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quinta-feira, janeiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Depois aproximou-se do soldado ferido deitado no chão, com um dos pés transformado numa bola de massa onde se misturavam o coiro preto da bota, a terra castanha empapada em sangue e donde emergiam tendões brancos desligados dos ossos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Encostando o ombro a uma esquina do velho Teatro Nacional, onde tantas vezes fora aplaudido e ovacionado, pôs-se a ouvir o movimento surdo e enrolado da cidade.» João de Melo, Lugar Caído no Crepúsculo (2014)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

quinta-feira, outubro 04, 2018

«Já todas as paredes estão firmes nos engonços, aprumadas se vêem as colunas sob a cornija percorrida de latinas letras que explicam o nome e o título de Paulo V Borghese e que el-rei há muito tempo deixou de ler, embora sempre os seus olhos se comprazam no número ordinal daquele papa, por via da igualdade do seu próprio.» José Saramago, Memorial do Convento (1982)

«Naquela fornalha do auge da época seca, onde não corria uma aragem, eles e uns mosquitos pequenos que se metiam pelos olhos, pela boca, pelo nariz, como se fossem cegos, pareciam ser os únicos bichos vivos.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«O Tejo, ao fundo, numa pardacenta imobilidade de expectativa.» Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

quinta-feira, julho 19, 2018

«Pela falaceira do "Lagarto" soubemos, porém, que a parte central de Lisboa estava ocupada por densas forças; Chiado abaixo passavam, a todo o momento, camionetas transportando guardas-republicanos e, de quando em quando, descia da Avenida da Liberdade pesado tanque, com atitude de anfíbio cauteloso.» Ferreira de Castro, O Intervalo (póstumo, 1974)

«Com o sol a pino, ardendo por cima das árvores sem folhas, os soldados, atrás uns dos outros, na "bicha de pirilau", viam à sua frente apenas dois ou três homens da companhia de comandos e sentiam os passos dos que os seguiam, afastavam os ramos carregados de espinhos que lhes rasgavam os camuflados e a pele.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«"Há muito mais", disse Austin, "havia um amigo da família que tinha o Rato Mickey tatuado no peito e que pedia ao rapaz para bater na tatuagem, bate com força, com mais força, agora uma esquerda, agora uma direita, mete um crochet, mete um uppercut.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

terça-feira, março 13, 2018

«Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memória do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores doutra mais formosa Primavera...» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«--Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados sob a testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«"Molero detém-se numa tia que lhe comprou um aparelho para endireitar os dentes", continuou ele, "os outros rapazes ainda se riram um pouco por causa disso, um aparelho daqueles estava deslocado no meio ambiente, ali os dentes tortos cresciam em perfeita liberdade."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

domingo, outubro 22, 2017

1147 -- A Conquista de Lisboa na Rota da Segunda Cruzada, de Miguel Gomes Martins (Esfera dos Livros)
Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)
DesAparições, de Alexei Bueno (Exclamação)
A Revolução Russa, de Sheila Fitzpatrick (Tinta-da-China)
A Última Viúva de África, de Carlos Vale Ferraz (Porto Editora)







domingo, maio 17, 2015

parecia estar inteiro

«Lentamente começou a ver as folhas brilharem ao sol, a ouvir um zumbido na cabeça. Tentou mexer os dedos das mãos, dobrou as pernas. Parecia estar inteiro, sentia-se como depois de uma pega de caras: dorido mas completo, quando muito com alguma coisa fora do lugar...
-- Não me dói meu capitão, só tenho é sede.»

Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, novembro 28, 2014

reflexo mil vezes treinado

«Os homens atiraram-se para o chão, um reflexo mil vezes treinado, as G-3 apontadas, os dedos nos gatilhos, as mãos agarradas com força às coronhas, o coração a bater mesmo por debaixo do pescoço, naquele buraco entre as clavículas, a apertar a garganta sem deixar respirar.»

Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, julho 18, 2014

com o lenço verde do regulamento

«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem. Esqueceram os mil pormenores da instrução de comando, as forças não chegavam para tudo, mas a arma, essa ficou ali à mão de semear... Tiraram lentamente as mochilas de cima dos ombros e morderam os lábios com a dor dos músculos dormentes cortados pelas correias de lona. Esfregaram a cara e os cabelos molhados da  transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol.»

Carlos vale Ferraz, Nó Cego (1983)