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sábado, dezembro 28, 2013

bem escrito

«Primo Levi, Cormac McCarthy e uma banda norueguesa, três ângulos sobre a grande questão moral: se o apocalipse é às três da tarde, o que me leva a mudar a fralda à minha filha? Se o mundo vai acabar numa fornalha nazi, se a natureza vai destruir a humanidade, se Deus vai se derrotado, qual é o sentido da paternidade?»

Henrique Raposo, "Fazer filhos", Expresso #2148, 28 de Dezembro de 2013.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

dois ou três lugares-comuns, a propósito duma obra maior


Primeira banalidade: a ficção realista é sempre ultrapassada pela realidade, trate-se de um ambiente concentracionário na floresta amazónica (A Selva, de Ferreira de Castro), uma migração colectiva na América da Grande Depressão (As Vinhas da Ira, de John Steinbeck) ou uma exploração mineira em França (Germinal, de Émile Zola).
Se Isto É um Homem, de 1947, é um relato verídico de um sobrevivente, escrito ao longo de mais de um ano, tão intensamente vivo como profundamente meditado. E, por isso, o horror pôde ser descrito com objectividade, a benefício da narrativa, que não se deixa seduzir pela magnitude do tema (a vivência do próprio autor no infame campo de Auschwitz, até à libertação pelas tropas soviéticas, em Janeiro de 1944), conduzindo a narrativa porventura com uma grandiloquência que só a prejudicaria. Como Levi é um grande escritor, serve o texto com absoluta mestria, num estilo contido e recurso frequente a frases curtas, remates de períodos que nos deixam k.o.
Se Isto É um Homem: a condição simultaneamente trágica e patética do bicho-homem que conhecemos de nós próprios, mas que aqui outrém -- o autor -- revela. E, embora revelando-se, apenas o faz parcialmente, pois o autor/narrador fala de um eu que só em determinados e ocasionais momentos o é, porque do que se trata é a confirmação à outrance, e pelos meios conhecidos, do desiderato dos alemães nesta perseguição insana: a de retirar os judeus da humanidade -- não apenas exterminando-os, mas, naqueles que não eram desde logo executados, esvaziando-os dessa mesma humanidade, como que para comprovar teorias rácicas tão dementes quanto extraordinariamente estúpidas (um racista biológico, quando não for um doido varrido, será sempre um cretino, ignorante e por vezes perigoso).
    

à margem, mas a propósito

Outro lugar-comum, que por o ser não é menos verdadeiro, é o da natureza excepcionalmente maligna do feixe de ideias imbecil e mal cozinhado que foi o nacional socialismo, pior do que o estalinismo, na medida em que este, entre outras coisas, pintava o despotismo com as cores do humanismo (como embuste, talvez nada lhe leve a palma); o nazismo, pelo contrário, não ocultou a sua natureza degeneradamente maligna: a da suposta e absurda existência de uma raça superior, doutras inferiores, e até de uma categoria que estava abaixo da humanidade e que havia que exterminar, não sem  antes ser sugada, metodicamente, pelo trabalho até à exaustão, com rigor e cultura germânicos.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Caracteres móveis #40 - Primo Levi

[Hermann Langbein] Escreveu numerosos livros, um dos quais é soberbo, «Hommes et Femmes à Auschwitz» onde evoca não apenas as condições de vida dos presos, mas também as dos outros, dos que viviam fora do campo. Eles também eram mulheres e homens, e os relatos que ele faz dos casos clínicos mais ou menos sérios dos SS parecem-me algo de novo, de importante e de raramente evocado. Ele mostra-nos como, num universo odioso, quase todos se comportavam sem, no entanto, serem monstros, poucos doentes mentais e torcionários, a maioria cumpria a disciplina com uma indiferença cansada. Não os encantava terem de matar pessoas, mas eles aceitavam-no, eram o produto de uma escola.

O Dever de Memória

(tradução de Esther Mucznik)

Primo Levi