se possa pensar, todas aquelas regras de precedência de que se compunham as normas de etiqueta fossem mais do que um mecanismo sofisticado dum expediente de futilidade. Antes se tratava de uma construção ideológica de que a coroa francesa lançou mão para controlar a nobreza que, noutros momentos da história de França exacerbara o seu poder à custa da fraqueza do poder real. O que sobressai, contudo, é a acumulação de tensões provocada pelos estritos preceitos comportamentais que não deixam ninguém incólume, nem o próprio rei -- como se verifica nos episódios protagonizados pela du Barry, amante de Luís XV, cuja aceitação nem ela nem o soberano conseguem lograr.
Uma palavra ainda para a transgressão de Sofia Coppola, que traz o selo dos criadores de raça: uma banda sonora que mistura Vivaldi e os Strokes, exemplarmente. (O mesmo sucede com os cartazes, cujo grafismo remete irresistivelmente para o Never Mind the Bollocks, dos Sex Pistols.)
E um pormenor: só reconheci Marianne Faithfull (a imperatriz Maria Teresa de Áustria) pela voz...
Li algures que, ainda no outro dia rodado, Marie Antoinette já é um filme de culto. Não tenho a esse respeito muitas dúvidas.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Stella splendens

Devo a Jordi Savall alguns dos momentos de mais intenso prazer estético de toda a minha vida. Não me posso esquecer de que o primeiro contacto que tive com a música de Jean-Baptiste Lully, o compositor de Luís XIV, se deu através do seu ensemble Le Concert des Nations. Neste preciso momento estou a ouvir a voz etérea de Montserrat Figueras entoando Maria Matrem, composição do Llibre Vermell de Montserrat, manuscrito da abadia medieval catalã do mesmo nome. E volto a face do LP desta outra formação célebre de Savall, o Hespèrion XX, e ouço o tutti em Stella splendens, com a abertura do alaudista Hopkinson Smith, seguida dos sopros e das percussões. Quão humana, meu deus, é esta música celestial...