Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 30, 2019

vozes da biblioteca

«Apenas os relógios soavam as duas horas da sesta e ele -- surgindo inesperadamente, pois todos o julgavam na fazenda -- despachara a bela Sinhàzinha e o sedutor Osmundo, dois tiros certeiros em cada um.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

«Era uma sala grande, estranhamente vazia, com sacadas para a avenida, em que havia aquelas secretárias muito altas, de se escrever em pé nos grandes livros de comércio, encostadas às paredes.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (1979, póst.)

«o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;»  Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)

domingo, janeiro 27, 2019

vozes da biblioteca

«Buck não lia os jornais; caso contrário, teria sabido das atribulações que o aguardavam, de Puget Sound a San Diego, a ele e a todo o cão que fosse rijo de músculos e de pêlo abundante e aconchegador.» Jack London, O Apelo da Selva (1903) (trad. Rui Guedes da Silva)

«Nada ali indicava uma luta, nem sequer o rasgão da musselina que parecia separado em duas partes: havia apenas o silêncio e uma embriaguês esmagadora onde ele se afundava, separado do mundo dos vivos, agarrado à sua arma.» André Malraux, A Condição Humana (1933) (trad. Jorge de Sena)

«Todas as jovens da região vieram nesse dia a Sevilha, as generosas cabeleiras pendentes brilhando à luz do Sol, emoldurando, graciosas, os rostos corados que se debruçam.» Pierre LouÿsA Mulher e o Fantoche (1898) (trad. Emanuel Godinho Lourenço)

terça-feira, outubro 09, 2018

«E ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis.» Cyro dos Anjos, O Amanuense Belmiro (1937)

«E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«Mas descobríamos, pouco a pouco, que não havia a mínima falsidade no que ele deduzia ou inventava, ou, o que era o mesmo, que ele vivia num mundo seu, onde não penetravam as ideias dos outros, e onde quanto ele pensava  tinha valor idêntico ao que houvesse pensado um Newton qualquer.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (1979) 

sábado, setembro 15, 2018

«Ao longo das madrugadas um frémito de frescura vem fundir-se com a seca quietação da terra e agitar levemente a superfície parada das águas represadas. » Orlando da Costa, O Signo da Ira (1960)

«Mas nós tolerávamos a sua displicência, o condado de Barcelona, a alma do gafanhoto, os mistérios, em troca de uma fascinante simpatia que afinal, sem que antes tivéssemos notado, irradiava dele, num misto de alegria infantil e acaciana gravidade, iluminando-lhe o rosto quadrado e vago, quando dissertava sobre o que lhe vinha à cabeça.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póstumo, 1978)

«Nem alto, nem baixo, mas tão forte que o Dr. Cardoso, cacique em Montalegre, vira-se em dificuldades para o livrar do serviço militar, as pernas, se se arqueassem mais, tocariam calcanhar com calcanhar sob o ventre do cavalo.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

sábado, setembro 01, 2018

«A miséria constitui talvez o mais poderoso de todos os laços.» Balzac, A Vendetta (1830) (tradução de Artur Soares Filho)

«Amo os lobos, nascidos para a solidão e para a fome.» Raymond Léopold Bruckberger, O Lobo Milagreiro (1971) (trad. Jorge de Sena)

«Nas enormes camaratas, junto às janelas abarrotadas, por onde entrava o ar fresco da manhã renovando o ambiente carregado pelo respirar do amontoado de carne, formavam-se os grupos, as tertúlias da desgraça, procurando-se os homens pela identidade dos seus feitos: os delinquentes por crimes de sangue eram os mais numerosos, inspirando confiança e simpatia com os seus rostos enérgicos, os seus gestos resolutos e a sua expressão de selvagem pundonor; os ladrões, receosos e assolapados, com sorriso hipócrita; e entre uns e outros, cabeças com todos os sinais de loucura ou imbecilidade, criminosos instintivos, de olhar vago e incerto, fronte deprimida e lábios delgados, franzidos por certa expressão de desdém; testas de labrego extremamente rapadas, com as enormes orelhas despegadas do crânio; madeixas sebosas com com caracóis até às sobrancelhas; enormes mandíbulas, dessas que só se encontram nas espécies inferiores ao homem; blusas rotas e remendadas; calças no fio, e muitos pés, gastando a pele dura nos ladrilhos vermelhos.» Vicente Blasco Ibañez, «Casa de correcção», Contos Valencianos (1896) (tradução de Manuel do Nascimento)

domingo, julho 22, 2018

«Promovido a oficial, Giovanni Drogo deixou a cidade numa manhã de Setembro para se dirigir à Fortaleza Bastiani, seu primeiro destino.» Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros (1940) (trad. Margarida Periquito)

«Havia algo numa quermesse que atraía irresistivelmente Arthur Rowe, que o tornava vítima indefesa das longínquas estridências de uma banda de música e do entrechocar dos cocos com as bolas de madeira.» Graham Greene, Ministério do Medo (1943) (trad. Marília de Vasconcelos)

«Era um velho que pescava sòzinho na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe.» Ernest Hemingway, O Velho e o Mar (1952) (trad. Jorge de Sena) 

sábado, julho 14, 2018

«Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e das planície, confrontava as montanhas.» Ernest Hemingway, O Adeus às Armas (1929) (trad. Adolfo Casais Monteiro)

«Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.» Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1953) (trad. Mário-Henrique Leiria)

«Uma história não tem princípio ou fim: escolhemos arbitrariamente um momento da experiência, de onde olhar para trás, ou olhar para diante.» Graham Greene, O Fim da Aventura (1951) (trad. Jorge de Sena)

terça-feira, maio 01, 2018

«Há em certas cidades da província casas cuja visão inspira uma melancolia igual à que nos causam os claustros mais sombrios, as charnecas mais estéreis ou as ruínas mais lúgubres.» Honoré de Balzac, Eugénia Grandet (1833) - tradução de Jorge Reis

«Na maior parte do seu curso, o rio Drina corre através de gargantas apertadas, entre serras abruptas ou profundos desfiladeiros de arribas escarpadas.» Ivo Andrić, A Ponte Sobre o Drina (1945) - tradução de Lúcia e Dejan Stanković,

«Eu tinha oito anos quando minha mãe me trouxe as novas: o rei doara a meu pai um solar.» Maurice Baring, O Trono e o Altar (1930) - título original: Robert Peckham, tradução de Jorge de Sena

segunda-feira, março 19, 2018

«-- Senhor Morgado, pela saúde dos seus e meus tomates não me lixe mais com o caralho das quotas durante um ano e diga à Sociedade de Neurologia e Psiquiatria e amanuenses do cerebelo e afins que metam o meu dinheiro enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos e tenho dito ámen.» António Lobo Antunes, Memória de Elefante (1979)

«Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«As suas calmas e sonhadoras extravagâncias, o seu ar de senhor de idade, o mistério adulto de que rodeava a sua figura plena e atlética, a sua profunda convicção de que, desde o século XII ou XIII, a Espanha devia à sua família o condado de Barcelona, as perguntas absurdas, feitas com o ar mais convicto e ingénuo do mundo, com que ele era o terror dos professores inseguros, e o seu sistema filosófico que tudo explicava e o dispensava, "graças ao controle das energias do cérebro", de estudar as lições (salvo em casos de última emergência), tudo isto não fazia dele um ídolo nem um chefe, mas um ente respeitadíssimo, apesar da ironia com que todos o apontavam.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póstumo, 1979)

segunda-feira, abril 24, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964)

1) Talvez até então ninguém se tivesse atrevido a tratar assim a história de Portugal, mesmo sob o resguardo da ficção. Um tour de force romanesco e uma extraordinária e iconoclasta reflexão sobre o país. Tão mais interessante quanto o autor acumulava a arte de ficcionista com o trabalho rigoroso de historiador, sob o nome civil de Ruben Andresen Leitão, especialista do século XIX, estudioso do reinado de D. Pedro V, temas sobre os quais publicou vários trabalhos, sendo de sua lavra os verbetes correspondentes no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.

2) É possível que ao longo da relativamente extensa e densa narrativa (304 págs. na minha edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988), Ruben nos faça perder o pé, mas a desenvoltura estilística é tal-- e sempre competentemente vigiada --, que cada página é uma alegria para quem, como eu, é um gourmet destas coisas.

3) Ruben A, (1920-1975), à medida que o tempo vai passando, afirma-se como um dos grandes da sua geração -- geração que tem, pelo menos, uma vintena de ficcionistas a considerar, e da qual fazem parte Fernando Namora, Jorge de Sena ou Sophia de Melo Breyner Andresen (todos nascidos em 1919), Carlos de Oliveira (1921) ou Agustina Bessa Luís (1922).  Ruben está a envelhecer bem. Melhor do qie outros.

4) Incipit «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.»

5) Repostagem (2013): Um país de mortos-vivos. Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? 
O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.


6) Informa Liberto Cruz, na minha rica edição, prefaciada por José Palla e Carmo, que A Torre da Barbela foi recusado pela maior parte das editoras. Pudera.

(continua)

terça-feira, outubro 20, 2015

Dez livros que não poderiam nunca faltar na minha lista dos melhores romances escritos em língua portuguesa

Via Ler-te, descobri esta lista, e participei na inquirição sobre Os Melhores Romances Escritos em língua Portuguesa., como de costume sem ler as regras até ao fim... Por isso, a minha ordenação foi cronológica e não por ordem de preferência, como é pedido (acho que nem conseguiria fazê-lo). Também me impus não escolher mais do que um título do mesmo autor nem mencionar escritores vivos. Finalmente, prefiro chamar a esta minha lista «Dez livros que não poderiam nunca faltar na minha lista dos melhores romances escritos em língua portuguesa», uma vez que ninguém poderá jamais determinar quais são os melhores romances (ou sinfonias, ou telas, ou o que seja). em Arte não há melhor: há bom e mau; obra conseguida ou falhada. O resto são opiniões.
E então ela aí vai:

1. Os Maias (1888), de Eça de Queirós
2. Andam Faunos pelos Bosques (1926), de Aquilino Ribeiro
3. A Selva (1930), de Ferreira de Castro
4. Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio
5. Servidão (1946), de Assis Esperança
6. Gabriela, Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado
7. Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol
8. O Signo da Ira (1961), de Orlando da Costa
9. Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena
10. Para Sempre (1983), de Vergílio Ferreira

É claro que das Viagens na Minha Terra (1846)m de Almeida Garrett, até a as Primeiras Coisas (2014), de Bruno Vieira Amaral, muitos poderiam figurar nesta lista -- só que não poderiam ser dez.
Agora, caros amigos, toca a participar (têm até ao fim do ano, não se atrasem).

sexta-feira, outubro 03, 2014

dos pequenos sismos

Versão de Jorge de Sena, creditada às suas «Obras», com uma magistral «Introdução», apanágio dos trabalhos críticos e ensaísticos do grande escritor.
A poesia de Emily Dickinson (1830-1866) é breve, por vezes quase aforística, e essencial, lembrando, em certas ocasiões -- e embora mais negra -- a de Sophia de Mello Breyner Andresen.
A biografia de Emily Dickinson pouco mais regista além da vivência sem história ("Great Streets of silence led away / To Neighbourhoods of Pause", c.1870)  numa pequena cidade da Nova Inglaterra, ao contrário duma tumultuosa inquietação interior, que surge a cada passo ("This is my letter to the World / That never wrote to Me", c.1862) : as interpelações descrentes a Deus ("Heavenly Father [...] / We apologize to thee / For thine own Duplicity --" c.1879); a incómoda rasura da diferença ("Assent -- and you are sane -- / Demur -- you're straightway dangerous -- / And handled with a chain -- ", c.1862); a ausência do amor ("Wild Nights -- Wild Nights! / Were I with thee / Wild Nights should be / Our luxury!", c.1861)."Your thoughts don't have words everyday", escreveu num apontamento, por volta de 1861, reflectindo esse acontecer do(s) poema(s) por entre a verdejante calma aparente numa casa de família em Amherst, Massachusetts, em que viveu praticamente na obscuridade e ignorada dos seus contemporâneos. 
Há mais mundo na cabeça dum grande poeta do que em qualquer grand tour que um medíocre de ontem e de hoje possa fazer.

sábado, maio 25, 2013

cárceres (demasiado) visíveis

Francisco Costa, que se situava ideologicamente numa direita católica e conservadora -- ou mesmo reaccionária --, foi um escritor silenciado no pós-25 de Abril, e hoje é um nome esquecido. É verdade que o seu militantismo religioso é um pouco indigesto para quem como eu considera a religião uma fraqueza e, na sua forma organizada e institucional, um abuso que impende sobre os homens livres e um jugo primitivo sobre todos os outros (independentemente de considerar que o exercício da fé é um direito que assiste a todo o indivíduo, devendo essa liberdade ser respeitada desde que não colida com a liberdade dos ateus, dos agnósticos e até, obviamente, dos que não partilham a crença dominante nas respectivas sociedades). 
Mas, apesar do seu proselitismo, Francisco Costa é um romancista de mão cheia -- tal como foi um interessante poeta e ensaísta e um operoso historiador da sua Sintra natal. Jorge de Sena, que não facilitava, classifica-o como «notável romancista católico», embora Costa preferisse considerar-se um católico que escrevia romances, pormenor importante.
Este Cárcere Invisível (1949), Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências, testemunha a grande técnica romanesca do seu autor, muito bebida, de resto e ao contrário da tradição, na literatura anglo-saxónica, da qual era confesso admirador. Para já, ambiente muito pequeno-burguês lisboeta, protagonista (Eduardo Bandeira Bastos, 17 anos, estudante de Medicina), um pouco obcecado pelo valor individual servido por uma inteligência acima da média que contrapõe aos bem-nascidos das suas relações na academia: «nobreza natural: a verdadeira, a única!» Pai, «principal» empregado numa loja do comércio, baço como o são as materialidades; mãe doméstica e autoritária; irmã, Lu (de Lucinda), por enquanto a parvinha romântica e deslumbrada do costume (lê folhetins, na cabeceira Coração Torturado); Dudu, o protagonista, lê Gorki, que pousa no banco do jardim público «com desafio»...
Na dedicatória, Francisco Costa refere-se a «este drama duma vida sem Cristo», e o cárcere, como se irá depreender, é o materialismo, em especial marxista, então na mó de cima (e, felizmente, ainda não recuperado no seu pensamento totalitário do caixote do lixo para onde os povos que lhe sofreram o jugo o atiraram).  Numa nótula prévia, Costa deixa entrever o fascínio que sobre si exerceu a sua criatura, "esse médico invulgar que se fechou por suas mãos". Esta contenda entre criador e criatura, entre outros méritos do romance, aguça o interesse pela leitura -- até para saber quem levará a melhor e, principalmente, como levará a melhor...  

sexta-feira, maio 20, 2011

Jules Renard

5 poemas, traduzidos por Jorge de Sena, aqui.

sábado, novembro 11, 2006

domingo, setembro 10, 2006

Um dia, do que os homens comem, nascerá uma flor.
Jorge de Sena

sábado, junho 17, 2006

Caracteres móveis #78 - Edgar Allan Poe

Nada mais vago que as impressões da identidade dos indivíduos.

O Mistério de Maria Roget
(tradução de Jorge de Sena)

terça-feira, maio 02, 2006

Figuras de estilo #29 - Jorge de Sena

O não ter-se nada em comum, senão as circunstâncias que nos juntam, é que é a verdadeira sujeição mútua.
Sinais de Fogo

Sena

domingo, outubro 30, 2005

Antologia Improvável #69 - Jorge de Sena (2)

NÃO HÁ SAÍDA

Não pode a maior parte
suportar mesmo o que admira.
No mais sincero e puro admirar
uma raiva flutua, uns dedos se crispam,
um gosto sorridente de poder, podendo,
pousar na grandeza pelo menos um pé sujo
que manche o limiar lavado pela paciência
dos séculos e de um homem só. Não
tenhamos ilusão alguma. Quando louvam,
é só se podem dar com uma mão e tirar com a outra.
Nada pode haver de limpo neste mundo podre.
E morremos todos manchados de lama
que irá pegada a nós dentro do tempo.
Abrindo-nos as páginas futuras, alguém há-de
ver delas soltar-se um seco pó que tomba
e que ele sacode, assopra, rindo
da humanidade torpe que abusou de nós.
Ninguém porém nos pode garantir
que ele mesmo, o que nos limpa, o não faça
para no tempo limiar deixar bem nítidos
senão seus pés ao menos os dedos do seu cuspo.

11/10/1973

Visão Perpétua