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domingo, setembro 02, 2018

do domínio do milagre

Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa (1956), é um livro miraculoso, daqueles que nos acompanham pela vida fora, por cada linha, cada parágrafo ou página. É uma obra-prima da literatura universal, embora o Mundo que não lê o português o desconheça, posto que virtualmente intraduzível. E talvez o único que, na nossa língua, se confronta com as grandes narrativas dos últimos dois séculos, por exemplo, Guerra e Paz, de Tólstoi, ou Crime e Castigo, de Dostoievski.

terça-feira, novembro 14, 2017

sentir-se bem em sua pele

Garret era um extraordinário bon vivant; nada do que respeitasse aos prazeres da vida lhe era alheio, o que não o inibiu de alcandorar-se em figura de primeira grandeza na vida pública e cultural do seu tempo. O legado político e literário confronta bem com as fraquezas, ou fortalezas -- depende do ponto de vista --, de João Baptista da Silva Leitão. E é isso que o capítulo inicial das Viagens evidencia em cada frase. Atente-se no sumário do capítulo I:
«De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreira do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. -- Lord Byron e um bom charuto. -- Travam-se de razões os íhavos e os bordas-d'água: -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra [1846], Mem Martins, Publicações Europa-América, 1976, p. 9.

Todo o tom é optimista, gozoso e sadio: o prazer da partida, a literatura, a paisagem, a política, mesmo quando adversa, as pessoas, a coloquialidade e a ironia, os pequenos prazeres, o humor -- acima de tudo. O tom de alguém que agarrou a vida com as duas mãos, dela sabendo retirar recompensa estética e sensorial, permitida ou conquistada. É um estilo de alguém que se sente muito bem na sua pele.
 

terça-feira, outubro 10, 2017

um estralejar de cometa (Almeida Garrett)

«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!» O incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega a este ano de 2017.

sexta-feira, setembro 29, 2017

«Os visigodos» (Alexandre Herculano)

«A raça dos visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século.» Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p. 1).
Capítulo inicial, trata-se de um esquisso de enquadramento histórico (político e mental) da Ibéria, às vésperas da invasão muçulmano, tendo como epígrafe um passagem da Crónica do Monge de Silos, escrita no século XII: «A um tempo toda a raça goda, soltas as rédeas do governo, começou a inclinar o ânimo para a lascívia e soberba.». Pano de fundo sobre o qual se desenrolará acção romanesca, o seu mais curto parágrafo exibe o tom:
«Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas  eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.» (p. 3).

quinta-feira, setembro 28, 2017

História e ficção, mentira e verdade (Alexandre Herculano)

Alexandre Herculano procurou nos romances históricos uma abordagem às mentalidades de época que não lhe dava uma heurística que relutava extravasar o dado documental. Debalde procurou suporte que lhe permitisse suprir essa lacuna na sua fundamental História de Portugal (1846-1853); e mesmo para as obras de ficção, a procura de vozes do passado que lhe transmitissem a dolorosa pena do celibato, cuja desumanidade desde a juventude o perturbava, resultou infrutífera, como assinala no prefácio do Eurico:
          «Essa crónica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros, quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média, nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam os sepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges acheia-as vazias.»  Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p.VI).

Fez, assim, apelo à idiossincrasia poética e ao escopo artístico, ciente de que o ficcionista de recursos tem a intuição que faltará ao historiador. A esta, junte-se a ideia supletiva do romancista como alguém que mede a temperatura do tempo, e por isso mais fidedigna a ficção do que obras contemporâneas, propositadamente concebidas para deixar um testemunho à posteridade. Podemos lê-lo num artigo da Panorama, cujo excerto magnífico foi transcrito por Vitorino Nemésio, na apresentação da edição crítica (1944):

«Novela ou História, qual destas duas cousas é a mais verdadeira? Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas. Quando o carácter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo que passa. [...] Porque [os historiadores] recolhem e apuram monumentos que foram levantados ou exarados com o intuito de mentir à posteridade, enquanto a história da alma do homem deduzida lògicamente das suas acções incontestáveis não pode falhar, salvo se a natureza pudesse mentir e contradizer-se, como mentem e se contradizem os monumentos.» 
Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.

quarta-feira, setembro 27, 2017

da solidão no meio dos anjos (Alexandre Herculano)

A questão do celibato dos padres interessa o Herculano (1810-1877) romancista pelo drama que a Igreja, especialmente com o Concílio de Trento (1545-1563), impôs aos seus ministros: o sacrifício «da irremediável solidão da alma» -- assim o escreve na apresentação de Eurico, o Presbítero (1944).
No prefácio, o escritor deplora a misoginia subjacente àquele interdito, vendo a mulher como ideal salvífico e angelical de amor e bondade. O passagem seguinte dá bem a medida dessa idealidade  romântica, em contraste com uma sordidez máscula que macula muito de "nós" (é seu o recurso à englobante primeira pessoa do plural):

«Dai às paixões todo o ardor que puderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afecto e entusiasmo, nos impele a quanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelados nos profundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E porque não seria ela na escala da criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Porque não seria a mulher o intermédio entre o céu e a terra?»

Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], 40.ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, s.d., pp. IV-V.

sexta-feira, junho 30, 2017

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Um Camilo é sempre um Camilo, mesmo quando participa da categoria de literatura alimentar, ou seja, da que o bruxo de Seide lançava mão para, profissional das letras, se sustentar. Por isso, O Judeu será sempre um romance de visita recomendável, também pelas leituras de época, António José da Silva, dito 'o Judeu', Cavaleiro de Oliveira, a quem A. Gonçalves Rodrigues chamou 'o protestante lusitano', ambos ardido no fogo da Santa Inquisição, um em carne e espírito, o outro em efígie.
Emigrantes é um dos textos históricos do romance português do século XX. A ficção mudou com ele. Neste incipit, Ferreira de Castro põe-nos no ponto de observação do protagonista, Manuel da Bouça, esse pobre de espírito que irá acabar mal, o que se perceberá aqui, e confirmará uns romances depois, em A Lã e a Neve (1947). 
O 'Antero' de A Calçada da Glória é uma caricatura, aliás impiedosa, de António Ferro, com quem Tomás Ribeiro Colaço -- um nome com pedigree  nas letras portuguesas -- ajusta contas nesta narrativa terminada em 1940, porém só publicada no exílio brasileiro anos mais tarde. Creio, aliás, que nunca teve edição portuguesa.
1866 - «Há um fenómeno moral, muitas vezes repetido, e todavia inexplicável: é a esquivança desamorosa de mãe a um filho excluído da ternura com que estremece os outros, filhos todos do mesmo abençoado amor e do mesmo pai que ela, em todo o tempo, amara com igual veemência.» Camilo Castelo Branco, O Judeu

1928 - «Preta e branca, preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes

1947 - «Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória

domingo, junho 18, 2017

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Um dos mais justamente célebres começos da novelística portuguesa, em A Queda dum Anjo -- o arrivismo mantém-se; um proto-Ferreira de Castro sem grande interesse em O Drama da Sombra; uma esplêndida ideia com Batalhas do Caia -- remete para o projecto ficcional abortado de Eça de Queirós --, achando, quando o li, ter ficado aquém do propósito ambicioso. Talvez deva relê-lo.

1866 - «Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.» Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo
1926 - «Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.» Ferreira de Castro, O Drama da Sombra
1995 - «E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos, obedecendo à numeração que neles se fixara, baseada num código que me pareceu insolitamente arbitrário.» Mário Cláudio, Batalhas do Caia

domingo, junho 11, 2017

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Camilo não desiludirá, o incipit promete violência e o leitor tê-la-á, num romance histórico, em que , como é bom de ver, não se aprende História, mas se goza o festim da linguagem camiliana. Ferreira de Castro também cumpre o anunciado: três à mesa, quer dizer triálogo, o que significa tensão psicológica, superiormente dada. Já Vasco Branco não promete nem cumpre, num onanismo autocomiserativo insuportável que, infelizmente, distrai de algumas qualidades de estilo (equivalentes aos defeitos) e de uma construção romanesca que poderia ter sido interessante,

1875 - «Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida

1950 - «Encontravam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndulo marcava onze horas menos um quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada

1980 - «Janela aberta sobre o mundo.» Vasco Branco, Os Generosos Delírios da Burguesia

sábado, junho 10, 2017

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Deve dizer-se que o humor de Carlos Ceia já existe, em larga medida e altíssimo grau, cento e cinquenta anos antes no Camilo. Atente-se à advertência aos «Leitores! De hás verdade sobre a Terra, é o tpmace que eu tenho a honra de oferecer às vossas horas de desenfado.» Meio século mais tarde, um miúdo, que viria a ser o escritor Ferreira de Castro, alinhava, em plena Amazónia, o início dum romancinho... verde. Nada mal, na verdade. Aprendera a lição sabichona do bruxo de Seide, crismando o protagonista com a graça de Simão Rafael dos Anjos, procurando também ele cativar os leitores com um aviso nas capas dos fascículos que mandava imprimir em Belém do Pará, que vendia de porta em porta: «Sensacional romance -- expurgado de phantasia»...

1854 - «Em 1815, um dos mais abastados mercadores  de panos da Rua das Flores, na cidade do Porto, era o Sr. António José da Silva.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago

1916 - «Num lugar denominado Santo António, pertencente à freguesia de Ossela, moravam dois rapazes que, pela educação que receberam, distinguiam-se dos outros, rudes camponeses.» Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição

2004 - «[2 de Fevereiro de 2003 (Está um dia cinzento.)] Querido Diário, / Se não acertar com a primeira frase do romance, vai-se o leitor embora e fico a sós com as minhas personagens, num delírio de duas centenas de páginas que enterro debaixo da minha imaginação inútil.» Carlos Ceia, O Professor Sentado

sexta-feira, junho 09, 2017

o Prémio Camões, pois claro

Se há obra que faça jus ao Prémio Camões, essa é a que integra dois livros absolutamente históricos, que são literatura e mais do que literatura, constituindo-se como um ponto de situação do país na época que foram escritos. Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), de Manuel Alegre, procedem a uma sondagem de um tempo e de um modo de sentir colectivos. E nessa medida -- por muito que custe àqueles que se comprazem, com uma literatura vagal ou deliquescente (e à frente de toda a gente...) --, nessa medida, aquela poética emula e participa da do próprio Luís de Camões, como de Guerra Junqueiro, António Nobre e Fernando Pessoa.

terça-feira, junho 06, 2017

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O Camilo é o Camilo, e o começo de Eusébio Macário é precioso, pela simplicidade, contrastando com o glit muito anos vinte e desinteressantemente "loucos" de Frias & Castro, mesmo que o romance tenha o seu quê para lá do ouropel, e com o malaise do protagonista de Castilho, aliás um nome seguro. Por isso, viva Camilo.

1879: «Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

1924: «Quem o diria, Berenice?...» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge 

1989: «Se quisesse definir a invisível peste que o acordar me toldava a existência, a palavra seria bruma.» Paulo Castilho, Fora de Horas

domingo, junho 04, 2017

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Quem conhece as três narrativas, sabe que coisas momentosas e formidandas se anunciam. Todas já contidas em cada começo.

1866 - Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
1931 - «Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir
1991 - «"Em nome de Deus, amen.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348

quarta-feira, maio 31, 2017

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Entre o estilo jocoso do Álvaro do Carvalhal e o tom épico de Ana Margarida de Carvalho, a escrita essencial do Raul Brandão, como só ele.

Em tempo: Título preferido: Que Importa (...), um verso de José Afonso.

1866 - «Disse a crítica pela boca de Boileau: / Rien n'est beau que le vraie, / e não tardou que as fábulas, arabescos exóticos e exageros, oriundos principalmente de tempos heróicos, perdessem toda a soberania dantes exercida na ampla esfera das boas-letras.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais

1906 - «Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abala e penetra.» Raul Brandão, Os Pobres

2013 - «Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande.» Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar 

segunda-feira, maio 29, 2017

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 A morte como obsessão, ponto de partida e de chegada. O início de um livro único, o Húmus, de Raul Brandão. Quanto a Em Demanda da Europa, de Filomena Cabral, deveremos preparar-nos para uma dissertação? O mesmo não se dirá, do início de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso: qualquer coisa é expectável. Valerá a pena prosseguir?
O título: todos são bons, mas Húmus, sem artigo, transporta-nos para a essência mesma da obra.

1903: «[13 de Novembro.] Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...» Raul Brandão, Húmus

1997: «Preparemo-nos, descalcemos as sandálias, lavemos o rosto, despojemo-nos, teremos de assistir, de coração limpo, a toda a encenação, participando no final, se estivermos todos de acordo.» Filomena Cabral, Em Demanda da Europa

2012: «Mas na Europa há cerejas.» Dulce Maria Cardoso, O Retorno

sexta-feira, maio 12, 2017

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Qualquer dos três incipit é bom: Abel Botelho  faz com que queiramos saber de imediato de que  justeza se trata; Raul Brandão já nos sobressaltou antes de chegarmos ao segundo ponto de exclamação; por sua vez, Nuno Bragança deixa-nos logo com um sorriso, até porque já se sabe que a forma como ele pega nas palavras nunca mais nos dará descanso até ao fim do livro

1898: «[15 de Fevereiro de 1893.] É justo.» Abel Botelho, O Livro de Alda

1903: «-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!» Raul Brandão, A Farsa

1970: «Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso 

terça-feira, maio 09, 2017

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Fica-se mais fatigado a ler o incipit  de Abel Botelho (aliás, um romance importante) do que o de António Lobo Antunes, uns furos abaixo do livro de estreia. António Alçada Baptista com um livro interessante, por uma vez (comparar este início com os anteriores). O vento de Filomena Marona Beja tresanda a Antiguidade.
O título: O Eléctrico 16.

1901: «-- Essa ceia está pronta? -- perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, tendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.» Abel Botelho, Amanhã

1979: «O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:» António Lobo Antunes, Memória de Elefante

1989: «Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor

2013: «Ali, o vento emprenhava as éguas.» Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16

domingo, maio 07, 2017

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Da deliciosa simplicidade ingénua de Sarah Beirão, de que a narrativa não se desviará, à fábula onírica de Miguel Barbosa, passando pela literatura marie-claire de António Alçada Baptista. Um despojamento directo e seco num grande romance de António Lobo Antunes e, finalmente, aquele «uma velhice tão antiga» que é elemento perturbador e toque de grande arte do livro de Baptista-Bastos. Dos títulos, balanço entre Cão Velho Entre Flores e Auto dos Danados.

1952 [?]: «Vivia-se com muitas dificuldades naquela pequena aldeia da Beira Alta.» Sarah Beirão, Triunfo

1974: «Quem vem do palácio real e desce a calçada vê à direita um carvalho com as raízes expostas e uma velhice tão antiga que nem a Primavera rejuvenesce.» Baptista-Bastos, Cão Velho Entre Flores

1985: «Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados

1988: «Temos dificuldade em compreender nos outros aquilo que não somos capazes de viver.» António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã

2008: «O rio, a árvore e o rouxinol tinham a razão de existir idêntica à do dia arrastado pelas metamorfoses sombrias da noite e pelo vento frio do norte.» Miguel Barbosa, Anatomia de um Sonho

sexta-feira, maio 05, 2017

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Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçado. Augusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa), Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)

segunda-feira, maio 01, 2017

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Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? talvez não.

em 1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

em 1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

em 1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

em 1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

em 2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).