Assustam-me os diferentes relatos que vão chegando de sociedades fundamentalistas e o desrespeito crescente pela figura feminina. É um regresso à barbárie com base numa estrutura obstinadamente patriarcal, dogmática e neurótica. Pergunto-me se as mulheres assim acabrunhadas reconhecem ainda que o domínio imposto advém vezes demais do medo e que, necessariamente, tem de haver um reconhecimento de que o sexo da força bruta é, a muitos - demasiados! - níveis o sexo menos evoluído. E, no entanto, até as bestas tiveram mães...
2019-05-20
2019-05-15
Dos absurdos em véspera de Europeias
Não concebo nem admito certos comentários racistas e xenófobos aos portugueses. Só se não conhecermos a História. Ou a tivermos deturpado para encaixar numa visão do mundo alucinada.
Que povo somos, afinal? Não fomos sempre um País em movimento para algum lado, migrantes de e para toda a parte?
Com fronteiras mais ou menos estáveis desde o século XII, ainda fomos malhar mais um bocadinho nos árabes que restavam para chegar a sul. Depois, fizemos ali umas guerrinhas na fronteira e raios, Olivença até é nossa. De seguida, vamos de ir ali até ao Norte de África. Não chega e continua-se por África fora e mais além. Brasil? Ena! Pouco importa que até já lá houvesse gente, que até se fez bom dinheiro com o tráfego esclavagista banhado a ouro. E as migrações continuaram, mesmo depois de já não haver nada para descobrir, desde os pés rapados oitocentistas que iam até ao Brasil fazer fortuna e regressavam depois para construir casas gigantes e comprar um título de Barão. Ou em África, que até se dizia portuguesa. Ou, depois, o Império já mais ou menos todo perdido, mandar os analfabetos e deserdados fazer pela vida na construção de França, da Alemanha, do Luxemburgo, do Canadá, dos EUA, da Venezuela, um pouco por todo o lado.
Agora, o povo que nunca respeitou fronteiras, ou credos, ou fosse o que fosse quando andava a fazer pela vidinha, não quer imigrantes, que não há que chegue para os "nossos", que a juventude vai embora que não tem trabalho e blá, blá, blá. E os tantos de portugueses que continuam a partir? Os licenciados que vão, os outros todos que continuaram a ir, não são migrantes, claro, porque são dos "nossos", coitadinhos, e até vão de avião.
Um País de emigrantes a acenar com a bandeira da xenofobia é um absurdo. E o pior é que é uma bandeira velha e de resultados já bastas vezes comprovados como funestos.
Depois, a História, apesar das suas fronteiras, não foi justa nos movimentos migratórios da riqueza, nem da sua distribuição. E não foi menos porque uns quantos de pobres saltaram fronteiras para lutar pela vida, mas antes porque um punhado de poderosos foi à terrinha dos outros fazer pela própria vidinha.
Num Mundo economicamente globalizado e financeiramente interdependente, fechar fronteiras migratórias já não resolve nada. É só meter a rolha a jusante e temo que, no fim, o dique acabe por rebentar bem mais acima. Mas, como sempre – e as crises anteriores assim o demonstraram – há sempre alvos fáceis para a retórica. Cá estão outra vez os imigrantes. Daqui a nada vamos fazer o quê? Arranjar umas janelas de cristal para partir numa única noite de folia e deixar que o ódio endémico, sem nada resolver, sirva apenas de escape para as amarguras várias, quase todas sem terem nada a ver realmente com a cor da pele, ou o credo, ou a nacionalidade, muito menos a fronteira?
E agora que resolvemos não ter filhos, vamos acabar como? Velhos, sem segurança social e sem ninguém que nos mude as fraldas 😕
2019-05-04
Meu menino!
Às vezes fico a olhar e penso que entregamos nos teus ombros, ainda tão pequeninos, todo o futuro que esperamos melhor. Meu menino, criado entre gente cansada, tardio e bem vindo! A ti entregamos a manhã, a tarde, a noite, a madrugada, a familia, a amizade, o cheiro da terra molhada dos nossos outonos e o verde de todas as primaveras, o sorriso e o choro, o direito de gritar, de rir, de crescer. E de ser feliz!
2019-04-20
Palavras
“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”
― Maya Angelou
2019-04-16
Dia da voz
Dedilho acordes de memórias banais. Não tenho história. Não tenho reino. O meu Universo é um tecto baixo e as estrelas vão fugindo. E, em dias assim, muito mais do em tantos dos anos em que tive diariamente a voz em fuga, estou muda.

