Diálogo com “uma fotografia apontada à
cabeça”, de José Anjos.
A história do homem na Terra é a história de
um ser em queda, de um ser a aterrar, vindo do céu para a Terra, ser em deterioração.
Fomos concebidos como anjos, acabamos como homens. À evolução das espécies
apomos a degenerescência da carne, criatura entre as criações divinas. Deus
ofereceu-nos o livre arbítrio, podemos mudar. A mutabilidade é, aliás, a nossa
característica mais evidente, nota-se no próprio corpo, na passagem do tempo pelo
corpo. A morte é o fim último dessa degenerescência, sendo possível entender
entre a verticalidade do ser vivo e a horizontalidade do ser morto a imagem de uma
queda. Um corpo em queda é um corpo à morte, é um corpo que desfalece, que
tomba. O homem é entre aqueles que caminham o único a quem foi dado escolher o
atalho das bestas ou a via do espírito supremo. Poder escolher, poder optar, a
isso damos o nome de livre arbítrio. Viver talvez consista num treino dessa
liberdade que exercita a vontade tornando possível dizer: este é o meu caminho.
Penso em Eva, caminhando nua no jardim.
“Tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem vergonha por isso”. A
árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal haviam sido plantadas
no meio do jardim. Provar o fruto do conhecimento do bem e do mal condenou-nos
à morte, só depois a vergonha surgiu e os corpos foram cobertos. Interrogo-me
sobre o que realmente nos terá condenado. Não resistir à tentação de provar o
fruto proibido? Desejar conhecer? Exercer a tal vontade optando pelo caminho
interditado por Deus? O grande mistério da existência é a dúvida instaurada
pela consciência da morte. Sabendo que vamos morrer, quase nos esquecemos de
que estamos vivos. Declaro aqui, agora, neste preciso instante, todo o meu amor
a Eva, a mulher que ousou pensar e agir contra os imperativos de Deus. Enquanto
mastiga o fruto também eu abro os olhos e vejo a morte ao largo, vejo um rio de
sangue a escorrer nos veios da Terra, a humanidade inteira em busca de si
própria. Só não lhe perdoo a vergonha, o gesto de cobrir a cintura com folhas
de figueira. O que haverá no corpo que nos envergonha?
Que as dores do parto sejam a sua
condenação, deixa-me algo aliviado. Mas é olhando para esse corpo capaz de
gerar outros corpos que a vida melhor se revela. Eis a mulher, prenha de morte,
dando à luz vidas que o tempo se encarregará de moldar, corpos nus como os
pintados por Lucian Freud, algo assustados, envelhecidos, flácidos, corpos
vivos onde a morte surge sublinhada por cada mancha, nas estrias, na cor
emurchecida da pele, nas mamas descaídas, no sexo mole dos homens, nas rugas,
na morbidez dos músculos, na indolência dos gestos. Esses corpos outrora
vigorosos modificaram-se com a passagem do tempo, perdem força, vitalidade, são
corpos em queda na direcção de uma Terra que os acolherá à hora de tombarem
definitivamente. Constatá-lo instaura a dúvida, porventura o medo, como que enceta
a via melancólica da nostalgia e obriga a questão: que é feito de nós? Que é
feito do espanto com que o mundo nos chegava? Que é feito da paixão com que vivíamos
tal espanto?
Diz-se que a invenção da fotografia consistiu
na inauguração de uma nova forma de desenho. Mas mais do que desenhar a
realidade com improváveis níveis de verosimilhança, a fotografia permitiu-nos
fixar o instante protegendo-o da voragem do tempo. Nunca antes o homem
conseguira com tanta eficácia travar a queda. A fotografia oferece-nos o
passado, regista a posteridade do instante. Ter uma fotografia apontada à
cabeça é, porém, estar sob ameaça. Olhamos para uma fotografia de quando éramos
crianças e apercebemo-nos de que já não o somos. Olhamos para a fotografia de
alguém que morreu e ressuscitamos a sua imagem no pensamento, embora saibamos
que na realidade a pessoa ali retratada é já tão-somente uma imagem que sobrou
da sua passagem pela Terra. A fotografia ameaça-nos com a constatação da perda.
Ela não exige a carteira sob ameaça de morte, ela oferece-nos a memória sob a
ameaça do esquecimento.
Penso agora nessas primitivas exibições de
fotografias animadas, imagens em movimento a que demos o nome de cinema.
Conta-se que os filmes de Lumiére causavam temor, apesar de não passarem de
álbuns de família em movimento. Na chegada do comboio, a locomotiva avançava na
direcção dos espectadores gerando-lhes a ilusão de que seriam esmagados. Em
1903, causou excitação a exibição daquele que pode hoje ser considerado o
primeiro filme de sempre. Em “The Great Train Robbery”, de Edwin S. Porter, uma
das personagens aponta uma arma na direcção da câmara. Ameaça disparar contra
os espectadores. Muitos gritavam e encolhiam-se, alguns chegavam a desmaiar,
outros fugiam. Eis a sala de cinema transformada em jardim, eis o Teatro, Éden
onde homens e mulheres voltam a andar nus, inocentes, ingénuos, recuperando o
espanto que causa temor e leva ao conhecimento.
Creio numa poesia que ande nua sem sentir
vergonha por isso, que mergulhe nas águas do Lete para nadar contra a corrente.
Poesia que… se não “recupera o ímpeto / do espanto”, pelo menos revigora-se
nesse sentido. Que é feito do espanto, da inocência com que olhávamos para as
coisas descobrindo-lhes respiração própria, única, singular? Os mortos
revelam-nos a condição, a fotografia aponta-nos o passado à cabeça, mas à
poesia pode convir o ânimo de uma vida que não se resuma a contar pelos dedos
quantos anos passaram. Entendendo a queda, o poeta mergulha a pique no delírio
inquieto das imagens, remove do corpo impurezas e aceita o mistério, nele já
não opera a lógica do pecado, porque ao mastigar os frutos não sente vergonha,
desnuda-se, oferece-se tal qual é, ri, chora, recorda, faz emergir nas palavras
o tempo recalcado, desperta a morte do sono silencioso do esquecimento. Há quem
nisto veja desespero, arte fundida pela técnica, logro, mas eu vejo fome de
viver, vontade de provar todos os frutos proibidos e fazer valer o tempo da
espera, vejo essa tão aterradora circunstância de ser-se livre, já não como
anjo, ainda não como besta, simplesmente como homem.
























