Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Nunes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Nunes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

vozes da bilioteca

«O adorno de um cargueiro obliquado sobre o azul de Delft, o azul do primeiro nome que um dia conseguiu articular.» Rui Nunes, «Quem da Pátria Sai, a Si Mesmo Escapa?» (1983)

«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

sexta-feira, setembro 29, 2017

livros que me apetecem


Agosto, de Rubem Fonseca (RTP/Leya)
Antologia de Poesia Erótica, de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Dom Quixote)
Baixo Contínuo, de Rui Nunes (Relógio d'Água)
Ébano, de Ryszard Kapuscinsky (Sextante)
A Margem de um Livro, de Rui Nunes (Cosmorama)
O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, de Reinaldo Ferreira (Repórter X) (Pim! Edições)
Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
O Quarto Azul, de Georges Simenon (Relógio d'Água)
Reflexões Sobre o Nazismo, de Saul Friedlander (Sextante)
As Últimas Testemunhas, de Svetlana Alexievich (Elsinore)













terça-feira, dezembro 03, 2013

mansos, mas perigosos

Na excelente entrevista que deu ao Expresso, Rui Nunes disse que o impressionava "a mansidão" dos portugueses, acrescentando: "Este povo foge, não enfrenta."
Trata-se de uma meia verdade. Nem vale a pena irmos aos Lusitanos, esse beirões bárbaros, para lembrarmos como foi dura a conquista romana ("não se governam nem se deixam governar", não é?). Este país fez-se à estalada, e os quase nove séculos que leva de existência ininterrupta (a união filipina foi isso mesmo, a junção, e não a fusão de duas coroas), não permitem que nos possamos caracterizar como bons de assoar. É Manuel Alegre quem costuma dizer que a história dos brandos costumes é uma treta. Basta lembrarmo-nos da sangrenta guerra civil ou, anos antes, das invasões napoleónicas, em que francês capturado era francês grelhado ou crucificado como um cristo numa superfície de madeira mais à mão, até apodrecer; e também não foi com suavidade que sustentaram uma guerra colonial em três frentes durante treze anos; como não tinham sido gentis no Índico, uns séculos antes, passando a fio de espada populações autóctones ou pondo a tormento os comandantes de barcos inimigos, antes de os incendiarem e afundarem, com as tripulações lá dentro...
Os portugueses serão mansos, até se sentirem acossados. Nessa altura mostram a sua natureza de animais ferozes, gente que joga à bola com as cabeças decepadas dos inimigos, que amputa os seios às mulheres, que fabrica cristos de carne e osso.

P&R -- Rui Nunes

É quando a pátria está longe que ela nos remete para um sentimento de pertença?  Sim. É o sentimento de uma ligação ao um sítio, mas essa ligação é feita através da memória. Muitos dos portugueses que emigram fazem-no sempre a pensar em regressar. Mas depois não regressam. Vêm e vão-se embora. Se lhes perguntarmos se têm saudades da pátgria, eles respondem que sim, mas na verdade não têm. O que têm é saudades da existência de uma terra que foram recriando com o afastamento, mas que não é a terra real que os espera. Entrevista a Alexandra Carita, Expresso / Actual #2144, 30.XI.2013.

quinta-feira, outubro 17, 2013

em frente dos enchidos, à direita dos detergentes

A literatura não dispensa o trabalho sobre a linguagem, a palavra, a sintaxe e até a semântica. Sem isto, mas não apenas, ela não existe; o que existe é um encadeado de palavras banalizadas impressas no papel, cujo resultado final não ultrapassa a categoria do relatório, por muito ficcional que se possa apresentar.
Vem isto a propósito da entrevista de Rui Nunes a Maria Leonor Nunes, no último JL:  "Só muito massacradas as palavras podem dizer alguma coisa. Precisam de ser dominadas, não no sentido da boa regra, mas para as obrigar a dizer qualquer coisa. / [...] / Aqueles livros que nos tocaram tiveram esse trabalho de violentação, os que não nos tocaram foram escritos com as palavras corridas. E as palavras quando correm, procuram-se umas às outras de um modo mais perverso."
Esta perversão a que se refere Rui Nunes exibe-se, quanto a mim, em várias circunstâncias que vão além da literatura: basta lembrarmo-nos da sedução publicitária, das ciladas contratuais ou da linguagem regimental e regulamentar, da língua de trapos do capitalismo desenfreado, lídima sucessora da língua de pau da propaganda stalinista. Mas também nas letras, se ousarmos qualificar como literatura a narrativa que se vende para agradar e lisongear o público, ou o poema sentido, com os desígnios mais utilitários. 

Pois, não é arte da escrita, mas mercadoria de hiper, ali antes dos enchidos, à direita dos detergentes.