quarta-feira, maio 22, 2019

«Olhava lá do alto daquele combro / a melodia, / tão merencória na infância, ata- / viada de fitinhas no chapéu de palha» António Barahona, Noite do Meu Inverno (2001)

«Ontem entrei numa baiuca infame, / Numa taberna de bandidos reles -- / Pois que eu desci às espirais misérrimas / Do Lameiro de Job!...»  in Herberto Helder, Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (1985)

«Trago palavras como bofetadas / e é inútil mandarem-me calar / porque a minha canção não fica no papel.» Manuel Alegre, Praça da Canção (1965) 

Camões, grande Camões


Chico Buarque, Prémio Camões 2019


terça-feira, maio 21, 2019

«Gluttony»

em quem vou votar

Só ontem, com pena, vi um debate por inteiro, mas espreitei os outros e tenho apreciado a postura correcta e segura de Pedro Marques, ao contrário das chinelices do Rangel que provocam vergonha alheia. Se fosse de direita, votaria em Paulo de Almeida Sande, apesar daquela ficção partidária que o apoia; e gostei do Vasco Santos, o tipo sensacional do MAS, apesar de mas. Há outros candidatos interessantes, em vários partidos, mas eu quero mesmo é votar em Joacine Katar Moreira, com quem aliás, devo estar em desacordo em várias coisas, mas creio que não no essencial.

«Drinkin’ Wine Spo-Dee-O-Dee»

segunda-feira, maio 20, 2019

vozes da biblioteca

«Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos.» José Eduardo Agualusa, «Dos perigos do riso», Fronteiras Perdidas (1999) 

«No ritmo do mundo nasceu a Perfídia envolvida pela volúpia.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949) / Antologia (2009)

«Uma poeirada medonha... tudo absolutamente seco, até mesmo a nossa pele velha e encortiçada.» Henrique Abranches, «Diálogo do Tempo Morto», Diálogo (1962)

sábado, maio 18, 2019

sexta-feira, maio 17, 2019

quinta-feira, maio 16, 2019

vozes da biblioteca

«Cansado da mesquinhez das terras arrendadas, o pai trabalhava agora na mina de volfrâmio dos ingleses como carpinteiro-escorador.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Uma cabeça pequenina, cabelo rapado e com o maxilar inferior tão largo e comprido que parecia impedi-lo de fechar completamente a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

quarta-feira, maio 15, 2019

50 discos: 11. CHEAP THRILLS (1968) - #7 «Ball And Chain»



vozes da biblioteca

«O corpo a corpo do espaço e da escultura» Sophia de Mello Breyner Andresen, «Roma», Musa (1994)

«Tombo de joelhos no ruído da madeira, espero a boca acossada mordendo a minha nuca.» Ana Marques Gastão, «nuca», Lápis Mínimo (2008) / Leya Poemas (2009)

«E a vida vai tecendo laços / Quase impossíveis de romper: / Tudo o que amamos são pedaços / Vivos do próprio ser.» Manuel Bandeira, A Cinza das Horas (1917) / Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira (1984)

segunda-feira, maio 13, 2019

«Mama»

vozes da biblioteca

«A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Súbito uma revoada de vozes escapou-se em surdina do âmago da igreja e derramou pelos claustros o clamor inquietante duma dolência arrastada.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

sexta-feira, maio 10, 2019

livros que me apetecem

As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa Luís (Relógio d'Água)
Ficções da Memória, de Alberto da Costa e Silva (IN-CM)
Hotel Silêncio, de Audur Ava Ólafsdóttir (Quetzal)
Obra Reunida, de Manuel de Lima (Ponto de Fuga)
Santos e Pecadores, de Graham Greene (Livros do Brasil)
Sophia de Mello Breyner Andresen, de Isabel Nery (A Esfera dos Livros)


no papo:
Banhos de Caldas e Águas Minerais, de Ramalho Ortigão (Quetzal)

vozes da biblioteca

«-- dentro do poço, com sua febre; dentro da horta, sem ter seu curso; na longa espera de sua demora / Pedro Venâncio selava o selo de ser intruso no vão comércio de seu disfarce.» Mário Chamie, «Pedro Venâncio», Antologia da Novíssima Poesia Brasileira (ed. Gramiro de Matos e Manuel de Seabra, s.d.).

«eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas que te / dera o último amante.» José Agostinho Baptista, Deste Lado Onde (1976)

«Nós, os preguiçosos, dados ao sonho / Incomportável de uma ferida / Nas sociedades de consumo, somos / Aqueles que se lembraram das canções / Perdidas na falência dos campos.» Rui Almeida, Muito, Menos (2016) 

quinta-feira, maio 09, 2019

quarta-feira, maio 08, 2019

a 'crise'

Quem não perceba peva de orçamentos e regimentos, como eu, que tenho assistido divertido ao desenrolar da crise, será útil assistir às entrevistas de Costa e Rio à tvi e tirar as suas próprias conclusões. Quem, a certa altura, me pareceu também divertido foi Jerónimo. Catarina Martins lembrou-me aqueles discos de histórias em 45 rpm que eu tinha em miúdo: falou em palco, e a actriz saiu de dentro dela. Já a Cristas de sábado tinha pânico naqueles olhos, e foi bem feito.

50 discos: 41. CAVALO DE PAU (1982) - #7 «Cavalo de Pau»



segunda-feira, maio 06, 2019

lido


«O ouro era o banco onde a mulher minhota depositava os seus lucros» (p. 6)


vozes da biblioteca

«O meu conto é amador de sangue azul; adora a aristocracia.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (póst. 1868)

«Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor (1989)

«Todos o conheciam naquele bairro populoso, onde famílias mais que remediadas em ganhos ou rendimentos haviam instalado os seus lares.» Assis Esperança, «O Senhor de Morgado-Martins», O Dilúvio (1932) 

terça-feira, abril 30, 2019

lido


«16 de Dezembro. Às 6h da manhã, do posto de observação dos morros, avistam-se ao longe, numa nuvem de poeira, numerosas forças que, trazendo os cavalos à rédea, se aproximam do Calueque, vindas do Sul. Oito minutos depois, a observação reconhece três peças de artilharia e mais cavaleiros em marcha na mesma direcção. Uma patrulha de dragões confirma a nova, -- Franck[e] chegou ao Cunene!» (p. 131)

segunda-feira, abril 29, 2019

estampa CCCLXI - Béla Cikos Sesija


Pranto na Morte de Cristo

vozes da biblioteca

«Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Serajevo.» Álvaro Guerra, Café República (1984)

«Até hoje, e já lá vão muitos anos, nunca vi o mar, embora dele tenha ouvido contar muitas histórias, e, não sei porquê, parece-me que o conheço todo só por causa daquela fotografia.» Alves Redol, Fanga (1943)

«No seu entusiasmo, Lucinda inclinara-se, com o peito muito branco na abertura do roupão.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

sábado, abril 27, 2019

Da vantagem de um Presidente culto

Leio deleitoso, no último JL, o discurso do Presidente da República na sessão comemorativa do centenário de Fernando Namora, no dia 15 de Abril, na sua Casa-Museu em Condeixa -- evento que desafortunadamente foi ofuscado pela tragédia do incêndio de Notre-Dame. Não sei se o discurso teve mão fantasma, nem isso é muito importante, pois reconhece-se a caneta de Marcelo naquelas palavras, que além disso foram acrescentadas por vários improvisos do orador, reza a notícia; o que me interessa relevar é mesmo uma noção assaz nítida que o PR mostra do património literário português, parcela das mais relevantes do património cultural do país, no seu todo.
A propósito de Namora e da efeméride, o Presidente referiu-se a José Rodrigues Miguéis, Ruben A., Ferreira de Castro, Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Vergílio Ferreira -- ou seja, cerca de um terço do cânone ficional português do século passado --, a que juntou os norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e Óscar Lopes, como referência de autoridade.
Não é um ensaio, que seria descabido, mas um discurso de circunstância. que não deixa de ser reconfortante em face do zero das elites políticas, com as honrosas e parcas excepções. E porquê reconfortante? Por se esperar que o Presidente não seja apenas a muralha contra o populismo de que falou Ferro Rodrigues, mas também contra a barbárie instalada que não conhece, e portanto não quer saber do património cultural em sentido lato, a não ser que o mesmo lhe possa dar umas medalhinhas da Unesco para trazer à lapela (que podiam ser essas como as do Guiness, tanto faz, desde que em estrangeiro).

orquestrais & concertantes:: Bartók, CONCERTO PARA ORQUESTRA (1943) III. Elegia / Ozawa

vozes da biblioteca

«A vila, cercada de seus muros e torres.» Mário Avelar, Seduções do Infante (1995)

«Agradeciam quando eram os filhos das outras a morrer, / não os delas, mesmo que os filhos das outras / tivessem sido assassinados pelos seus próprios filhos.» Ana Luísa Amaral, Escuro (2014)

«E tudo se resumiu à evidência do pó.» José Agostinho Baptista, Agora e na Hora da Nossa Morte (1998)

terça-feira, abril 23, 2019

aviõezinhos

Parece que, na semana passada, o deputado do PAN interrogou António Costa sobre a possibilidade de o aeroporto de Beja ser alternativa ao 'Portela+1'. Parece que o chefe do Governo não respondeu, ou terá respondido afastando a hipótese sem mais. Esteve mal, pois o que se quer de um governante, entre outras coisas, é que veja para além da conjuntura.
Não me apetece nem tenho tempo para tecer considerações, necessariamente parcelares, sobre a insistência numa solução arranjada à pressa, que não só mantém os riscos para os residentes em Lisboa e concelhos limítrofes, como os acrescenta e que será uma catástrofe ambiental irremediável. A Zero está em campo desde o início, e ainda bem. A sua avaliação é demolidora: «Todo este processo tem sido pautado por uma flagrante falta de transparência por parte do Governo, mesmo com sonegação de informação, e não permitindo qualquer escrutínio por parte de terceiros, sejam os cidadãos ou mesmo outras entidades públicas, precisamente o inverso daquele que é o espírito da lei, que pretende que uma Avaliação Ambiental, seja ela uma AIA ou uma AAE, seja um instrumento técnico de suporte à decisão, no sentido de garantir a melhor decisão possível.»
Mas a resistência não pode ser apenas legalista e institucional, tem de ser de todos, a começar pelos que vão sofrer na pele esta arbitrariedade. E bem me parecia que o povo da Margem Sul não iria fazer figura de rebanho para abate sem estrebuchar. Resistência inteligente, não violenta, de preferência com humor, que é a mais eficaz.
A acção de ontem, levada a cabo pelo até agora por mim ignorado grupo Rebeldes pela Vida, será, certamente, a primeira de muitas destes e doutros cidadãos que se dão ao respeito (as fotos e o filme).
Que ela tenha ocorrido numa sessão de aniversário do PS, mostra bem aquilo em que o PS se tornou; e que nessa sessão, em que dois gorilas engravatados atiram pelo ar o activista que interpelava a assembleia, fosse de justa homenagem a Alberto Martins -- sem querer comparar momentos políticos incomparáveis --, não deixa de ser uma triste ironia.
em tempo: não eram gorilas, mas agentes da PSP - Corpo de Segurança.





LIVRE - fica aí ao lado, até ao dia das eleições


Nota: não sou militante nem candidato a nada, apenas apoio com o meu voto.

segunda-feira, abril 22, 2019

quarta-feira, abril 17, 2019

lido

José Oiticica,


"um conflito entre entidades privadas e os motoristas"

Não faço ideia se os motoristas têm razão ou não; por feitio, pendo sempre para os trabalhadores contra os patrões associados, mesmo quando me lixam o programa da Páscoa, como será o caso.
No entanto, há coisas um pouco mais importantes do que as disputas entre trabalhadores e patrões, e uma delas é o funcionamento do Estado. Por isso, é sem paciência que ouço o primeiro-ministro dizer que a luta laboral em curso se trata de "um conflito entre entidades privadas e os motoristas", o que, não sendo mentira, não chega para um político que se assume socialista. O que deveria dizer é que o país não pode estar à mercê de privados, e que a política tem agir em conformidade.
É um socialismo de caricatura, sem outro rasgo que não seja a conquista e manutenção do Poder, e por isso condenado (a indigência dos cartazes às eleições europeias, tratadas como se fossem legislativas é um eloquente exemplo da falta de rasgo da politicalha aparelhística).  O problema é que para lá dele, PS, a nível macropolítico não há nada, ou o que há -- com excepções de escasso peso eleitoral --, é feio: os partidos à direita são meros títeres dos interesses e do financismo prevalecente; à esquerda, os mortos-vivos do marxismo e os inconsistentes das chamadas políticas de inclusão ["a todos e a todas", e outras parvoíces] -- algumas, só algumas, porém válidas.
Para além disto, um lúmpen primário e silvestre que se alimenta e alimenta a boçalidade mediática,  sempre aproveitada por espertalhões.
António Costa limitou-se a repetir o que Rui Rio disse ontem, com a agravante de ter o menino nos braços.  É pouquíssimo como discurso, e revelador do impasse político e ideológico a que chegámos.

terça-feira, abril 16, 2019

vozes da biblioteca

«À porta dois contratadores apenas, um polícia, e, sentada no último degrau sobre a rua, uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçura, com uma vela protegida por um cartucho de papel cor-de-rosa.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Afeito à nudez sebosa das repartições, o recém-chegado abafou uma voz de espanto ao passar a uma saleta cujo requinte no arranjo descondizia com tudo o que vira em tão ingracioso edifício: era uma dependência fofa, não grande, toda de veludos vermelhos, lambris dourados, cristais e móveis reluzentes, onde, pelos reposteiros entreabertos, a luz, que do céu azul ferrete se derramava a jorros sobre a vila, vinha molemente esparrinhar-se num tapete de Arraiolos...» Jorge Reis, Matai-vos uns aos Outros (1961)

«Léguas e léguas andaram, como se fossem retirantes, de fazenda em fazenda, a pedir a um e a outro uma tigela de farinha que lhes matasse a fome, e pés roídos pelos espinhos e olhos fundos de sofrimento.» José Lins do Rego, Cangaceiros (1953)
«[...] o tempo restituiu à igreja, mais talvez do que lhe tirou, porque foi o tempo que espalhou sobre a fachada a sombria cor dos séculos que faz da velhice dos tempos a idade da sua beleza.» Victor Hugo, Notre-Dame de Paris (1831)

segunda-feira, abril 15, 2019

livros que me apetecem

Arquive-se, de Rita Almeida de Carvalho (Fundação Francisco Manuel dos Santos)
Carne Crua, de Rubem Fonseca (Sextante)
Homens de Pó, de António Tavares (D. Quixote)
O Poço e a Estrada -- Biografia de Agustina Bessa Luís, de Isabel Rio Novo (Contraponto)
Voltar a Ler -- Alguma Crítica Reunida, de António Carlos Cortez (Gradiva)

quinta-feira, abril 11, 2019

vozes da biblioteca

«A terra aguardava em / silêncio a chegada / das betoneiras, dos patos / bravos.» Mário Avelar, Cidades de Refúgio (1991)

«Como é maravilhoso o amor / (o amor e outros produtos).» Carlos Drummond de Andrade, Brejo das Almas (1934)

«Do lixo da esquina partiu / o último vôo da varejeira / contra um século convulsivo.» Carlito Azevedo, Sob a Noite Física (1996)

quarta-feira, abril 10, 2019

livros que me apetecem

A Gun in the Garland, de Madalena de Castro Campos (Companhia das Ilhas)
Escrito(s) a Vermelho, de Voltairine de Cleyre (Barricada de Livros)
Nova Gramática do Latim, de Frederico Lourenço (Quetzal)

no papo:
O Instinto Supremo, de Ferreira de Castro (Cavalo de Ferro)

segunda-feira, abril 08, 2019

criadores & criatura



William Vance, Yves Duval e Howard Flynn



sexta-feira, abril 05, 2019

quarta-feira, abril 03, 2019

vozes da biblioteca

«Chorava em fonte, e as suas lágrimas punham no fogo rijo das duas horas um doce refrigério de orvalhada.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«O Diogo combinara tudo com o mestre-negreiro, dera-lhe uma pepita de ouro, a única que possuía, toda a sua fortuna, escreveu-me, não suportava o Brasil sem mim, eu acreditei e senti-me agradecida, era o dinheiro do nosso futuro que ele jogava fora para me ter consigo, foi isso que fez que eu lhe perdoasse a Briolanja.» Miguel Real, Memórias de Branca Dias (2003)

«The One You Are Looking For Is Not Here»

terça-feira, abril 02, 2019

vozes da biblioteca

«Falamos das cidades / dos homens que de tão sós / as despovoam» Sebastião Alba, «As casas constroem-se de sombra», A Noite Dividida (1993)

«Faz frio, muito frio... / E a ironia das pernas das costureirinhas / Parecidas com bailarinas...» Mário de Andrade, «Paisagem N.º 1», Paulicéia Desvairada (1922) / Os Melhores Poemas de Mário de Andrade (ed. Gilda de Mello e Souza, 1988)

«Não te mudei o nome nem a face / nem permiti que nada transformasse / minha imagem de ti em forma de arte.»  Mário António, «Soneto», Amor (1960)

segunda-feira, abril 01, 2019

quinta-feira, março 28, 2019

livros que me apetecem

Alegria para o Fim do Mundo, de Andreia C. Faria (Coolbooks)
Amar o Tempo das Grande Maldições, de Luís Costa (Coolbooks)
Cada um com o Seu Contrário num Sujeito, de Helder Macedo (Abysmo)
O Real Arrasa Tudo, de Isabel de Sá (Coolbooks)
O Tempo Avança por Sílabas, de João Luís Barreto Guimarães (Quetzal)

no papo:
A Noite e o Riso, de Nuno Bragança (Dom Quixote)

quarta-feira, março 27, 2019

vozes da biblioteca

«Depois de havermos trilhado a velha Mesopotâmia, as suas estepes rechinando ao sol, que poeiras ardentes percorriam também e nos queimavam o rosto como enxames de faúlhas, depois de termos auscultado esses largos desertos de onde a nossa civilização lançou os primeiros clarões sobre um mundo espiritual ainda em trevas, voltámos a entrar nas salas das antiguidades orientais do Louvre que tanto frequentáramos antes de partir.» Ferreira de Castro, as Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963)

«O jagunço destemeroso, o tabaréu ignaro e o caipira simplório, serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes ou extintas.»  Euclides da Cunha, Os Sertões (1902)

«Tantas páginas, tantos livros que foram as nossas fontes de emoção, e que relemos para estudar neles a qualidade dos advérbios ou a propriedade dos adjectivos!» E. M. Cioran, Silogismos da Amargura (1952) (trad. Manuel de Freitas)

terça-feira, março 26, 2019

50 discos: 2. BIRTH OF THE COOL (1957) - #7 «Godchild»



é um consolo ver a tropa

em Moçambique, a intervir, a ajudar, a salvar a população fustigada pelo ciclone "Idai", com uma sincera motivação de solidariedade e fraternidade humanas. Principalmente depois de por lá termos andado, de Mouzinho a Kaulza, a matar, a pilhar e a oprimir -- mas também a trocar e a amar, que as coisas, por muito más, não são só em pretos e brancos.

criadores & criatura

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 Stan Lee, Bill Everett e Daredevil / O Demolidor

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segunda-feira, março 25, 2019

os castelos não protestam -- ou se a Direita é estúpida, a Esquerda é analfabeta, e dá todos os dias disso o testemunho -- ou ainda: foda-se, que é demais

Ao contrário dos artistas plásticos, que foram estender a mão pedinte a António Costa, numa das mais degradantes manifestações de dependência de que há memória, os castelos não falam, não protestam não têm poder nem influência mediática. O mesmo se passa com a generalidade das populações que vivem em seu redor, boa parte no interior do país, pobre e despovoado.
Por isso, o processo de descentralização para as autarquias, sem meios nem massa crítica, e sem um euro associado nessa transferência  de trinta e três castelos, como anunciou o Diário de Notícias, é despudorado e indigente, cultural e politicamente.
Normalmente, o património cultural português degrada-se e afunda-se silenciosamente; a não ser quando permite estadão e espavento, pois a miséria cultural e cívica das elites políticas é um espelho da do povo português, de onde a maior parte foi parida. Não por culpa do povo, é claro, mas das outras elites, que o mantiveram ignaro e desvalido, de que se tem vindo a libertar desde o 25 de Abril, é bom lembrar.
Até agora, a única voz que ouvi a verberar esta fraude cultural foi a de Miguel Sousa Tavares. Costumamos criticar a Direita por não valorizar a cultura do ponto de vista político, rebaixando a pasta de ministério para secretaria de estado; mas para que serve um Ministério da Cultura com uma porcaria de política como esta, a não ser esportular clientelas e influencers (como gosta de dizer a saloiada merdiática)? 
Pior do que ausência de políticas é esta política de se ver livre de empecilhos que só dão chatices, dores de cabeça e não rendem votos. A verdade é que a Cultura com o Governo apoiado pela Geringonça, que também apoio, sem pertencer a nenhum partido, bateu no fundo.

(Por engano, escrevi "Gerinçonça", e fica muito bem, pois é difícil ser-se mais sonso que isto.)  


«I Feel The Earth Move»

domingo, março 24, 2019

vozes da biblioteca

«Adrião, arrastando a perna, tinha-se recolhido ao quarto, queixando-se de uma forte dor de cabeça.» Graciliano Ramos, Caetês (1933)

«Ana Paula refugiara-se num súbito mutismo, como que receosa de se ter expandido em demasia naquela espontânea declaração que nenhum mau pensar inspirara e que só reproduzira a singeleza do seu sentimento, recto como a luz rectilínea dos seus olhos, leais e profundos.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Subitamente, enquanto arrumava de pé o livro na pequena mala de viagem, viu duas mulheres idosas vestidas de preto a colherem azeitona, depois pequenos rectângulos de couves altas, e mais oliveiras baixas, de repente uma bem constituída com duas grandes escadas de pé contra os seus ramos acinzentados...» Manuel da Silva Ramos, Café Montalto (2003)

orquestrais & concertantes: Debussy, O MAR (1905) - II. Jogo de Vagas / López-Gómez

sábado, março 23, 2019

livros que me apetecem

1945 -- Estado Novo e Oposição, Mário Matos e Lemos (Palimage)
A Noiva do Tradutor, João Reis (Elsinore)
Alguns Humanos, Gustavo Pacheco (Tinta-da-China)
As Trevas e Outros Contos, Leonid Andréev (Antígona)
As Velhas, Hugo Mezena (Planeta)
Breviário Mediterrânico, Predrag Matvjevitch (Quetzal)
Coração Duplo, Marcel Schwob (Cavalo de Ferro)
Estranhezas, Maria Teresa Horta (D. Quixote)
Jorge Amado: Uma Biografia, Joselia Aguiar (Todavia)
Medula, Manuel Silva-Terra (Licorne)
O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux (Quetzal)
Oleana, David Mamet (Tinta-da-China)
Olhar de Editor, Serafim Ferreira (Montag)
Pavese no Café Ceuta, Francisco Duarte Mangas (Teodolito)
Tess dos D'Urbervilles, Thomas Hardy (Relógio d'Água)

no papo:

A Guerra dos Mundos, H. G. Wells (Sextante)
Diário, Virginia Woolf (Bertrand)
Os Três Seios de Novélia, Manuel da Silva Ramos (Parsifal)

orquestrais & concertantes: Bartók, CONCERTO PARA ORQUESTRA (1943) - II. Giuoco delle coppie. Allegreto scherzando / Ozawa

sexta-feira, março 22, 2019

lido


vozes da biblioteca

«Durante muito tempo fui para a cama cedo.» Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido -- Do Lado de Swan (1913) (trad. Pedro Tamen)

«-- Tira então os óculos -- disse Tortose a Pierrot -- tira os óculos se queres ter cara para o emprego.» Raymond Queneau, Pierrot Meu Amigo (1942) (trad. Manuel Pedro)

«Era um homem dos seus cinquenta anos, tão avantajado que há alguns anos lhe era impossível levantar-se da cadeira sem ajuda e no entanto, conservava a harmonia das formas, chegava mesmo a ser belo na sua corpulência; porque os Birmaneses, ao invés dos homens brancos, que ganham rotundidade e protuberâncias, engordam simetricamente, lembram frutos suculentos.» George Orwell, Os Dias da Birmânia (1934)  (trad. Maria da Graça Lima Gomes)

quarta-feira, março 20, 2019

terça-feira, março 19, 2019

sábado, março 16, 2019

vozes da biblioteca

«Depois de se benzer e de beijar duas vezes a medalhinha de S. José, Dona Inácia concluiu:» Rachel de Queiroz, O Quinze (1930)

«Para fazer-se amar da formosa dama de D. Maria I minguavam-lhe dotes físicos: Domingos Botelho era extremamente feio.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«Vista do ramo transversal do claustro e no prolongamento do eixo da igreja, a ábside desenrolava em frente do espectador a sua elegante redondeza, e o frémito alado dos arcobotantes, com a ossatura frágil em pleno equilíbrio aéreo, dava-lhe tal ar de vida palpitante, que era de recear que a uma carícia mais quente do sol filtrando-se nos poros da pedra, a catedral abrisse as asas e erguesse o largo voo nessa lúcida manhã de tempo claro.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

orquestrais & concertantes: Copland, RODEO (1943) II - Corral Nocturne / Kula

sexta-feira, março 15, 2019

no meio da apatia geral, incluindo a minha, lembrei-me duma música do Sting

No primeiro álbum a solo, The Dream Of The Blue Turtles (1985), sem adivinhar Gorbachev, «Russians» era uma canção de esperança na humanidade dos russos, num contexto exacerbado de Guerra Fria. Em face da histeria e da retórica armamentistas, os ex-membro dos Police manifestava a sua esperança no amor que os russos teriam pelas suas crianças, não desencadeando um conflito que extinguiria a humanidade. Dentro da música, uma citação de uma passagem do Tenente Kijé (1933-34), do enorme Prokofiev, em tempo de canção de embalar.
Muitas vezes me ocorre a composição do Sting, quando penso no inferno que estamos a criar, para nós próprios, mas que atingirá em cheio os nossos filhos e os nossos netos, aqueles que dizemos amar e julgamos que amamos.
Um magnífico artigo de João Camargo no Público de hoje (sem link, mas aconselho também este seu texto no Expresso), a propósito da greve de jovens estudantes contra as alterações climáticas, interpela-nos. Pelo menos a mim. Quais têm sido as minhas acções para fazer a diferença. Muito poucas, quase nada, para além da preocupação de algum civismo ecológico mais dou insuficiente, e vociferação contra o capitalismo predatório de que todos nos vamos alimentando.
Já devo ter escrito que uma tarte à bucha & estica deveria ser atirada em cheio ao focinho dos políticos, empresários, jornalistas económicos estipendiados e todos quantos nos viessem falar no conhecido crescimento da economia.
Cresçamos, pois, infinitamente, até não haver mais recursos naturais, até darmos cabo da vida daqueles que dizemos amar. Olhemos bem para eles, e depois para o espelho. Os nossos olhos nos dirão o que somos.

50 discos: 18. ATÉ AO PESCOÇO (1972) - #7 «Grande, Grande Era a Cidade»



quarta-feira, março 13, 2019

Fernão de Magalhães, Cristiano Ronaldo, o «Bartoon» -- ou de como uma coisa é História e historiografia, outra a ideologia







O melhor comentário que vi sobre a falsa questão da viagem de Fernão de Magalhães foi o cartoon de Luís Afonso no Público de anteontem. O humor sempre foi a melhor forma de lidar com a estupidez. No entanto, mais do que estupidez, trata-se de uma contaminação ideológica de nacionalismo, sempre aldrabão, complexado e perigoso. Desta vez a aldrabice é nacionalista (tresanda a franquismo esta  españolidad ); outras vezes é alegadamente progressista, como sucedeu com o debate sobre os Descobrimentos, outra vigarice intelectualmente desonesta, como na altura caracterizei;
Ao contrário do que diz lugar-comum, a historiografia não é uma ciência, embora não dispense o recurso às ciências. Mas o facto de ser uma disciplina do domínio das humanidades, não significa que se possa  impunemente sacrificá-la às ideologias do momento; porque, repetindo-me, não se trata já da História, mas activismo, seja ele benéfico, como o combate ao racismo ou ao imperialismo, seja pernicioso, como sucede com os nacionalismos; e a História não se compadece com as paixões conjunturais; está lá sempre com o seu peso, para nos interpelar.

terça-feira, março 12, 2019

domingo, março 10, 2019

vozes da biblioteca

«Ao tempo estão sujeitas as palavras: / umas se fazem velhas, outras nascem; / assim vemos a fértil Primavera / encher de folhas ao robusto tronco, / a quem despiu o Inverno desabrido.» Pedro António Correia Garção, Obras Poéticas (póst., 1778) / M. Rodrigues Lapa, Poetas do Século XVIII

«Onde -- ondas -- mais belos cavalos / Do que estes ondas que vós sois» Sophia de Mello Breyner Andresen, Musa (1994)

«Poema num comboio / percorrendo todos os versos / fragorosamente // acordo / da emoção nos trilhos / pela noite continental» Sebastião Alba, «Em viagem», A Noite Dividida (1996)

orquestrais & concertantes: Copland, RODEO (1943) - I. Buckaroo Holiday / Sadikovic

vozes da biblioteca

«Na estação havia apenas um passageiro, esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão e ao lado sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro duma garrafa.» Eça de Queirós, A Capital! (póst., 1925)

«O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém tinha ouvido, e rodou viscoso para longe, infiltrando-se, anulando-se na massa anónima daquela multidão turbulenta.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

sexta-feira, março 08, 2019

vozes da biblioteca

«-- Chama-se Leopoldino, este, e é o mais espertíssimo.» José Eduardo Agualusa, «Dos perigos do riso», Fronteiras Perdidas (1999)


«E desencontravam-se no cruzamento entre a sua imaginação e o real, entre o seu real e o fantástico: a imagem pura.» James Anhanguera


«Não, caro amigo, não se curam misérias ressuscitando tradições.» Eça de Queirós, carta a Alberto de Oliveira

«Little Furry Things»

quarta-feira, março 06, 2019

estampa CCCLVII - Ángel Zárraga


Auto-Retrato com Modelo

vozes da biblioteca

«É um comboio de via reduzida o que ali tomamos depois de prolongada espera, numa paisagem varrida pelo vento e desprovida de encantos.» Thomas Mann, A Montanha Mágica (1924) (trad. Herbert Caro)

«O sr. Jones, da Quinta Senhorial, fechara os galinheiros ao fim do dia, mas estava demasiado bêbado para lembrar-se de trancar as portinholas de passagem para os animais.» George Orwell, Animal Farm (1945) (trad. minha)

«Uma fotografia da época mostrava um adolescente pálido e desajeitado, com os cabelos cortados em escova, vestido com um fato de comunhão mal talhado: um rapazinho que se esforçava por dissimular a sua timidez sob uma aparência estúpida.» K. H. Poppe, A Guerra das Bananas (trad. Luís de Sttau Monteiro)  

segunda-feira, março 04, 2019

«I Want You Back»

um juiz cilindrado

Quem tiver paciência, que leia o acórdão do juiz Neto de Moura. Eu fi-lo na diagonal. Há lá incompetência do tribunal de primeira instância, que não perguntou ao condenado se aceitava a pulseira electrónica, como a lei impõe. Ora o juiz de recurso tem o dever de repor a legalidade. O problema são as considerações que desvalorizam a violência doméstica, neste caso em particular com um historial selvático de agressões físicas e psicológicas. Alguém que fura o tímpano à mulher a soco e a ameaça de morte conjuntamente com o filho, mesmo estando bêbado, não merece menos do que um controlo com pulseira (considerando aqui as atenuantes que surgem no acórdão: aceitar a ilicitude das suas acções, procurar tratamento para a adição, não ter voltado a contactar a vítima desde o afastamento). A verdade é que tendo provocado uma lesão permanente e grave à sua mulher, e outra, permanente e não menos grave a esta e ao filho, ameaçando-os de morte, nunca, mas nunca, este comportamento poderia ser desvalorizado, em particular com a redução de pena, já de si muito ligeira: o que são três anos com pena suspensa e pulseira electrónica para um caso destes? Nada, mas mesmo nada.
Abro um parênteses para dizer que é chocante verificar -- como, de resto, há décadas é dito no espaço público -- que o Código Penal pune com maior gravidade os crimes contra a propriedade e outros (vide os 17 anos a que foi condenado o sucateiro de Ovar, depois reduzidos para 13) do que os crimes contra as pessoas. E aqui o problema não está nos agentes judiciários mas na insuficiência e no cabotinismo das criaturas por cujas mãos têm passado as revisões do dito código nas últimas décadas, e cujo esquema mental não difere muito do tempo do faroeste, quando o roubo de um cavalo era punido com enforcamento do ladrão.
Ora o infelicíssimo juiz Neto de Moura, que já tinha atraído o riso geral com o acórdão da moca com pregos, acabou de algum modo por reincidir. Mas fez pior: procurou ripostar, contra políticos, jornalistas e humoristas. Não tem noção do vespeiro em que se enfiou, será cilindrado.  

domingo, março 03, 2019

o patife (e o palerma)

Como cinema, um filme menor, o que não quer dizer que seja um mau filme, nem por sombras. Trata-se de um panfleto, porém um panfleto bem feito, e do lado certo, sobre o modo como os filhos da puta se instalam no poder e dele se servem. Cheney foi um deles (em 2007, chamei-lhe bandido; no ano seguinte delinquente, facínora, em 2015; criatura letal, em 2016). Claro que para que cada hiena vingue, precisa de alguns palermas e de uma legião de criaturas sem escrúpulos que ajudem a formar a matilha, como o filme de Adam McKay mostra. O resto é sangue, e crápula. A ver, é claro. 
P.S. crápula que se estende a quantos, overseas, procuraram justificar a guerra do Iraque, pois só os alienados e os atrasados mentais não perceberam que esse crime foi uma inventona, à custa da qual pereceram e se desgraçaram centenas de milhares de vidas humanas.

orquestrais & concertantes: Albéniz, IBERIA - CORPUS CHRISTI EM SEVILHA (c. 1905) / Hartung

sábado, março 02, 2019

vozes da biblioteca

«Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)

«Hoje o tempo não me enganou.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«Naturalmente, também, se vieste aqui hoje foi para não estares fechada... -- disse João Garcia, sorrindo e desenrolando um fio de despiques pequeninos, a linha mais excitante de um namoro em que era a quarta ou quinta vez que se falavam.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

orquestrais & concertantes: Debussy, O MAR (1905) - I. Da alvorada ao meio-dia sobre o mar / Abbado

lido


quarta-feira, fevereiro 27, 2019

criadores & criaturas




Paul Gillon, Jean-Claude Forest e Os Náufragos do Tempo

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vozes da biblioteca

«Na sala de jantar da minha avó havia um aparador com portas de vidro e dentro desse aparador um pedaço de pele.» Bruce Chatwin, Na Patagónia (1980) (trad. José Luís Luna)

«Ontem dobrámos o cabo de S. Vicente sob um luar digno dos dramas de Shakespeare.» Eça de Queirós, O Egipto (1869/1926)

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros, nos quedávamos a contemplar vizinhas terras.» Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo (1940-44)

terça-feira, fevereiro 26, 2019

«One Of These Nights»

vozes da biblioteca

«A torre -- a porta da Sé com os santos nos seus nichos --, a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Havia braços de rainhas de mãos pendentes, brancas e com anéis, rosários de olhos como bolindros variegados com ternuras incalculáveis e molhadas e também com ódios e estupidez, mitras e cogumelos, como anémonas que se tinham nascido e morrido era por acaso, ao sabor do vaivém do sangue, na pele sei lá de quem.» António Pedro, Talvez uma Narrativa (1942)

«Preparar o futuro -- preparação para a morte.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

na morte de João Bigotte Chorão

Ensaísta, crítico e também diarista, ao lermos a reunião dos seus ensaios em volumes como O Escritor e a Cidade, Galeria de Retratos ou O Espírito da Letra ou ainda sínteses modelares como O Essencial sobre Camilo Castelo Branco, verificamos que ele pertence àquele grupo de autores, que não é multidão, que tem a literatura como alimento espiritual (não exclusivo, é certo) e paixão, que a serve em vez de dela se servir. Era o maior camilianista vivo; e a escritores, como Carlos Malheiro Dias, João de Araújo Correia, Francisco Costa ou Tomás de Figueiredo, entre muitos outros, deu o brilho da sua inteligência e a elegância do seu estilo.
Entre nós, alguns encontros, após aquele primeiro em que, já não sei porquê, evocámos a função salvífica dos sonetos do Shakespeare na vida periclitante de Stefan -- herói do Bosque Proibido, do Mircea Eliade --, numa circunstância dramaticamente incerta.

lido