Católico cultural, meramente de tradição (baptismo e primeiro comunhão, porque sim), porém ateu, deparo-me com estas alíneas operativas, hoje difundidas pela imprensa. Uma parvoíce que faz rir, pois a maioria dos católicos praticantes não aceita esta eunuquização que a hierarquia lhes quer impingir; e faz rir também pela designação pretensiosa de jargão psicossocial, a dar ideia de muita profundidade e cientificidade, quando o que lhe subjaz é o mero nojo ao sexo.
O que estes padres (alguns padres) deveriam saber é que não há amor entre dois adultos sem qualquer tipo de erotismo, e que não há erotismo sem sexo, mesmo que porventura sublimado por força de qualquer circunstância impeditiva de o consumar. (Já estou a ouvir os intelectualmente desonestos a contestarem, trazendo à conversa casos excepcionais, como, por exemplo, o amor num casal em que um deles por doença ou acidente esteja impedido de ter relações sexuais. Esquecem, porém, que num casal há um historial comum, e que pelo facto de deixarem de ter sexo, tal não invalida que guardem a memória dele, e que essa memória seja um dos factores constitutivos do seu amor presente).
Faz algum sentido este pronunciamento sobre a intimidade de um homem e uma mulher que se amam, e portanto partilham a vida em comum? Pondo-me no lugar de um católico, parece-me que não, mesmo à luz duma moral cristã. É claro que não se espera por parte da Igreja uma postura liberal em diversas matérias, como a do aborto (eu próprio, dum ponto de vista ético, acho por norma inaceitável um aborto que não decorra de uma violação, risco para a saúde da mãe ou malformação que torne inviável ou infernal a vida de uma pessoa); mas já não dá tanta vontade de rir saber que é esta castração mental e moral que potencia comportamentos desviantes em que a Igreja tristemente se especializou, com consequências horríveis por onde teve poder e influência: templos queimados no Chile por ocasião da visita do Papa é o mais recente abalo que sofreram todos quantos gostariam que a Igreja -- parte importantíssima da nossa identidade e do nosso património colectivo -- não tivesse este cadastro. Mas o caso do Chile é apenas mais um a juntar à lista hedionda dos abusos cometidos em países ou regiões de predominância católica: da Irlanda à Espanha e por aí além, histórias de horror, em pleno século XX.















































