domingo, maio 19, 2019

IMAGINÁRiO #772

José de Matos-Cruz | 24 Setembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

IMPUNIDADE
O Desconhecido do Norte Expresso (1951) é a adaptação livre e acidentada dum romance de Patricia Highsmith. Alfred Hitchcock (1899-1980) interessou-se pela narrativa «geométrica», inerente ao fulcro de uma conspiração sentimental, cujas variáveis eram a falta de escrúpulos e o engenho criminal. Insatisfeito com as sugestões de Raymond Chandler, Hitchcock acabou por se ocupar da composição ambígua das personagens, incumbindo da textura e dos diálogos o seu habitual colaborador Ben Hecht. Durante uma viagem de comboio entre Washington e Long Island, um famoso mas infeliz tenista trava conhecimento, por aparente casualidade, com um playboy ocioso e cínico. Este conhece todos os pormenores da sua vida pessoal e profissional, propondo-lhe eliminar a mulher, para casar-se com a filha de um senador; em troca, ele deverá assassinar o seu pai, por quem nutre um ódio profundo. Assim, sem móbil nem ligação plausíveis, os dois crimes ficarão impunes… A interpretação enfática de Robert Walker e Farley Granger estigmatiza uma estranha cumplicidade, entre o desprezo e a obsessão.
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CALENDÁRiO

12JAN-23FEV2019 - Em Lisboa, Galeria Pedro Cera expõe Choque - instalação / pintura de Dora Longo Bahia (Brasil).

18JAN-09MAR2019 - Em Lisboa, Galeria 3 + 1 apresenta Manglar - exposição de pintura de Juan Tessi (Peru).

23JAN-16MAR2019 - Em Lisboa, Fundação Carmona e Costa apresenta Where I Am Free - exposição de obras em papel de Carlos Bunga, sendo curadora Inês Grosso. IMAG.771

1937-24JAN2019 - José Lopes e Silva: Compositor português, músico e professor, membro fundador de Quadrifonia - «Um dos pioneiros da música contemporânea em Portugal. Fez sobretudo obras para viola a solo, mas também é autor de peças de câmara, obras vocais e eletroacústicas» (José Cutileiro).

25JAN-29MAR2019 - Em Lisboa, Carpintarias de São Lázaro apresenta Jeu de 54 Cartes - exposição de fotografia de Jorge Molder.  
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18ABR1930-26JAN2019 - Jean Victor Arthur Guillou, aliás Jean Guillou: Músico francês, compositor, organista e professor - «Ficou famoso como improvisador, procurando timbres invulgares e conseguindo efeitos muito especiais» (João Vaz).

1932-26JAN2019 - Michel Jean Legrand, aliás Michel Legrand: Músico e compositor francês, orquestrador e maestro, pianista, autor de bandas sonoras para filmes, distinguido com três Oscars, colaborador habitual de Jacques Demy - «…Reinventaram o musical como espectáculo popular, [pelo] entendimento de cinema e música como um mesmo tronco» (Luís Miguel Oliveira).

29JAN-05MAI2019 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta filmes, desenhos e fotogravuras da artista inglesa Tacita Dean, sobre conceito desenvolvido com Marta Moreira de Almeida. IMAG.475

VISTORiA

Na Índia teve lugar, há mais de três mil anos, no plano religioso, a mesma operação de recuperação cultural que, no plano científico, foi posta em vigor nos nossos dias pela psicanálise… A Índia não foi sublimada e humanizada pelo cristianismo.
Alberto Moravia
- Uma Ideia da Índia (1961 – excerto)

MEMÓRiA

1898-25SET1970 - Erich Paul Remark, aliás Erich Maria Remarque: Escritor alemão - «No desespero e no perigo, as pessoas aprendem a acreditar no milagre. De outra forma, não sobreviveriam». IMAG.663

1907-26SET1990 - Alberto Pincherle, aliás Alberto Moravia: Escritor e jornalista italiano - «É mais fácil ter ciúmes de um amigo feliz, do que ser generoso para um amigo que esteja na desgraça… A amizade é mais difícil e mais rara do que o amor. Há que preservá-la a todo o custo». IMAG.229-292-636

1892-27SET1940 - Walter Benedix Schönflies  Benjamin, aliás Walter Benjamin: Ensaísta e filósofo alemão - «O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos». IMAG.37-153-292-378-488-506

1896-28SET1970 - John Roderigo Dos Passos, aliás John Dos Passos: Escritor americano de origem portuguesa, autor de Manhattan Transfer (1925) e da trilogia USA - 42nd Paralell (1930), Nineteen Nineteen (1932), The Big Money (1936) - «Sim. Tenho muitos primos [na Madeira]. A nossa família é muito grande. O meu avô emigrou para os Estados Unidos, um irmão dele foi para o Brasil e outros ficaram cá. Assim, tenho agora parentes aqui, em Lisboa, nos Estados Unidos e no Brasil» (1960). IMAG.292-546

1922-28SET2010 - Arthur Hiller Penn, aliás Arthur Penn: Cineasta americano, realizador e produtor - «Em Hollywood, os melhores acabam por arrepender-se… Já não existe mercado para os filmes que eu poderia dirigir. Os épicos de ficção científica e as fitas ao gosto juvenil estão fora dos meus parâmetros». IMAG. 44-212-231-257-327-387-433-704

1925-29SET2010 - Bernard Schwartz, aliás Tony Curtis: Actor americano - «Por um lado, fui tremendamente abençoado… Por outro, imensamente amaldiçoado». IMAG.327-447-517-748

VISTORiA

O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, antes se suspende no tempo e imobiliza-se. Porque esse conceito define exactamente aquele presente em que ele próprio escreve a história. O historicista apresenta a imagem eterna do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de esgotar-se no bordel do historicismo, com a prostituta era uma vez. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.
O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista distancia-se dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. O seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos factos, para com eles preencher o tempo homogéneo e vazio. Pelo contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das ideias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele comunica-lhes um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto nómada. O materialista histórico só se aproxima de um objecto histórico quando o confronta enquanto nómada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogéneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. O seu método resulta em que, na obra, o conjunto da obra; no conjunto da obra, a época; e, na época, a totalidade do processo histórico, são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém no seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.
Walter Benjamin
- Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios Sobre Literatura e História da Cultura
 (1939 - excerto)
COMENTÁRiO

Arthur Penn

Trouxe a sensibilidade dos filmes de arte e ensaio europeus dos anos ’60 para o cinema americano. Abriu caminho a uma nova geração de realizadores vindos das escolas de cinema.
Paul Schrader
BREVIÁRiO

Porto Editora lança Nó Cego de Carlos Vale Ferraz / Carlos Matos Gomes. IMAG.3-197-616-660-755

Universal edita em CD, sob chancela Verve, Ella at Zardi’s de Ella Fitzgerald (1917-1996). IMAG.460-566-608-657

Objectiva edita O Homem Mais Rico do Mundo - As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian (1869-1955) de Jonathan Conlin; tradução de Manuel Santos Marques. IMAG.43-523-697-742

Porto Editora lança Em Minúsculas de Herberto Helder (1930-2015); prefácio de Daniel Oliveira.  
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Flâneur edita Antologia Poética de Carl Sandburg (1878-1967); tradução de Alexandre O’Neill e Vasco Gato. IMAG. 139-255
 

domingo, maio 12, 2019

IMAGINÁRiO #771

José de Matos-Cruz | 16 Setembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

PROBLEMAS
Como todos os adolescentes ante a crise para a maturidade, Superboy andava, em 2002, em busca de experiências, orientado por uma nova equipa criativa: os argumentistas Dan Didio & Jim Palmiotti (lembrar Deadpool), e os ilustradores John McCrea (Hitman) & James Hodgkins, que se prestigiaram com Jenny Sparks: The Secret History of the Authority. O número 94 da revista titular, sob chancela DC Comics, tem uma capa impecável, assinada por J.G. Jones (Marvel Boy), e as aventuras que se seguem são no mínimo surpreendentes. Não, desta vez Cadmus não está por perto, a antecipar possíveis azares. Mas, Superboy enfrenta o maior desafio: procurar um apartamento! Até agora, ele nunca teve casa própria, e acabará por envolver-se numa disputa feroz, para lograr um tecto na selva de cimento… Estando implícita a tentativa para identificar os jovens leitores, com um paladino irreverente, mas corajoso, haverá derivações nesta adequação a uma vida normal. Superboy vai descobrir mais sobre os seus extraordinários poderes, interrogar-se-á sobre os motivos e o destino de uma vida tão estranha como a sua. Acabando a contar o dinheiro, para pagar a renda ao fim do mês!
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CALENDÁRiO

1922-23JAN2019 - Jonas Mekas: Artista, poeta e cineasta americano, nascido na Lituânia, crítico de cinema, realizador e dinamizador pela vertente experimental, sob o signo de Nova Iorque - «Sem ele e sem a sua acção, a mitologia artística da cidade não seria a mesma» (Luís Miguel Oliveira).

23JAN-13FEV2019 - Em Lisboa, Galeria da Sede Nacional da Ordem dos Arquitectos apresenta Ilha - exposição de fotografia de Paulo Pimenta, sendo curador José Rosinhas. IMAG.704

23JAN-20MAI2019 - Em Lisboa, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia / MAAT expõe The Architecture of Life. Environments, Sculptures, Paintings and Films de Carlos Bunga, sendo curadora Iwona Blazwick.

26JAN2019 - Em Lisboa, Casa Virginie apresenta A Cidade das Lutas Obscuras - exposição de fotografia de Christophe Sauvage.

VISTORiA

Aos Simples

Ó almas que viveis puras, imaculadas,
Na torre de luar da graça e da ilusão,
Vós que inda conservais, intactas, perfumadas,
As rosas para nós há tanto desfolhadas
Na aridez sepulcral do nosso coração;
Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,
Da luz, olhar de Deus, da luz, bênção d’amor,
Que faz rir um nectário ao pé de cada abelha,
E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;
Almas, onde resplende, almas onde se espelha
A candura inocente e a bondade cristã,
Como num céu d’Abril o arco da aliança,
Como num lago azul a estrela da manhã;
Almas, urnas de fé, de caridade e esp’rança,
Vasos d’ouro contendo aberto um lírio santo,
Um lírio imorredouro, um lírio alabastrino,
Que os anjos do Senhor vêm orvalhar com pranto,
E a piedade florir com seu clarão divino;
Almas que atravessais o lodo da existência,
Este lodo perverso, iníquo, envenenado,
Levando sobre a fonte o esplendor da inocência,
Calcando sob os pés o dragão do pecado;
Benditas sejais vós, almas que est’alma adora,
Almas cheias de paz, humildade e alegria,
Para quem a consciência é o sol de toda a hora,
Para quem a virtude é o pão de cada dia!
Guerra Junqueiro
(excerto)
ANUÁRiO

1470-1536 - Garcia de Resende: Cronista português, poeta, médico, arquitecto, autor de Crónica de D. João II (ed. 1545) e de Miscelânea e Variedade de Histórias (ed. 1554) - «Porque a natural condiçam dos Portugueses é nunca escreverem cousa que façam, sendo dignas de grande memória, muitos e mui grandes feitos de guerra; paz e vertudes, de ciência, manhas e gentilezas sam esquecidos» (Prólogo ao Cancioneiro Geral - 1516, excerto).
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1530-1596 - Jean Bodin: Jurista francês, professor de leis e filósofo político - «Nada havendo de maior sobre a terra, depois de Deus, que os príncipes soberanos, e sendo por Ele estabelecidos como seus representantes para governarem os outros homens, é necessário lembrar-se de sua qualidade, a fim de respeitar-lhes e reverenciar-lhes a majestade com toda a obediência, a fim de sentir e falar deles com toda a honra, pois quem despreza seu príncipe soberano, despreza a Deus, de Quem ele é a imagem na terra» (A República - 1576). IMAG.266-578

1550-1602 - Emilio de Cavalieri: Compositor italiano, organista, coreógrafo e bailarino, autor de Rappresentatione di Anima et di Corpo (1600) - O «mais antigo documento a recorrer de modo substantivo ao canto, à acção de palco, à dança e à música instrumental» (René Jacobs). IMAG.603

1550-1622 - Francisco Sanches: Médico, filósofo e matemático português, autor de Quod Nihil Scitur (1581) - «Astrónomo, geómetra, filósofo e médico, observador infatigável da Natureza, autêntico protótipo do homem do Renascimento, legou-nos uma obra que foi o arauto da revolução filosófica dos Séculos XVII e XVIII» (Artur Moreira de Sá). 
 
BREVIÁRiO

Abysmo edita Leviatan | Espelhos Negros de Arno Schmidt (1914-1979); tradução e prefácio de Mário Gomes.

Warner edita em CD, sob chancela Erato, Giacomo Meyerbeer [1791-1864]: Grand Opera por Diane Damrau, com Orchestre et Choeur de l’Opéra National de Lyon, sob a direcção de Emmanuel Villaume. IMAG.406

E-Primatur edita O Anel dos Löwenskölds de Selma Lagerlöf (1858-1940); tradução de João Reis. IMAG.203-204-267-319

Stolen Books edita As Aventuras de Qualquer Coisa de André Ruivo.  
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Cavalo de Ferro edita Uma Biblioteca da Literatura Universal de Hermann Hesse (1877-1962); tradução de Virgílio Tenreiro Viseu.
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VISTORiA

Como todos os homens, aquele era muito mais eloquente a pedir do que ao agradecer.
Prosper Mérimée
- La Double Méprise (1833 - excerto)
MEMÓRiA

17SET1850-1923 - Abílio de Guerra Junqueiro: Ficcionista e poeta português - «Quando a alma, ao termo de mil hesitações e desenganos, cravou as raízes para sempre num ideal de amor e de verdade, podem calcá-la e torturá-la, podem-na ferir e ensanguentar, que quanto mais a calcam, mais ela penetra no seio ardente que deseja». IMAG.82-90-252-291-307-347-352-425-554

15MAI1890-18SET1980 - Katherine Anne Porter: Escritora americana, ensaísta e ficcionista, autora de A Nave dos Loucos (1962) - «Deve haver uma espécie de ordem no universo, no movimento das estrelas, na rotação da Terra e na mudança das estações do ano, mas a vida humana é quase o puro caos». IMAG.572

1942-18SET1970 - Johnny Allen Hendrix, aliás James Marshall Hendrix, aliás Jimi Hendrix: Compositor, guitarrista e cantor americano - «Well I wait around the train station / Waitin’ for that train / Waitin’ for the train, yeah / Take me, yeah, from this lonesome place / Well now a whole lotta people put me down a lot ‘a changes / My girl had called me a disgrace» (Hear My Train a Comin’ - excerto). IMAG.2251-291-300-396-745

1788-21SET1860 - Arthur Schopenhauer: Filósofo alemão - «Todos os espíritos são invisíveis para os que os não possuem, e toda a avaliação é um produto do que é avaliado pela esfera cognitiva de quem avalia». IMAG.125-167-295-647

1803-23SET1870 - Prosper Mérimée: Escritor francês, historiador e arqueólogo - «Todas as grandes mentiras necessitam de um detalhe bem circunstanciado, de modo a que possam tornar-se credíveis». IMAG.291-436

23SET1920-2014 - Joseph Yule Jr, aliás Mickey McBan, aliás Mickey Rooney: Actor americano de cinema, teatro e televisão, distinguido com um Oscar especial em 1939, «por trazer para a tela o espírito e a personificação da juventude» - «Fui um rapaz de catorze anos durante três décadas». IMAG.508

23SET1930-2004 - Ray Charles Robinson, aliás Ray Charles: Pianista e cantor soul americano - «Nasci com a música dentro de mim, e tornou-se tão necessária como comer ou beber». IMAG.211-347-387-470
 
EXTRAORDINÁRiO

OS HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico

À TRIPA SOLTA, A COBRA É MOLE - 6
Ao mesmo tempo, o Catraio tentava envolver Esther num sórdido negócio de rameiras. Ela protestou, resistindo à socapa e escapando-lhe. O manhoso perseguiu-a, a conjecturar mesmo a propinação de um veneno. Parece que, prestes à vingança ter efeito, o dono da hospedaria onde Julião pousou e operava, desconfiando das suas intenções, havia comentado: «Vê lá o que fazes!». Ao que o Catraio lhe tornou: «Ora, que no degredo também se come pão...» Antes, porém, de ser preciso aquele que o diabo amassou, uma retaliação feminina consumava-se fulminante.
Continua  

terça-feira, maio 07, 2019

IMAGINÁRiO #770

José de Matos-Cruz | 08 Setembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

CONSPIRAÇÕES
Em 1997, Val Kilmer protagonizou o sortilégio ambíguo, furtivo de Simon Templar, aliás O Santo - uma realização de Philip Noyce. Os argumentistas Wesley Strick & Jonathan Hensleigh inspiram-se no romanesco literário de Leslie Charteris, e a rodagem decorreu nos Estúdios Pinewood, em Inglaterra. Com orçamento estimado em setenta milhões de dólares, os exteriores correspondem aos locais onde decorre a acção - em Londres e Oxford, além da Rússia, sobretudo em Moscovo e com destaque para a Praça Vermelha. Ali foi contratado Valery Nikolaev, para interpretar Ilya - filho do milionário Ivan Tretiak (o croata Rade Serbedzija), o qual ambiciona tornar-se líder do novo império russo. Demagógico e sem escrúpulos, Tretiak goza de influências ao mais alto nível. Além da imagem pública, e em total impunidade, tenta apoderar-se de amplos meios para atingir os seus desígnios. É o caso de uma revolucionária fórmula de combustível, descoberta pela bela cientista Emma Russell (Elisabeth Shue). Só que ela está também na mira de Simon Templar, um aventureiro insinuante e ousado… IMAG.174

CALENDÁRiO

17JAN-09MAR2019 - Em Lisboa, Galeria Quadrado Azul apresenta Mãos Negativas - exposição de escultura e pintura de Hugo Canoilas, Vasco Costa e Filipe Feijão. IMAG.721-760

19JAN-23FEV2019 - No Porto, Espaço Mira apresenta Escavar Um Buraco. Um Projecto Para Uma Exposição-Instalação de Paulo Mendes, sendo curadores José Maia e João Terras. IMAG.398

VISTORiA

A Um Cavalo

Vai, mísero Cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente;
não percas tempo, enquanto t’o consente
de magros cães faminto ajuntamento:

Esta sela, teu único ornamento,
para sinal de minha dor veemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inútil do inconstante vento:

Morre em paz; que em havendo algum dinheiro,
hei de mandar, em honra de teu nome,
abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui, piedoso entulho, os ossos come
do mais fiel, mais rápido sendeiro,
que fora eterno a não morrer de fome».
Nicolau Tolentino de Almeida

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão.

Que a vida só consome
o que a alimenta.
Ferreira Gullar

MEMÓRiA

10SET1740-1811 - Nicolau Tolentino de Almeida: Poeta português - «Vejo a Europa em armas; ouço o flagelo da guerra ao redor os confins da minha pátria; e parece-me que não desaprovaria esta sátira aquele ministro hábil que, debaixo da direcção dos seus soberanos, intenta manter uma paz profunda no meio dos fogos das nações armadas» (dedicatória de A Guerra ao Visconde de Vila Nova de Cerveira). IMAG.290-328

10SET1930-2016 - José Ribamar Ferreira, aliás Ferreira Gullar: Poeta brasileiro, crítico e ensaísta, distinguido com o Prémio Camões (2010) - «A arte existe porque a vida não basta». IMAG.334-458-653

11SET1910-1984 - Manuel Mujica Lainez: Escritor e jornalista argentino - «Sempre sonhei com um lugar assim, afastado e próximo, e os mosteiros sucessivos que povoaram os meus monólogos - o principal dos quais ficava em Córdoba, nas proximidades de Nono - foram apenas prenúncios do que, por fim, encontrei n’O Paraíso». IMAG.219-290-463

12SET1880-1956 - Henry Louis Mencken, aliás Henry Mencken: Jornalista e analista social americano - «O pior governo é o mais moral. Um governo composto de cínicos é frequentemente mais tolerante e humano. Mas, quando os fanáticos tomam o poder, não há limite para a opressão». IMAG.290-548-637

14SET1580-1645 - Francisco Gómez de Quevedo Villegas y Santibáñez Cevallos, aliás Francisco de Quevedo: Ficcionista e poeta espanhol - «Só quem ama com amor, é servido com fidelidade… São ténues os limites que separam a resignação da hipocrisia». IMAG.291-529

15SET1890-1976 - Agatha Mary Clarissa Christie, aliás Agatha Christie: Escritora britânica, criadora de Hercule Poirot e de Miss Marple - «Não me parece que a necessidade seja a mãe da invenção - em minha opinião, a necessidade deriva directamente do ócio, e provavelmente da preguiça. Para nos livrar de sarilhos». IMAG.66-125-173-180-228-290-546-577


1929-15SET1980 - William John Evans, aliás Bill Evans: Pianista americano de jazz - «Acredito que as coisas se processam graças a um trabalho duro. Sempre apreciei pessoas que se desenvolveram e evoluíram, sobretudo através da introspecção e de muita dedicação, de um modo muito profundo e belo». IMAG.433-719

ANUÁRiO

1490-1576 - Tiziano Vecellio, aliás Ticiano: Pintor veneziano, ligado ao Renascimento - «Os últimos quadros são elaborados com largas e ousadas pinceladas e manchas, de modo que, de perto, não se pode ver nada, enquanto a certa distância parecem perfeitos» (Giorgio Vassari - 1566). IMAG.154-576-634

VISTORiA

Durante tantos casos criminais em que actuámos juntos, a simetria foi sempre uma inclinação minha, lembra-se?
Talvez você tenha suspeitado da verdade. Talvez, ao ler-me neste momento, você sinta que já o soubera.
Por outro lado, creio que não. Você é demasiado confiante. Tem uma natureza demasiado pura…
Não acredito que um ser humano deva executar a Lei por suas próprias mãos… Mas, por outro lado, eu sou a Lei!
Agatha Christie
- Cai o Pano (excertos)

Recordo agora em que outra expressão desencantada a sua me faz pensar, em que outros olhos observei o mesmo modo de ver, mas não é a mesma coisa, é algo diferente e até oposto, embora deva referi-lo e descrevê-lo, pois não poderia levar tal comigo para além da morte. Parecia pueril, insignificante, mas não era. Se repararmos bem, perceberemos que não era. Tinha um tipo de crueldade irreflexiva, maquinal, uma crueldade predisposta a ser cruel.
Manuel Mujica Lainez
- A Casa (excerto)
BREVIÁRiO

Minotauro edita Paisagem Sem Barcos / Os Armários Vazios / O Seu Amor Por Etel de Maria Judite de Carvalho (1921-1988). IMAG.376-643-764

Assírio & Alvim edita Rente ao Dizer de Eugénio de Andrade (1923-2005); prefácio de Federico Bertolazzi.  
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EXTRAORDINÁRiO

OS HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico

À TRIPA SOLTA, A COBRA É MOLE - 5

Todavia, o Catraio preparara cominar toda a sua perfídia. Por essa altura, aproveitando os ricaços que em Benfica passavam a estação calmosa, tinha-se ele insinuado junto dos proprietários de char-à-bancs e americanos, incutindo-lhes a vantagem de estabelecer uma última carreira para Lisboa, nos dias da semana, às nove da noite, por isso que às oito horas, como actualmente, era muito cedo para tornarem.
Continua
 

quarta-feira, maio 01, 2019

IMAGINÁRiO #769

José de Matos-Cruz | 01 Setembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

EVOCAÇÕES
Um cruzamento privilegiado entre modos actuais de informação, meios consagrados de divulgação artística, e métodos didácticos de expressão convergem na História de Oliveira do Hospital - Povo Valoroso, Passado Heróico (2001). Álbum de José Garcês, lançado com o patrocínio da Região de Turismo da Serra da Estrela, por Âncora Editora - assim, concretizando outras propostas de revitalização, em incidências culturais, políticas, e em primordiais implicações comunitárias. A História de Oliveira do Hospital em banda desenhada principia Por Terras de Ulvária - nos tempos do Condado Portucalense, com a Condessa D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques; culminando sobre O Património Artístico e Religioso de Lourosa, sendo o desenvolvimento social a preocupação no início do Século XXI. A concessão do Foral formalizou-se em 1514, por El-Rei D. Manuel I; em 1810, o exército francês, sob o comando do General Massena, deixou um rasto de destruição; a elevação a Cidade ocorreu em 1993… Eis uma incidência aliciante, pela concepção de mestre José Garcês, atribuindo à figuração narrativa uma componente interactiva, da função pedagógica ao entretenimento.
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CALENDÁRiO

17JAN2019 - Take 2000 produziu, e estreia Os Dois Irmãos (2018) de Francisco Manso; com Flávio Hamilton e Manuel Estevão.
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17JAN2019 - Leopardo Filmes coproduziu, e estreia Selvagens / Sauvages (2018) de Dennis Berry; com Nadja Tereszkiewicz e Catarina Wallenstein.

17JAN2019 - NOS Audiovisuais estreia Tiro e Queda (2018) de Ramón de los Santos; com Eduardo Madeira e Manuel Marques.

17JAN-17MAR2019 - Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva apresenta, na Casa-Atelier, A Porta ao Lado É Aqui Que Eu Moro - exposição de pintura de Isabel Almeida Garrett.

18JAN-28FEV2019 - Em Odivelas, Centro Cultural Malaposta apresenta Olhares - exposição de fotografia de Serafim Tavares.

19JAN-31MAR2019 - Alfândega do Porto apresenta Banksy’s, Dismaland and Others - exposição de fotografia de Barry Cawston (GB). IMAG.515

24JAN2019 - Midas Filmes estreia Debaixo do Céu (2018) de Nicholas Oulman; coprodução de UkBar Filmes, com Anita Sanders e Helga Liné. IMAG.276-279-341

24JAN2019 - Cine-Clube de Avanca produziu, e estreia Uma Vida Sublime (2018) de Luís Diogo; com Eric da Silva e Susie Filipe. IMAG.510

24JAN-24MAR2019 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Memories of Futures Past - exposição de pintura de Andrew Hart Adler (EUA), sendo curadora Sofia Muller e Sousa. 
 
COMENTÁRiO

A primeira reacção de Fernando Pessoa em face do mundo, incluindo o eu que reflecte, é um sentimento de estranheza, um arrepio de espanto. Pessoa nega-se, com todas as forças do seu espírito, a aceitar um mundo tal como as suas percepções lho transmitem: é absurdo, não pode ser. Tomado da angústia de intuir o mistério, interroga para satisfazer de certeza uma razão exigente. Toda a sua obra exprime a interrogação ou as respostas possíveis para essa interrogação, ou a melancolia de saber que não há resposta.
Jacinto do Prado Coelho
- Diversidade e Unidade Em Fernando Pessoa (1951)

MEMÓRiA

1825-SET1880 - João Victor da Silva Brandão, aliás João Brandão, aliás o Terror das Beiras: Salteador português - «Na Beira contava-se de muitos assassínios, que ele praticara por perversidade; mas eram afirmações sem provas, e vinham de fontes suspeitas» (Bulhão Pato - 1890). IMAG.57

03SET1940-2015 - Eduardo Hughes Galeano, aliás Eduardo Galeano: Intelectual uruguaio, jornalista e escritor - «Não vale a pena vivermos para vencer… Vale, sim, a pena viver para seguirmos a nossa consciência». IMAG.564

01SET1920-1984 - Jacinto de Almeida do Prado Coelho, aliás Jacinto do Prado Coelho: Escritor português, investigador, crítico literário, professor universitário - «Ler colectivamente (em diálogo com a obra literária, em diálogo de leitor com outros leitores) é, com efeito, além de prazer estético, um modo apaixonante de conhecimento… Não há, suponho, disciplina mais formativa que a do ensino da literatura. Saber idiomático, experiência prática e vital, sensibilidade, gosto, capacidade de ver, fantasia, espírito crítico – a tudo isto faz apelo a obra literária, tudo isto o seu estudo mobiliza… A literatura não se faz para ensinar: é a reflexão sobre a literatura que nos ensina.» (Como Ensinar Literatura - Ao Contrário de Penélope - 1976). IMAG.187-352-467

1885-01SET1970 - François Charles Mauriac, aliás François Mauriac: Escritor francês, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1952) - «O desejo transforma o ser de quem nos aproximamos num monstro que não se parece com ele». IMAG.534-605

1844-02SET1910 - Henri Julien Félix Rousseau, aliás Henri Rousseau: Artista plástico francês - «Somos os maiores pintores do nosso tempo… Tu, ao modo egípcio; eu, ao estilo moderno» (Pablo Picasso). IMAG.14

03SET1930-2005 - Daciano Henrique Monteiro da Costa, aliás Daciano da Costa: Arquitecto português, pintor, designer e professor - «Acho que há tralha a mais no mundo». IMAG.63-447

03SET1930-2014 - Fernando Machado Soares: Compositor e poeta português, cantor da música de Coimbra, autor de A Balada da Despedida - «Deu um contributo importante na criação das condições da transição do fado clássico para as baladas e para as trovas que as vozes de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira vieram a imortalizar» (Portal do Fado). IMAG.547

1924-04SET2010 - Paul Francis Conrad, aliás Paul Conrad: Cartoonista americano, veterano de Los Angeles Times (1964-1993), três vezes distinguido com o Prémio Pulitzer (1964, 1971 e 1984), cujas ilustrações, motivadas por uma postura liberal, satirizavam os políticos e enfureciam os mais conservadores, com um estilo visual persistente e agressivo - «O seu trabalho é de efeito imediato, e pleno de emoção. Tratando-se de um pugilista, seria daqueles que não param de atacar o adversário» (Mike Keefe). IMAG.324-472

1926-06SET2010 - Clive Stanley Donner, aliás Clive Donner: Realizador britânico de cinema e televisão, iniciou carreira nos Pinewood Studios aos quinze anos, tendo dirigido O Que Há de Novo, Gatinha? / What's New Pussycat? (1965) - «Uma das coisas de que mais se orgulhava, era a sua influência na carreira de um número significativo de actores, como Alan Bates, David Hemmings e Ian McKellen» (Gavin Asher). IMAG.325-547

ANUÁRiO

1921-1990 - José Araújo de Medeiros, aliás José Medeiros: Fotógrafo brasileiro, de cariz documental e fotojornalista - «É um dos nossos mais brilhantes, modernos e inteligentes fotógrafos. Saltou por cima de sua geração de fotógrafos corretos e acadêmicos, inventando um estilo pessoal, cheio de poesia, inspiração e improvisação, criando uma estrutura técnica absolutamente livre de dogmas, perfeitamente adaptada às dificuldades reais do cinema brasileiro. Nesse sentido, ele é um precursor solitário, cujos ensinamentos vão fertilizar muito a fotografia do cinema brasileiro» (Cacá Diegues). IMAG.448-556

PARLATÓRiO

José Medeiros
Sob o olhar de Medeiros, a cidade se mostra como limiar histórico e geográfico entre dois mundos: a paisagem parece dar as costas para o interior do país, num anseio geral de modernidade e cosmopolitismo; ao mesmo tempo, estão sempre presentes as marcas da história brasileira profunda, de raiz colonial, e Medeiros não deixa nunca de capturá-las. É assim que Medeiros mergulha de forma intensa, mas também crítica, nesse Rio festivo e despreocupado. Pelas suas folhas de contacto desse período desfilam criaturas de sonho, transitando por coquetéis, à beira de piscinas, no Jockey Club ou nos bailes a fantasia.
Deixa-se fascinar pela vida noturna - mas a segregação social não lhe escapa nunca, mesmo quando ele fotografa cenas de alegria coletiva. Medeiros é capaz de ousadias raras para a época: não abandona o seu interesse pelo elemento popular, à margem da vida mundana e burguesa; regista a tristeza e a solidão de fim de Carnaval; dá ao travesti Juju o status de estrela cinematográfica; e não hesita no registo mordaz, quase satírico, da vida das elites sociais e políticas. Esse vaivém entre a elite e o povo, entre o moderno e o arcaico pode ser visto com especial nitidez na sua obra carioca, e é exatamente por ter captado essa ambivalência no coração da vida social que Medeiros merece um lugar de destaque na história da fotografia no Brasil.
Sergio Burgi e Élise Jasmin
BREVIÁRiO

Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema edita em DVD, A Revolução de Maio (1937) de António Lopes Ribeiro (1908-1995); com Maria Clara e António Martínez.  
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Relógio D’Água edita As Variedades da Experiência Religiosa de William James (1842-1910); tradução de Helena Briga Nogueira e Margarida Periquito. IMAG.768