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terça-feira, agosto 27, 2013

Machado de Assis tem estilo, e cargas de profundidade (DOM CASMURRO #2))

 «Do título». Por adormecer enquanto ouvia um poetastro, que conhecia «de vista e de chapéu», recitando banalidades, o narrador-protagonista ganhou do mimoso poetiso a alcunha de casmurro, acrescido do dom , honorífico irónico. Por todos se viu assim crismado, já que, meditabundo, não granjeou grandes amizades na vizinhança. Os próprios amigos acharam que lhe servia.
Sou advertido, eu, leitor -- e gosto deste humor desprendido que me interpela --, para não procurar em dicionários: casmurro aqui não é sinónimo de teimoso; e fico desde logo a saber: "[...] se não tiver outro [título] daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.» Benévolo para com o "poeta do trem" ao ver a capa, "poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seu autores; alguns nem tanto." Serve para escritores-fantasma, ou homens-públicos que publicam...
A fluidez do estilo de Machado, apanágio só dos predestinados, menos pela desenvoltura que por algo ainda mais importante para o escritor do que o próprio estilo, a profundidade.

terça-feira, julho 30, 2013

"Uma noite destas..."

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

Machado de Assis, Dom Casmurro, 1900