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terça-feira, fevereiro 19, 2019

vozes da biblioteca

«A mesma expressão apavorada, mas agora baça e fria, abria-lhe os olhos para o tecto.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Ali estava no que dava uma vida daquelas: Lourenção, o senhor das terras, dos poisios e da gente do Covão, morto a cacete como um cachorro danado!» Carlos de Oliveira, Alcateia (1944)

«Fascinados pela presença do lugre, partir, não interessava de que modo, eis o último recurso a que poderiam deitar mão.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

sábado, outubro 13, 2018

«"Bem", disse Austin, "tinham vindo do Museu de Arte Moderna, onde viram os seus Matisse e os seus Miró, acabaram por encontrar-se no Louvre, diante de um quadro neutro, talvez a inevitável Gioconda, Molero diz que vastas multidões de peregrinos solitários se encontram, a dois, diante da tela da Gioconda, cedendo ao apelo publicitário do mais enigmático de todos os sorrisos, bem, conheceram-se no Louvre".» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Ervas, rebentos, raízes, tudo sumido na voragem da sede e do calor.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou.lhe cama; só não lhe dou moça."» Machado de Assis, D. Casmuurro (1901)

domingo, junho 10, 2018

«Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze.» Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966)

De ponta a ponta, um pesadelo perpassava pelas aldeias e casalejos galgando pela amarelidão da terra nua e requeimada.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida.» Raul Brandão, Húmus (1917)

quinta-feira, maio 24, 2018

«Toda a gente foi domingo / alguma vez.» A. M. Pires Cabral, «Degradação», Arado (2009)*

«Têm as mão brancas de sal / E os ombro vermelhos de sol.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Os navegadores», Mar Novo (1958)**

«Nas ondas sozinhas / Nem um navegante / Nem aves marinhas...» António Pedro, «Canção dum mar ao largo», Ledo Encanto (1927)***

* Resumo -- A Poesia em 2009 (edição de José Alberto oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, 2010)
** Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa (ed. Ana Hatherly, 1960)
*** No Reino de Caliban I (ed. Manuel Ferreira, 1977)

sexta-feira, abril 06, 2018

«Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«Mal sentem esse cheiro a terra que todos os anos desce dos contrafortes dos Gates e percorre o mesmo caminho dos rios e das pequenas cordilheiras até chegar às planícies mais baixas, os búfalos sabem que novamente a terra os espera.» Orlando da Costa, O Signo da Ira (1962)

«Já o passado fica muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho teima lá no fundo...» Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore (1926)

segunda-feira, abril 13, 2015

um sopro na alma

«O veleiro a largar a ilha e já todos se deixavam contagiar dum vento de afago que, de mansinho, lhes soprava na alma.»

Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

segunda-feira, janeiro 05, 2015

partir, não interessava de que modo

«Nem um arredou pé. Fascinados pela presença do lugre, partir, não interessava de que modo, eis o último recurso a que poderiam deitar mão. Para os famintos, São Vicente era a terra sonhada. E o Senhor das Areias, velho amigo do Arquipélago, o mensageiro da vida. Iam então deixá-lo perder, ali, tão juntinho a eles, a sorrir-lhes de esperança?»

Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

segunda-feira, julho 14, 2014

mandado por Deus

«Era o veleiro mandado por Deus Nosso Senhor. Que levaria aquele povo à outra ilha distante e abençoada onde todos encontrariam abrigo e protecção. Lá não havia fome. Lá a catchupa chegava para os mais necessitados e perseguidos pela estiagem. Gente, São Vicente tinha Porto Grande, tinha navios de todas as partes do mundo trazendo trabalho e comida. Soncente tinha tropa que enchia a barriga a todos nós.»

Manuel Ferreira, Hora di Bai [1962]

terça-feira, agosto 06, 2013

Manuel Ferreira: "as bocas famintas, senhor"

Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar. 

início de Hora de Bai (1962), de Manuel Ferreira

sábado, junho 04, 2011

Antologia Improvável #474 - Francisco de Sousa Neves

ODE À ÁFRICA

Eu sei das matas onde o pé humano
É como um espanto para a terra nunca semeada
E sei dos bosques sagrados onde o latim
Jamais penetra para dar um nome às árvores.
Esta é a terra prometida à derradeira
Estação dos deuses no nosso planeta
Terra do início da era da máquina
Ainda fresca do húmido sopro da criação
Com rios e afluentes da palavra fácil
E nervação abertamente fecunda.
Floresce o raciocínio como um olfacto
Mais apurado a expensas do instinto
Esbanjam os espaços seu pródigo rasgo
No grito sem luxo das orquídeas selvagens
Talvez de novo as palavras eu desperte
Limpas de barro e enxutas de antigo.
Meu passo busca não a ária dos pastores
Com poemas ao bom-senso dos rouxinóis
Mas esta luz lançada como um harpão
À misteriosa substância do futuro.
Minha poesia é aqui: onde o espaço
Ainda não se cansou do rosto humano
Onde as palavras antes da moeda inventada
São a permuta da água pelo ouro.

No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)

sexta-feira, março 25, 2011

Antologia Improvável #466 - Marcelino dos Santos

A TERRA TREME

IV

A terra toda tremendo
na primeira explosão

os homens
sentindo o mundo fechar-se

correndo
buscando o sol

e não encontrando senão
a Companhia

corvo enorme lançando sua sombra

cobrindo o sol com suas asas

na voz repetindo

Continuem
É necessário continuar
É necessário
regressar ao fundo da mina

Depois

Outra explosão

Os homens correndo
a terra tremendo

Os homens caindo
nas galerias a desmoronar-se
os corpos torcendo-se
nos gases e nas pedras de carvão

esperanças
de um mundo onde viver
perdidas na poeira da mina

Homens morrendo

Homens negros

No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Antologia Improvável #463 - José Craveirinha (5)

PRIMAVERA DE BALAS

Agarro
Na minha última humilhação
E sem ir embora da minha terra
Emigro para o Norte de moçambique
Com uma primavera de balas ao ombro.

E lá
No Norte almoço raízes
Bebo restos de chuva onde bebem os bichos
No descanso em vez da minha primavera de balas
Pego no cabo da minha primavera de milhos
e faço machamba ou se for preciso
Rastejar sobre os cotovelos
E os joelhos 
Rastejo.

Depois

Escondido em posição no meio do mato
Com a minha primavera de balas apontada
Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão
As mais vermelhas flores florindo
O duro preço da nossa bela
Liberdade reconquistada
Aos tiros!

in No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)