22/05/19

The Prime of Miss Jean Brodie - Muriel Spark

Miss Jean Brodie é daquelas figuras marcantes, inesquecíveis, que não são marcantes, nem inesquecíveis, mas que apenas beneficiaram de serem as primeiras do género. Mais tarde, encontramos pessoas iguais, mas já não é novidade. 

Brodie usa o seu narcisismo como método educativo. Educou bem, mas não bem como queria. 

O estilo fluído e espirituoso dá uns tons róseos ao que é sobretudo uma história de manipulação, crueldade associativa e mediocridade romantizada. 

Prémios literários

É começar a pegar nas guitarras, malta.

21/05/19

Pulp Fiction - Quentin Tarantino


Decidi encher-me de verborreia, antes de ver uns filmes mudos que aqui tenho. Não esperava ficar cheio aos 30 minutos.

17/05/19

um programa de fitness para as redes sociais

Andei aqui a pensar num plano de treinos para os leitores do blog, porque me preocupo imenso com a vossa saúde!

Vários estudos referem os benefícios de fazer 50 agachamentos diariamente. O problema é a falta de motivação, não é?  Mas eu tenho a solução:

1- Use a sua rede social preferida.

2- Identifique o indivíduo que está a sempre a falar de Game of Thrones  e outros temas da chamada actualidade. Fácil até agora, não?

3- Encontre o indivíduo no seu habitat natural. (Dica: procure em locais exóticos na decoração, e perfeitamente normais no resto.)

4- Convença o indivíduo a deitar-se no chão de barriga para cima. (Dica: use um tapete de yoga, resulta quase sempre. Em caso de resistência, diga que é um social experiment.)

5- Esta é a parte difícil: alinhe o seu períneo (a zona entre o saco escrotal/parte inferior da vulva e o ânus) com o nariz do indivíduo, de maneira a que do agachamento resulte o contacto entre nariz dele e o seu períneo. Não se preocupe se não acertar à primeira, apenas ajuste a sua posição e repita o agachamento até conseguir o efeito desejado.

6- Divirta-se! Já se sente certamente motivado, mas pode sempre melhorar a experiência. Por exemplo, peça ao individuo para fazer um cover do Bob Dylan.

Bons workouts, people!

06/05/19

Berserk vol. 1 - Kentauro Miura, trad. Jason DeAngelis


Disseram-me que Miura era o Homero do género. Não sei, mas sei que não quero saber quem é o Manuel Alegre do género. O preto e o branco dos desenhos são a única nuance do livro. 

(Também me disseram que isto começa a ficar bom no vol. 4, enfim, vou ler.)

Adenda (1): o vol. 2 não é melhor.

Adenda (2): o vol. 3  é um pouco melhor; ainda assim, uma merda.

Adenda (3): bom, não podem dizer que não tentei. Este dois últimos volumes são menos maus do que os primeiros, valha a verdade. Acaba aqui a experiência, não é para mim

02/05/19

A Lição - Eugène Ionesco, trad. Ernest Sampaio

Nesta peça confrontam-se a estupidez perfeitamente natural da aluna e a estupidez escolástica do professor. À substituição de uma estupidez pela outra podemos chamar Educação; à morte da aluna podemos chamar processo civilizacional. (Isto talvez seja uma generalização grosseira, porque a peça joga com vários não-sentidos para ter um sentido único. Aliás, o discurso anti-institucional é agora uma das mais altas artes institucionais com elevada taxa de empregabilidade, o que dá outros sentidos à peça.)

01/05/19

Cuentos de amor, de locura y de muerte - Horacio Quiroga

Contos directos e simples sobre os atalhos febris da mente. Quiroga consegue criar toda uma psicosfera com notável poupança de recursos; está sempre presente um certo fatalismo tropical.

28/04/19

Lazzaro felice - Alice Rohrwacher


O realismo mágico é, no fundo, um regresso à fábula. Alice Rohrwacher consulta ambas as tradições, e o resultado é agradável, mas não brilhante. Há excessos didácticos que não se percebem por serem tão evidentes: o homem é o lobo do homem e tal... 

24/04/19

Taste - Giorgio Agamben

Desculpem, mas um amigo disse-me que gosta de acompanhar o arroz de cabidela com Coca-Cola, e ainda não estou a 100%. 

O gosto é a coisa mais evidente e uma das coisas mais difíceis de explicar. Quando tento explicar porque gosto de morangos, ou porque gosto de Nabokov, só estou a racionalizar intuições, criando um discurso que procura mais a equivalência do que a explicação. 

Este livro apresenta as várias não-soluções para o não-problema do gosto no pensamento ocidental. As citações, sempre pertinentes, de bons pedaços de prosa são interessantíssimas maneiras de dizer coisas, se o nosso interesse não for embotado pela ânsia do sucesso.  

Gostei.

Arising from a luminous principle, indivisible, resplendent in its self-evidence, made of joy and thought together, free of contact with any other perceptions, twin to the savouring of the brahman, living on the breath of supernatural marvel, such is the Flavour that those who have the means of judgement enjoy as the proper form of self, inseparably.

Sahitya-darpana 

23/04/19

Papeles de Recienvenido - Macedonio Fernández

Não sei se me esqueci de que já tinha lido este livro, ou se me esqueci de o ler antes desta releitura; notei uma estranha familiaridade na maneira como não me lembrava deste conjunto de frases memoráveis.

Es tan poco lo que tengo que decir, señores, que temo me tome mucho tiempo el encontrar en un brindis tan estrecho un lugarcito donde situarle el fin.

16/04/19

On the Sublime - Longinus

Gardons-nous d'écrire trop bien. C'est la pire manière qu'il y ait d'écrire.

Anatole France

Pero a mí me parece que entre nosotros el estilo es también un problema ético, una cuestión de decencia. ¡Es tan fácil escribir bien!

Julio Cortázar

Um livro de regras e exemplos que nos diz que seguir regras e exemplos nem sempre resulta. Apolónio de Rodes é, segundo as regras e os exemplos, melhor escritor do que Homero; mas a verdade é que ninguém quer ser Apolónio de Rodes. 

É um livro honesto sobre estilo: descreve o sublime e os seus usos menos sublimes, não necessariamente condenando estes. Apesar de tudo, usa às vezes um bocado de ética como condimento; a estética é que realmente lhe interessa.

Come, Isocrates (it might be asked), is it thus that you are going to tamper with the facts about Sparta and Athens? This flourish about the power of language is like a signal hung out to warn his audience not to believe him.