“Ponha-se
no seu
lugar
Um dia, a cidade onde você
mora desde tempos imemoriais
é invadida por seres mais
“civilizados”. À força de armas
poderosas que você jamais viu
ou sonhou, seu povo é expulso.
Quem resistir morre, quem não
resistir morrerá a...

Ponha-se
no seu
lugar

Um dia, a cidade onde você
mora desde tempos imemoriais
é invadida por seres mais
“civilizados”. À força de armas
poderosas que você jamais viu
ou sonhou, seu povo é expulso.
Quem resistir morre, quem não
resistir morrerá a seguir
de doenças desconhecidas, fome
ou tristeza. Outros vagarão.
Dirão que sua música é
bárbara e bárbara a vida —
feliz — que você leva há
milênios! Você trabalhava para
si, passará a trabalhar
para “eles"  — e xingarão os
arredios de vagabundos.
De repente lhe imporão
conceitos revolucionários:
morais, econômicos, do simples
cotidiano etc. Zombarão de suas
crenças, jogarão no lixo tudo
aquilo que fez de você um Homem
digno deste "jardim de Tupã”.
Chamarão a isto de nomes
bonitos como Progresso,
Interesse Nacional, Processo
Civilizatório. Batizarão ruas e
praças públicas com o nome do
povo extinto, em homenagem.
Em Vilhena, ainda não há uma
“Rua Nambiquara”. Mas o índio
já figura na capa da lista
telefônica. Eram 20 mil no
começo do século, estão
reduzidos a 650. Alguém vai
mover uma palha para impedir
o resto do extermínio?

Carelli, Vincent & Milton Severiano. 1980. Mão branca contra o povo cinza : vamos matar este índio? Brasil Debates. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista.

genocídio indígena Rondônia