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sábado, julho 21, 2018

4x4



Herdeiro sem honraria
Casa, bens materiais,
Eu por nada trocaria
O legado de meus pais.
                               
                                    José Correia Tavares

Ó mães de fala amorosa,
Arrulhos do nosso ninho,
Dai-nos bênção piedosa,
Que nos proteja o caminho!

                                           Júlio Brandão

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que os meus versos possam ter.

                                                 António Aleixo

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar --
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
                             Fernando Pessoa

quinta-feira, janeiro 18, 2018

As coisas não têm significação: têm existência. / As coisas são o único sentido oculto das coisas.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

sexta-feira, junho 09, 2017

o Prémio Camões, pois claro

Se há obra que faça jus ao Prémio Camões, essa é a que integra dois livros absolutamente históricos, que são literatura e mais do que literatura, constituindo-se como um ponto de situação do país na época que foram escritos. Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), de Manuel Alegre, procedem a uma sondagem de um tempo e de um modo de sentir colectivos. E nessa medida -- por muito que custe àqueles que se comprazem, com uma literatura vagal ou deliquescente (e à frente de toda a gente...) --, nessa medida, aquela poética emula e participa da do próprio Luís de Camões, como de Guerra Junqueiro, António Nobre e Fernando Pessoa.

terça-feira, maio 02, 2017

O meu misticismo é não querer saber. É viver e não pensar nisso.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

quinta-feira, junho 16, 2016

Galo de Barcelos

Ontem, num colóquio sobre literatura e turismo, em conversa amena ao almoço com Ricardo Belo de Morais, disse-lhe que o Pessoa foi transformado no galo de barcelos da nossa literatura, ao que ele responde que já há galos de barcelos-Fernando Pessoa. A realidade ultrapassa, sempre, sempre, a ficção.



domingo, abril 03, 2016

Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura...
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

quinta-feira, maio 07, 2015

um dia de várias semanas

"Naquele momento, a edição das obras do Pessoa que me estava mais à mão era a péssima edição da Ática, aliás quase todas as antigas edições do Pessoa na Ática são péssimas, embora nenhuma bata em detestabilidade o tijolo que lá se fez das poesias do Camilo Pessanha, pensava eu cheio de preguiça resignada, porque não me apetecia subir ao escadote para pegar na única edição decente que existe do Alberto Caeiro, que é a que reproduz o manuscrito em facsímile e demonstra que o dia triunfal durou pelo menos várias semanas."

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

terça-feira, janeiro 13, 2015

A espantosa realidade das coisas / É a minha descoberta de todos os dias.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

sexta-feira, novembro 28, 2014

estados emocionais alterados

Enquanto houver literatura portuguesa (ou a memória dela), Garrett será sempre um dos nomes cimeiríssimos. E, portanto, nem sequer estou a contemplar a sua dimensão histórica e política, que foi grande. Não é impunemente que se escreve uma obra-prima absoluta (Frei Luís de Sousa), a melhor poesia do romantismo português (Folhas Caídas) ou se inaugura o romance moderno em língua própria (Viagens na Minha Terra). É o primeiro escritor português da primeira metade do século XIX, e só uma pessoa pode com ele ombrear, principalmente graças a monumental e fundadora obra de historiador: Alexandre Herculano.
Vem isto a propósito das Cartas de Amor à Viscondessa da Luz. Sobre Eça de Queirós (outro gigante), Vergílio Ferreira disse qualquer coisa parecida com isto: dele tudo nos interessa, até a conta da lavandaria. Estas cartas são obra paraliterária, não foram escritas para publicação e reflectem um estado emocional alterado. Embora a epistolografia possa ostentar-se os galões de literatura de pleno direito -- vários foram os autores que viram as suas cartas equiparadas à obra mais séria, quando não suplantá-la: estou a lembrar-me de obras-primas como as Cartas do Cárcere, de Gramsci ou da maior parte das missivas do Eça, sempre ele --, não é isso que se passa com estas do punho garretiano.
Não que elas seja excessivamente anódinas, bem pelo contrário; não que a sua publicação não se justificasse. Há nelas muitos elementos úteis para estudo em várias áreas.
São cartas de tal modo pessoais, unívocas, íntimas e obsessivamente repetitivas, que valem por essa expressão extrema de amor ardente e transgressor, penetrando de tal forma na intimidade do escritor que valem por essa verdade desvelada. Felizmente, o Pessoa já nos dera o antídoto para as cartas de amor -- e além do mais, que diabo!, esta paixão deu-nos as Folhas Caídas... 22 cartas que se salvaram, dentre as centenas que foram escritas e trocadas. Um milagre, portanto. É a segunda vez que se publicam, depois da edição de José Bruno Carreiro, que assinalou, em 1954, o centenário da morte de Garrett, um trabalho impecável do investigador brasileiro Sérgio Nazar David.
Em duas palavras: Rosa Montúfar Infante, espanhola lindíssima, mulher do Visconde da Luz, militar e político de destaque, é amante de Almeida Garrett na segunda metade da década de 1840 até ao início do decénio seguinte. de Garrett temos a ideia do escritor quase-dândi, viril e sedutor com as mulheres, o eco do tribuno de voz bem colocada e palavra assertiva, do homem de acção que foi um dos bravos do Mindelo. ler-lhe os delíquios amorosos chega a ser perturbador e incómodo, passados 160 anos da sua morte, de tal modo ele é ainda nosso contemporâneo. As cartas são patéticas -- a paixão é patética (todas as paixões o são). A que leva o número XVIII, em que testemunhamos o seu desengano, a sua ingenuidade, o seu desgosto, essa, então, é dilacerante.
Assim sendo, não estando estas cartas de Garrett nos píncaros da epistolografia portuguesa, são de enorme relevância biográfica. E mais do que isso: iluminam alguns poemas de Folhas Caídas, de um modo que não se suspeitava. Só por isso a sua edição teve toda a razão de ser.

Almeida Garrett, Cartas de Amor à Viscondessa da Luz, edição de Sérgio Nazar David, Vila Nova de Fmalicão, Edições Quasi, 2007.

quarta-feira, outubro 01, 2014

1 de Outubro de 1914

fonte
Em "carta lepidóptera" Alfredo Guisado entra no jogo dos heterónimos com Pessoa. Estivera com Caeiro no parque de Mondariz, na Galiza (Guisado era galego...)

«[...] Estivemos falando um pouco. É um indivíduo deveras esquisito. 
Desejaria até que você ou o Sá-Carneiro o conhecesse. Falámos de poetas novos.
Citei-lhe o seu nome e o do Sá-Carneiro, dizendo-me que ele que já os conhecia e que embirrava imenso com a nova escola. Recitei-lhe versos seus e do Sá-Carneiro e o homem parece que não gostou muito, por isso não lhe falei nos meus (versos).»

Fernando Pessoa, Correspondência Inédita
(edição de Manuel Parreira da Silva;
actualização ortográfica minha)

terça-feira, agosto 19, 2014

aprender a ler

O autor não é apenas professor de Literatura (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), como tem a particularidade de gostar dela, a Literatura -- o que nem sempre sucede --, e, o que é mais, sabe transmitir pedagogicamente essa paixão.
Estas Notas de Rodapé serão tal, na sua designação humilde, se nos reportarmos ao seu objecto: a grande literatura -- brasileira, principalmente, mas também portuguesa e de além-língua. Borges, Calvino e Eco, por exemplo, são abundantemente citados ao longo do livro, muitas vezes em epígrafes. Acontece que estas crónicas, publicadas na imprensa, foram escritas com o gosto de comunicar com os alunos e todos quantos pretendem aventurar-se no bosque da ficção. E, nesse aspecto, é excelente para aqueles leitores menos experientes, perdidos nos labirintos do mercado, nivelando ou soterrando os clássicos de ontem e de hoje na avalanche da subliteratura parida a esmo pela indústria editorial.
"Devaneios de um leitor solitário", subtitula Tôrres Freire o seu livro, desta forma despretensiosa e aparentemente leve, fazendo pontes para a História ou o Cinema, conduzindo sabiamente e dando ferramentas ao leitor interessado em distinguir o trigo do joio. Quase todos os Grandes brasileiros estão lá; e enquanto leitor português apreciei os textos consagrados a Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, José Saramago e António Lobo Antunes. 

 José Alonso Tôrres Freire,  Notas de Rodapé -- Devaneios de um Leitor Solitário, Campo Grande, 2014.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

nestas matérias, hesito entre o estúpido e o cretino (Fernando Pessoa à parte, que era louco)

Adivinhação, n. Arte de meter o nariz no oculto. Há tantas espécies de adivinhação quanto variedades frutíferas de estúpidos-em-flor e de cretinos precoces.
Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo
(trad:: Rui Lopes)

quarta-feira, maio 22, 2013

sobre a fortaleza de seiva

Desde 1955 que o leitor pode percorrer, como um prefácio, um dos grandes texto memorialísticos de Ferreira de Castro: a «Pequena História de "A Selva"». O romance já tinha a sua lenda, passados 25 anos sobre a primeira edição, na Livraria Civilização: nunca houvera nada assim no romance português, e muito menos na difusão internacional que ele conseguira; facto inédito na história da nossa cultura, e ainda hoje sabe deus, quando o escritor não se apelida Saramago ou Antunes, nem é um espectro como Camões ou um ícone póstumo como Pessoa. Pois Ferreira de Castro irá contar a génese deste livro único, na que seria a sua terceira edição ilustrada (desta vez, pelo magnífico Portinari) -- a terceira de cinco, ao todo e até hoje -- sem falar em adaptações destinadas a um público juvenil...
Não sendo uma autobiografia, há um pano de fundo em A Selva que o é: desde logo o espaço físico em que decorre a acção, o seringal "Paraíso", no rio Madeira, Amazónia; e é-o também, não tenhamos dúvidas, tudo, ou quase, o que escapa à circunstância da personagem principal -- Alberto, um jovem universitário monárquico exilado após a revolta de Monsanto (1919) --: as impressões e as depressões, pois que há também aqui uma boa dose de catarse.
À distância de quase 40 anos, Castro evoca essa uma hora da madrugada de 28 de Outubro de 1914, em que deixa para sempre o seringal, onde estivera desde 1911, com um manuscrito na bagagem. Não era ainda A Selva, que essa, só numa transversal à Avenida de Berna, em Lisboa, de 9 de Abril a 29 de Novembro de 1929, o autor se atreveria a pegar-lhe, não obstante ensaios recorrentes ao longo dos anos, conforme genealogia do texto estabelecida muito mais tarde por Alexandre Cabral.
E texto denso, tão denso quanto o pode ser uma escrita que tem como objecto a própria floresta, a dominar a narrativa, impondo-se logo no título, como a fortaleza de seiva se impusera aos pobres homens que lá se entregavam à extracção do látex.

sexta-feira, julho 22, 2011

O único sentido íntimo das cousas / É elas não terem sentido íntimo nenhum. 
Alberto Caeiro

terça-feira, maio 17, 2011

ser poeta não é uma ambição minha. / É a minha maneira de estar sozinho.
Alberto Caeiro

domingo, maio 15, 2011

Antologia Improvável #471 - Fernando Pessoa (5) / Alberto Caeiro (2)

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha de ter esperanças -- tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Poemas de Alberto Caeiro
(edição de António Quadros)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Caracteres móveis - Fernando Pessoa

A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
apud Eugénio Lisboa, O Segundo Modernismo em Portugal

Pessoa















desenho de Almada Negreiros