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segunda-feira, maio 13, 2019

vozes da biblioteca

«A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Súbito uma revoada de vozes escapou-se em surdina do âmago da igreja e derramou pelos claustros o clamor inquietante duma dolência arrastada.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

sábado, março 16, 2019

vozes da biblioteca

«Depois de se benzer e de beijar duas vezes a medalhinha de S. José, Dona Inácia concluiu:» Rachel de Queiroz, O Quinze (1930)

«Para fazer-se amar da formosa dama de D. Maria I minguavam-lhe dotes físicos: Domingos Botelho era extremamente feio.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«Vista do ramo transversal do claustro e no prolongamento do eixo da igreja, a ábside desenrolava em frente do espectador a sua elegante redondeza, e o frémito alado dos arcobotantes, com a ossatura frágil em pleno equilíbrio aéreo, dava-lhe tal ar de vida palpitante, que era de recear que a uma carícia mais quente do sol filtrando-se nos poros da pedra, a catedral abrisse as asas e erguesse o largo voo nessa lúcida manhã de tempo claro.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

sábado, fevereiro 23, 2019

vozes da biblioteca

«E os outros, -- toda a malta da terceira, imunda e sórdida -- miseráveis, porque trocam a sua pobreza livre pela escravidão?» Joaquim Paço d'Arcos, Diário dum Emigrante (1936)

«Logo de manhã, aos primeiros sinais do sol, à frente dos pequenos guardadores seminus, as cabeças de longos cornos negros curvadas para o chão, os búfalos caminham com lentidão, enquanto remoem o capim, e do outro lado da estrada vermelha, a perderem-se de vistas, os talos decepados do arroz ficam rebrilhando nas várzeas desertas.» Orlando da Costa, O Signo da Ira (1962)

«Neste jardim, que só os cónegos velhos frequentavam em manhãs de bom sol morno no intervalo do serviço religioso, não passeava a esta hora ninguém; e dos claustros, igualmente desertos, subia o silêncio de ruínas mortas, entrecortado pelo murmúrio argentino dum turíbulo que oscilava, com isócrona cadência, por detrás da capela-mor, nas mãos diáfanas duma criança grave.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

terça-feira, novembro 27, 2018

vozes da biblioteca

«Abriu muito os olhos o abade e só então se apercebeu duma mocinha -- corpo que acaba de espigar na adolescência -- que às mãos ambas cobria o rosto e soluçava.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«No espaço quadrangular, entre o claustro e a ábside, tinham talhado, num período recente de desobstruções, um adorável jardim com os clássicos arruamentos de buxo enquadrando modestos canteiros de rosas e gerânios.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919)

«Residências a caírem de velhas ou de mal-construídas, rebocos a cobrirem-lhes as fendas e rugas, as suas janelículas, a metros do solo, ostentam-lhes a presunção de inexpugnáveis.» Assis Esperança, Pão Incerto (1964)

domingo, maio 06, 2018

«Os dois bicos  do candeeiro de gás fervilhavam inúteis, por cima da mesa; e ele, então, caiu sobre mim, a sacudir-me com fúria:» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«O destoante casario campeava, porém, já fora da catedral e formava, com o seu largo abraço saindo-lhe discretamente dos flancos, uma como que cintura defensiva lançada à roda da venerável cabeceira do templo, onde resplendia ainda o diadema estilhaçado das capelas góticas.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919)

«Afeiçoara-se o velho à mansidão do neto infantil; vira-o crescer em seus braços com as branduras ameigadoras, como se a criança previsse o futuro desamor dos pais, e estivesse de contínuo a granjear a amizade do avô.» Camilo Castelo Branco, O Judeu (1866)

sábado, março 03, 2018

«Onde já iam na vida de uma os tempos de noivado, quando viriam na vida do outro que a seu lado caminhava, respeitoso, preso talvez do encanto daquele convívio, mas incapaz sequer de ousar exprimir essa prisão!?» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«O vapor inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia.» José Saramago, O Ana da Morte de Ricardo Reis (1984)

«A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, entreabrindo uma pequena porta e afastando a massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919).

quinta-feira, novembro 19, 2015

o menino bonito das sacristias

«No ambiente requintado dos salões lisboetas, a sua linha fidalga recortou-se com mais firmeza e a sua esbelta figura adquiriu novo aprumo, como haste que se expande aos raios dum sol mais quente. A natural afabilidade sem inflexões afectadas, certa distinção de raça timbrando as maneiras graves, a linha sempre correcta e o porte sempre gentil, conquistaram-lhe as simpatias mundanas e obtiveram-lhe êxito completo. Tornou-se o menino bonito das sacristias.»

Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

domingo, março 22, 2015

Padre Porfírio

«Sério sem ser austero, inteligente e ponderado, com instrução mais suculenta do que a água chilra oficial, era Pe. Porfírio muito cioso da sua dignidade e incapaz, por temperamento e educação, de ceder a um mau passo. Atraente e insinuante, de gentileza varonil que tanto podia provir da harmonia das proporções como da correcção de maneiras. Pe. Porfírio sentira-se mais duma vez soçobrar em românticas crises de amor solapado, com tentações de estrangular os votos nas tiras da batina e morder àvidamente o fruto proibido. Mas passada a febre, o sangue arrefecia e o bom senso triunfava.»

Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)