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domingo, maio 08, 2016

Clarice Expector

e então, o «Eixo do Mal», que nunca perto resolveu perorar sobre o Aborto Ortográfico, a propósito das declarações de Marcelo, em Moçambique. 
Não me vou debruçar sobre a questão político-diplomática, porque nem sequer é relevante, mas sobre as declarações de Clara Ferreira Alves e Daniel Oliveira, deixando de parte Pedro Marques Lopes e Luís Pedro Nunes, não por menosprezo, mas por considerar que os primeiros têm mais responsabilidades no que à questão respeita.
Antes de mais, convém dizer o óbvio: qualquer pessoa tem o direito (e, em alguns casos, o dever) de defender o que acha o mais apropriado, ou, neste particular, o menor dos males. Deve fazê-lo, porém, com honestidade intelectual e, já agora, tratando-se de pessoas com acesso ao espaço público, com um mínimo de substância. Ou então abster-se de debater assuntos para os quais não estão preparados ou a que não atribuem grande importância, sob pena de transformarem o programa numa coisa abaixo de cão, que foi o que ontem aconteceu.
Clara Ferreira Alves, jornalista e literata. em descabelo, disse enormidades, falsidades, parvoiçadas. Não me dou ao trabalho de descriminá-las, quem quiser que vá ver.  Diga-se, a propósito que a indivídua, não obstante os dislates, se deu ao luxo de pronunciar o P da palavras percepção, que em Portugal (estou a pensar no leitores brasileiros) é uma consoante muda... A senhora, que passa por intelectual -- numa sociedade em que quem consegue juntar duas palavras com sentido, merece esse qualificativo --, sempre foi muito poucochinho. Demonstrou-o mais uma vez neste tema, como também, no bloco seguinte, sobre política de Educação, saindo-se com o último soundbite do CDS e do PSD: Tiago Brandão Rodrigues, o actual ministro da Educação está 'capturado' por Mário Nogueira. As clarices do costume.
Sobre esta senhora já gastei demasiado as teclas, espero não voltar a falar dela, a não ser por boas razões, o que me espantaria.
O caso de Daniel Oliveira já fia mais fino. Não o conheço pessoalmente. Leio-o e oiço-o com atenção, As suas posições são, na maioria dos casos, muito próximas das minhas. Por outro lado, trata-se de uma das pessoas que melhor escreve na imprensa portuguesa. Por isso, foi com bastante irritação, até porque me soou a falso, o modo blasé (se não fosse Daniel Oliveira, escreveria bovino) com que se pronunciou sobre o assunto: é uma questão que o maça...
Numa coisa o acompanho, a única, parece, que sobre este assunto lhe provoca reacção: o 'nacionalismo' analfabeto com que se fala da nossa língua, para concordar com ele que a língua portuguesa é tanto dos portugueses como dos brasileiros, dos angolanos, etc. Mas, sobre este aspecto, escreverei outro post sobre as más razões de se ser contra o Aborto Ortográfico.

segunda-feira, março 30, 2015

A posteridade de H. H.

Não me refiro à posteridade literária, como é óbvio, à perenidade da obra, ao lugar que ela ocupa na poesia. Se tivesse de fazer o difícil exercício de congeminar uma lista com meia dúzia de nomes dos, para mim, maiores poetas da segunda metade do século XX, Herberto Helder faria parte dela, com Alberto de Lacerda, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, Rui Knopfli e Ruy Belo -- e teria de deixar de fora muitos que me assombram..
A posteridade a que me refiro é outra, a patrimonial e identitária. Percebo perfeitamente o apelo do seu filho, Daniel Oliveira, para que não desatem os poderes públicos ou particulares a homenagear o poeta, com nomes de rua, estátuas e bustos, etc. Guardado porém o decoro temporal necessário para não violentar quer a memória de Helberto Helder, quer a legítima vontade dos seus descendentes, não creio que ele tenha possibilidade de ser acatado.
Os grande autores não se pertencem, é uma banalidade escrevê-lo. E se cada cada vez menos se pertencem em vida (é ver a poesia de HH espalhada por blogues e pelas "redes sociais"), muito menos depois de ela findar. E ainda bem que assim é. Não há como não preservar e assinalar, por exemplo, a casa onde o poeta nasceu e aquela em que morreu (a Rua do Mercado, nº 7, em Cascais). E quem diz estes vestígios palpáveis da memória dele (e, de há muito, nossa), diz outras manifestações inevitáveis que a comunidade imperiosamente não pode deixar de promover.
Como pedir à Madeira que deixe o seu maior poeta entregue apenas aos seus livros? É, entre outras, uma questão de sobrevivência da própria comunidade.