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quarta-feira, março 14, 2018

«Desviou com desagrado a vista do Rapto das Sabinas e lentamente desceu as escadas, procurando no chão o movimento veloz da sombra de uma nuvem.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

«No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

«Era um aldeão: tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

segunda-feira, março 12, 2018

«Nem grande escritor, nem filósofo, nem cientista, mas um desses homens que, embora sem génio criador, souberam perceber qual a orientação dos ventos.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

«Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vertida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à Pompadour, com uma réstia de pedras brancas a enastrar-lhe as tranças.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário (1879)

«As bochechas balofas e trémulas, dilatadas pelo calor do Estio, ressumavam-lhe um suco oleoso, quer descia em regos pelos três rofegos da barba e vinha aderir a camisa às duas grandes esponjas, que formavam os seios cabeludos do nosso amigo atribulado.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)


sexta-feira, maio 05, 2017

começar

Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçado. Augusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa), Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)

segunda-feira, maio 01, 2017

começar

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? talvez não.

em 1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

em 1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

em 1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

em 1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

em 2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

quarta-feira, abril 26, 2017

estante: A CIDADE DAS FLORES (1959)

Compreende-se o entusiasmo dos leitores de 1959, quando se depararam com um romance que retratava um beco sem saída da juventude na Itália de Mussolini, mas que de facto reflectia o sufoco insuportável que experimentavam no Portugal de Salazar.

O romance de estreia de Augusto Abelaira (1926-2003) envelheceu mal, porém. Personagens problemáticas e palavrosas, narrador palavroso e problemático; atmosfera cinzenta, espelho do cinzentismo do país nos anos cinquenta. Portugal deveria ser então irrespirável para os jovens urbanos da classe média. Li-o sem um frémito. 

A modorra anuncia-se desde o incipit«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.»


A angústia existencial é dada, na mesma época, com outra desenvoltura e traquejo por Vergílio Ferreira (é o ano de Aparição, talvez também sobrevalorizado em face de outros, anteriores e posteriores, hei-de pensar nisso), dez anos mais velho. 


O Abelaira ironicamente problematizador e estimulante que conheço das crónicas, literárias («Ao Pé das Letras») e políticas («Escrever na Água»), não me apareceu, ao contrário do sucedido com outro livro seu, lido há muitos anos e a pedir novo encontro: O Bosque Harmonioso (1982). O posfácio à segunda edição, de 1961, é, aliás, exemplo dessa qualidade de Abelaira.

quinta-feira, outubro 08, 2015

turvação

«Tareja deixou então tombar o xaile que lhe cobria os alvos ombros e demorou algum tempo a resguardá-los de novo e isto com tanta graça que os olhos de Afonso se turvaram.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

sábado, março 07, 2015

uma alma desejosa de se corrigir

«-- Fez-vos bem a santa missa de ontem? -- quis saber Tareja.
-- A missa só por si não sei, mas Deus, que nunca abandona quem procura emendar-se, pôs no meu caminho a vossa presença, e ela, sim, deu segurança ao meu ânimo e todo o santo dia conheci pensamentos castos como convém a uma alma desejosa de se corrigir.
Tareja deixou então tombar o xaile que lhe cobria os alvos ombros e demorou algum tempo a resguardá-los de novo e isto com tanta graça que os olhos de Afonso se turvaram.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

sábado, novembro 22, 2014

tenho saudades do Abelaira

«Nem grande escritor, nem filósofo, nem cientista, mas um desses homens que, embora sem génio criador, souberam perceber qual é a orientação dos ventos. Um jornalista de qualidade, diríamos hoje. E, neste sentido, talvez a expressão soube perceber também se revele incorrecta. Não terá percebido nem deixado de perceber. Tanto poderia afirmar que A é B como A não é B. Mas disse que A é B e acertou sem dar por isso porque a História também escolheu que A é B. Se quiserem: atirou uns tiros ao acaso e caiu um pato.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

domingo, junho 22, 2014

muita experiência e muita pimenta

«Vicente Morosa, primo daquele Antunes Melgaço que morreu na defesa de Diu, propôs que contássemos, enquanto a noite passava, alguma coisa do muito que tínhamos visto pelo mundo, e Pedro Costa, um homem de muita experiência e muita pimenta e que se preparava para regressar a Portugal, onde nunca chegaria por não ter sido essa a vontade de Deus, disse que Gil Cabreira, pelo que já lhe ouvira, era o homem indicado para começar.»
Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso [1982]