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quarta-feira, outubro 22, 2014

a responsabilidade do dom

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra (2013). O livro reúne duas intervenções do escultor, reflectindo sobre a Arte em geral, e a sua em particular. E executa-o com grande profundidade e uma solidez de escrita que encarreira ambos os textos para a categoria de obras literárias, que irrefutavelmente (também) são.
Em «A história da minha vida», Chafes concebe um escultor nascido na Francónia medieval do século XIII e que, sem limitações de tempo e de espaço, deambula entre o Norte e o Sul da Europa ao longo de mais de meio milénio, trabalhando e aprendendo com os mestres de cada época -- dos artistas das catedrais  francesas aos pré-românticos alemães. Trata-se de uma autobiografia estética, em que as inquietações e os desígnios de Chafes enquanto artista são equacionados. Como exercício estético, associo-o a Orlando, romance de Virginia Woolf e a A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov.
O segundo texto, «O perfume das buganvíleas» é constituído por 46 fragmentos, cada um susceptível de comentário desenvolvido. Direi apenas que encontro uma marca estóica no encarar, no apreender e no justificar da morte ("A beleza é impossível sem as marcas da morte", p. 40); a consciência do dom e a responsabilidade ética que implica, acompanhada de nostalgia por uma pretensa época dourada, com o inevitável questionamento da desumanização da sociedade mercantilizada que nos coube viver, e em que o consumo se estende à arte. 
Prezo ainda a consequência que é retirada: a do artista (só não escrevo verdadeiro artista porque me lembra o Serafim Saudade) como elemento de resistência e sanidade em face da poluição mercantil que nos condiciona.  

segunda-feira, setembro 29, 2014

RUSSKIY KOVCHEG / A ARCA RUSSA, Aleksandr Sokurov






“ Uma captura de eternidade ("Estamos condenados a viver eternamente" -- voz off final); "os vivos eternos" referidos numa cena de quotidiano na "Galeria dos Flamengos". ”

terça-feira, novembro 19, 2013

O meu LEFFest 2013 #10 - «Alexandra»


Alexandra, de Aleksandr Sokurov (Rússia e França, 2007). «Homenagem -- Aleksandr Sokurov».
Na crónica que mantém na Revista  do Expresso de 9 de Novembro, o esplêndido José Tolentino Mendonça, cuja leitura nunca dispenso, escreveu que «Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser». Neste filme de Sokurov, uma avó vai visitar o neto, um capitão a combater na Tchetchénia, ao acampamento das tropas russas estacionadas naquela província irredentista do Cáucaso. Se a guerra despersonaliza e bestifica, são as mulheres, as avós, que têm de reapresentar esses mancebos angustiados nessa tal arte de ser, de tornar a ser. Não apenas as mulheres e avós russas, mas também as mulheres e as avós tchetchenas, que no filme se encontram no afecto e com poucas palavras para a brutalidade da guerra.

Não me sairá da retina a cena do neto, capitão curtido pelos rigores do combate anti-subversivo, a entrançar o cabelo da avó, como menino que por instantes voltou a ser.