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quinta-feira, março 15, 2018

«Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas.» Eça de Queirós, Os Maias (1888)

«Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Finalmente estou só, envolvido pelo grande silêncio da terra.» João Aguiar, A Voz dos Deuses (1984)

segunda-feira, maio 01, 2017

começar

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? talvez não.

em 1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

em 1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

em 1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

em 1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

em 2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

quinta-feira, abril 27, 2017

estante: A VOZ DOS DEUSES (1984)

Não tenho especial apetência pelo chamado romance histórico nem por qualquer outro género: sou leitor de romances tout court, o que não significa que grandes obras de ficção não se realizassem sob essa designação. Talvez quanto mais falsamente 'histórico', melhor o romance. Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, por exemplo. Ou então, se saído da pena de um Alexandre Herculano, que escrevia em romance o que nas obras historiográficas não podia, à falta de suporte documental e material.

Vem isto a propósito de um saboroso romancinho que li quando se publicou (reparo agora que tenho a primeira edição): A Voz dos Deuses (1984), de João Aguiar. Coincidentemente, ou não, andava por essa altura mergulhado na parte lusitano-romana das Religiões da Lusitânia (1897-1913), do Leite de Vasconcelos, e a impressão que me ficou foi a de que João Aguiar (1943-2010) conseguiu realizar uma ficção meritória com o rigor exigível. Viriato foi uma fascinante figura fantasmática e primacial de antes-de-Portugal, chefe guerreiro dos irredutíveis lusitanos que defrontaram Roma -- a superpotência da Antiguidade. E fê-lo com um sentido táctico extraordinário. Não seria, na história da humanidade, o último pequeno povo a defrontar e provocar danos terríveis a um império dotado de uma máquina de guerra colossal.

O narrador é «um companheiro de armas de Viriato», Tongio, filho de um sacerdote e guardião do templo de Endovélico, divindade lusitana, personagem que dá testemunho de um mundo que finda, de devastação e bruma, circunstância que Aguiar apresenta muito bem no incipit do romance, o primeiro período do «Prólogo»: «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» (p. 11) Notas tomadas em «tabuinhas de cera», posteriormente transcritas: «Além, naquele cofre reforçado com chapas de ferro, guardo o meu tesouro mais precioso, alguns rolos de papiro (o melhor papiro do Egipto) onde copiarei de forma definitiva os texto ensaiados na cera.» (p. 12)

Não é o génio de Yourcenar nem o bronze de Herculano, mas não envergonha.

terça-feira, setembro 23, 2014

as vozes dos deuses

«Os deuses falam aos homens com vozes diferentes, conforme eles são capazes de entender. Os jovens ouvem essas vozes no estrépito das batalhas ou no acto do amor, os velhos aprendem a escutar de outra maneira.»

João Aguiar, A Voz dos Deuses (1984)