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quinta-feira, janeiro 17, 2013

BD e Eças de Campos Matos (lista de compras)

Fun Home, de Alison Bechdel (Contraponto). Adoro a bd auto-referencial, desde o Robert Crumb, passando pelo grande Art Spiegelman até à princesa Marjane Satrapi (e estou em ânsia para ler o Cyril Pedrosa). Por isso há anos acompanho o blogue de Marco Mendes. Este parece bom.

Eça de Queiroz. Silêncios, Sombras e Ocultações (Colibri) e Sexo e Sensualidade em Eça de Queiroz (ed. do Autor), de A. Campos Matos. Se é de Campos Matos, não há palha nesta queirosiana -- o que nem sempre se pode dizer acerca desta e doutras Anas. Quanto ao segundo, haverá alguma referência a uma alegada inclinação homoerótica – que certos gays gostam de insinuar, mas que me parece grotesco wishful thinking da sua parte? A ver.

sábado, outubro 14, 2006

Correspondências #63 - Eça de Queirós a Emília de Castro

Brístol, 14 Setembro, 1885
Minha Senhora
Agora que recebi, com que reconhecimento e alegria escuso de o dizer, o consentimento de sua mãe, como tinha recebido o seu, -- creio que posso escrever-lhe directamente. Desejava mesmo fazê-lo intimamente; -- e é à mon coeur défendant que digo ainda minha senhora por um resto de hesitação e de embaraço. Mas a nossa situação é tão original! Há meses apenas, separávamo-nos meros amigos, aparentemente. (Digo aparentemente porque, do meu lado, os meus sentimentos, fosse qual fosse a reserva que eu lhes impunha, não podiam decerto ser definidos por essa grave e regelada palavra amizade). E eis que, quase de repente, e sem transição como nos sonhos, nos encontramos com os nossos destinos ligados um ao outro para sempre! Faltou pois nas nossas relações esse lento desenvolvimento e transformação que faz com que se passe insensivelmente das formas de simples simpatia às formas mais carinhosas da perfeita união de corações. E aí está como eu me acho a dizer-lhe, como outrora -- minha senhora. Creio que nestas circunstâncias originais, o que temos a fazer já é tratar alegremente de briser la glace. E esta carta não tem mesmo outro fim. É como se eu em pessoa me adiantasse para si, com um bocadinho de embaraço naturalmente, e lhe dissesse estendendo-lhe a mão: Bem, está tudo arranjado, conversemos! E Deus sabe o longo, longo desejo que eu tenho de conversar! Estou-me mesmo reprimindo heroicamente para não encher páginas por aí além com as coisas infinitas que tinha a dizer-lhe! Verdadeiramente infinitas, sentimentos, esperanças, perguntas, dúvidas, mil coisas!... Mas, como disse, esta carta é apenas um primeiro encontro -- um desses primeiros encontros, encantadoramente embaraçados, em que o muito que se sente é sobretudo expresso pelo pouco que se diz. Da sua parte espero que venha também um pouco ao meu encontro mandando-me algumas linhas com a pressa que o seu coração lhe pedir. Assim a glace sera toute à fait brisée. E eu mesmo começo, abandonado o cerimonioso minha senhora -- e pedindo-lhe, minha cara amiga, para me dizer todo seu, e para sempre, com a mais perfeita, absoluta afeição.
Queiroz
Correspondência Epistolar
(edição de A. Campos Matos)

sábado, julho 16, 2005

Figuras de estilo #7 - Eça de Queirós

Nesta Quaresma, em Paris, na Madalena, igreja rica de burguesia rica, o ardente pregador dos dominicanos, o padre Didon, exclamava com santa cólera: -- «Quando vejo uma criancinha em farrapos, que chora com fome, odeio, como Jesus, meu amo, e como Ele amaldiçoo todos os repletos e todos os fartos!» E na nave da rica igreja, atulhada de repletos e de fartos, passou um longo frémito, como se, ante os farrapos e os choros da fome evocados, todos os corações concorressem no ódio e na maldição do nobre dominicano! Daí a dias Ravachol lançava a sua segunda bomba. E entre todos os repletos e todos os fartos foi grande o temor e grande a grita... Temor de quê, -- de Ravachol? Não. Temor da emoção que, na Madalena, os impelira a compartilhar a maldição do padre Didon, que, no seu púlpito e sob o seu hábito, era já Ravachol -- menos a irracionalidade e menos a nitroglicerina.
Primeiro de Maio
(edição de A. Campos Matos)