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sexta-feira, dezembro 28, 2018

vozes da biblioteca

«Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e mais grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

«Nestes corações, onde reinavam afectos ao mesmo tempo ardentes e profundos, porque neles a índole meridional se misturava com o carácter tenaz dos povos do norte, a moral evangélica revestia esses afectos de uma poesia divina, e a civilização ornava-os de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

sábado, abril 11, 2015

no fim da vila

«Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os toiros pastar na outra margem e as rotas dos barcos.. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscava no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu naquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta -- era junco -- e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

sábado, janeiro 24, 2015

a outra margem

«A corrente era forte, mas na outra margem havia pássaros, toiros bravos a pastar e valados desconhecidos. À noite, esperava-o a tareia do costume, em vez de ceia, e na manhã seguinte regressava ao telhal pelas orelhas.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

terça-feira, julho 29, 2014

cinco dias de pândega

«Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

quarta-feira, março 20, 2013

Fecharam os telhais.


Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar -- sentenciavam os mestres. Mas os sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.

Início de Esteiros (1941), de Soeiro Pereira Gomes, Mem Martins, Publicações Europa-América, 5.ª ed., 1974