Quinhentos anos solitários de civilização profundamente portuguesa a meio Atlântico não permite, supõe-se, leviandade perante fenómenos historicamente tão ricos num pequeno e quiçá precário país (e nação geograficamente repartida como o nosso).
Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas.
Vamberto Freitas
Tal como o meu país de nascença, também tenho eu, como milhões dos meus conterrâneos, andado repartido pelo mundo. Nasci na freguesia das Fontinhas, da Ilha Terceira, onde vivi apenas 13 anos. Depois em 1964 emigrei com toda a família para a Califórnia onde vivi 27 anos, e lá me formei academicamente e aonde guardo as melhores memórias e toda a ajuda que me deram na faculdade e noutras situações. Em 1991 voltaria aos Açores, para sempre, para a Ilha de São Miguel, onde já vivo há 28 anos. Por outras palavras, já vivo na minha ilha adoptada há mais tempo do que em qualquer lugar. Voltei e permaneci sempre aqui por amor a uma mulher, com quem vivi todo este tempo. Encontrei nesta ilha só amor, amizade e afecto. Mas desde muito cedo, ainda na Califórnia, alguns dos meus mais fiéis amigos são de cá, dos Açores como Diniz Borges, Álamo Oliveira, Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais tarde Mário Mesquita, e um pouco mais recentemente José Ernesto Resendes, que dedicou um belíssimo cartaz à Adelaide no dia do seu funeral, e é o meu editor. Outros ainda me demonstraram sempre lealdade e carinho, apoio na minha vida de autor de livros ou crítico, muitos deles do Continente. Não vou mencionar todos os que me deram apoio nesta ilha, mas dois nomes são inevitáveis: Urbano Bettencourt (natural da Ilha do Pico) e o recentemente o falecido Carlos Cordeiro, também meu colega na Universidade dos Açores, e que foi o primeiro a mostrar-me São Miguel à noite. Desço aos Cafés do Pópulo (onde vido vai para 28 anos, e serei o residente mais antigo) e encontro a mesma proximidade e respeito, sinto-me em casa por inteiro. Depois do falecimento da minha mulher Adelaide Freitas perguntam-me com frequência se vou voltar à Terceira ou à minha casa da Costa da Caparica. Não. Nem à América, mesmo com cidadania de longa data. Nunca deixarei esta minha ilha a oriente do arquipélago, nunca deixarei todos aqueles que me deram abraços e deixaram correr uma lágrima. Como alguém já escreveu, a tua terra é onde está o teu coração. Desde a Universidade dos Açores, a partir do ano de 1991, onde sou Leitor de Língua Inglesa, a todos que aqui já mencionei, assim como a muitos outros que também estão meu coração, traçaram o meu destino de vida. Que vida para além dos desgostos e saudades dos nossos, idos ou vivos em várias partes do mundo. Passei por São Miguel a primeira vez em 1964, quando eu e toda a família viemos a exames médicos e ao consulado americano a caminho da América. Nunca tinha visto uma outra ilha, e daqui partimos no navio Ponta Delgada para Santa Maria para o então longo voo rumo ao outro lado do Atlântico e Pacífico. Vivi um ano e pouco na Vale de São Joaquim, e depois meu pai, Daniel Freitas, decidiu tentar a sua sorte no Sul da Califórnia, numa pequena cidade chamada Chino. Fiquei fascinado com esta cidade pelo seu dinamismo, em comparação com a outra que conheci na Terceira quando ingressei no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo. Não podia adivinhar que um dia acabaria aqui para sempre, feliz e sentindo-me em casa, uma vez mais.
A minha dedicação à Literatura Açoriana vem de longe, dos anos 70 quando comecei a escrever para o Diário de Notícias ainda naqueles anos, e lá permaneci por um longo tempo, até 1994. Durante esses anos, e pela mão de Onésimo Teotónio Almeida (um dos meus primeiros mentores), comecei a ser convidado para participar nos Encontros de Escritores da Maia, que tinha Daniel de Sá como figura principal, ao lado de Afonso Quental, Urbano Bettencourt e Carlos Cordeiro. Foi em 1990 que conheci a Adelaide depois de eu ter feito uma comunicação sobre a obra de João de Melo. Mais uma vez, o destino estava irremediavelmente traçado e decidido após o meu regresso da Califórnia. Tenho um livro inédito da nossa correspondência constante, intitulado Amor e Literatura: Regresso a Casa. Farei sair um dia destes, mesmo que possa doer a alguns escritores e a outros em vida pública, mas a maior parte fala das nossas vidas e do que viria a seguir. “Continuo – escreve-me ela a dada altura — com uma grande “ferida” no olhar… E mais não digo, sob pena de lhe retirar a poesia. Ando inteiramente desorientada… numa espécie de estado de graça – pleno, sem dúvida, mas um tanto sofrido”. Nunca nenhumas palavras me disseram tanto, nunca nenhumas palavras descreveram o meu estado de espírito, mesmo que tenha o apoio e o carinho da minha companheira que a acompanhou durante os últimos cinco anos da sua vida, e evitou que ela fosse para um dito lar ou clínica. Como diria Faulkner, e que eu já citei muitas vezes “o passado não é passado, nem sequer é passado”. A inveja é um mal maior, e sempre o senti, antes, agora e depois. Vivemos até ao fim o que o destino nos guardou, uma vez com lágrimas outro com um sorriso de estarmos vivos e a fazer o que devemos fazer pelos outros. E se fosse possível regressar ao passado, eu não queria. Agradeço aos meus pais e ao meu cunhado Dimas e Mary Jane Valadao, todos residentes de longa data na Califórnia, e que tanto me ajudaram. Agradeço aos meus professores na faculdade a sua total dedicação, e que me abriram um futuro, se não brilhante (não foi culpa deles), pelo menos competente e cheio de confiança. Três nomes significantes na minha vida académica: Nancy T. Baden, Michael Holland e William Koon. Ensinaram-me tudo: primeiro em Estudos Latino-Americanos e Literatura Brasileira e Portuguesa (incluindo a açoriana), e depois em pós-graduações sobre a Literatura Americana e comparada, com especialização em Inglês. Penso neles quase todos os dias. Não haverá melhor elogio a qualquer professor, e a qualquer nível do ensino público. Cá e em toda parte.
Por certo que encontramos pelo caminho os escroques de sempre, mas é só passar ao lado, desprezar, esquecer. Lembremos sempre quem nos fez bem, e faremos o mesmo aos outros. Vejo com alegria e gratidão os meus colegas e amigos quase todos os dias. Quanto mais se engrandecem nas suas vidas, mais me engrandecem a mim. Os seus triunfos e felicidades são as minhas também, com eles partilho o que de bom nos traz a vida, com eles partilho as suas dores familiares ou profissionais. O resto não interessa nada. Quando alguém que não nos topa se desvia de nós, deveremos agradecer a delicadeza e o bom senso. A vida é nossa, mas quando partilhada é infinitamente mais rica e feliz. Termino com uma auto-citação publicada numa entrevista no Correio dos Açores, em 2001, e há muitos anos reproduzida num livro meu editado pela extinta Salamandra, Jornalismo E Cidadania: Dos Açores À Califórnia.
“O que vale realmente a pena? Viver. Amar a vida, amar os que nos amam. Tentar, sempre, a felicidade (é um dever sagrado). Sorrirmos ante as coisas boas e bonitas. Agradecer a Deus a saúde e o bem-estar. Ser generoso. A luta civilizada por estes ideais. Estender e anunciar a partilha total a todos os outros que o queiram e o mereçam”.
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Este texto é começo de um novo livro que tenciono escrever em prosa de fôlego depois de completar borderCrossings: leituras transatlânticas 5. Publicado no Açoriano Oriental, 15 de Março, 2019.










