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sábado, fevereiro 23, 2019

vozes da biblioteca

«Atravessava Nimur uma ponte velha, fechada de correntes, por onde ninguém ousava passar.» Mário de Carvalho, «Agade e Nimur», Contos da Sétima Esfera (1981)

«Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária.» Rui Chafes, «O perfume das buganvílias», Entre o Céu e a Terra (2012)

«Se Portugal não pode hoje conquistar Cacilhas, porque -- ai de nós! ela não é moira; é necessário que quando nos voltamos para o passado, possamos sentir a alma, porque ele vivia para o compreendermos; de outra forma a história torna-se ou uma cronologia muda, ou, o que é talvez pior, a justaposição de fonomonalidades animais.» Oliveira Martins (1872), Correspondência

sábado, janeiro 19, 2019

vozes da biblioteca

«Essa minha paixão levava-me a passar horas perdidas, nos campos, a desenhar na terra, nas cascas de árvores, no chão, enfim, em todo o lado onde uma linha pudesse existir e fazer sentido ao lado doutra linha.» Rui Chafes, «A história da minha vida» (2011), Entre o Céu e a Terra (2012)

«Fui fazendo isto, porque não sou de me deixar estar, a permitir que o mundo me esfregue sal na grande ferida que sou.» Victória F., «Requerimento», Elogio da Infertilidade (2018)

«Os progressistas arregimentavam gente sã, todas as pessoas sensatas da terra, destas criaturas de uma só cara, que sabem por onde trazem a cabeça, maduras de anos e experiência, dignas de todo o respeito.» João da Silva Correia, «Mijados e chamorros», Farândola (1945) 

quarta-feira, outubro 22, 2014

a responsabilidade do dom

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra (2013). O livro reúne duas intervenções do escultor, reflectindo sobre a Arte em geral, e a sua em particular. E executa-o com grande profundidade e uma solidez de escrita que encarreira ambos os textos para a categoria de obras literárias, que irrefutavelmente (também) são.
Em «A história da minha vida», Chafes concebe um escultor nascido na Francónia medieval do século XIII e que, sem limitações de tempo e de espaço, deambula entre o Norte e o Sul da Europa ao longo de mais de meio milénio, trabalhando e aprendendo com os mestres de cada época -- dos artistas das catedrais  francesas aos pré-românticos alemães. Trata-se de uma autobiografia estética, em que as inquietações e os desígnios de Chafes enquanto artista são equacionados. Como exercício estético, associo-o a Orlando, romance de Virginia Woolf e a A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov.
O segundo texto, «O perfume das buganvíleas» é constituído por 46 fragmentos, cada um susceptível de comentário desenvolvido. Direi apenas que encontro uma marca estóica no encarar, no apreender e no justificar da morte ("A beleza é impossível sem as marcas da morte", p. 40); a consciência do dom e a responsabilidade ética que implica, acompanhada de nostalgia por uma pretensa época dourada, com o inevitável questionamento da desumanização da sociedade mercantilizada que nos coube viver, e em que o consumo se estende à arte. 
Prezo ainda a consequência que é retirada: a do artista (só não escrevo verdadeiro artista porque me lembra o Serafim Saudade) como elemento de resistência e sanidade em face da poluição mercantil que nos condiciona.  

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

P&R - Rui Chafes

A sua exposição de Matera chyamava-se A porta estreita, numa alusão aos versículos bíblicos que falam das dificuldades do caminho e da entrada no paraíso. É também estreita a porta da arte?   Espero que sim. Vale a pena ver exposições pelas quais é preciso lutar, obras de arte que não sejam fáceis, que não se ofereçam. Na minha exposição, não vão entrar 300 mil pessoas ao fim de uma semana. A porta do meu trabalho é demasiado estreita para isso. Mas não tem problema, porque a arte não é para todos.

Entrevista a Maria Leonor Nunes, JL #1131, 5.II.2014