Estamos a uma semana das eleições europeias. Os portugueses passam
por elas como se não existissem. É possível que a abstenção no próximo domingo
ainda seja maior que em 2014 (66,2%). Não é que a União Europeia seja vista
negativamente pelos portugueses. Ainda não surgiu por cá nenhum movimento
eurocéptico. Os eurocépticos portugueses residem, fundamentalmente, no PCP e,
como se tem visto nestes últimos quatro anos, convivem pacífica e ordeiramente,
senão com secreta e inconfessada aprovação, com a União Europeia e com o
próprio Euro. No entanto, a política europeia – com o impacto que tem sobre o
país – deixa os portugueses indiferentes. Esqueceram-se uns, e não sabem
outros, o que era Portugal antes de ter entrado para a CEE, hoje União Europeia.
Se tivessem um vislumbre do que era o país na altura – ou o que virá a ser se a
União acabar – iriam em massa votar.
Kyrie Eleison
domingo, 19 de maio de 2019
sexta-feira, 17 de maio de 2019
Beatitudes 8. Da memória
Pere Ysern Alié, Cuevas del Drac. Mallorca, 1925
O silêncio da gruta atiça os cães da memória e eles soltam-se, mergulham na paisagem, fazem ecoar na pedra das paredes os latidos de um medo ancestral. Depois, aos abrirem-se os olhos, o coração apazigua-se, uma sílaba solta-se dos lábios e o terror gravado no fundo do coração dissolve-se na luz crepuscular do presente.
domingo, 12 de maio de 2019
Crise, Professores, Brexit e Venezuela
1. CRISE POLÍTICA.
A questão da contagem do tempo de serviço congelado dos professores foi uma
bênção caída do céu para os socialistas. Deu-lhes oportunidade de se mostrarem
responsáveis, e mostrou uma oposição de direita desorientada, perdida entre o
eleitoralismo puro e duro e, quando confrontada com a reacção de António Costa,
em recuo humilhante perante a opinião pública. Com as tomadas de posição
conhecidas do CDS, PSD, PCP e BE parece que a crise está resolvida. O governo
consegue infligir uma derrota total às pretensões dos professores. Isso dará,
caso o governo não cometa erros graves, muitos votos ao Partido Socialista.
2. A POSIÇÃO DOS
PROFESSORES. Entre a imagem que os professores têm de si e da sua profissão
e aquela que os outros têm vai uma grande distância. As elites (políticas,
económicas, universitárias e sociais) desprezam os professores do ensino não
superior. A plebe democrática varia entre o ódio ostensivo e o ressentimento
surdo. Basta visitar as redes sociais. A longa conflitualidade em que os
professores estão envolvidos não ajuda a sua imagem. No entanto, o problema
está noutro lado. Para as elites, a grande maioria dos alunos que frequentam o
ensino público é descartável e a sua educação demasiado cara. Precisam que eles
estejam na escola entretidos na socialização, mas para isso não é necessário
pagar o que se paga a técnicos especializados (professores) no saber
disciplinar. Quem não acreditar vá estudar as reformas educativas do actual governo.
3. BREXIT. A
saída do Reino Unido da União Europeia está uma salganhada tal que já se fala,
com alguma viabilidade, de um segundo referendo. Por norma, vitupera-se a
irresponsabilidade de David Cameron, a impotência de Teresa May, a duplicidade
de Jeremy Corbyn ou a malvadez dos brexiteers.
Talvez, também aqui, o problema esteja noutro lado, esteja no instituto do
referendo. Como é que uma matéria tão complexa se pode resolver com uma
pergunta com apenas duas respostas? Uma coisa pode-se aprender com o que se
passa no Reino Unido: há que moderar o entusiasmo com os referendos.
4. O AZAR VENEZUELANO.
O azar da Venezuela é ter petróleo. Isso incendeia a imaginação dos
reformadores sociais e abre o apetite às potências deste mundo. O chavismo não passou de um delírio ateado
pelo petróleo. Hoje está na mão dos interesses russos e, possivelmente,
chineses. A oposição, por seu lado, não é melhor. Dividida e dobrada aos
interesses norte-americanos, cujo embargo está a deixar o país na miséria, tem
muito menos apoio popular do que as televisões querem fazer crer. Ter petróleo,
um azar dos diabos.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
sábado, 11 de maio de 2019
Villa Cardillio 23. A medida
Wall painting from Room H of the Villa of P. Fannius Synistor at Boscoreale, ca 50-40 B.C.
23. A medida
Falavas
do vento à sombra roubado,
essas
canções de água rente à luz,
perdidos
esses murmúrios de pedra
nas
areias movediças do que passou.
No
átrio, transportavas a vara verde
com
que mediu, o velho agrimensor,
a
sombra do sol, o júbilo dos juncos,
o
salgado do ardor na toca da noite.
1979
sexta-feira, 10 de maio de 2019
A vitória de António Costa
Carlos de Haes, Paisaje con ruinas, 1871
Deu-se hoje o desenlace do drama da recuperação do tempo de
serviços dos professores. António Costa e o governo saem completamente
vitoriosos. Destroçaram a oposição de direita, obrigaram os seus aliados
parlamentares a ajoelhar e recolheram uma enorme propaganda nacional e
internacional. Pelo chão deixaram, para gáudio da plebe que agora vitoria os
vencedores, um corpo docente moribundo, ajoujado a uma derrota humilhante, massacrado pela opinião publicada e afrontado pela opinião pública.
António Costa não agiu por ódio aos professores, como muitos
destes pensam, e não agiu apenas por questões orçamentais e cálculo
político, embora também o tivesse feito. Agiu de acordo com a convicção que
existe nos partidos do arco da governação sobre o papel da educação pública nas
sociedades actuais. Os alunos que existem na escola pública contam pouco e não
se justifica aquilo que custam em ordenados dos professores. O ataque não foi
contra os professores, como estes pensam. Foi contra os alunos que precisam do
ensino público. Se os professores não acreditam, então estudem os célebres
decretos-lei 54 e 55, ambos de 2018. A ideia de uma educação pública de grande qualidade não passa de uma velha ruína.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Beatitudes 7. A obscuridade
Brett Weston, Bamboo Forest, Japan, 1970
A obscuridade cresce na floresta, expande-se, em passos lentos, trazendo no ventre vazio o vento da noite, quando os pássaros cessam o canto e os homens, de coração vacilante, entregam o corpo à inocência do sono.
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Ensaio sobre a luz (60)
Benvenuto Benvenuti, La luce sorge dalla Verna, 1943
A luz irrompe por detrás da montanha. Eleva-se silenciosa e ronronante, cintila ao anunciar-se para que os olhos se resguardem e os corações moderem a exaltação. O dia desliza no seu carro triunfal, enquanto as trevas se resguardam nas sombrias cavernas da terra.
terça-feira, 7 de maio de 2019
Villa Cardillio 22. Uma sílaba
Women, Pompeii
22. Uma sílaba
No
pórtico, a poeira
levita
luminosa.
Canta
devagar
a
luz do teu nome.
Uma
sílaba abre-se,
cobre
o coração,
desenha
na memória
a
aurora do amor.
Pego
num copo
e
bebo o vinho
da
ruína esquecido
no
casco da solidão.
1979
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Beatitudes 6. Moinhos de água
Léonard Misonne, By the Watermill, 1900s
Imaginar, primeiro, o sussurrar das águas no leito do rio. Depois, a sua passagem turbulenta, o mover dos rodízios e o esmagar do cereal pelo peso da pedra. Um grito abre o portal do passado e, por instantes, avista-se a vida tranquila e as águas livres, em correria desenfreada, à procura da foz. Não há perfeição maior que a do passado que o crepúsculo, indiferente aos nossos desejos, nos deixa idealizar.
domingo, 5 de maio de 2019
Heinrich Böll, E não disse nem mais uma palavra
Escrito em 1953, E não
disse nem mais uma palavra é apontado como um romance central na obra do
Nobel alemão Heinrich Böll. Em Portugal foi presumivelmente publicado em 1960
pela Editorial Aster, com tradução de Maria Teresa e João Carlos Beckert
d'Assumpção. A narrativa concentra-se em dois dias, num fim-de-semana, numa
cidade alemã, nunca identificada, onde decorre, com exuberância e alvoroço, um estranho
congresso de droguistas. Aparentemente, este congresso nada tem a ver com o
enredo central, o qual gira à volta do casal Fred e Käte Bogner. No entanto, o
omnipresente imperativo publicitário “CONFIA NO TEU DROGUISTA!” estabelece, de
modo irónico, o problema da confiança como horizonte onde se desenrola o drama
humano daquele casal.
Os dois dias em que decorre a acção do romance situam-se no
pós-guerra, numa Alemanha devastada pelos bombardeamentos e, ainda mais, por
uma derrota militar, que foi também a derrota de uma ideologia total que
conferia um sentido e um destino históricos aos alemães, e que estes, na sua generalidade,
não deixaram de abraçar seja por acção, comprometendo-se com o nazismo, seja
por omissão de resistência. A devastação das estruturas físicas necessárias à
vida, a derrota militar humilhante e a perda do sentido para a existência só
poderiam conduzir a um abalo desse sentimento que funciona como um cimento que
une as comunidades, a confiança. Como se poderá sentir um povo derrotado que
acreditou na retórica da raça superior?
Fred e Käte são um casal separado com três filhos e,
provavelmente, a caminho de um quarto. Apesar da separação, continuam a
encontrar-se em hotéis miseráveis. Ele entrega-lhe praticamente tudo o que
ganha. Dorme onde calha e vive de expedientes e empréstimos. Tem fama de alcoólico,
embora raramente se embebede. Ela vive obcecada pela limpeza da parte de casa
em que vive. O que Böll mostra de forma crua é os interstícios de uma vida
marcada pela pobreza e a falta de esperança. Foi a pobreza que se imiscuiu na
vida daquelas pessoas, que não apenas lhes retirou expectativas como as correu
por dentro, incluindo no carácter. Fred sai de casa porque se tornou violento
com os filhos. Essa pobreza, porém, tem uma raiz e essa é a guerra. Ele esteve
na guerra, da qual não gosta de falar. Essa guerra, apesar de terminada,
continua presente na paisagem da cidade, na vida social e no coração dos
homens.
Um elemento central na estruturação do romance é a
omnipresença do catolicismo. Heinrich Böll era católico, embora desde muito
cedo crítico para com as opções da Igreja. Essa duplicidade perante a sua
religião está bem presente na obra. Por um lado, o casal é católico. Ela reza e
frequenta de alguma forma Igreja. Há uma cena onde Käte, antes de se ir
encontrar com o marido, se confessa e fala da raiva que habita dentro dela. O
padre, que também sente em si raiva pela vida dos seus superiores, fica
hesitante se lhe pode ou não dar absolvição. Fá-lo apenas de forma condicional.
Esta hesitação do sacerdote é central para se compreender até onde se coloca o
problema da confiança. O próprio conhecimento da fé e a interpretação das
condutas se tornam vacilantes aos olhos dos próprios pastores. Não são apenas
as ovelhas que perderam o norte, também os pastores deixaram de saber o caminho
e perderam a capacidade de interpretar os sinais.
No entanto, ao lado desta Igreja hesitante e perdida, mas que
nessa hesitação e perda torna patente a sua autenticidade, existe uma outra
fria, julgadora, imperturbável. Esta é encarnada pela mulher do casal que
partilha a casa com os Bogner, ocupando a maior parte das divisões. Ela, com o seu
farisaísmo, retrata uma Igreja que se considera infalível e acima das
vicissitudes da humanidade. Böll, ao dissecar as estruturas sociais, põe de
lado a configuração política emergente e olha para o papel da religião como
elemento ainda central para a construção da vida das pessoas. Todo o romance é
perpassado por um conflito entre duas formas de conceber a relação dos homens
com a religião, isto é, com o absoluto. Se a confiança em si e nas estruturas
sociais é abalada, apenas resta ao homem a confiança no transcendente. Se
também aí não há lugar para a confiança, resta o irónico imperativo “CONFIA NO
TEU DROGUISTA!”.
sábado, 4 de maio de 2019
Um dramma giocoso
Imagem de Il mercato di Malmantile (1758), de Carlo Goldoni
No fundo, esta maneira latina de fazer política não passa de
uma ópera bufa. O pior é que os espectadores também são latinos e, apesar de
dizerem mal dos artistas, o que faz parte do espectáculo, não deixam de gostar
de um dramma giocoso. Tem que se
passar o tempo de alguma maneira.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
A democracia cansa
Parece haver uma sombra saudosista da ditadura. Por
enquanto, esse saudosismo é limitado, embora activo nas redes sociais, onde
constrói narrativas delirantes sobre a bondade daqueles tempos. O traço mais
marcante da ditadura de Salazar e Caetano é a consideração que o regime fazia
dos portugueses. Nas perseguições políticas, na censura, na eliminação da
liberdade, mas também nas políticas sociais e económicas, em tudo isso havia um
traço comum humilhante. Esse traço é o paternalismo.
As pessoas não eram consideradas como capazes de dirigirem a
sua vida sem a tutela paternal da ditadura, dos seus chefes e guardas zelosos.
Para além da inegável violência do regime, os portugueses eram tidos e tratados
como crianças sem capacidade de discernir e tomar decisões. Dito de outro modo,
a ditadura tratava as pessoas como menores, incapazes de usar a sua razão sem a
direcção de um tutor, para empregar uma expressão de Kant. Este traço do regime
seria aquele que deveria causar maior indignação e repulsa entre as pessoas.
Quem, sendo adulto, gosta de ser visto e tratado como um menor? No entanto, o
amor à menoridade é um dos trunfos principais com que o saudosismo pode contar.
Viver em democracia é ter de tomar decisões. Viver em
democracia é saber-se responsável pela qualidade dos políticos que se escolhe e
pelas políticas que existem. Viver em democracia é saber que as nossas escolhas
podem sair derrotadas. Viver em democracia é saber lidar com a frustração e ter
claro que mesmo quando as nossas ideias saem vitoriosas isso não significa
esmagar ou perseguir os que pensam de maneira diferente. Viver em democracia
exige que sejamos adultos, responsáveis pela nossa vida e responsáveis pela
comunidade de que fazemos parte. Viver em democracia é muito mais trabalhoso de
que viver sob a alçada de ditadores paternalistas.
A democracia é um exercício cansativo. Exige de nós
responsabilidade e coloca-nos perante a qualidade das nossas escolhas. Não é
por acaso que o saudosismo da ditadura se manifeste em gerações muito novas,
pouco habituadas a viver fora da dependência dos pais. O cansaço com a
democracia toma, muitas vezes, a máscara da repulsa pelas elites políticas.
Isso, porém, é uma forma já de menoridade, de não assumir que se as elites
políticas têm comportamentos pouco aceitáveis isso se deve ao facto de nos
termos desresponsabilizado pela sua escolha e pelo controlo dos seus actos. O
maior perigo para a democracia em Portugal vem do desejo de muitos em
continuarem a ser menores, mesmo quando adultos.
[A minha crónica em A Barca]
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Villa Cardillio 21. A Névoa da noite
Pompeii - Terme Suburbane - Apodyterium - Scene IV
21. A névoa da noite
Na névoa fluorescente de Novembro,
deixariam os homens a língua correr
rente aos rudes recantos do
corpo,
erva esparsa na alma das mulheres?
Oiço gritos breves, breves e puros.
Sombreiam de sal as núpcias da noite,
o uivo do lobo na placenta da vida,
as crinas de coral do cavalo da morte.
1979
domingo, 28 de abril de 2019
François Mauriac, O Mistério dos Frontenac
Antes de ser editado em livro pela Grasset em 1933, O Mistério dos Frontenac (Le Mystère Frontenac), de François
Mauriac, foi publicado em cinco folhetins na La Revue de Paris, entre Dezembro de 1932 e Fevereiro de 1933. A
tradução portuguesa, de Luís Forjaz Trigueiros, que também assina um prefácio,
é de 1956, publicada pela Editora Ulisseia. O tempo da narrativa é o da segunda
década do século XX, no período que antecede a Grande Guerra de 1914-1918.
Apesar das personagens relevantes possuírem contornos delineados e
diferenciados, que os individualizam, a obra de Mauriac põe em acção uma
personagem colectiva, a família Frontenac. Esta opção narrativa indica de
imediato uma visão que não se confunde nem com as glórias individualistas da
cosmovisão liberal nem com as preocupações sociais da mundividência socialista.
O mundo que emerge do romance é tipicamente burguês mas de tonalidade católica.
A família não deve ser entendida apenas no sentido biológico
e afectivo, mas como pedra angular do mundo burguês, isto é, num sentido social.
É nela que uma certa relação com o mundo dos negócios se preserva e se
transmite de geração em geração. Do ponto de vista histórico, as velhas
tradições sociais ligadas aos estados sociais foram aniquiladas pela Revolução
Francesa, nos finais do século XVIII. A única tradição viva é a do terceiro estado
e é na família que ela se transmite, não a todos os membros, mas a um deles que
acaba por ter um papel patriarcal, cuidando dos negócios e dos outros membros. A
família, enquanto veículo de tradição, encontra o seu fundamento na fé
religiosa. A comunidade biológica é trabalhada e metamorfoseada pela comunhão espiritual,
pelas crenças e ritos que solidificam a volubilidade das ligações naturais.
A família Frontenac, tal como aparece no livro, é já uma
família amputada. Michel Frontenac morre jovem e deixa a sua mulher, Blanche,
com cinco filhos. Três rapazes e duas raparigas. Há também Xavier Frontenac,
irmão do falecido Michel. A narrativa estrutura-se em torno de quatro
personagens. Blanche, que apenas é Frontenac pelo casamento, Xavier e dois dos
rapazes, o mais velho Jean-Louis e Yves. É neste quarteto que Mauriac tece as
linhas do espírito de família, mostrando também as suas contradições e os
eventuais pontos de fuga. De certa maneira, em todas estas personagens existem
pontos de fuga, que ameaçam a tradição e podem pôr em causa a própria família.
No entanto, o poder de atracção é de tal maneira poderoso que acaba por debelar
as ameaças que a vida e a passagem do tempo colocam ao clã.
Se se pretender fazer uma leitura do título da obra, o mistério
dos Frontenac é esse poder atractor dos vínculos da família burguesa. Esse
poder é misterioso pois não reside naquilo que pode ser explicado apenas pela
razão. Não são os interesses económicos, por exemplo, que justificam que a
família seja observada como uma personalidade – e, romanescamente, como
personagem. Não é também, a mera dimensão biológica – acrescida pelo
desenvolvimento de laços de afecto – que explica aquele clã. É como se existisse
um espírito vindo do passado, no qual Blanche se integra e assume como seu, que
encarna nos diversos membros e lhes dá coerência e coesão. Esse espírito – talvez
o espírito dos antepassados – não se deixa apreender pelo olhar frio a
analítico da razão, mostrando-se apenas numa cultura comum, onde a religião
possui um papel central, e nos afectos que devem ser compreendidos como
indicadores de reconhecimento de pertença a uma mesma pátria, com os seus
costumes e linguagem.
O romance tematiza os diversos pontos de fuga das
personagens centrais. A vida misteriosa do tio Xavier em Angoulême e, depois,
em Paris, sempre longe dos seus familiares, que protege e cujos bens defende. A
sombra da morte que, premonitoriamente, paira sobre Blanche, a matriarca que
vinda de fora encarna o espírito da família. O delíquio intelectual de
Jean-Louis, o mais velho dos irmãos Frontenac, que tem a ousadia de pensar em
ir estudar Filosofia e fazer vida de académico. A natureza mística e poética do
adolescente Yves, que se transmuta em dândi na juventude. Em todos eles
compreende-se a existência de forças obscuras de dissolução, mas o mistério da
família permite-lhes chegar unidos a esse momento crucial da História da Europa,
a primeira Grande Guerra, onde todos os laços do mundo antigo se dissolvem.
terça-feira, 23 de abril de 2019
Sondagens, Marcelo, Anos Sessenta e Notre-Dame
AS SONDAGENS E AS
FAMÍLIAS. As sondagens reflectem já o desgaste que os socialistas estão a sofrer
devido à trapalhada em que se meteram com as ligações familiares na governação.
Pode-se pensar que se nos tempos de Cavaco as coisas chegaram onde chegaram
(num dos governos foram nomeadas para cargos mulheres de onze ministros, para
além de outras ligações familiares), hoje em dia uma situação mais benigna
também não teria consequências políticas. Os tempos, porém, mudaram. A
indisposição dos portugueses com os políticos, as redes sociais e o facto do
governo ser de esquerda. Os socialistas são exímios em fornecerem casos a uma
direita destituída de causas e de políticas. As sondagens são o espelho dessa
generosidade.
A INICIATIVA DE
MARCELO. A iniciativa do Presidente da República ao propor uma lei sobre as
incompatibilidades do Presidente – na sequência das relações familiares no
governo – torna claro que o actual PR tem interesses políticos muito para além dos
afectos e das selfies. Ultrapassando
os limites que a Constituição impõe, Marcelo tenta condicionar a opinião
pública relativamente ao governo e à maioria de esquerda. O PR, no âmbito da
Constituição Portuguesa, não é um juiz, mas um actor político e Rebelo de
Sousa, desde o primeiro momento, assumiu essa sua condição. Parece não lhe
faltar vontade nem criatividade para dar um cunho presidencialista a um regime semipresidencial.
RATZINGER E OS ANOS
SESSENTA. Na recente intervenção de Bento XVI sobre os problemas da
pedofilia que assombram a Igreja Católica, o Papa emérito referiu a cultura
desenvolvida nos anos 60 como culpada pelo afrouxamento dos padrões morais. Isso
teria conduzido à autêntica pandemia de abusos sexuais que têm vindo a ser
descobertos. As reacções de indignação não se fizeram esperar contra a abusiva
ligação entre os dois fenómenos. O que me interessa salientar, porém, é outra
coisa: a incapacidade existente, entre detractores e defensores, para avaliar
as consequências morais da revolução dos costumes dos anos 60, que começaram com
a autorização do uso da pílula e acabaram com as revoltas estudantis de 68 e o
Festival de Woodstock, de 1969.
NOTRE-DAME DE PARIS.
Escrevo enquanto arde a catedral de Notre-Dame de Paris. Num momento como este
torna-se claro que há qualquer coisa que une os europeus. Antes da política e
das peripécias por que passa a União Europeia, e apesar das rivalidades que sempre existiram
entre eles, há um substrato cultural e civilizacional em que todos se reconhecem.
Está a arder perante os nossos olhos uma parte da alma europeia.
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