Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Costa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Costa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, abril 29, 2019

vozes da biblioteca

«Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Serajevo.» Álvaro Guerra, Café República (1984)

«Até hoje, e já lá vão muitos anos, nunca vi o mar, embora dele tenha ouvido contar muitas histórias, e, não sei porquê, parece-me que o conheço todo só por causa daquela fotografia.» Alves Redol, Fanga (1943)

«No seu entusiasmo, Lucinda inclinara-se, com o peito muito branco na abertura do roupão.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

na morte de João Bigotte Chorão

Ensaísta, crítico e também diarista, ao lermos a reunião dos seus ensaios em volumes como O Escritor e a Cidade, Galeria de Retratos ou O Espírito da Letra ou ainda sínteses modelares como O Essencial sobre Camilo Castelo Branco, verificamos que ele pertence àquele grupo de autores, que não é multidão, que tem a literatura como alimento espiritual (não exclusivo, é certo) e paixão, que a serve em vez de dela se servir. Era o maior camilianista vivo; e a escritores, como Carlos Malheiro Dias, João de Araújo Correia, Francisco Costa ou Tomás de Figueiredo, entre muitos outros, deu o brilho da sua inteligência e a elegância do seu estilo.
Entre nós, alguns encontros, após aquele primeiro em que, já não sei porquê, evocámos a função salvífica dos sonetos do Shakespeare na vida periclitante de Stefan -- herói do Bosque Proibido, do Mircea Eliade --, numa circunstância dramaticamente incerta.

sexta-feira, janeiro 18, 2019

vozes da biblioteca

«Julgas que é fácil ser-se mulher de um oficial da marinha que sonha com Índias e Vascos da Gama e que passa as noites a fazer as palavras cruzadas do jornal?» Luís de Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar (1968)

«Sim: logo que vencesse a pior barreira, não me faltariam tempo e inteligência para dar explicações aos que tinham moedas a mais no bolso e engenho a menos na cabeça.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«Toda a memória lhe vem das janelas em guilhotina da 1.ª Classe , para onde tantas vezes olhou em vão, na esperança de que viessem socorrê-la.» João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

segunda-feira, novembro 05, 2018

vozes da biblioteca

«Ainda que Maria Emília nunca o tenha entendido com clareza, foi aquele espelho que lhe abriu o destino.» Hélia Correia, O Número dos Vivos (1982)

«Na madrugada de Londres, numa noite de Janeiro de 1965, ao som opaco de tambores, ouvem-se passos lentos e cadenciados que vão tomando conta do murmúrio da imensa cidade adormecida.» António Cartaxo, Ao Sabor da Música (1996)

«No isolamento absoluto da noite, as matérias do curso costumavam entrar-me pelo espírito dentro, com uma fluidez e limpidez de água corrente.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

domingo, maio 06, 2018

«Os dois bicos  do candeeiro de gás fervilhavam inúteis, por cima da mesa; e ele, então, caiu sobre mim, a sacudir-me com fúria:» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

«O destoante casario campeava, porém, já fora da catedral e formava, com o seu largo abraço saindo-lhe discretamente dos flancos, uma como que cintura defensiva lançada à roda da venerável cabeceira do templo, onde resplendia ainda o diadema estilhaçado das capelas góticas.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919)

«Afeiçoara-se o velho à mansidão do neto infantil; vira-o crescer em seus braços com as branduras ameigadoras, como se a criança previsse o futuro desamor dos pais, e estivesse de contínuo a granjear a amizade do avô.» Camilo Castelo Branco, O Judeu (1866)

sábado, março 03, 2018

«A passagem do seio de família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«O homem cruzou a praça devagar, entrou no Café Atlântico e sacudiu as botas com cuidado no capacho de arame.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

«Nessa noite de Julho, ao regressar a casa, deve ter parado, atónito, no meio da rua deserta: embora passasse da meia-noite, havia, na janela da frente, um risco de luz vertical!» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949).

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

«Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam: -- Psiu! não sobes, ó catitinha? -- aos janotas que passavam.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

«De mansinho (estou a vê-lo!), abriu a porta da rua, subiu no escuro os três degraus da entrada onde o próprio mau cheiro lhe agradava, e apalpando à esquerda, meteu sem ruído a chave na fechadura.» Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949).

«Já lá vão quase cinquenta anos, tempo suficiente para que um lago se torne num pântano ou uma estrela distante e misteriosa se transforme num mundo corriqueiro, ambos possíveis por obra dos homens.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

segunda-feira, janeiro 29, 2018

quarta-feira, dezembro 23, 2015

a estupenda morena dos olhos envolventes

«Depois iria até ao jardim, sentar-me no banco do costume. Por volta do meio dia era natural que passasse a estupenda morena dos olhos envolventes... Ah, aqueles olhos não fitavam: absorviam! E que maravilha de curvas, desde o artelho até ao colo! Hoje havia de segui-la para saber quem era. Estudante, não pertencia decerto à classe dos impostores, que tanto se orgulham da sua ignorância como da sua estirpe. E no entanto, que "linha" no gesto e no andar! Nobreza natural: a verdadeira, a única!»

Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949) 

domingo, dezembro 14, 2014

económicas em 1949

«Era para aquilo que se tirava um curso quase tão comprido como o de Medicina! O máximo horizonte desses doutores em "partidas-dobradas" era afinal o postigo envidraçado de um reles banco da Baixa!»

Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

domingo, julho 06, 2014

água corrente

«O café que eu tomara perto da meia-noite fazia efeito fora de tempo. Que raiva, ter gasto a última vela! No isolamento absoluto da noite, as matérias do curso costumavam entrar-me pelo espírito dentro, com uma fluidez e limpidez de água corrente. Mas assim, sem luz, tinha apenas o recurso de ir repetindo, de memória, o que estudara antes de adormecer em cima do livro.»

Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

terça-feira, maio 20, 2014

o romance em 1930



Teresa Leitão de Barros (1898-1983), escritora e crítica literária do Notícias Ilustrado, quando se publicou A Selva (1930) escreveu, entre outras, duas coisas importantes, que o tempo, que é mauzinho, veio confirmar: a primeira é que, publicados os dois romances, este e Emigrantes, dois anos antes, Castro sobressaía como o grande romancista da sua geração: «Ferreira de Castro consagrou-se a si próprio, quando escreveu as mais admiráveis páginas dos seus últimos romances. Os seus personagens, que ficam bem de pé, bem erguidos perante a nossa mais incondicional admiração, esmagam e afugentam os fantoches de tanto romanceco que contribuiu para divinizar alguns autores de sorte. São colossos amesquinhando pigmeus.»
Na verdade, quem, de 1930, importa hoje? Só Castro e Aquilino, que era da geração anterior. Morto Raul Brandão, nesse preciso ano, Assis Esperança não resistiu ao tempo (pese embora o magnífico Servidão, de 1946). Da geração de Ferreira de Castro, Régio avançaria com o importante Jogo da Cabra Cega, em 1934, que então passou despercebido, como seria de esperar; Miguéis terá o modesto Páscoa Feliz em 1932, esperando ainda cerca duas décadas para voltar a publicar; Nemésio, com o modestíssimo Varanda de Pilatos (1927), só em 1944 virá com o assombroso Mau Tempo no Canal; João Gaspar Simões romancista menor, nem é deste campeonato (o interessante Elói, também de 1932, não ganha no confronto com a Cabra Cega regiana); e Francisco Costa e Tomás de Figueiredo só nos anos 40 começam a publicar romances. Para além do que pululava pelos jornais, no elogio mútuo ou interessado, só mesmo Aquilino e Castro hoje importam.
Acrescenta também Teresa Leitão de Barros no Notícias da Tarde, acertadamente, podemos dizê-lo agora, à distância de 83 anos: «Como obra literária integralmente bem realizada, "A Selva" pertencerá, um dia, à História onde se analisam os livros definitivos e grandes que neste século foram escritos em língua portuguesa.»
"Neste século", atrevia-se a crítica, ainda em 1930. Olhando para trás, verificamos que acertou na mouche, mesmo com todos os grandes textos romanescos, e foram felizmente alguns, que se imprimiram até ao ano 2000...

Teresa Leitão de Barros, «Um grande livro do século XX», apud Jaime Brasil, Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931.

foto: Maria Antónia Fiadeiro (org.), Mulheres Século XX -- 101 Livros, Lisboa, Câmara Municipal [2001]

sábado, maio 25, 2013

cárceres (demasiado) visíveis

Francisco Costa, que se situava ideologicamente numa direita católica e conservadora -- ou mesmo reaccionária --, foi um escritor silenciado no pós-25 de Abril, e hoje é um nome esquecido. É verdade que o seu militantismo religioso é um pouco indigesto para quem como eu considera a religião uma fraqueza e, na sua forma organizada e institucional, um abuso que impende sobre os homens livres e um jugo primitivo sobre todos os outros (independentemente de considerar que o exercício da fé é um direito que assiste a todo o indivíduo, devendo essa liberdade ser respeitada desde que não colida com a liberdade dos ateus, dos agnósticos e até, obviamente, dos que não partilham a crença dominante nas respectivas sociedades). 
Mas, apesar do seu proselitismo, Francisco Costa é um romancista de mão cheia -- tal como foi um interessante poeta e ensaísta e um operoso historiador da sua Sintra natal. Jorge de Sena, que não facilitava, classifica-o como «notável romancista católico», embora Costa preferisse considerar-se um católico que escrevia romances, pormenor importante.
Este Cárcere Invisível (1949), Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências, testemunha a grande técnica romanesca do seu autor, muito bebida, de resto e ao contrário da tradição, na literatura anglo-saxónica, da qual era confesso admirador. Para já, ambiente muito pequeno-burguês lisboeta, protagonista (Eduardo Bandeira Bastos, 17 anos, estudante de Medicina), um pouco obcecado pelo valor individual servido por uma inteligência acima da média que contrapõe aos bem-nascidos das suas relações na academia: «nobreza natural: a verdadeira, a única!» Pai, «principal» empregado numa loja do comércio, baço como o são as materialidades; mãe doméstica e autoritária; irmã, Lu (de Lucinda), por enquanto a parvinha romântica e deslumbrada do costume (lê folhetins, na cabeceira Coração Torturado); Dudu, o protagonista, lê Gorki, que pousa no banco do jardim público «com desafio»...
Na dedicatória, Francisco Costa refere-se a «este drama duma vida sem Cristo», e o cárcere, como se irá depreender, é o materialismo, em especial marxista, então na mó de cima (e, felizmente, ainda não recuperado no seu pensamento totalitário do caixote do lixo para onde os povos que lhe sofreram o jugo o atiraram).  Numa nótula prévia, Costa deixa entrever o fascínio que sobre si exerceu a sua criatura, "esse médico invulgar que se fechou por suas mãos". Esta contenda entre criador e criatura, entre outros méritos do romance, aguça o interesse pela leitura -- até para saber quem levará a melhor e, principalmente, como levará a melhor...  

domingo, novembro 06, 2005

Antologia Improvável #71 - Francisco Costa (2)

CRISTO NA RUA

Todos os dias bate à minha porta
e aceita a esmola que lhe dou, que é nada!
E lá se vai, rojando na calçada
o passo vacilante, a sombra torta.

É a miséria mesma que o conforta.
Com o sol a prumo ou a chuva regelada,
mendiga sempre, palmilhando a estrada,
vergado ao peso da existência morta.

Hoje, aquecia as minhas mãos ao lume
quando ele veio, como de costume,
fitar em mim o seu olhar vazio.

E ao dar-lhe a esmola que ele não reclama,
mais uma vez senti a face em chama
e as labaredas me fizeram frio.

Última Colheita

domingo, abril 03, 2005

Antologia Improvável - Francisco Costa

INTANGÍVEL


«Nuvem, sonho impalpável do desejo»
ANTERO.


Essa que eu amo e beijo e não existe,
embora exista em mim que a beijo e amo,
nunca há-de vir um dia em que eu a aviste,
nunca a voz hei-de ouvir-lhe quando a chamo.

Mas não me fugirá. Por mais que diste
quando eu a sua ausência já proclamo,
assim que me percebe fraco e triste
volta, e eu volto a sentir-me escravo e amo.

Sei que é uma visão, sei que a componho
eu mesmo, à semelhança do meu sonho,
dando-lhe a luz fictícia que ela emite.

Mas se à minha alma pode enfim bastar
essa alma ideal, -- o meu sedento olhar,
esse procura um corpo onde ela habite.

Verbo Austero