22 maio, 2019


Sim, entendo isto. E só espero que a moda não se transforme numa praga, como já acontece noutros lugares onde o turista gosta de fazer o seu chichi cultural para marcar o seu território. De qualquer modo, considero os cemitérios portugueses desinteressantes. É verdade que há por cá cemitérios, como aqueles dois portuenses (embora prefira o pequeno cemitério da Igreja da Lapa e não é por lá estar Camilo, de resto, bastante despercebido), que podem valer a pena por razões históricas, escultóricas, simbólicas, sociológicas ou pelas celebridades visitadas de acordo com os interesses de cada um. Isso faz com que se lá vá como se vai a um museu ou uma catedral gótica, isto é, uma visita em busca de conhecimento ou para satisfazer uma curiosidade. Porém, do mesmo modo que não se vai passear para um museu ou para uma catedral (embora seja o que se vê cada vez mais), o nosso cemitério está longe de ser atraente para um tranquilo passeio, crianças brincarem, desportistas correrem ou fazerem ginástica, casais namorarem, para ler um livro, para o esteta gozar a sua contemplativa flânerie ou simplesmente deitar na relva para dormir uma sesta. O cemitério português não passa de um terreno árido para depósito de mortos, ladeado por um muro. Fala-se da cidade dos mortos enquanto continuação da cidade dos vivos e, nesse sentido, o que a cidade dos mortos tipicamente portuguesa faz lembrar no mundo dos vivos é um dormitório suburbano cuja habitação é sobretudo social com os seus metros quadrados de mármore a perder de vista, ornamentados com flores de plástico e fotografias pirosas a céu aberto, isto é, com uma gritante ausência de textura verde que os pouco densos ciprestes não conseguem compensar. Haverá sempre algumas ruas mais elegantes e aristocráticas, porém, com uma densidade urbana que as impede de reflectir as assimetrias urbanas no mundo dos vivos as quais implicam necessárias áreas de grande beleza onde apeteça viver ou simplesmente passear. E mesmo de um ponto de vista artístico ou escultórico, o cemitério português está muito longe, como em tantas outras coisas que reflectem o país pobre e atrasado que sempre fomos, dos grandes e belos cemitérios de uma Europa que começa culturalmente em Madrid. Sim, o chamado necroturismo (que raio de conceito) pode estar a aumentar nos cemitérios portugueses mas parece-me que os nativos irão continuarão a sentir-se mais atraídos pelas montras do centro comercial e supermercado para comprar arroz e batatas ou simplesmente ficar em casa a ver a Cristina Ferreira ou quem mais possa ser.