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terça-feira, janeiro 10, 2017

Mário Soares e as bandeiras do PAIGC

Nada me dá mais prazer e estimula tanto -- a mim, que nunca fui soarista -- vir enaltecer o que Soares representou hoje, nas suas exéquias.
o 25 de Abril, no cravo vermelho que o filho, João Soares, trazia orgulhosamente à lapela;
a libertação dos povos africanos e, consequentemente, do povo português, carne para canhão dum regime criminoso, que Soares ajudou a derrubar, na presença dos presidentes de Cabo Verde e Guiné-Bissau;
o europeismo cosmopolita, com a evocação da cerimónia da adesão à CEE, no dia 12 de Junho de 1985 (por acaso, o dia dos meus 21 anos);
a atitude do PCP, que soube curvar-se perante a memória daquele que, corajosamente, defendeu comunistas e outros opositores nos tribunais plenários, diante dos homúnculos do regime;
a literatura, com a dicção impecável por Maria Barroso dum poeta do Novo Cancioneiro, Álvaro Feijó, morto muito jovem, creio que tuberculoso.
o beijo de Isabel Soares na bandeira nacional, que a leprosaria mental papagueia ter sido insultada por ele.
Ficou bem a Marcelo Rebelo de Sousa tentar ser pedagógico para com estes indigentes, mas eu prefiro a secura bruta de Ferro Rodrigues, ao referir-se-lhes como aquilo que são: fanáticos do ódio, que hoje tiveram de gramar mais uma manifestação de Abril. E foi bem feito.
E para ilustrar aquilo em que Soares foi grande, aqui vai mais uma foto, só para chatear: ele com Aristides Pereira, digníssimo sucessor do insigne Amílcar Cabral à frente do PAIGC, cujas insígnias marcaram comovidamente presença nas cerimónia fúnebres.

fonte

sábado, janeiro 07, 2017

sempre do lado certo da História - depoimento de um não-soarista

Quem ande por aqui saberá que nunca simpatizei com Soares. Sempre me pareceu um homem de corte e demasiado sensível à lisonja. Também nenhum político em Portugal, depois do 25 de Abril, foi tão adulado quanto ele, na política e no jornalismo, por essa categorial assaz desprezível de criaturas a que os brasileiros dão o bem apanhado nome de puxa-saco.
Voltando a Soares, com quem estive pessoalmente algumas vezes, a primeira das quais era eu um adolescente parecido com o homem de meia-idade que sou hoje. Soares candidatava-se de novo a governante, à frente do PS, e queria ouvir os jovens, Lá fui a Nafarros, com o meu amigo e colega do Liceu de S. João do Estoril Paulo Campos, que por essa altura já transpirava política por todos os poros, Éramos cerca de dez, e eu fui fazer o papel do extremista da esquerda (pelo menos foi assim que fui entendido por uma jornalista presente, sabe-se lá porquê...). Soares e Maria Barroso, impecáveis, de enorme afabilidade e bonomia. Podia falar também das restantes três ou quatro vezes em que o encontrei, já no meu âmbito profissional, mas não tem grande interesse. 
O que me importa escrever, neste dia da sua morte, é que Soares, nas grandes linhas que definem a acção dum político, esteve sempre do lado certo da História, desde a juventude:
1. - na segunda metade da década de quarenta, jovem comunista, contra Salazar no MUD Juvenil e na candidatura de Norton de Matos;
2, - na luta contra o colonialismo português -- criminoso, como todos os colonialismos -- liderando, de resto, o processo de descolonização. A extrema-direita e os ressentidos do costume, que o vituperaram por causa da descolonização a que ironicamente chamaram exemplar, não tiveram nem têm a honestidade intelectual e/ou os dedos de testa suficientes para analisarem o momento histórico particular, interna e externamente, que o país e as colónias atravessavam. Isto para dizer que ninguém, poderia ter feito melhor do que ele e outros fizeram;
3. - no enfrentamento do sovietismo 'comunista' da miséria moral, dos candidatos a apparatchiks ou a polícia ou bufo, que sempre os houve em todos os regimes, e também a uns tipos cheios de acne revolucionário, que quarenta anos depois não passam de -- usando a boa linguagem da época -- serventuários do capital;
4. . finalmente, e já não é pouco: a liderança no processo de adesão à CEE, fundamental para a nossa liberdade política (ameaçada pelos sovietizantes, e inevitáveis oportunistas e idiotas úteis), e também para recuperarmos do atraso que quarenta anos de salazarismo nos deixou, cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir na sociedade, com o seu baixíssimo nivel médio de instrução e sentido crítico, a começar pelas chamadas élites, políticas, académicas & outras.