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domingo, fevereiro 10, 2019

vozes da biblioteca

«Camilo é o tipo do grande escritor escravo da sua terra e da sua época.» João Pedro de Andrade, O Problema do Romance Português Contemporâneo (1943)

«Ilustrar o célebre livro de Ferreira de Castro era, para ele, continuar, embora sob um aspecto novo, o alto canto que de há tantos anos vem espalhando, com energia e ternura, por pequenas e grandes telas e por quilómetros quadrados de paredes de edifícios públicos: um canto amassado de lágrimas e de brados, de ira e amor.» Mário Dionísio, 12 Ilustrações de Portinari para o Romance A Selva de Ferreira de Castro (1955)

«Só escreve obscuro quem pensa obscuro -- ou quem, simplesmente, não pensa.» Eugénio Lisboa, O Objecto Celebrado (1999)

sábado, maio 21, 2016

uma carta de Jorge Amado

imagem daqui
Grande documento, não apenas pela evidência do programa literário de Jorge Amado, como pelo que revela da influência que Ferreira de Castro tinha junto dos jovens escritores nordestinos brasileiros, cuja repercussão na geração neo-realista portuguesa é consabida.
Castro e Amado começaram a corresponder-se neste anos de 1934, mas só travariam conhecimento pessoal em 1948, em Paris, quando o autor brasileiro, então um activo militante comunista. teve de exilar-se. Essa amizade manteve-se e fortaleceu-se ao longo das décadas, tendo, por várias vezes e em diversas situações Jorge Amado evocado Ferreira de Castro, comovidamente. Das evidências dessa forte relação, basta lembrar que o o autor de A Selva é o autor português mais referido em Navegação de Cabotagem, as memórias de Jorge Amado.
Ferreira de Castro viria a ser um dos dedicatários de Jubiabá (1935), um dos romances mais marcantes de Amado.
O retrato do romancista de Gabriela, Cravo e Canela -- cuja primeira edição portuguesa foi prefaciada por Castro --, do mesmo ano da missiva, 1934, é do grande Candido Portinari, que em 1955, por ocasião dos 25 anos de A Selva, faria as ilustrações da edição comemorativa de A Selva.
(ler)

quarta-feira, maio 22, 2013

sobre a fortaleza de seiva

Desde 1955 que o leitor pode percorrer, como um prefácio, um dos grandes texto memorialísticos de Ferreira de Castro: a «Pequena História de "A Selva"». O romance já tinha a sua lenda, passados 25 anos sobre a primeira edição, na Livraria Civilização: nunca houvera nada assim no romance português, e muito menos na difusão internacional que ele conseguira; facto inédito na história da nossa cultura, e ainda hoje sabe deus, quando o escritor não se apelida Saramago ou Antunes, nem é um espectro como Camões ou um ícone póstumo como Pessoa. Pois Ferreira de Castro irá contar a génese deste livro único, na que seria a sua terceira edição ilustrada (desta vez, pelo magnífico Portinari) -- a terceira de cinco, ao todo e até hoje -- sem falar em adaptações destinadas a um público juvenil...
Não sendo uma autobiografia, há um pano de fundo em A Selva que o é: desde logo o espaço físico em que decorre a acção, o seringal "Paraíso", no rio Madeira, Amazónia; e é-o também, não tenhamos dúvidas, tudo, ou quase, o que escapa à circunstância da personagem principal -- Alberto, um jovem universitário monárquico exilado após a revolta de Monsanto (1919) --: as impressões e as depressões, pois que há também aqui uma boa dose de catarse.
À distância de quase 40 anos, Castro evoca essa uma hora da madrugada de 28 de Outubro de 1914, em que deixa para sempre o seringal, onde estivera desde 1911, com um manuscrito na bagagem. Não era ainda A Selva, que essa, só numa transversal à Avenida de Berna, em Lisboa, de 9 de Abril a 29 de Novembro de 1929, o autor se atreveria a pegar-lhe, não obstante ensaios recorrentes ao longo dos anos, conforme genealogia do texto estabelecida muito mais tarde por Alexandre Cabral.
E texto denso, tão denso quanto o pode ser uma escrita que tem como objecto a própria floresta, a dominar a narrativa, impondo-se logo no título, como a fortaleza de seiva se impusera aos pobres homens que lá se entregavam à extracção do látex.