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sábado, janeiro 05, 2019

vozes da biblioteca

«No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.» Gabriel García Márquez, Memória das Minhas Putas Tristes (2004) (trad. Maria do Carmo Abreu)

«O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!» Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (1983) (trad. Joana Varela)

«Sim, meu amigo, tu tens por certo razão, os homens teriam pesares menos agudos se... (Deus sabe porque eles são feitos assim...), se concentrassem toda a força da sua imaginação em renovar sem cessar a lembrança dos seus males, em vez de tornarem o presente suportável.»  J. W. Goethe, Werther (1774) (trad. João Barreira)

quarta-feira, dezembro 26, 2018

vozes da biblioteca

«Chamo-o docemente: "Platero", e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...» Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu (1914) (tradução de José Bento)

«No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.» Gabriel García Márquez, Crónica de uma Morte Anunciada (1981) (tradução de Fernando Assis Pacheco)

«O relógio de pêndulo, esse, que balançava na sua caixa de vidro luxuosamente esculpida em madeira, e, no seu balanceiro de cobre amarelo, cortava em bocadinhos o dia que parecia interminável, mostrava a hora: meio-dia e trinta minutos.» Deszö Kosztolányi, Cotovia (1924) (tradução de Ernesto Rodrigues)

terça-feira, junho 19, 2018

«Depois do jantar sentei-me no meu quarto, na Rua Catinat, à espera de Pyle: ele dissera: "Chegarei quando muito às dez horas", e quando bateu a meia-noite senti-me incapaz de ficar quieto por mais tempo, desci as escadas e saí.» Graham Greene, O Americano Tranquilo (1955) (trad. P. J. de Morais)

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.» Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão (1967) (trad. Eliane Zagury)

«Em 1824, no último baile da Ópera, várias máscaras ficaram impressionadas com a beleza dum mancebo que passeava pelos corredores e pelo salão, com o modo das pessoas que procuram uma mulher retida em casa por motivos imprevistos.» Honoré de Balzac, Esplendores e Misérias das Cortesãs (1838-1847) (trad. M. Manuela da Costa)

terça-feira, junho 12, 2018

«O quarto, sufocante e caótico, que servia ao mesmo tempo de quarto de dormir e de laboratório, mal começava a iluminar-se com o resplendor do amanhecer na janela aberta, mas bastava essa luz para reconhecer imediatamente a autoridade da morte.» Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera (1985) (tradução de Margarida Santiago)

«Enquanto ele dormia pela tarde fora --  acabara o longo turno da noite às oito horas daquela manhã --, o Apollo  ancorara a meia milha da costa de Brooklyn, presumivelmente para a professora Summers e os membros científicos da expedição terem tempo de analisar a atmosfera.» J. G. Ballard, Olá, América! (1981) (tradução de Fernanda Pinto Rodrigues)

«Por entre as árvores corriam os escravos da cozinha , espavoridos e quase nus; as gazelas saltavam na relva balindo; era a hora do pôr-do-sol e o perfume dos limoeiros tornava ainda mais pesada a exalação de toda esta gente suada.» Gustave Flaubert, Salammbô (1862) (tradutor anónimo)

segunda-feira, junho 09, 2014

neo-realismo do melhor

Barranco de Cegos (1961) conta o fim de um tempo, entre o Ultimato inglês (1890) e o pós-5 de Outubro de 1910, e revela-nos uma família de grandes lavradores ribatejanos, cujo chefe é uma personagem inesquecível: Diogo Relvas, homem excessivo, cruel e reaccionário, fiel a uma tradição agrária que vê na terra as virtudes ancestrais duma nação, e no desenvolvimento industrial a condenação da pátria, motivada pela cupidez e pela ambição de poder de uma elite cega -- cegos conduzindo cegos, uns e outros na iminência de caírem num barranco, de onde dificilmente se sairá. Relvas carrega consigo o peso dos antepassados, regendo-se por uma ética abstracta, inflexível quanto ao essencial -- a manutenção do poder: simbólico, através dos cerimoniais do mando, e de facto, pela posse efectiva do agro; inflexível no essencial, moderadamente maleável quanto a questões mais prosaicas. As restantes personagens, em especial os filhos, órfãos de mãe, débeis, volúveis -- um deles esmagado pelo peso excessivo do progenitor --, as duas filhas, Milai e Maria do Pilar, fortes e marcadas, complexas no lidar com o patriarca, dão profundidade ao romance. Outras personagens secundárias, em especial as populares, são também fundamentais; mas esta é uma história de senhores, homens senhores doutros homens.
No prefácio que escreveu em 1964, Mário Dionísio, que não era de elogio fácil e se afastara já do PCP, não hesita em classificar o livro como "um dos grandes romances de toda a nossa história literária".
Barranco de Cegos é, com efeito, literatura da boa, da que conta, da que interessa, da que constrói identidade, da que dá substrato à comunidade de que emana -- e também da que experimenta, da que burila, da que arrisca. Para além de todas as classificações que cada vez fazem menos sentido, a não ser numa abordagem historiográfica, trata-se de neo-realismo, e do melhor -- isto é: não evidenciando a vulgata que simplifica e sectariza, é suficientemente amplo para ser subscrito por todos quanto comungam de preocupações afins, sem que com isso o autor traia (e se traia) o escopo ideológico que lhe subjaz. O final do romance, magistral, traz-nos uma atmosfera que dir-se-ia paralela à do realismo mágico, que o recém-falecido Gabriel García Márquez consagraria anos mais tarde.
Redol é, sempre foi -- mesmo no inaugural Gaibéus (1939) -- um romancista de raça, um criador de mundos, de atmosferas, de personagens de carne e osso. Barranco de Cegos evidencia-o de tal forma que -- para desgosto de alguns cadáveres -- se inscreve duradouramente no nosso cânone literário.

sexta-feira, abril 18, 2014

Gabriel García Márquez (engrosso o pranto universal)

Quando morre um escritor que me deu um dos livros da minha vida (os Cem Anos de Solidão, pois claro), só me apetece ficar calado e não contribuir para o obituário em curso, virtualmente esmagador; quando ele me dá dois livros que serão sempre do melhor que li e lerei (junto O Amor nos Tempos de Cólera, evidentemente), é-me impossível não vir aqui dizer isso mesmo e engrossar o número dos que, quase nada dizendo, acabam, creio, por reflectir o triunfo de qualquer criador: o de deixar nos outros a marca da sua individualidade, porque a sua vida (a minha vida) nunca mais foi (e será) a mesma a partir do momento em que se cruzaram. 

quarta-feira, outubro 19, 2005

Gabo

Caracteres móveis #43 - Gabriel García Márquez

Olhou-me nos olhos, avaliou a minha reacção ao que acabara de me contar, e disse-me: Portanto, vai procurar agora mesmo essa pobre garota, mesmo que seja verdade o que te dizem os ciúmes, seja como for, que o que já viveu não te tira nada. Mas atenção, sem romantismos de avô. Acorda-a, fode-a até pelas orelhas com esse pau de burro com que te premiou o diabo pela tua cobardia e a tua mesquinhez. A sério, terminou com a alma: não vais morrer sem provar a maravilha de foder com amor.
Memória das Minhas Putas Tristes
(tradução de Maria do Carmo Abreu)