Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

André Carvalho - The Garden of Earthly Delights

Já chegou aos escaparates The Garden of Earthly Delightso terceiro registo de originais do contrabaixista e compositor André Carvalho, um músico natural de Lisboa, mas a viver do outro lado do atlântico, na big apple, há quase meia década. Com artwork da autoria de Margarida Girão e inspirado no espantoso e intrincado universo do artista Hieronymus Bosch, em particular da pintura que dá nome ao disco, patente no Museu do Prado em Madrid, The Garden of Earthly Delights sucede a Hajime e Memória de Amiba, dois registos que mostraram uma mescla muito pessoal e original entre jazz contemporâneo e alguns dos arquétipos fundamentais da música portuguesa de cariz mais erudito e tradicional.

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Misturado pelo pianista, engenheiro e produtor Pete Rende, e masterizado pelo multi-instrumentista Nate Wood, com as participações especiais de nomes tão proeminentes como Jeremy Powell, um saxofonista americano e um dos mais influentes músicos no panorama de Nova Iorque, Eitan Gofman, um jovem saxofonista Israelista que tocou com Randy Brecker, Gerald Clayton, Eddie Gomez, David Liebman entre muitos outros, Oskar Stenmark, trompetista sueco que tocou com nomes como Maria Schneider Orchestra, David Byrne, Arturo O’Farrill e a Bohusland Big Band, o português André Matos, guitarrista que tocou com Sara Serpa, Billy Mintz, Pete Rende, Jacob Sacks e Thomas Morgan e Rodrigo Recabarren, baterista chileno com uma vasta experiência e cujo currículo inclui participações com Camila Meza, Kenny Barron, Kenny Werner, Melissa Aldana e Gilad Hekselman, The Garden of Earthly Delights oferece-nos, nas suas onze composições, uma recompensadora viagem em forma de suite musical, uma jornada contemplativa com vários momentos de tensão, mas também de calma. São composições que entre a suavidade e a brutalidade, a simplicidade e a complexidade, a harmonia e o conflito, fluiem com ímpar indulgência e subtil sagacidade, ao mesmo tempo que nos dão uma visão muito própria do referido quadro, um tríptico pintado pelo pintor holandês entre finais do século XV e início do séxulo XVI e em que a parte mais fechada representa a criação do mundo, mas que quando aberto, nos oferece um panorama incrível de interpretações que, entre as noções de paraíso, as tentações, uma visão do inferno repleto de almas pecadoras a caminho de um moinho, o voyeurismo e a pura e dura sexualidade, possibilitam por parte do nosso olhar as mais variadas interpretações.

Assim também é a música de André Carvalho, telas sonoras passíveis de apropriação por parte do ouvinte, que movidas através de complexas texturas melódicas entrelaçadas em sopros e cordas, sempre com uma certa aúrea de mistério e com uma enorme personalidade, plasmam todo o charme do melhor jazz contemporâneo. The Garden of Earthly Delights é, pois, um magnífico caldeirão sonoro onde as composições vestem a sua própria pele enquanto se dedicam, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor designou para cada uma, individualmente. Depois poderemos com elas exorcizar demónios, mas também aconchegar alegrias e realizações, esteja o ouvinte predisposto a saborear convenientemente o universo criado por este excelente intérprete de um estilo sonoro nem sempre devidamente apreciado. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:54
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Terça-feira, 21 de Maio de 2019

The National – I Am Easy To Find

Já chegou aos escaparates I Am Easy To Findo novo registo de originais dos norte-americanos The National, um álbum que viu a luz do dia a dezassete de maio, através da 4AD. Oitavo disco da carreira do grupo, I Am Easy To Find sucede a Sleep Well Beast, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no final do verão de dois mil e dezassete e tem um alinhamento de dezasseis canções que colocam os The National num pedestal de refinamento e classicismo algo exuberante e cada vez mais distante dos primeiros trabalhos do grupo nova-iorquino, que eram eminentemente crus, enérgicos e imediatos, quando comparados com estas últimas propostas mais contemporâneas.

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Antes de olhar a fundo no conteúdo de I Am Easy To Find, é importante esclarecer que uma das grandes curiosidades do disco é ser um trabalho colaborativo e conceptual. Resulta de uma parceria da banda com o realizador Mike Mills, sendo um dos componentes de 20th Century Womeno mais recente filme do cineasta, que também dirigiu uma curta-metragem com o nome do álbum. Mike Mills acabou por realizar também alguns videos de singles entretanto divulgados do disco, produções independentes do filme, com destaque para a interpretação de dança, protagonizada pela israelita Sharon Eyal em Hairpin Turns e que, de acordo com Mills, acaba por funcionar neste video como uma espécie de alter ego da personagem interpretada pela atriz sueca Alicia Vikander no filme.

Nome maior do panorama alternativo norte-americano das últimas duas décadas, sempre com elevada consistência e sem necessidade de grandes inflexões sonoras, o grupo liderado por Matt Berninger chega ao oitavo disco a oferecer à sua vasta legião de fãs o alinhamento mais longo, ambicioso e intrincado de um dos percursos mais dinâmicos e ricos da história do rock alternativo contemporâneo. E fá-lo cada vez mais centrado na figura do vocalista que, rodeado de quatro dos melhores músicos da atualidade, vai expressando, álbum após álbum, todas as suas agruras e frustrações, mas também sonhos, alegrias e realizações pessoais. Ele é o tipo de cantor e poeta capaz de oferecer com tremenda nitidez os seus maiores medos e inseguranças e fá-lo tornando-se na própria estrela que interpreta o estilo particulamente cinematográfico de uma escrita sempre tocante, intensa e realista. É, portanto, impossível indissociar os poemas musicados pelos The National do próprio trajeto pessoal de Berninger, sendo quase possível redigir uma espécie de biografia do homem tendo por base a análise e interpretação do catálogo sonoro deste quinteto.

Uma das nuances mais interessantes de I Am Easy To Find e que reforçam este exercício de exposição pública por parte de Berninger, foi a opção por se fazer acompanhar por um interessantíssimo conjunto de vozes femininas que ajudam a ampliar toda a aúrea de sentimentalismo, sensibilidade e até de uma certa pureza e requinte, sensações que exalam facilmente do âmago deste disco. Na nobreza melancólica de Oblivions, composição sobre a beleza do casamento e com a voz de Pauline de Lassus, esposa de Bryce Dessner, na condução, no modo como em Hey Rosey, um tema sobre a exposição das vulnerabilidades individuais sempre subjacentes a uma relação profunda e bem sucedida, Mina Tindle acaba mesmo por assumir o protagonismo vocal numa lindíssima canção que também tem nos créditos líricos Carin Besser, esposa de Berninger, na religiosidade mítica que o coletivo Brooklyn Youth Chorus nos proporciona em Her Father In The Pool e com maior cosmicidade no tema Dust Swirls in Strange Light, no modo delicado como na luxuriante e efusiva rugosidade de Where Is Her Head, um dos melhores temas que os The National compuseram esta década, Eve Owens canta um excerto do livro que o pai lê à protagonista do filme adjacente ao álbum e, principalmente, na presença de Gail Ann Dorsey, baixista e segunda voz durante longo período da carreira do malogrado David Bowie em You Had Your Soul With You, fica plasmada uma evidência inegável; Estas vozes femininas assumem a primazia interpretativa e delegam, em muitos casos, Matt Berninger para um papel de coadjuvante, algo difícil de se imaginar numa banda que sempre foi sonoramente tão íntima e dependente da sua voz principal.

No que concerne à componente instrumental do disco, como de certo modo já referi acima, os The National continuam, ao oitavo disco, a enriquecer o seu impressionante catálogo com novas nuances instrumentais, cada vez mais firmadas nas teclas do piano e dos sintetizadores e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, opções que procuram incutir luminosidade e cor ao que aparentemente já foi muito mais sombra e rugosidade. Assim, acaba por ser comum escutar em simultâneo, como é o caso de Light Years, instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade e outros, como You Had Your Soul With You, que acabam por resvalar para uma teia sonora que se diversifica e se expande, à medida que a composição evolui. Depois há ainda canções, como Roman Holiday, que prezam pelo minimalismo da combinação de poucos instrumentos, mas que, no fundo, tornam-se num refúgio bucólico e denso que impressiona pelo forte cariz sensorial. Finalmente, há ainda outras que soam mais ricas e trabalhadas, como Quiet Lighttalvez um dos temas do disco que exala com superior precisão o cada vez maior ecletismo estilístico do grupo.

Os The National sempre foram bem aceites e acarinhados por cá devido ao modo como, nos primeiros discos, se tornavam automaticamente nossos amigos e confidentes, não só pela forma como abordavam a tristeza, dando-nos pistas concretas no modo de lidar com ela e apontando caminhos de redenção, nem que fosse através da simples lembrança de que amanhã há sempre um novo dia e que a esperança nunca pode esmorecer. Agora, a sensação que fica é que o efeito pretendido é um pouco o contrário, ou seja, existe uma pretensão mais ou menos clara por parte de Berninger de querer que sejamos nós a sacar as suas confidências e sente-se que ele suspira por uma retribuição da nossa parte relativamente a essa entrega e exposição ímpares. No travo psicadélico invulgar de So Far So Fast, na sobriedade do piano e da batida sintética que conduz Hairpin Turns, uma ode às memórias que deixamos para os outros depois de partirmos deste mundo, na exaltação à beleza do mundo infantil feita em Rylan, um tema com raízes nas sessões de gravação de High Violet (2010), na suprema luminosidade de Light Years, uma canção sobre esperança, luta e vitória, composta num piano sueco numa casa que a família de Berninger alugou na Dinamarca, para onde se mudaram há alguns anos, durante uma temporada, depois da sogra de Berninger ter sido diagnosticada com cancro e, principalmente, em Not In Kansas, uma canção que contém referências aos R.E.M., aos The Strokes, a um fornecedor de erva antigo do músico e ao seu ódio de estimação pela extrema-direita e incubada também na Dinamarca a partir de um instrumental intitulado Everything to Everyone, do projeto Everyone Moves Away, Berninger é particularmente explícito neste exercício comunicacional confessional que procura estabelecer com a intimidade de cada um de nós, dentro de um disco pensado com um propósito bem definido, mas que pode muito bem também ser apropriado pelos fãs da banda para ser lido e interpretado do modo que melhor lhe convier. Esta possibilidade que a música dos The National sempre nos ofertou é, sem dúvida, uma das suas  imagens de marca e um dos legados únicos que a banda deixa para a história do indie rock contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

The National - I Am Easy To Find

01. You Had Your Soul With You
02. Quiet Light
03. Roman Holiday
04. Oblivions
05. The Pull Of You
06. Hey Rosey
07. I Am Easy To Find
08. Her Father In the Pool
09. Where Is Her Head
10. Not In Kansas
11. So Far So Fast
12. Dust Swirls In Strange Light
13. Hairpin Turns
14. Rylan
15. Underwater
16. Light Years


autor stipe07 às 15:35
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Segunda-feira, 20 de Maio de 2019

The Black Keys – Go

The Black Keys - Go

Cinco anos depois de Turn Blue, a dupla The Black Keys de Dan Auerbach e Patrick Carney estará de regresso em dois mil e dezanove com um novo disco, o nono da carreira do projeto, um registo do qual já se conhecem algumas composições.

Let´s Rock é o título desse próximo álbum de estúdio da dupla de rock americana, irá ver a luz do dia a vinte e oito de junho próximo pela Easy Eye Sound em parceira com a Nonesuch Records e Go é a canção mais recente divulgada do seu alinhamento, uma divertida composição, com groove intenso e pleno de soul, conduzida por uma guitarra mais perto do que nunca do punk rock de garagem.

Depois da intensa digressão de promoção a Turn Blue, Dan e Patrick entraram num período relacional entre ambos bastante complicado que acabou por provocar uma pausa no projeto. Bryan Schlam, o realizador do vídeo de Go, satiriza no filme essa situação entretanto resolvida, abordando o elefante na sala e colocando a dupla a fazer terapia, num retiro espiritual numa comuna, um lugar de paz e de união e com a banda a odiar cada segundo que lá passa. Foi um vídeo certamente desafiador, mas bem conseguido porque oferece-nos uma narrativa cinematográfica e engraçada ao mesmo tempo. Confere...


autor stipe07 às 16:05
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Domingo, 19 de Maio de 2019

Interpol - Fine Mess EP

Quase um ano após o lançamento de Marauder, os Interpol entraram em grande estilo no verão de dois mil e dezanove com Fine Mess, um EP que a banda acaba de lançar à boleia, obviamente, da Matador Records e que contém cinco canções gravadas por Dave Fridmann nos estúdios nova iorquinos do próprio, os Tarbox Studios, durante a sessões de Maraudero tal disco que os Interpol editaram no verão passado.

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É impossível indissociar o conteúdo de Fine Mess do alinhamento de Marauder,  até porque o EP mantém o trio naquele formato que exalta o espírito sombrio dos anos oitenta e que tem sido replicado por Banks, Kessler e Fogarino com elevado quilate. Seja como for, parece-me não ter havido apenas um exercício de junção de composições que ficaram de fora desse registo, mas antes algo mais aturado e refletido. De facto, Fine Mess tem uma identidade muito própria e será redutor e injusto considerar este EP como uma espécie de apêndice de Marauder. Escuta-se o tema homónimo e somos confrontados com o Banks incisivo de sempre, não só na voz mas também no modo como toca aquela guitarra agreste, agudizada pelo efeito identitário dos Interpol, um timbre metálico que lançou o grupo para as luzes da ribalta no início deste século, quando com o indie rock genuíno de Antics e o post punk revivalista de Turn On The Bright Lights conquistaram meio mundo. É, pois, uma canção que contém uma ímpar virilidade elétrica misturada com uma espécie de absurdo lírico que, sendo uma imagem de marca da escrita e composição dos Interpol, inclui, neste caso, referências à década de oitenta e à inquietude das relações.

As nuances rítmicas de No Big Deal e a energia intuitiva de Real Life acabam por ser duas balizas identitárias deste alinhamento e de marcação da tal ruptura com Marauder, com a toada invulgarmente pop de The Weekend a ser a cereja no topo do bolo de um EP que atesta, uma vez mais, a superior experiência por parte do grupo nova iorquino e tem a mais valia de oferecer ao fã um extra inesperado e, ainda por cima, com elevada bitola qualitativa. Espero que aprecies a sugestão...

Interpol - A Fine Mess

01. Fine Mess
02. No Big Deal
03. Real Life
04. The Weekend
05. Thrones


autor stipe07 às 18:19
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Sexta-feira, 17 de Maio de 2019

Mikal Cronin – Undertow / Breathe

Foi através da iniciativa  de caridade FAMOUS CLASS RECORDS / LAMC 7" SERIES que viu a luz do dia recentemente o novo lançamento discográfico de Mikal Cronin, um músico norte-americano natural de Laguna Beach, Na Califórnia. Trata-se de uma edição em vinil de sete polegadas de dois temas, Undertow e Breathe e que quebram um hiato de quase meia década desta referência ímpar do indie rock do outro lado do atlântico, que já tem no seu historial os registos Mikal Cronin (2011), MCII (2013) e MCIII (2015), além de colaborações importantes com outros músicos, como Ty Segall ou Kim Gordon.

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Canção feita com arranjos sujos e guitarras desenfreadas e que nos faz viajar no tempo à boleia de uma feliz simbiose entre garage rock pós punk, Undertow fala-nos do modo como muitas vezes nos deixamos influenciar demasiado pelos outros e do erro que todos cometemos quando nos deixamos ir na corrente da maioria. Já Breathe, composição mais melancólica e experimental, assente numa acusticidade psicadélica intensa e que deve muito a um sintetizador analógico monofónico MOOG Sub 37, foi incubada numa quente manhã ateniense, após Cronin ter acordado com umas estranhas explosões, no quarto de hotel da capital grega em que se encontrava, durante uma digressão com Ty Segall. É um tema que fala-nos da necessidade que todos sentimos de voltar à superfície e nos reerguermos depois de um período mais sombrio. Confere...

Mikal Cronin - Undertow - Breathe

01. Undertow
02. Breathe

 


autor stipe07 às 16:56
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Quinta-feira, 16 de Maio de 2019

Bear Hands – Fake Tunes

Foi através da Spensive Sounds que viu a luz do dia Fake Tunes, o quarto registo de originais dos Bear Hands, um coletivo norte-americano, oriundo de Brooklyn, Nova Iorque e atualmente formado por Dylan Rau, Val Loper e TJ Orscher. O registo é um mergulho profundo e particularmente imersivo numa multiplicidade de estilos sonoros, misturados e depois torcidos e retorcidos, uma filosofia sonora interpretada com sentido melódico e lúdico e com o firme propósito de fazer o ouvinte divagar por diferentes épocas sonoras, com particular ênfase nos anos oitenta do século passado.

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Coloca-se em modo play Fake Tunes e percebe-se, logo em Blue Lips, o cariz retro de um trabalho influenciado não só pelas habituais camadas sonoras que compôem o rock alternativo das últimas décadas, mas também por alguns tiques caraterísticos do hip hop, do pop punk, do eletropop e do rock clássico, sempre com a herança dos anos oitenta em ponto de mira. E, logo a seguir, toda esta trama estende-se de modo esplendoroso nos efeitos, na distorção e no clima épico de Mr. Radioactive, mas também, numa abordagem mais rugosa e densa, em Friends In High Places, canção que demonstra de modo claro todo  um esforço algo indisciplinado, infantil e claramente emocional, mas bem sucedido, diga-se, de criar composições cativantes e saudosistas, mas que também estejam em linha com as tendências mais contemporâneas da pop. Em Back Seat Driver (Spirit Guide) a simbiose do registo vocal imponente e emotivo com um sintetizador que parece ter sido ressuscitado após trinta anos de hibernação, ao qual se juntam excelentes loops de guitarra e uma distorção rugosa altiva e visceral, o charme retro vintage do clima neo psicadélico de Reptilians, assim como o reverb vocal e os teclados cósmicos que aprimoram a inebriante e corrosiva Ignoring The Truth, são outras composições que acomodam um disco coeso, assente em texturas sonoras intrincadas e inteligentes, diferentes puzzles que dão substância a uma mescla de géneros e estilos, idealizada sem regras ou convenções e de modo particularmente cativante e sedutor.

Os Bear Hands são de difícil catalogação, mas parecem já ter encontrado o rumo certo com este Fake Tunes, uma sátira intensa e até algo paranóica à contemporaneidade em que vivemos e onde névoas permanentes nos assombram quando olhamos para o futuro. Por cá serão novamente merecedores de loas e de exaltação plena se optarem sempre pela miscelânia e heterogeneidade sonora que carateriza este registo. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Blue Lips (Feat. Ursula Rose)
02. Mr. Radioactive
03. Friends In High Places
04. Back Seat Driver (Spirit Guide)
05. Reptilians
06. Ignoring The Truth
07. Clean Up California
08. Exes
09. Pill Hill
10. Blame
11. Confessions (Feat. Ursula Rose)


autor stipe07 às 17:47
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Quarta-feira, 15 de Maio de 2019

The Tallest Man On Earth – I Love You. It’s A Fever Dream.

I Love You. It’s A Fever Dream. é o quinto e novo registo de originais do sueco Kristian Matsson, que assina a sua música como The Tallest Man On Earth, um álbum de difícil gestação e muito querido pelo próprio autor que confessou no verão passado que estava a ser complicado conseguir aprimorar o seu conteúdo devido à digressão de Dark Bird Is Home, o álbum que o músico lançou há quatro anos. Aliás, esta digressão acaba por ser o grande mote de dez canções que reforçam o estatuto de excelência de um autor que tem, com toda a justiça, cada vez maior aceitação e reconhecimento público e que possui o dom raro de transformar histórias particulares e melancolias próprias em música acessível a todos.

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De facto, I Love You. It’s A Fever Dream., sendo, de acordo com o autor, um relato de diferentes banalidades, rotinas e curiosidades que estão sempre subjacentes à vida de um músico, geralmente intercalada entre a estrada e o estúdio, procura ter o atributo maior de responder a algumas das questões filosóficas mais prementes da nossa existência, nomeadamente quais os melhores caminhos que devemos percorrer, nos obstáculos que todos temos de contornar ou ultrapassar durante a vida.

Assim, este disco é, essencialmente, um feliz exercício biográfico, onde The Tallest Man On Earth estabelece uma forte vontade de aproximação, como se cantasse diretamente para nós, de forma verdadeiramente confessional, enquanto tem o duplo objetivo de se abrir e desabafar, mas também aconselhar e inspirar. Por exemplo, em Hotel Bar Matsson relata alguns dos constrangimentos da digressão, nomeadamente a solidão, mas também a beleza de um concerto, que reside na arte comunicar com uma audiência de estranhos, utilizando uma forma de manifestação artística sublime, a criação musical. E fá-lo comparando-se a um leopardo que vive uma epopeia que, quer passe por Brooklyn ou por uma savana africana, tem sempre necessidade de escalar a uma árvore ou a um arranha-céus para ver se encontra alguém familiar e da sua espécie. Pouco depois, em I’m A Stranger Now, Matsson regressa à temática da solidão, ampliando porque confessa cruzar-se e conhecer imensas pessoas mas percebe que são poucas aquelas que realmente marcam e que na sua profissão é sempre escasso o tempo e a dispopnibilidade para cultivar a amizade. Já em Waiting For My Ghost explora a estranha sensação de anonimato que a presença constante na estrada provoca, por serem imensos os dias em que se sente rodeado apenas por estranhos e em There's A Girl ele clama por um novo amor que o faça libertar-se de toda esta realidade sombria, rotineira e pouco recompensadora em que vive.

Em suma, I Love You. It’s A Fever Dream. é um daqueles discos que encanta pelo modo como as melancolias afloram, canção após canção, de uma forma muito honesta e ao mesmo tempo comercial. Quer seja através da country ou da folk, nestas dez canções o cantor apodera-se de sentimentos universais, para criar um clima intenso e uma verdadeira espiral sentimental, que atinge com precisão o lado mais sensível de cada um de nós, sem apelo nem agravo. O modo como Matsson cria neste registo metáforas sobre si próprio é feito com um grau de realismo e de criatividade tal que quase nem nos apercebemos da própria instrumentalidade, que conduz o disco. Mas convém referir que nesta tal instrumentalidade, The Tallest Man On Earth é exemplar no modo como usa as cordas, as teclas e diversos efeitos percussivos para ampliar o toque intimista de um álbum inteligente e particularmente belo. Espero que aprecies a sugestão...

The Tallest Man On Earth - I Love You. It's A Fever Dream.

01. Hotel Bar
02. The Running Styles Of New York
03. There’s A Girl
04. My Dear
05. What I’ve Been Kicking Around
06. I’m A Stranger Now
07. Waiting For My Ghost
08. I’ll Be A Sky
09. All I Can Keep Is Now
10. I Love You. It’s A Fever Dream.


autor stipe07 às 15:44
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Terça-feira, 14 de Maio de 2019

Idlewild - Interview Music

Os britânicos Idlewild, formados atualmente por Roddy Woomble, Rod Jones, Colin Newton, Allan Stewart e Gareth Russell, estão de regresso aos registos discográficos com Interview Music, um disco produzido por Dave Eringa, que trabalhou nos álbuns anteriores da banda, 100 Broken Windows e The Remote Part e que viu a luz do dia a cinco de abril, sucedendo ao aclamado registo Everything Ever Written, lançado há já quatro anos.

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Oitavo disco da carreira de uma banda com uma história já longa e feita de períodos aúreos e outros menos resplandescentes, que perigaram o futuro do projeto e fizeram Roddy, o líder, pensar em dar primazia a um projeto a solo, Interview Music abre em grande estilo com o portentoso single Dream Variations, uma canção assente num rock incisivo e agreste, duas imagens de marca dos Idlewild e que plasma, desde logo, a evidência de que mantêm-se intactos os atributos maiores desta mítica banda. Depois do clima mais dançante e que pisca um olho à eletrónica angulosa de There's A Place For Everything, somos confrontados com outro momento alto do disco, o single Same Things Twice, uma canção que atesta o regresso dos Idlewild a territórios mais experimentais e que exalando muita da energia adolescente de bandas como os Superchunk ou os Sonic Youth e experiências dissonantes ao estilo Pavement, nomeadamente na guitarra, acaba por, no seu todo, abarcar heranças diretas do pós punk, onde não faltam também vias sonoras abertas para o pop rock, a new wave e o grunge, tudo acomodado por aquele jeito meio desajeitado e aparentemente pouco sóbrio de cantar, típico de Roddy. Ele mistura bem a sua voz, mesmo que às vezes soe algo agressiva, com as letras e os arranjos das melodias, o que faz com que o próprio som da banda ganhe em harmonia e delicadeza o que pode ser abafado pela distorção, já que o red line das guitarras é atributo essencial do cardápio sonoro dos Idlewild.

Até ao ocaso do registo, o travo punk de Same Things Twice, amaciado pelo clima mais arejado de I Almost Didn’t Notice e o exercício supremo de criatividade em que assenta Mount Analogue, uma composição em que guitarras e sopros conjuram entre si de modo particularmente simbiótico, são outros exemplos concretos da superior capacidade dos Idlewild de nos proporcionar o acesso à memória daquela fita magnética mais bem cuidada e onde guardámos os nossos clássicos preferidos que alimentaram os primórdios do rock alternativo, mas também de envolver a nossa mente com uma elevada toada emotiva e delicada, mesmo que a sonoridade pareça, a espaços, algo sombria e rugosa. Espero que aprecies a sugestão...

Idlewild - Interview Music

01. Dream Variations
02. There’s a Place For Everything
03. Interview Music
04. All These Words
05. You Wear It Secondhand
06. Same Things Twice
07. I Almost Didn’t Notice
08. Miracles
09. Mount Analogue
10. Forever New
11. Bad Logic
12. Familiar To Ignore
13. Lake Martinez

 


autor stipe07 às 16:07
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Segunda-feira, 13 de Maio de 2019

Cayucas – Real Life

Depois de passarem os últimos dois anos a escrever canções, os Cayucas dos gémeos Zach e Ben Yudin, estão de regresso aos discos com Real Life, o terceiro trabalho desta banda sedeada em Santa Mónica, na Califórnia e que sucede ao aclamado registo Dancing At The Blue Lagoon editado no ocaso do verão de dois mil e quinze. Recordo que na altura esse álbum era aguardado com enorme expetativa porque sucedia a Bigfoot (2012), um disco que, logo na estreia da dupla, colocou os dois irmãos nas bocas da crítica mais especializada e grangeou uma legião vasta de fãs que tem tudo para aumentar tendo em conta o conteúdo luminoso e feliz de Real Life.

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Produzido por Dennis Herring (Elvis Costello, Modest Mouse, Camper Van Beethoven), Real Life é um verdadeiro festim pop, meia hora de canções que se esfumam com uma altivez ímpar, enquanto nos proporcionam um retrato feliz de uma Califórnia cheia de sol, praias e pessoas que vivem algo alienadas do mundo real, por mergulharem constantemente nas ondas salgadas de um pacífico que estabelece pontes com uma costa oeste cheia de oportunidades e todo aquele conforto que o capitalismo pode oferecer, com Hollywood a ser, de certo modo, o expoente máximo deste modo de viver tão exuberante e frenético.

Escutamos Jessica WJ ou Girl e imaginamos facilmente Sunset Boulevard e atrizes a desfilar passeio abaixo com vestidos insinuantes e os braços repletos de sacos de papel carregados de trapinhos de alta costura,mas também é fácil sermos levados até ao passado, sentados num manto de nostalgia retro, ao som de Melrose Place ou para uma sunset party, com direito à fogueira da praxe, à boleia do banjo e das palmas de Tears.

A receita para todo este clima envolvente e único? Simples, mas eficaz! Melodias que ganham vida conduzidas por guitarras carregadas de timbres metálicos e que mesclam algumas das caraterísticas fundamentais do indie rock alternativo com aquela pop vibrante e que deve muita da sua essência a sintetizadores plenos de efeitos com elevada cosmicidade. What It Feels Like é, talvez, o malhor exemplo desta opção estilística dos Cayucas, mas que também não descura uma vertente acústica, audivel nas cordas e nos elementos percurssivos de Alligator.

Escutar Real Life é, pois, uma experiência divertida e nostálgica sobre um mundo diferente do nosso, visto pelos olhos de uma dupla que afirma inspirar-se muito nas memórias do seu passado e daqueles que se foram cruzando nas suas vidas, nomeadamente amigos e colegas da escola e do meio onde cresceram. Aliás, a já citada canção Jessica WJ é sobre uma amiga dos dois irmãos que era popular porque tocava baixo na escola secundária que frequentaram e Winter of 98 fala de tardes passadas a jogar bilhar em bares e salas de jogos de Santa Mónica, no final do século passado. Portanto, estando na fase mais madura e profícua de uma carreira que é olhada com intesidade e devoção na costa oeste dos Estados Unidos da América, os Cayucas certamente procuraram neste Real Life criar canções que contassem histórias reais e comuns a qualquer mortal, tramas com que o ouvinte se identificasse espontaneamente e que fluissem naturalmente, transmitindo, ao mesmo tempo, aquela felicidade incontrolável e contagiante que todos nós procuramos. Missão cumprida! Espero que aprecies a sugestão...

Cayucas - Real Life

01. Jessica WJ
02. Real Life
03. Girl
04. Melrose Place
05. Tears
06. Naked Shower Scene
07. Winter Of ’98
08. What It Feels Like
09. Alligator


autor stipe07 às 16:07
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Domingo, 12 de Maio de 2019

Ride – Future Love

Ride - Future Love

Produzido por Erol Alkan e misturado por Alan Moulder e Caesar Edmunds, This Is Not A Safe Place é o nome do novo registo de originais dos britânicos Ride de Andy Bell, que, recordo, depois de um hiato de mais de duas décadas, reuniram-se e lançaram um novo disco há três anos, intitulado Weather Diaries. Esse trabalho vê agora sucessor, depois do EP Tomorrow Shore, editado o ano passado e que continha 4 temas que sobraram das gravações de Weather Diaries.

Verdadeiras lendas do shoegaze contemporâneo, os Ride contrariam um pouco o comportamento habitual de algumas lendas do rock que se reúnem depois de uma longa ausência, editam um disco e acabam por desaparecer novamente na penumbra. De facto, existe aqui uma busca de continuidade, materializada em This Is Not A Safe Place, registo que sairá lá para o verão. Future Love é o primeiro single já retirado desse álbum, uma grandiosa canção assente numa aditiva melodia com leves pitadas de surf pop e garage rock, embrulhadas com um espírito vintage marcadamente oitocentista e que terá o propósito bem claro de captar definitivamente o lado mais radiofónico do ouvinte, sem colocar em causa a habitual ousadia experimental dos Ride. Confere...


autor stipe07 às 17:37
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Sábado, 11 de Maio de 2019

Night Moves – Strands Align

Night Moves - Strands Align

Será a vinte e oito de junho próximo que chegará aos escaparates e através da insuspeita Domino Records, Can You Really Find Me, o novo registo de originais da dupla norte-americana Night Moves, formada por Micky Alfano e John Pelant, sendo o último o principal responsável pela escrita das canções neste projeto. Can You Really Find Me foi produzido por Jim Eno, membro fundador e baterista dos Spoon, nos estúdios Public Hi-Fi em Austin, no Texas e contou com as participações especiais dos músicos Mark Hanson e Chuck Murlowski.

Sedeados em Minneapolis, estes Night Moves apostam todas as fichas numa espécie de mistura entre um country cósmico e o típico rock psicadélico, um caldeirão improvável mas perfeito para incubar canções texturalmente ricas e que acabam por encarnar deliciosos tratados de epicidade e lisergia, como será certamente possível atestar no conteúdo de Can You Really Find Me.

Para já podemos deliciar-nos com Strands Align, o primeiro avanço já revelado de Can You Really Find Me, uma verdadeira orgia lisérgica que nos catapulta, em simultâneo, para duas direções aparentemente opostas, a indie folk psicadélica e o rock experimental. Confere...


autor stipe07 às 13:29
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Sexta-feira, 10 de Maio de 2019

Starflyer 59 – Young In My Head

Os míticos Starflyer 59 de Jason Martin, ao qual se juntam, atualmente o baixista Steven Dail (Project 86, Inner Means, Crash Rickshaw, Bloodshed), o teclista TW Walsh (TW Walsh, Pedro the Lion, Lo-Tom, The Soft Drugs) e o baterista Charlie, filho de Jason, estão de regresso aos discos com Young In My Head, um compêndio de dez canções que sucedem a Slow, um registo lançado há cerca de três anos. Young In My Head viu a luz do dia através da Tooth & Nail Records, a editora de sempre desta banda oriunda de Riverside, na Califórnia.

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Com já quase três décadas de existência, os Starflyer 59 começaram por apostar em abordagens ao shoegaze, logo no registo homónimo de estreia lançado em mil novecentos e noventa e quatro, uma opção que se manteve nos sucessores Gold Americana. Depois, com The Fashion FocusEverybody Makes Mistakes, e Leave Here a Stranger, os Starflyer 59 entraram num período de transição e começaram a migrar para um som mais limpido e acessivel e próximo dos arquétipos fundamentais do típico indie rock alternativo norte-americano, sendo considerados, na atualidade, como um dos projetos mais profícuos do cenário alternativo do outrolado do atlântico.  Já agora, aos discos que o grupo já lançou, juntam-se nove EPs, quatro edições ao vivo, três compilações e um sem número de edições de singles em vinil, além da participação do grupo em outros projetos paralelos, sendo os mais célebres os Pony Express, Bon Voyage, Dance House Children, The Brothers Martin, White Lighter, Neon Horse e os Lo-Tom.

Young In My Head é, então, o décimo quinto registo de originais do catálogo do grupo, um alinhamento de dez canções que coloca os Starflyer 59 a replicar uma sonoridade com um travo muito nativo e profundamente americano, com as guitarras e os sintetizadores a mostrarem-nos alguns dos maiores méritos daquele rock oitocentista que ainda hoje está bem impresso na memória de muitos. Basta escutar o ritmo frenético do tema homónimo e o modo como a guitarra encaixa e os teclados planam acima da melodia, para recuarmos facilmente até esse período aúreo da história musical contemporânea. Depois, o clima mais blues da guitarra que conduz a subtileza melódica de Cry, a curiosa e inesperada beleza que emana da mais negra e depressiva Remind Me e o rock agreste e poeirento que conduz Crash, atestam a força, o vigor e a vitalidade de um disco bem definido em termos de sonoridade e exemplar na forma como a recria, através de canções que nos oferecem algum do melhor rock que se escuta por aí, às vezes tão rugoso e quente como o asfalto que pisamos todos os dias. Espero que aprecies a sugestão...

Starflyer 59 - Young In My Head

01. Hey, Are You Listening?
02. Young In My Head
03. Not That I Want To
04. Cry
05. Remind Me
06. Smoke
07. Wicked Trick
08. Junk
09. Cain
10. Crash


autor stipe07 às 16:39
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Quinta-feira, 9 de Maio de 2019

Vampire Weekend – Father Of The Bride

Mais de meia década depois do excelente Modern Vampires of the City, os Vampire Weekend de Ezra Koenig, Chris Baio e Chris Tomson, estão finalmente de regresso aos lançamentos discográficos com Father Of The Bride, o quarto disco da carreira do grupo de Nova Iorque, um álbum duplo, que viu a luz do dia através da Columbia Records e que tem como eixos basilares orientadores da sua escrita noções como alegria, luminosidade e o renascer para uma nova vida, no fundo, ideias que deverão estar neste momento muito presentes no dia-a-dia de um projeto que perdeu há três anos Rostam Batmanglij, uma das suas pedras basilares, multi-instrumentista e anterior responsável pela função de principal produtor do grupo e que procura agora colocar-se novamente nos eixos. Ezra Koenig é, portanto, a grande força motriz atual de um projeto muito centrado neste músico, vocalista e compositor, que durante este longo hiato constituiu família com a atriz Rashida Jones, lançou a sua série de animação Neo Yokio no Netflix, continuou a apresentar o programa Time Crisis e co-escreveu Hold Up de Beyoncé, enquanto vivia algumas experiências descritas neste novo álbum dos Vampire Weekend.

Esta banda nova iorquina sempre evoluiu e enriqueceu o seu cardápio à custa de canções divididas entre um travo afro e o rock alternativo, um modus operandi que com Contra, e no anterior Modern Vampires Of The City também evoluiu para sonoridades mais maduras e experimentais. Com as participações especiais de Steve Lacy dos The Internet em dois temas e de Danielle Haim em três, Father Of The Bride continua a apostar nesta lógica de continuidade evolutiva e de busca de uma maior heterogeneidade e complexidade para o cardápio do grupo.

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Desta vez tal demanda centrou-se na busca de interseções apuradas entre a herança pop do último meio século, com especial ênfase para o período sessentista dominado pela exuberância das cordas, mas também pelo uso das teclas de um modo menos clássico e mais experimental. Assim, dentro dessa baliza estilística, importa referir Harmony Hall, uma lindíssima composição conduzida por um inspirado piano pleno de charme e de contemporaneidade, acompanhado por cordas radiantes, num exercício de simbiose que de forma experimental e criativa sustenta uma melodia pop com um certo cariz épico e melancólico e que nas suas nuances rítmicas se divide constantemente entre a simplicidade e a grandeza dos detalhes, assim como Big Blue, composição com uma intimidade e uma acusticidade ímpares. Depois, num plano mais exuberante, canções como a vibrante Married In A Gold RushThis Life, um buliçoso tema solarengo e com um groove bastante charmoso, assente num trabalho rítmico e percurssivo bastante radiante, atestam a já habitual asseritividade rítmica do grupo, também preenchida com elementos tropicais e étnicos. Já agora, o tema This Life, um dos que conta com a participação especial vocal de Danielle Haim, tem uma letra inspirada nas canções It Never Rains in Southern California, um sucesso de mil novecentos e setenta e dois da autoria de Albert Hammond, pai de Albert Hammond Jr., membro dos The Strokes e presença assídua neste blogue (Baby I know pain is as natural as the rain, I just thought it didn’t rain in California) e, no refrão, na composição Tonight, do rapper californiano iLoveMakonnen (You’ve been cheating on, cheating on me, So I’ve been cheating on, cheating on you).

No meio de toda esta diversidade e ecletismo, importa ainda referir a aposta em algumas da principais tendências estilísticas da eletrónica atual, bem patentes, por exemplo, em 2021, uma pequena peça sonora intimista, sustentada num curioso sintetizador minimalista e numa guitarra com um efeito metálico muito peculiar e em Unbearably White, tema que se debruça no modo cínico como a questão do racismo é hoje tratada numa cada vez mais politizada e dividida América (There’s an avalanche coming, Cover your eyes), uma composição melancólica e intimista, com uma vasta inserção de arranjos de cordas e outros de origem sintética a pairarem sobre uma melodia intrigante e algo densa. Sympathy é talvez aquela canção que melhor condensa todo este receituário, no modo como cruza batidas e ritmos com funk e com um travo hispânico delicioso, com alguns dos arquétipos essenciais do rock progressivo setentista, rematados por detalhes de cordas de forte indole orgânica.

Toda esta trama conceptual faz movimentar um trabalho que se divide constantemente entre a simplicidade e a grandeza dos detalhes, um registo entregue, de forma experimental e criativa à busca algo incessante de melodias com um forte cariz pop e radiofónico, mas sem deixarem de piscar o olho ao universo underground e mais alternativo que foi quem sustentou e ajudou os Vampire Weekend, no início da carreira, a obterem a notoriedade que hoje os distingue. Espero que aprecies a sugestão...

Vampire Weekend - Father Of The Bride

01. Hold You Now (Feat. Danielle Haim)
02. Harmony Hall
03. Bambina
04. This Life
05. Big Blue
06. How Long?
07. Unbearably White
08. Rich Man
09. Married In A Gold Rush (Feat. Danielle Haim)
10. My Mistake
11. Sympathy
12. Sunflower (Feat. Steve Lacy)
13. Flower Moon (Feat. Steve Lacy)
14. 2021
15. We Belong Together (Feat. Danielle Haim)
16. Stranger
17. Spring Snow
18. Jerusalem, New York, Berlin


autor stipe07 às 14:27
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019

Elva - Winter Sun

Elva é o novo projecto do casal Elizabeth Morris ((Allo Darlin) e Ola Innset (Making Marks e Sunturns) e em norueguês a palavra significa rio. É, pois, um projeto sonoro encabeçado por uma dupla que rema na mesma direção e em cujas veias escorre uma seiva artística comum, um casal que se inspirou no mundo natural, na beleza do verão escandinavo e na dureza do inverno, para incubar um álbum intitulado Winter Sun, dez canções que também devem muito do seu conteúdo ao nascimento da filha de ambos. Winter Sun foi gravado no último outono numa escola antiga na floresta sueca, durante a época de caça aos alces e tal atmosfera acabou por potenciar o cunho sonoro fortemente identitário do disco relativamente a uma área geográfica bastante específica, um registo criado por dois artistas nórdicos mas que, curiosamente, também encontram no outro lado do atlântico um oásis inspirador.

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Lançado pela Tapete Records, gravado e produzido por Michael Collins, baterista dos Allo Darlin e com as participações especiais de Dan Mayfield no violino, Diego Ivars no baixo e Jørgen Nordby na bateria, Winter Sun tem, como se percebe logo na luminosidade folk de Athens e, adiante, na mais intimista Harbour In The Storm, elevado sustento na exuberância de inspiradas cordas de forte pendor acústico. Mas engana-se quem considerar que será este o único suporte sonoro de Winter Sun, porque, logo a seguir, no ritmo incisivo de Tailwind e, pouco depois, na tonalidade oitocentista vincada de Ghost Writer, percebe-se que, no modo como essas mesmas cordas são eletrificadas, o registo contém também a força de uma pop distinta, acondicionando não só cenários melódicos eminentemente acústicos, mas também algumas das principais linhas orientadoras da country, da folk norte-americana e do melhor rock alternativo das últimas três décadas.

Seja como for, apesar da evidente predominância das cordas, se o ouvinte escutar com a devida e merecida devoção Winter Sun, certamente perceberá que teclados charmosos e de forte cariz vintage e um registo vocal intrincado e até algo complexo, a espaços, são também a alma de um registo lirica e melodicamente profundo e que também convive da combinação de detalhes e nuances opostas, justificados pela opção por elementos acústicos ou elétricos, orgânicos e sintéticos e mais reflexivos ou expansivos, muitas vezes numa mesma canção.

De facto, os Elva sabem muito bem como transmitir e explorar sensações únicas e intensas através de uma sonoridade sempre sóbria e adulta, mas também com um forte cunho envolvente, climático e melancólico. Em Airport Town, na nuance do efeito da guitarra e no modo como os restantes instrumentos se encaixam na mesma enquanto intercalam epicidade com intimismo e no timbre vocal grave de Elizabeth, percebe-se esse elevado índice de maturidade e abrangência, com o odor que afaga e adoça em Everything Is Strange e o travo algo setentista e lisérgico que exala do sereno dedilhar da guitarra de Don't Be Afraid, a reforçarem toda uma complexidade de abordagens felizes a diferentes géneros sonoros e que, numa mistura de força e fragilidade, nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram sempre de forma vincada e segura.

Disco intenso, mas também bastante relaxante e até, em alguns instantes, algo soporífero, Winter Sun conquista o coração de quem escuta estes Elva, que usam melodias doces para nos fazer despertar no nosso âmago sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

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  1. Athens
  2. Tailwind
  3. Dreaming With Our Feet
  4. Ghost Writer
  5. Harbour In The Storm
  6. Airport Town
  7. Don't Be Afraid
  8. Everything Is Strange
  9. I Need Love
  10. Winter Sun

 


autor stipe07 às 16:31
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Terça-feira, 7 de Maio de 2019

The Leisure Society – Arrivals And Departures

Foi à boleia da Ego Drain Records que viu recentemente a luz do dia Arrivals And Departures, o novo registo de originais dos The Leisure Society de Nick Hemming e Christian Hardy, quinto disco da carreira de um grupo com uma década de existência bastante profícua e materializada nos excelentes trabalhos The Sleeper (2009), Into The Murky Water (2011), Alone Aboard The Ark (2013) e The Fine Art of Hanging On (2015). É um disco apresentado em dose dupla, com oito canções em cada tomo, uma duplicidade acentuada pelo artwork do disco da autoria de Owen Davey e que no dia e noite que ilustram o cenário que domina a capa e contracapa ganha ainda maior relevo e equilíbrio.

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Arrivals And Departures desafia-nos a embarcarmos numa viagem particularmente profunda e reflexiva, sem ser complexa, levando o ouvinte como única bagagem uma mente desimpedida de preconceitos e de preocupações de maior, juntamente com estas dezasseis canções criadas com o firme propósito de nos levar até vastos territórios sonoros, que da chamada chamber pop, ao folk, passando pela pop e o próprio rock alternativo, acabam por entroncar numa filosofia sonora com forte cariz identitário, um modo de compôr que reforça a ideia de estes The Leisure Society serem uma daquelas bandas com um adn firme e que não defruadam os mais fiéis seguidores, sem cairem na redundância e na monotonia. De facto, canção após canção e disco após disco, os The Leisure Society replicam a fórmula certa para exalarem riqueza e diversidade dentro do cosmos sonoro em que residem e se sentem mais confortáveis. No caso de Arrivals And Departures essa proeza é conseguida à custa de um arsenal instrumental certeiro e assertivo, em que as cordas têm o lugar de primazia no esqueleto das canções, exímias no dedilhar que conduza luminosidade otimista e feliz de Overheard, no banjo exuberante que adorna Be You Wherever, ou na imponente eletrificação da oitocentista Mistakes On The Field (Part I) e, na sequência, de Mistakes On The Field (Part II), composição que nos desassossega e plasma a típica monumentalidade espiritual deste projeto, com tambores, sopros e cordas a revezarem-se entre si numa complexa teia relacional que muitas vezes faz suster a respiração, tal é a imensidão com que nos submerge. Mas as guitarras também impôem a ordem, mesmo que de um modo mais subtil, na enigmática e insinuante God Has Taken A Vacation, na incontida epicidade de Leave Me To Sleep, na festiva Beat Of A Drum e na algo lasciva e fumarenta Don't Want To Do It Again, uma composição que deve grande parte da sua riqueza aos arranjos de sopros que lhe dão uma alma e um vigor indesmentíveis. Mas o piano também consegue, a espaços, intrometer-se com superior sagacidade e bom gosto em todo este enredo. I’ll Pay For It Now é um extraordinário exemplo desta feliz opção pelas teclas sem colocar em causa um fio condutor que soa sempre bem, independentemente do modo como vai sendo alinhavado. Let Me Bring You Down acaba por ser uma daquelas composições que, de algum modo, mescla e resume toda esta trama, idealizada por um conjunto de músicos que não são insensíveis ao mundo que os rodeiam e gostam de servir-se da música como veículo privilegiado de uma demanda reflexiva, mas também para procurar alertar quem se predispuser a aceitá-los como mais um bando de conselheiros seguros e que merecem crédito.

Em Arrivals And Departures escutamos um álbum desafiante porque só revela todo o seu potencial instrumental e todos os detalhes e nuances que o trespassam após repetidas audições e embarques à boleia de um veículo sonoro gracioso e nada turbulento, alimentado por um conjunto de telas sonoras que nos descrevem com minúcia a importância de uma vivência plena e feliz e que tendo a mira bastante apontada aquele experimentalismo folk que começou a impressionar e a espevitar tantos nomes hoje consagrados na década de setenta do século passado, sabe a uma intocável e até algo surpreendente contemporaneidade. Espero que aprecies a sugestão...

The Leisure Society - Arrivals And Departures

CD 1
01. Arrivals And Departures
02. A Bird, A Bee, Humanity
03. God Has Taken A Vacation
04. I’ll Pay For It Now
05. Overheard
06. Let Me Bring You Down
07. Be You Wherever
08. Arundel Tomb

CD 2
01. Don’t Want To Do It Again
02. Mistakes On The Field (Part I)
03. Mistakes On The Field (Part II)
04. Leave Me To Sleep
05. Beat Of A Drum
06. There Are No Rules Around Here
07. You’ve Got The Universe
08. Ways To Be Saved


autor stipe07 às 16:13
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Segunda-feira, 6 de Maio de 2019

Cage The Elephant - Social Cues

Já tem sucessor Tell Me I'm Pretty, o álbum que os norte americanos Cage The Elephant, de Matt Schultz (voz), Brad Schultz (guitarra), Jared Champion (bateria), Daniel Tichenor (baixo) e Lincoln Parish (guitarra), lançaram no final de dois mil e quinze e que na altura nos conduziu por uma verdadeira road trip, à boleia das cordas, da bateria e do sintetizador, uma viagem lisérgica que contou com um complemento de versões acústicas dois anos depois, intitulado UnpeeledSocial Cues é o nome do quinto e novo registo discográfico desta banda oriunda de Bowling Green, no Kentucky, viu a luz a dezanove de abril, foi produzido por John Hill e contém um alinhamento de treze temas que conta com a participação especial de Beck na canção Night Running.

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A composição deste novo álbum dos Cage The Elephant é bastante inspirada no final de uma relação amorosa de Matt Schultz, que criou nas letras que escreveu para alguns dos temas personagens que recriam eventos e pensamentos da sua história pessoal mais recente. Aproveitando esse momento introspetivo, Matt acabou por ir um pouco mais além da sua esfera pessoal e refletiu também sobre o modo como nos dias de hoje nos relacionamos pessoal e socialmente, enquanto vivemos e procuramos ser felizes em ambientes onde o frenesim, a impessoalidade, a competitividade, a ausência constante de valores e a busca incessante do material são presenças constantes e factores de pressão indesmentíveis.

Descrito este enredo musical, feito de poesia que tanto pode exalar descontentamente e frustração, como uma certa euforia e júbilo, a materialização sonora do mesmo assenta numa filosofia interpretativa bastante heterogénea, num alinhamento que oscila também entre dois pólos aparentemente opostos, ou seja, numa lógica de coerência entre letras e musica, entre momentos ruidosos e expansivos e instantes menos ritmados e agitados. Assim, se uma constante sensação de irritação percetível em Broken Boy ganha vida à custa de uma guitarra que a espaços se insinua, no meio de uma batida dominante, já Ready To Let Go balança entre a típica rugosidade do rock feito sem adereços desnecessários, mas que impressiona pela forma como as cordas são manuseadas e produzidas e a calorosa e acústica pop, misturada com um salutar experimentalismo psicadélico. Este lado mais ritmado e eufórico do registo é reforçado pelo fuzz da guitarra da luminosa Black Madonna, pelo rugoso travo psicadélico de House of Glass e pelo instinto pop que sustenta The War Is Over. Já o tema homónimo, por exemplo, querendo dar ao ouvinte algumas pistas sobre como deve agir socialmente perante determinada situação menos pacífica, acaba por fazer parte do conjunto de composições mais minimalistas e soporíferas, no modo como vê a componente da letra enfatizada através de uma opção sonora que primou pela discrição, apenas com a bateria e uma suave guitarra a servirem de pano de fundo para a mensagem. O piano que conduz Goodbye, a melodia sintética e os flashes cósmicos que adocicam Skin And Bones e o clima algo enevoado e lisérgico de What I'm Becoming, sendo canções que oferece ao disco uma maior dose de imprevisibilidade e ineditismo e talvez pensadas para fugirem aos habituais cânones em termos de formatação sonora dos Cage The Elephant, proporcionam-nos os tais instantes mais reflexivos e intimistas.

Álbum com um pretexto explícito, mensagens contundentes e uma identidade bem definida, Social Cues suga-nos para uma centrifugadora que mistura alguns dos mais saborosos ingredientes do rock alternativo atual, com um resultado que te faz sentir emoções fortes e verdadeiramente inebriantes, num alinhamento que nos deixa constantemente à espera que surja nos nossos ouvidos algo de imprevisível e inédito e que contribui para que sejamos definitivamente absorvidos pela mente insana de uma banda sem preocupações estilísticas ou de obediência cega a fronteiras sonoras e que voltou a criar um conjunto de canções plenas de originalidade e com uma elevada bitola qualitativa, enquanto brincam com os nossos sentimentos mais íntimos. Espero que aprecies a sugestão...

Cage The Elephant - Social Cues

01. Broken Boy
02. Social Cues
03. Black Madonna
04. Night Running (Feat. Beck)
05. Skin And Bones
06. Ready To Let Go
07. House Of Glass
08. Love’s The Only Way
09. The War Is Over
10. Dance Dance
11. What I’m Becoming
12. Tokyo Smoke
13. Goodbye


autor stipe07 às 18:22
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Sábado, 4 de Maio de 2019

The National – Hairpin Turns

The National - Hairpin Turns

Continuam a ser divulgadas novas composições de I Am Easy To Findo novo registo de originais dos norte-americanos The National, que verá a luz do dia a dezassete de maio, através da 4AD. Oitavo disco da carreira do grupo, I Am Easy To Find sucede a Sleep Well Beast, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no final do verão de dois mil e dezassete e terá um alinhamento de dezasseis canções, também já divulgado.

A última canção divulgada do disco é Hairpin Turns, o décimo terceiro tema do seu alinhamento, mais uma belíssima balada que coloca os The National no trilho de uma sonoridade que também lhes é familiar e na qual se movimentam confortavelmente. Assente num delicado piano, em diversas nuances rítmicas, numa guitarra flutuante e na voz cada vez mais madura, assertiva e positiva de Berninger, Hairpin Turns possui aquela toada algo melancólica e reflexiva que é tão do agrado dos seguidores desta banda nova iorquina.

Uma das grandes curiosidades de I Am Easy To Find é resultar de uma parceria da banda com o realizador Mike Mills, sendo o registo um dos componentes de 20th Century Womeno mais recente filme do cineasta, que também dirigiu uma curta-metragem com o nome do álbum. O vídeo de Hairpin Turns também foi realizado por Mike Mills, mas é uma produção independente desse filme, mostrando uma interpretação de dança, protagonizada por Sharon Eyal e que, de acordo com Mills, acaba por funcionar neste video como uma espécie de alter ego da personagem interpretada pela atriz sueca Alicia Vikander no filme 20th Century Women. No video deste tema, feito em colaboração com o espaço La Blogothèque, é também possível apreciar o modo como os instrumentos foram protagonizando a canção e construindo o seu arquétipo melódico e sonoro e os outros protagonistas no tema, além dos músicos dos The National, nomeadamente Gail Ann Dorsey, Pauline Delasser (aka Mina Tindle) e Kate Stables. Confere...


autor stipe07 às 16:32
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Sexta-feira, 3 de Maio de 2019

Lamb - The Secret of Letting Go

A dupla de Manchester Lamb, formada por Lou Rhodes e Andy Barlow, já anda por cá desde meados dos anos noventa, altura em que lançaram um disco homónimo de estreia que é um verdadeiro clássico da pop contemporânea. Depois disso, a dupla tem-se mantido sempre à tona, mesmo durante longos hiatos em que Rhodes se dedicou a uma promissora carreira a solo a Barlow à produção de outros artistas.

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O último sinal de vida dos Lamb tinha sido em dois mil e catorze com o álbum Backspace Unwind, que tem finalmente sucessor. O sétimo e novo trabalho da dupla chama-se The Secret of Letting Go, viu a luz do dia através da Cooking Vynil e contém um alinhamento que tem no espaço a sua ideia central e que foi gravado entre o estúdio dos Lamb e Ibiza e Goa, na Índia.

The Secret Of Letting Go vive, no seu todo, de uma simbiose feliz entre a pop soturna e clássica, a eletrónica mais sofisticada e um rock eminentemente experimental. Contém um alinhamento suave e bastante adocicado, recheado de composições sustentadas por uma elevada consistência instrumental e melódica, dominado, especialmente, nas últimas canções, por belíssimos acordes de piano, cordas certeiras e sintetizadores cósmicos, detalhes que se acamam com elevada mestria ao registo vocal de Rhodes. Por exemplo, se quase no ocaso do disco, em Silence Inbetween, quase se consegue sentir a ténue vibração das cordas dentro da caixa de um piano tocado com enorme pureza e que se entrelaça com o violino com uma química de uma paixão avassaladoras, já Armageddon Waits, uma composição vibrante, rugosa e evocativa, oferece-nos um feliz exercício de fusão de diversos cânones da eletrónica com um rock de cariz eminentemente progressivo, assente numa percussão bastante ritmada, guitarras planantes e diversos arranjos de sopros.

É, pois, através deste jogo fluído e simbiótico entre dois grandes universos e os diversos mundos de cada um, que The Secret Of Letting Go vai deixando cada vez mais para trás aquela sedutora ingenuidade dos primórdios dos Lamb. Continuam a escutar-se temas mais dançantes, como é o caso de Moonshine e o travo trip-hop de Bulletproof e outros essencialmente introspetivos, nomeadamente One Hand Clapping, uma bonita fusão entre metais, teclas e cordas que nos mostram aquele lado mais romântico e delicado do trio, num resultado final charmoso e sofisticado, como não podia deixar de ser nos Lamb e que deverá ajudar a revitalizar a carreira de um grupo que já estava algo esquecido mas que, pelos vistos, ainda tem muito para oferecer aos apreciadores de um género sonoro pleno de especificidades. Espero que aprecies a sugestão...

Lamb - The Secret Of Letting Go

01. Phosphorous
02. Moonshine
03. Armageddon Waits
04. Bulletproof
05. The Secret Of Letting Go
06. Imperial Measures
07. The Other Shore
08. Deep Delirium
09. Illumina
10. The Silence in Between
11. One Hand Clapping


autor stipe07 às 16:35
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Quinta-feira, 2 de Maio de 2019

Mano A Mano Vol. 3

Cerca de ano e meio após Vol. 2, já viu a luz do dia Vol. 3, o novo trabalho dos  Mano a Mano dos irmãos André e Bruno Santos, dois guitarristas com um vasto percurso musical, eminentemente jazzístico e dos melhores intérpretes nacionais desse espetro sonoro, na atualidade.  Recordo que o projeto Mano a Mano estreou-se há meia década nos discos através de uma edição cujo financiamento foi obtido através de uma campanha bem sucedida de crowdfunding e que o sucessor, Mano a Mano Vol. 2,continha onze canções que, de acordo com o press release desse lançamento, centravam-se num duelo dinâmico de guitarras, um disco cheio de momentos de virtuosismo, elegância e humor, explorando as inúmeras possibilidades deste formato.

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Gravado no Estúdio Paulo Ferraz, com os manos rodeados de discos de Bill Evans, Ella Fitzgerald & Louis Armstrong, António Carlos Jobim, Boney M. e do projeto Planetarium, de Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister, conforme se confere na capa do lançamento, Vol. 3 amplia o arrojo instrumental do catálogo da dupla, já que nas suas doze canções, além das presenças habituais da guitarra, da braguinha e do rajão, os sintetizadores e variados instrumentos percurssivos também têm um protagonismo que ainda não tinha sido visto nos Mano A Mano, no que concerne à definição do arquétipo fundamental de algumas das suas composições.

Irmãos com uma química evidente e que tem como um dos factos mais curiosos o André ser destro mas tocar com a guitarra virada para o lado esquerdo devido a uma espécie de efeito de espelho por ver o Bruno a tocar à sua frente anos a fio, os Mano A Mano assentam as suas propostas sonoras numa filosofia estilística com uma especificidade muito própria e estreitamente balizada, mas não deixam, por isso, de nos oferecer alinhamentos cada vez mais sinuosos e cativantes. A luminosidade madrugadora das cordas que vibram na introdutória Parque Aventura é apenas uma pequena amostra de um superior quilate interpretativo, porque Guimarães, logo a seguir, já é sinónimo da maior abrangência deste terceiro volume, numa melodia com forte apelo caliente, clima ampliado pela inserção de vários samples e efeitos percurssivos, alguns apenas insinuantes mas vincados, num resultado final pleno de virtuosismo e sentimento.

Dado em grande estilo o mote e com o ouvinte já preso, rendido e, em simultâneo, a deixar-se espraiar nestes dois temas, mas também a dar por si a sentir uma imensa curiosidade relativamente ao restante alinhamento, Vol. 3 prossegue, em grande estilo, à sombra do travo folk nostálgico de Rosa, da sumptuosa delicadeza que exala das constantes variações de tom em Flor do Amor, do travo afro que não pode deixar de ser ouvido sem ser acompanhado por um sorridente bater de pés ou um efusivo abanar de ancas em Cabo Verde, amplificado pelo kashaka, um instrumento de percurssão típico do arquipélago africano que dá nome ao tema e do fumarento espreguiçar a que nos convida Rocky, canções que vingam na onda dos vários dedilhares que se cruzam entre si e as tricotam de modo a materializar os melhores atributos que os Mano A Mano guardam na sua bagagem sonora. 

Até ao fim de Vol. 3 e ainda antes de uma reintrepretação feliz de Stardust, um original dos anos vinte do século passado de Hoagy Carmichael, revisto aqui com enorme protagonismo do rajão, a Madeira marca a sua presença, através do modo como a braguinha e o mesmo rajão dialogam entre si, com uma ímpar serenidade, na Valsa para Cândido Drumond de Vasconcelos, um tributo a este intérprete do machete e compositor que viveu na Madeira no século dezanove e também à boleia de uma magnífica e nostálgica versão de Noites da Madeira, um original de Tony Amaral, nome importante do jazz funchalense da primeira metade do século passado.

Em suma, é da constante inquietação que lateja do diálogo que estes dois músicos estabelecem entre si, que se sustenta muita da essência de um disco que, mesmo sem letras, não deixa de ser, no seu todo, um exímio e lúcido contador de histórias, deixemo-nos nós absorver por tudo aquilo que as cordas (e não só) nos sussurram ao ouvido com indesmentível clareza. Isso apenas é possível porque Vol. 3 está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que mesmo este género de música tão específico e sui generis pode ser também um veículo para o encontro do bem e da felicidade, quer individual quer coletiva. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 10:54
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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

Scott Orr – Stay Awake On The Phone

Scott Orr - Stay Awake On The Phone

Pouco mais de meio ano depois do lançamento de Worried Mind, um disco que já teve sequência há algumas semans com um outro registo inteiramente instrumental com o mesmo nome, Scott Orr surpreende-nos no final de abril com Stay Awake On The Phone, uma nova composição do artista canadiano e que é apresentada como b side desse álbum.

Stay Awake On The Phone é uma lindíssima canção, com um inconfundível travo pop, conduzida por um sintetizador bastente pueril e melancólico e com uma subtileza muito própria e contagiante. São pouco mais de quatro minutos onde a toada instrumental se entrelaça com o charme inconfundível da voz do autor, um lançamento disponível gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor e que tem a chancela da editora independente canadiana Other Songs Music Co., uma etiqueta indie independente de Hamilton no Ontário, terra natal deste extraordinário músico e compositor. Confere...


autor stipe07 às 16:25
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