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segunda-feira, maio 06, 2019

vozes da biblioteca

«O meu conto é amador de sangue azul; adora a aristocracia.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (póst. 1868)

«Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor (1989)

«Todos o conheciam naquele bairro populoso, onde famílias mais que remediadas em ganhos ou rendimentos haviam instalado os seus lares.» Assis Esperança, «O Senhor de Morgado-Martins», O Dilúvio (1932) 

quinta-feira, janeiro 03, 2019

vozes da biblioteca

«Ao tempo da sua partida, quando os pais o foram despedir a bordo da galera América, ele era um minhoto atarracado, de largos ombros, biceps de atleta, tórax saliente, e o pescoço curto e grosso, como o dos valentes bois do Barroso.» Luís de Magalhães, O Brasileiro Soares (1886)

«E, pelos rasgões do chambre, um seio branco, rechonchudo, com mais vergonha que se o Padre Santo António lhe publicasse os segredos, mostrava o mamilo, tão rubro, tão jucundo como o morango primeiro que pinta no morangal.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Não mais o frio das noites frias, a esteira, no chão, a fazer de cama para ela e para os irmãos, "cobertas de farrapos" a cobrirem-nos, por mantas quentes os jornais que a mãe estendia entre coberta e coberta: dispunha, agora e para sempre, de um leito nupcial, de príncipes, almofadas e almofadões a adornarem-no.» Assis Esperança, Servidão (1946)

quarta-feira, dezembro 05, 2018

vozes da biblioteca

«A felicidade é uma resultante directa dos nossos sentimentos, da nossa tranquilidade, da satisfação plena de praticarmos o bem, -- portanto não existe.» Assis Esperança, Viver! (1921)

«E de cada vez que o moço interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, este noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz melancolia.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial.» Vergílio Ferreira, Aparição (1959)

quinta-feira, novembro 29, 2018

vozes da biblioteca

«Como sempre que batem à porta daquele seu gabinete de trabalho, eleva muito a voz, a simular a irritação de quem vê as suas tarefas e lucubrações de dirigente intempestivamente interrompidas.» Assis Esperança, Trinta Dinheiros (1958)

«E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...» Raul Brandão, A Farsa (1903)

«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de A Tempestade (1940)

terça-feira, novembro 27, 2018

vozes da biblioteca

«Abriu muito os olhos o abade e só então se apercebeu duma mocinha -- corpo que acaba de espigar na adolescência -- que às mãos ambas cobria o rosto e soluçava.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«No espaço quadrangular, entre o claustro e a ábside, tinham talhado, num período recente de desobstruções, um adorável jardim com os clássicos arruamentos de buxo enquadrando modestos canteiros de rosas e gerânios.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919)

«Residências a caírem de velhas ou de mal-construídas, rebocos a cobrirem-lhes as fendas e rugas, as suas janelículas, a metros do solo, ostentam-lhes a presunção de inexpugnáveis.» Assis Esperança, Pão Incerto (1964)

sexta-feira, novembro 16, 2018

vozes da biblioteca

«Para que o sr. Director o estimasse, inventava, todos os dias, delicadezas inéditas, cumprimentos, curvaturas de espinha.» Assis Esperança, Gente de Bem (1938)

«Principiara, parece, uma chuva invisível e contínua...» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

«Quando, porém, o outeiro, em curva suave de ventre feminino, se cosia ao sinuoso caminho que dava acesso à aldeia, deteve-se, meditativo, a contemplar a sua casita, quase debruçada no Caima.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

quinta-feira, novembro 15, 2018

vozes da biblioteca

«Assim o entendera José das Dornas, que foi amestrando o seu primogénito e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave do cabanal, tão repleto em ocasiões de colheitas.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«Uma vez predispostos a trocarem o certo pelo incerto, em vez de se acomodarem, tal-qualmente os seus avós, às servidões sem chorume, esses homens abalavam "às cegas".» Assis Esperança, do «Prefácio» a Fronteiras (1973)

«Vendido o solar, alguns maços de notas assim recebidos, queimou-os ele raivosamente (queimou-os, como? pelas feiras, em banquetes...) blasonando que só tinha valor o oiro e a prata, por causa da efígie dos reis, -- calculo agora.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937)

quarta-feira, novembro 07, 2018

vozes da biblioteca

«À esquerda era o jardim de buxo, húmido e sombrio, com suas camélias e seus bancos de azulejo.» Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do bispo», Contos Exemplares (1962)

«E improvida continuaria, se não viesse ocupar, naquela casa, o invejado lugar de filha adoptiva, criado para ela -- mas difícil, tão difícil que muita vez apelava angustiada para a sua firme resolução de ser alguém, tapando a boca a repostadas e rebeldias.» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente -- depois, então, se vai ver se deu mortos.» João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956)

segunda-feira, setembro 10, 2018

«Pertencia ele ao ramo da família que do capitalismo ascendera ao posto imediato da intelectualidade e nisso fixara uma aristocracia.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)

«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza?» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Se não recebesse da madrinha a reprimenda de lhe recordar, a propósito de tudo, as responsabilidades da sua idade, mulher já feita, circunspecta, tão precoce saíra -- pediria uma boneca.» Assis Esperança, Servidão (1946)

sábado, março 10, 2018

«Se vivesse ainda com os pais, não haveria na sua expectativa lugar para dúvidas: receberia prenda única de aniversário, os afagos e as lamurientas falas da mãe, penitente do mal da pobreza: -- "Nem uma blusinha te posso dar, filha!"» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Cresci com a ideia de que só os derrotados, os vagabundos e os infelizes não saíam de lá, pessoas que se confundiam com a paisagem, os candeeiros de globos partidos, as balizas ferrugentas do Arregaça, as paredes encardidas, os bancos lascados dos parques.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2015)

«Dava a impressão de que tudo degenerava; mesmo os turistas já só faziam perguntas à toa, alimentando o orgulho com que o caseiro da Barbela desfiava aquela lengalenga sem reparar no nariz pacóvio dos viajantes.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

terça-feira, outubro 20, 2015

Dez livros que não poderiam nunca faltar na minha lista dos melhores romances escritos em língua portuguesa

Via Ler-te, descobri esta lista, e participei na inquirição sobre Os Melhores Romances Escritos em língua Portuguesa., como de costume sem ler as regras até ao fim... Por isso, a minha ordenação foi cronológica e não por ordem de preferência, como é pedido (acho que nem conseguiria fazê-lo). Também me impus não escolher mais do que um título do mesmo autor nem mencionar escritores vivos. Finalmente, prefiro chamar a esta minha lista «Dez livros que não poderiam nunca faltar na minha lista dos melhores romances escritos em língua portuguesa», uma vez que ninguém poderá jamais determinar quais são os melhores romances (ou sinfonias, ou telas, ou o que seja). em Arte não há melhor: há bom e mau; obra conseguida ou falhada. O resto são opiniões.
E então ela aí vai:

1. Os Maias (1888), de Eça de Queirós
2. Andam Faunos pelos Bosques (1926), de Aquilino Ribeiro
3. A Selva (1930), de Ferreira de Castro
4. Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio
5. Servidão (1946), de Assis Esperança
6. Gabriela, Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado
7. Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol
8. O Signo da Ira (1961), de Orlando da Costa
9. Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena
10. Para Sempre (1983), de Vergílio Ferreira

É claro que das Viagens na Minha Terra (1846)m de Almeida Garrett, até a as Primeiras Coisas (2014), de Bruno Vieira Amaral, muitos poderiam figurar nesta lista -- só que não poderiam ser dez.
Agora, caros amigos, toca a participar (têm até ao fim do ano, não se atrasem).

quarta-feira, julho 16, 2014

o arrastão

«Maria da Soledade considerara tão insòlitamente forçada mais esta das suas demandas do trabalho em pátrias alheias, que, prontamente, classificara de dinheiro bem gasto o de preferir, desta vez, o "sud-express" para Paris, a carruagem-camas uma espécie de salvaguarda para as viagens de cambulhada e, muito mais, para as do arrastão, comboio de uma só classe, a segunda, sempre a abarrotar de emigrantes.»

Assis Esperança, Fronteiras (1973)

quinta-feira, junho 26, 2014

cantigas do êxodo

Canção de partida, nesse ano de 1973 -- o mesmo em que Assis Esperança publicou o romance Fronteiras --, ano ainda de emigração, do êxodo da miséria. O tema é lindíssimo, com um soberbo arranjo de metais. Do álbum Venham Mais Cinco.



sexta-feira, junho 20, 2014

de Assis Esperança

[bíblico]
«Sem gávea para perscrutar o horizonte, nem mastro alto a que trepar, se Noé patriarca abrira, muita vez, o luzeiro da janela para soltar as duas aves, arriscou-se, numa tarde, a escancarar a porta da sua arca, para melhor observar o movimento das águas. E então viu quanto fora exemplar o castigo de Deus.»
do prefácio a O Dilúvio (1932)

terça-feira, maio 20, 2014

o romance em 1930



Teresa Leitão de Barros (1898-1983), escritora e crítica literária do Notícias Ilustrado, quando se publicou A Selva (1930) escreveu, entre outras, duas coisas importantes, que o tempo, que é mauzinho, veio confirmar: a primeira é que, publicados os dois romances, este e Emigrantes, dois anos antes, Castro sobressaía como o grande romancista da sua geração: «Ferreira de Castro consagrou-se a si próprio, quando escreveu as mais admiráveis páginas dos seus últimos romances. Os seus personagens, que ficam bem de pé, bem erguidos perante a nossa mais incondicional admiração, esmagam e afugentam os fantoches de tanto romanceco que contribuiu para divinizar alguns autores de sorte. São colossos amesquinhando pigmeus.»
Na verdade, quem, de 1930, importa hoje? Só Castro e Aquilino, que era da geração anterior. Morto Raul Brandão, nesse preciso ano, Assis Esperança não resistiu ao tempo (pese embora o magnífico Servidão, de 1946). Da geração de Ferreira de Castro, Régio avançaria com o importante Jogo da Cabra Cega, em 1934, que então passou despercebido, como seria de esperar; Miguéis terá o modesto Páscoa Feliz em 1932, esperando ainda cerca duas décadas para voltar a publicar; Nemésio, com o modestíssimo Varanda de Pilatos (1927), só em 1944 virá com o assombroso Mau Tempo no Canal; João Gaspar Simões romancista menor, nem é deste campeonato (o interessante Elói, também de 1932, não ganha no confronto com a Cabra Cega regiana); e Francisco Costa e Tomás de Figueiredo só nos anos 40 começam a publicar romances. Para além do que pululava pelos jornais, no elogio mútuo ou interessado, só mesmo Aquilino e Castro hoje importam.
Acrescenta também Teresa Leitão de Barros no Notícias da Tarde, acertadamente, podemos dizê-lo agora, à distância de 83 anos: «Como obra literária integralmente bem realizada, "A Selva" pertencerá, um dia, à História onde se analisam os livros definitivos e grandes que neste século foram escritos em língua portuguesa.»
"Neste século", atrevia-se a crítica, ainda em 1930. Olhando para trás, verificamos que acertou na mouche, mesmo com todos os grandes textos romanescos, e foram felizmente alguns, que se imprimiram até ao ano 2000...

Teresa Leitão de Barros, «Um grande livro do século XX», apud Jaime Brasil, Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931.

foto: Maria Antónia Fiadeiro (org.), Mulheres Século XX -- 101 Livros, Lisboa, Câmara Municipal [2001]

sexta-feira, setembro 20, 2013

geografias da pobreza

Os topónimos dos bairros populares e operários, a Lisboa Oriental, cujo eco proletário chegou ainda até nós e persiste como património remanescente duma realidade moderna, as vilas (e também ilhas, que eu, por ignorância, julgava serem exclusivas do Porto, para onde decaíram a "Menina Olímpia e a sua criada Belarmina", de Régio; ou, em continuidade de pobreza, viveu essa brava Leonor de Servidão, o grande romance de Assis Esperança...); agora bairros e guetos sociais, classe média-alta ou festivais de música: Bela Vista, morada de Serafim-Clara e Esticado-Ana, o vale de Chelas, Rua de Marvila, Xabregas, Braço de Prata...
foto: http://musgueirasul.wordpress.com/2013/03/27/origem-da-habitacao-social-1900-ate-1960/

Como a abjecção da pobreza, a miséria,  nessa ilha do Grilo: "Ao longo de toda a 'ilha' alastrava a mesma grossa e vaga escuridão do campo. Apenas, a intervalos irregulares, algumas raras janelas, como vazias órbitas de espectros, radiavam lívidos luaceiros na absorvente espessidão da sombra. O piso, talhado no terreno natural, era um misto traiçoeiro e imundo de restos de comida, objectos de toda a sorte, cacos, barro, cisco, cascalho e lama. Na grande vala longitudinal fermentavam acidamente as podridões. Havia um cheiro acre e nauseabundo, cumulativamente a hospício, a curral e a cemitério. E dessa sórdida promiscuidade animal, dessa fruste aglomeração de miseráveis, subia para a frialdade inerte do ar, dançando nas infectas emanações de caneiro insalubres harmonias, um como surdo verrumar de febre, um atormentado e bárbaro concerto, feito ao mesmo tempo de pragas, risos, lamentações, balidos de cabras, mugidos de vacas, grunhidos de porcos, latidos de cães e choros de crianças."

quarta-feira, julho 24, 2013

Maria Eduarda, Margarida Clark Dulmo & Leonor

No JL de hoje, José-Augusto França considera a Maria Eduarda de Os Maias (1888), "[...] a heroína do romance português, por excelência sua, do seu autor e no que dramaticamente pode ser entendido no Portugal (ou na Lisboa) do Romantismo [...]" («Maria Eduarda for ever!»)
Em matéria de personagens femininas, o Eça... (Já agora, n'Os Maias, nada me parece tão elevado e dramático como o velho Afonso ou tão seriamente divertido como o Ega, qualquer deles com lugar cativo na nossa pequena memória culta colectiva. A Maria Eduarda? Bah!, humana, demasiado humana -- como deveu ser...
Eu, confesso-me mais transportado pelo que não chafurda, por uma certa idealidade quase etérea, que compreende carácter, nobreza, abnegação -- na lama ou em berço de ouro. Daí a minha paixão por mulheres como a Margarida Clark Dulmo, de Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio, ou a Leonor de Servidão (1946), de Assis Esperança.

domingo, agosto 27, 2006

Correspondências #57 - Ferreira de Castro a Roberto Nobre

S/c R. Dº Notícias 44-1º
Lisboa 23/3/925
Meu caro Roberto:
Como vai V.? Louvo-lhe a coragem por uma tão grande ausência... Noutra carta e mais de vagar hei-de increpá-lo por isso. V. não tem o direito de afastar-se assim do campo da luta. Enfim, falaremos mais pausadamente para outra vez.
Por agora quero dizer-lhe que só ontem tomei conhecimento da s/ carta para o Assis. Tratei do caso que nos dizia respeito. Falei com Anahory do A.B.C. Ele aceitou a sua colaboração. E parece-me que V. vai ficar -- fica certamente -- como colaborador efectivo e com muito trabalho. Aí vão agora dois trabalhos meus, que V. devolverá com os desenhos o mais depressa possível. (O Julião Quintinha, entrando ontem no meu gabinete, levou-me a interromper esta carta...)
Portanto, como lhe dizia há 24 horas, V. fica como coalborador do A.B.C., a não ser que a fatalidade se coloque de permeio... O Anahory, a quem mostrei o livro pª crianças que V. ilustrou, ficou bem impressionado. Para sossego da sua sensibilidade, devo dizer-lhe que isto não foi devido à minha retórica ou à minha amizade por si -- mas pelo seu próprio valor e pelo Anahory -- cá para nós -- precisar de mais um desenhador... Logo tratarei com ele sobre preços.
Falei também com o Mário Domingues, que está dirigindo a edição da Batalha (diária). Aceita com muito prazer um boneco seu, para os domingos. Exige-se apenas uma condição: que o boneco seja de acordo com o carácter do jornal, é dizer, que seja de crítica a qualquer facto da burguesia. Para isso talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer que a mim agradava muito que V. principiasse a surgir nos jornais de Lisboa. Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração.
Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande-me os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a «massa» -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo, que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase um renúncia (ou não?)
JM Fereira de Castro
Correspondência (1922-1969)
(edição de Ricardo António Alves)

domingo, junho 11, 2006

Proxenetismo social

A propósito de um brinde do saudoso Expresso -- a bandeira nacional patrocinada pelo Banco Espírito Santo --, Alexandre Dias Pinto, n'O Tonel de Diógenes, elabora certeiramente a propósito dos principios que os nossos queridos capitalistas em geral põem alegremente entre parênteses quando se trata do dinheirinho. Veio-me logo à ideia gente como o Pais do Amaral ou o próprio Balsemão, que não têm escrúpulos em despejar em casa dos seus pobres concidadãos todo o lixo de que podem lançar mão -- lixo televisivo que, obviamente, eles, pessoas educadas, não vêem. A esta mentalidade chamou certa vez Assis Esperança, numa carta a Ferreira de Castro, a avidez da ganhuça. E quem ganha dinheiro a degradar espiritualmente os outros, só merece para a sua sórdida actividade o qualificativo com que intitulo este post: o de proxenetismo social.

domingo, outubro 16, 2005

Castro em Vila Franca (5)

Tendo, em parte dos seus livros, o povo como tema, não o povo pitoresco, mas indivíduos pertencentes a determinados grupos sociais desfavorecidos, do emigrante ao seringueiro, da bordadeira ao contrabandista, passando pelo marçano, o pastor ou o operário têxtil, Ferreira de Castro foi o primeiro grande escritor içado do proletariado a operar uma transformação na perspectiva ideológica duma cultura, conseguindo, dessa forma, inscrever o seu nome individual no património literário nacional comum -- o que, convenhamos, não é pequeno feito.
António José Saraiva sustentou que ele «é o primeiro escritor português que não usa gravata.» (Iniciação na Literatura Portuguesa, Mem Martins, p. 158). Isto, que é um altíssimo elogio num país de literatos amanuenses, não significa a ausência de um apuro formal mais do que apropriado à intenção que ele tinha de comunicar-se intensamente. Tal como Régio, ele sentia-se acima de tudo escritor, e via as suas ideias veiculadas pelos livros como formas de servir a arte, e não o contrário... Lembremos as passagens avassaladoras sobre a floresta amazónica em A Selva, as cumeeiras do Barroso em Terra Fria, a tempestade, em A Lã e a Neve, os intensos diálogos interiores em A Curva da Estrada ou em A Missão, a investida dos índios ao acampamento de Nimuendaju em O Instinto Supremo, o primor dos textos memorialísticos, entre outros. Como escreveu Manuel Rodrigues Lapa, na sua clássica Estilística da Língua Portuguesa (4ª ed., Coimbra, p. 124), Castro é «um dos nossos mais elegantes prosadores».
Façamos também aqui um parênteses a propósito de um qualificativo que se tem colado a Ferreira de Castro, que de tão repetido se tornou num lugar-comum. A designação costumeira de «precursor do neo-realismo». No contexto nacional ela é imprecisa e irrelevante. Porque ou há várias maneiras de entender o neo-realismo, em que está sempre subjacente um conflito, um desajustamento social, a luta de classes, uma «tensão de devir», como diria Mario Sacramento, ou o neo-realismo tem de ser visto como a expressão artística de um desígnio político, que é o estar pelo menos de acordo com as posições do PCP sobre os diversos domínios em que a vida se exerce. Num contexto lato, direi, então, que Castro foi talvez o primeiro escritor neo-realista português , e não apenas um precursor; se o entendimento for restritivo, Castro que sendo um comunista libertário, um anarquista kropotkiniano, nunca quis pertencer ao PCP, não é neo-realista, nem precursor do neo-realismo, nem o seu romance A Lã e a Neve, que muitos costumam referir como uma das obras referenciais desta corrente, a começar pelo próprio Álvaro Cunhal, pode, desta forma emparceirar com Fanga, de Alves Redol, ou os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes.
Claro que isto se prende com a matriz ideológica do escritor, essencial para o percebermos, e aos seus livros.
Como disse inicialmente, Castro foi um libertário, um anarquista. O que distingue os anarquistas de outros sectores revolucionários da esquerda é a sua resistência a tudo o que possa restringir a condição livre do ser humano, a única que lhe é natural. E esse tudo manifesta-se nas formas corecivas de organização social, cuja expressão última é o Estado, mas também nas organizações «adjacentes»: igrejas, forças armadas, partidos políticos, tudo enfim, que de alguma forma possa coarctar a expressão da individualidade. Daí que, regra geral, os anarquista se associem por grupos de interesses sócio-profissionais, tendo sido precisamente na área sindical que registaram maior êxito organizativo.
Mas culturalmente também, o anarquismo foi muito forte entre nós, durante a I República. Está ainda por conhecer por dentro o grupo de intelectuais que se exprimia em jornais como o Suplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha, a revista Renovação e também o histórico semanário O Diabo, escrito e dirigido pelos anarquistas do grupo de Ferreira de Castro: Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, Roberto Nobre, Mário Domingues, Nogueira de Brito, Pinto Quartim e vários outros.
(continua)


(rectificado em 18-X-2005)