Machado de Assis – Livros e Flores

Maio 22, 2019 - Leave a Response

 

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

 

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839 – Rio de Janeiro, 29/9/1908)
Poeta, romancista, dramaturgo, contista, tetralogista, jornalista, considerado um dos maiores vultos da literatura brasileira.

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Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (N); (O); (P)

Maio 22, 2019 - Leave a Response

 

N DE NAPUMOCENO

A princípio foi só um nome. Era o meu primeiro livro e quis inventar um nome que não existisse para o personagem. Tal qual aliás para o sobrinho dele, Carlos Araújo. Só depois do livro publicado é que me lembrei que tenho um amigo que se chama Carlos Araújo e um conhecido que é Napumoceno.

A partir daí desisti de me preocupar com os nomes dos personagens.

 

O DE OUVIDOR

Passou a ser o título de um livro meu, antes era uma figura da História de que me apropriei para trazer ao presente a grande decapitação sofrida pela elite da ilha de Santiago sob as ordens do marquês de pombal com vista à afirmação da Companhia de Grão-Pará e Maranhão. (…)

 

P DE PRÉMIO (CAMÕES)

Galardão com que…

Isso seria antes, neste momento é uma honrosa distinção que me foi atribuída e que aceitei com humildade e também muito gosto, ciente no entanto de que muitos outros o mereceriam. Por isso agradeço ao júri ter-se lembrado do meu nome.”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

José Agostinho Baptista – A Fonte

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

O teu anjo antigo guardou as asas no moinho de

vento,

sobre a colina.

O sol aquecia a terra nesse tempo.

Não havia nuvens nem orvalho.

Quase tudo era vermelho.

Quem tinha sede bebia da tua boca porque tu

eras a fonte.

Ao anoitecer,

o anjo regressava às imediações do trigo.

Ainda era setembro.

 

BAPTISTA, José Agostinho, Quatro Luas

 

José Agostinho Baptista (Funchal, 15/8/1948)
Poeta, tradutor, colaborador em diversas publicações.

Luís de Camões – [Enquanto Quis Fortuna…]

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Esperança de algum contentamento,

O gosto de um suave pensamento

Me fez que seus efeitos escrevesse.

 

Porém, temendo Amor que aviso desse

Minha escritura a algum juízo isento,

Escureceu-me o engenho co tormento,

Para que seus enganos não dissesse

 

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos

A diversas vontades! Quando lerdes

Num breve livro casos tão diversos,

 

Verdades puras são e não defeitos;

E sabei que, segundo o amor tiverdes,

Tereis o entendimento de meus versos

 

Luís de Camões (1517 e 1524(?) – Lisboa. 10/6/1580)
O maior poeta português de todos os tempos.

Teixeira de Pascoaes na Voz de Sophia

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

“Teixeira de Pascoaes é um poeta à margem de tudo quanto não seja a própria poesia.

Poucas obras sustentam um confronto com a sua. É uma obra inteiramente colocada em frente da eternidade. (…) A sua poesia é a Poesia – por isso se falou sempre pouco e mal da obra de Pascoaes. (…) Ele próprio diz:

“Meu espírito humano é o corpo da paisagem”

É como se nele a luz, as Primaveras, as árvores e as fontes se tivessem tornado conscientes e se tivessem tornado palavras. (…)

E Pascoaes é profundamente filho dum país mas não é filho de nenhuma época. (…)

Mas o perfume, a essência única da sua poesia é uma flor que floresce no jardim de Pascoaes entre buxos e musgos, cercada de solidão e luz quebrada, tendo ao lado uma fonte (…). Uma flor ao mesmo tempo imortal e secreta. (…)”

Sophia de Mello Breyner Andresen

In Cadernos de Poesia, “Número Dedicado a Teixeira de Pascoaes

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877- Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

Al Berto – Mektoub

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

 

a luminosidade é uma placa de zinco suspensa

do céu do deserto

 

em redor

a imensidão das areias vibra contra o caos

de pedra e de eufórbios que se multiplicam

a perder de vista

 

o bafo inquieto dos cavalos acende

a pólvora das festas inesperadas

 

uma coruja morre

no cimo açucarado da tamareira

 

caminhas

sitiada pelo canto agudo do muezzin

chamando à oração

 

mektoub

 

sítios onde a vida cessou e tudo está escrito

há séculos – onde o coração dos homens

é uma rosa nómada e calcária

 

no limite da escassa água e desta terra seca

mal abençoada – caminhas

na plana noite das ardósias

nas jeiras de súplicas e recolhimento onde

talvez se esconda

o contorno quase terno do rosto de deus

 

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948 – Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Mário Rui de Oliveira – Um Amigo

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

Num daqueles dias de outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história.

“Salva-me a vida, conta-me uma história”.

E eu recordei aquela mulher das Mil e Uma Noites, que encandeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.

Um amigo é uma história que nos salva.

 

OLIVEIRA, Mário Rui, O Vento da Noite

 

Mário Rui de Oliveira (Joane, Vila Nova de Famalicão, Abril de 1973)
Poeta, Padre, doutorado em Direito Canónico e Jurisprudência.

Mário Cesariny – Movimento

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

movimento de alma

silêncio, emoção

de doçura meia,

essa tua palma

sobre a minha mão

o que tem que eu leia?

 

para lá da floresta

onde as coisas são

sem minha licença,

mais linear que esta

confusa razão

da tua presença

 

não há outro sim

que não tem dizer

e é mais movimento

qualquer coisa assim

como um tempo sem fim

como um espaço sem tempo

 

CASARINY, Mário, Manual de Prestidigitação

 

Mário Cesariny (Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.

Lopes Morgado – ARCO-ÍRIS

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

Há muitas cores. Sabias.

Há coisas, dias, pessoas

De muitas cores. Sabias?

 

Há vidas com muitos dias

E muitos dias sem vida.

 

Sim, senhor. Também sabias.

 

Para que escolhas as cores

Das pessoas e das coisas

Que preencham os teus dias,

Aqui vai este arco-íris.

 

MORGADO, Lopes, MULHER MÃE

 

Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – , professor, escritor, poeta, jornalista.

Atalívio Rito (Padre Atalívio) – [- Qual É a Tua Vocação Ó Árvore?]

Maio 20, 2019 - Leave a Response

 

– Qual é a tua vocação ó árvore?

– É ser árvore.

– E que é ser árvore?

– É deixar que o meu Criador

seja, em mim, da maneira que quiser.

Quando bailam os meus ramos com o vento,

é o meu Criador que baila em mim.

Quando enfloresço

é o meu Criador quem floresce em mim,

colorida e delicadamente.

– Quando eu frutifico

é o meu Criador quem frutifica e é feliz,

servindo os homens,

com os bons frutos que Ele dá por mim.

– Gostarias de ser outra coisa?

– Não!

– Porque não?

– Porque então não seria árvore

e o meu Criador não bailaria com o vento,

não floresceria,

não frutificaria.

nem faria felizes os homens com os meus frutos.

Se as árvores fossem outra coisa

quem seria árvore?

 

In Para Alvalade, Com Amor

 

Atalívio José Rito (Alvalade do Sado, 28/7/1948)
Escritor, colaborador em diversas publicações, sacerdote.