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segunda-feira, maio 13, 2019

vozes da biblioteca

«A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Súbito uma revoada de vozes escapou-se em surdina do âmago da igreja e derramou pelos claustros o clamor inquietante duma dolência arrastada.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

quarta-feira, abril 03, 2019

vozes da biblioteca

«Chorava em fonte, e as suas lágrimas punham no fogo rijo das duas horas um doce refrigério de orvalhada.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«O Diogo combinara tudo com o mestre-negreiro, dera-lhe uma pepita de ouro, a única que possuía, toda a sua fortuna, escreveu-me, não suportava o Brasil sem mim, eu acreditei e senti-me agradecida, era o dinheiro do nosso futuro que ele jogava fora para me ter consigo, foi isso que fez que eu lhe perdoasse a Briolanja.» Miguel Real, Memórias de Branca Dias (2003)

quinta-feira, janeiro 03, 2019

vozes da biblioteca

«Ao tempo da sua partida, quando os pais o foram despedir a bordo da galera América, ele era um minhoto atarracado, de largos ombros, biceps de atleta, tórax saliente, e o pescoço curto e grosso, como o dos valentes bois do Barroso.» Luís de Magalhães, O Brasileiro Soares (1886)

«E, pelos rasgões do chambre, um seio branco, rechonchudo, com mais vergonha que se o Padre Santo António lhe publicasse os segredos, mostrava o mamilo, tão rubro, tão jucundo como o morango primeiro que pinta no morangal.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Não mais o frio das noites frias, a esteira, no chão, a fazer de cama para ela e para os irmãos, "cobertas de farrapos" a cobrirem-nos, por mantas quentes os jornais que a mãe estendia entre coberta e coberta: dispunha, agora e para sempre, de um leito nupcial, de príncipes, almofadas e almofadões a adornarem-no.» Assis Esperança, Servidão (1946)

terça-feira, novembro 27, 2018

vozes da biblioteca

«Abriu muito os olhos o abade e só então se apercebeu duma mocinha -- corpo que acaba de espigar na adolescência -- que às mãos ambas cobria o rosto e soluçava.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«No espaço quadrangular, entre o claustro e a ábside, tinham talhado, num período recente de desobstruções, um adorável jardim com os clássicos arruamentos de buxo enquadrando modestos canteiros de rosas e gerânios.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1919)

«Residências a caírem de velhas ou de mal-construídas, rebocos a cobrirem-lhes as fendas e rugas, as suas janelículas, a metros do solo, ostentam-lhes a presunção de inexpugnáveis.» Assis Esperança, Pão Incerto (1964)

terça-feira, outubro 30, 2018

voze das biblioteca

«Era uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com lingüiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas.» Jorge AmadoO Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976)

«O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando forrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes.» Aquilino Ribeiro, do prefácio à 2.ª edição [1944] de Volfrâmio (1943)

«Se espraiávamos os olhos em redor, para cima, para baixo, para a direita e para a esquerda, tudo era branco e tudo nos dava uma sensação de soledade imensa.» Ferreira de CastroCanções da Córsega (1936)

sexta-feira, setembro 28, 2018

«A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas, além de que trescalava ao fartum da carneirada, pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã, e berrou-lhe em tom de enxota-cães:» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1943)

«E agora que os anos confundem a ordem e o rigor das emoções dessa viagem para Lisboa, o difícil é reconstituir os nomes, o perfil, a sombra dessas formas escuras, que eram os barcos de então.» João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

«O apito do navio era como um lamento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade.» Jorge Amado, Terras do Sem Fim (1943)

terça-feira, abril 24, 2018

«Alheios ao mundo em redor, não se transmitiam confidências mas partilhavam da mesma apreensão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Mas não tardou que argoladas fortes soassem à porta e Jesuíno, em tamancos, as calças presas no abdómen por um negalho, camisa de estopa deixando espreitar pelos bofes a pelúcia de cerdo à mistura com o alcobaça vermelho, cigarro nos beiços, toda a sua pachorra eclesiástica mais rabugenta que cão dormido, foi ver.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) 

«Contudo, certo é que não há momento mais sério, mais grave que aquele em que prestamos contas ao Criador das coisas, daquilo que foram os nossos passos nesta vida breve deste breve mundo.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990) 

quarta-feira, março 07, 2018

«E Bernardo riu-se, cheio duma ironia afável e quase distraída; tirou do nariz as lunetas, muito maquinal, colocou-as de novo, ajustando as molas de ouro nos vincos que pareciam o sinal de unhadas, e, com um piscar precipitado como quem bruscamente transita da obscuridade para a luz, disse ainda -- «Ab imo, da terra...», pois ele considerava a cultura como um privilégio pessoal, e nunca perdia a oportunidade de se mostrar generoso, transmitindo-a.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)

«Minha mãe fez-me um almoço de pão de milho e azeitonas, meteu-me tudo num cesto que enfiei no braço e, enquanto o meu pai aparelhava a burrita, dei uma corrida a casa da avó Caixinha para me mostrar.» Alves Redol, Fanga (1943)

«Pela talisga da porta, que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta, a cabeçorra de medusa avançava, retraía-se, tornava a avançar, com tal manejo traindo a sua agitada hesitação.» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1943)

domingo, fevereiro 25, 2018

«Contaram-me que numa tarde de domingo, daquelas em que meu avô, seu criado e maioral das éguas, vinha aviar o alforge para quinze dias de Lezíria, o patrão Diogo nos viu juntos e se dignou, sem nojo, concretizar uma carícia nos cabelos encaracolados da minha cabeça de menino pobre.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)

«Mas não tardou que argoladas fortes soassem à porta e Jesuíno, em tamancos, as calças presas no abdómen por um negalho, camisa de estopa deixando espreitar pelos bofes a pelúcia de cerdo à mistura com o alcobaça vermelho, cigarro nos beiços, toda a sua pachorra eclesiástica que cão dormido, foi ver.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Logo a seguir à revolução, em Abril do ano anterior, civis barbudos e soldados de cabelo comprido e camuflado em tiras vigiavam as estradas, revistavam automóveis, ou desfilavam lá em baixo, em bando, nas pracetas, comandados por um desses microfones incompreensíveis de sorteio de cegos que o marxismo-leninismo-maoismo reciclara.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

por puro prazer de ler, ouvir e cotejar

«Não seria fiar demasiado na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há-de fazer dó.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«Tarde de infinita benignidade -- era nas vésperas de Nossa Senhora de Maio, quando ela de andor ao céu aberto avista tudo verde em redondo -- ali apetecia gozá-la com cristianíssimo ripanço ao passo moroso da digestão.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Seguiam sem pressa, um pouco vergados pelas próprias figuras, olhando mais o piso da estrada do que os amplos horizontes à sua volta.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953)

«Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia na lezíria.» José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)


sábado, março 05, 2016

Para um Dicionário de Ferreira de Catro: G de «Guia de Portugal»

Obra criada e coordenada por Raul Proença e, após a sua morte, Sant'Ana Dionísio. Trata-se do mais monumental e brilhante esforço de compilação do património cultural e natural português, para usofruto dos cidadãos e consequente salvaguarda, nele colaborarando os nomes da cultura portuguesa do tempo. Ferreira de Castro, neste terceiro volume, sobre a Beira Litoral (1945), com «De Oliveira de Azeméis a Vale de Cambra», de boa utilidade os castrianos.
Ainda em vida de Proença, falecido em 1940, Castro, foi um dos fiadores literários da obra, com Afonso Lopes Vieira, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Raul Lino, Reinaldo dos Santos, Samuel Maia e Sant'Ana Dionísio.

[ a desenvolver]

Bib.: Ricardo António Alves, «Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal»,Castriana #2, Ossela, 2004.

domingo, dezembro 20, 2015

o voo do pinhão, segundo Aquilino

«Precipitado de tão alto do pinheiro solitário, balançou-se num instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fòlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que a pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhar no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse.»

A Casa Grande de Romarigães (1957)

terça-feira, outubro 20, 2015

Dez livros que não poderiam nunca faltar na minha lista dos melhores romances escritos em língua portuguesa

Via Ler-te, descobri esta lista, e participei na inquirição sobre Os Melhores Romances Escritos em língua Portuguesa., como de costume sem ler as regras até ao fim... Por isso, a minha ordenação foi cronológica e não por ordem de preferência, como é pedido (acho que nem conseguiria fazê-lo). Também me impus não escolher mais do que um título do mesmo autor nem mencionar escritores vivos. Finalmente, prefiro chamar a esta minha lista «Dez livros que não poderiam nunca faltar na minha lista dos melhores romances escritos em língua portuguesa», uma vez que ninguém poderá jamais determinar quais são os melhores romances (ou sinfonias, ou telas, ou o que seja). em Arte não há melhor: há bom e mau; obra conseguida ou falhada. O resto são opiniões.
E então ela aí vai:

1. Os Maias (1888), de Eça de Queirós
2. Andam Faunos pelos Bosques (1926), de Aquilino Ribeiro
3. A Selva (1930), de Ferreira de Castro
4. Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio
5. Servidão (1946), de Assis Esperança
6. Gabriela, Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado
7. Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol
8. O Signo da Ira (1961), de Orlando da Costa
9. Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena
10. Para Sempre (1983), de Vergílio Ferreira

É claro que das Viagens na Minha Terra (1846)m de Almeida Garrett, até a as Primeiras Coisas (2014), de Bruno Vieira Amaral, muitos poderiam figurar nesta lista -- só que não poderiam ser dez.
Agora, caros amigos, toca a participar (têm até ao fim do ano, não se atrasem).

sábado, fevereiro 28, 2015

um doce refrigério

«Chorava em fonte, e as suas lágrimas punham no fogo rijo das duas horas um doce refrigério de orvalhada.»

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

segunda-feira, novembro 17, 2014

tão rubro, tão jucundo

«E pelos rasgões do chambre, um seio branco, rechonchudo, com mais vergonha que se o próprio Santo António lhe publicasse os segredos, mostrava o mamilo, tão rubro, tão jucundo como o morango primeiro que pinta no morangal.»

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

quinta-feira, outubro 16, 2014

em cristianíssimo ripanço

«Tarde de infinita benignidade -- era nas vésperas de Nossa Senhora de Maio, quando ela de andor ao céu aberto avista tudo verde em redondo -- ali apetecia gozá-la com cristianíssimo ripanço ao passo moroso da digestão.»

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1922)

quinta-feira, julho 03, 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen no Panteão

O Panteão Nacional, que já se engrandecera como nunca antes com a deposição nele dos restos mortais de Aquilino Ribeiro,  ganhou uma aura, digamos, etérea. A literatura de Sophia de Mello Breyner Andresen, prosa e poesia, é elevada, porque absorve e reflecte o real sem cair em panfletarismo ou solipsismo; é magnífica prosa porque vai ao cerne e tem uma dimensão metafísica sem cedências.

terça-feira, junho 17, 2014

A LÃ E A NEVE


O fio da narrativa expõe-se numa penada: Horácio pastor de Manteigas, abrira os olhos para outras realidades que não a vida elementar que transcorria entre as faldas da Estrela e os redis nas aldeias, na sequência do serviço militar cumprido nos arredores de Lisboa, mais precisamente em Cascais. Decide, então, adiar o casamento com Idalina, previsto para ser celebrado após a tropa -- e mudar de vida. Quer tornar-se operário têxtil, ali mesmo, em Manteigas, ou na Covilhã, centro mais importante, única possibilidade que vê para fugir à pobreza que confina aquelas existências.
Após percalços vários, que tornam a narrativa coerente, segue-se a entrada num mundo diferente, em que a consciência de pertença a uma classe socialmente bem delimitada, o proletariado, irá mudar, paulatina mas radicalmente, a forma como o protagonista se vê a si próprio no mundo.
Publicado em 1947, A Lã e a Neve levanta múltiplas questões no âmbito histórico-cultural, das quais só enumero algumas, e brevemente.
1. A circunstância de A Lã e a Neve ser um romance neo-realista heterodoxo: Ferreira de Castro, visceralmente libertário, anarquista por formação, convicção e coração, não acolhe a doutrinação canónica marxista-leninista, largamente teorizada a partir de meados da década de 1930. A vanguarda da classe operária aqui não tem ligações ao Partido [Comunista Português]; antes é protagonizada por  abencerragens do sindicalismo anarquista e revolucionário que caracterizou o movimento proletário organizado durante a I República: o "Marreta" -- esperantista e vegetariano -- e os que lhe estão próximos.
2. Apesar de referenciado como livro subversivoA Lã e a Neve é um romance fortemente político, de oposição, que não foi apreendido nem o seu autor ao que se saiba incomodado. Já por várias vezes me referi à particular circunstância política de 1947, de suavização da ditadura em face da vitória aliada na II Guerra Mundial. Por outro lado, o reconhecimento grande que Castro tinha no estrangeiro, muito em especial em França, terá sido, de certo modo dissuasor de medidas repressivas, dado o contorno de escândalo de que se revestiria. Finalmente, e escrevo isto pela primeira vez, não posso deixar de especular (embora a pertinência deste alvitre esteja por demonstrar), o caso curioso de a editora de Ferreira de Castro, a filha de Delfim Guimarães, Maria Leonor da Cunha Leão, ser casada com Francisco da Cunha Leão, um intelectual conotado com o regime e seu funcionário superior.
3. Deixando a história político-cultural, sublinho os recursos estilísticos do escritor, as suas poderosas descrições e a mestria ficcional, que confirmam as dos romances anteriores, e de que o episódio da tempestade de neve será, possivelmente, uma das mais extraordinárias aflorações em todo o romance. Acresce a espesssura psicológica das personagens -- também sem surpresa para quanto já estavam familiarizados com os seus romances.

Poderia soltar mais uns milhares de caracteres a propósito deste livro. Para não abusar, direi apenas que um romance como A Lã e a Neve pertence à categoria daquelas obras de arte que nos definem como cultura e civilização, como portugueses; e que Ferreira de Castro é membro, um dos mais brilhantes e representativos, daquela família de escritores que tem no seio espíritos como os de Júlio Dinis e Eça de Queirós até Alves Redol, Manuel da Fonseca ou José Saramago, passando por Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.

quarta-feira, junho 04, 2014

do dispensável

Tinha alguma expectativa em relação a este livro. Nunca lera nada do autor -- à parte alguns artigos ou contos dispersos --, é talvez o único título seu que não caiu em esquecimento completo, mercê do Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências que lhe foi atribuído em 1939, ano da edição. Andava com ele  há anos na cabeça: Aldeia das Águias, título sugestivo, evocando com a literalidade que nome e capa impunham -- e que veio a verificar-se --, uma narrativa situada numa área semi-isolada, em faldas e escarpas duma província nortenha.
À medida que ia avançando, a desilusão era crescente. Uma oposição cidade-campo já então com barbas, Júlio Dinis entrado pelo século XX adentro, sem o talento, o humor e a mestria do autor d'A Morgadinha dos Canaviais. As personagens são esquemáticas, previsíveis quase caricaturas: irmão mau e irmão bom -- um, velhaco, vaidoso, desprezível, quase psicopata; honrado, generoso e abnegado, o outro; um amigo de infância do primeiro, de estrato social muito abaixo, personagem sacrificial da narrativa, quase um santo, mais do que a criada desonrada pelo "menino", que arrostou com a fúria paterna, vindo, obviamente, mais tarde a ser redimida pelo irmão bom... As cenas de cidade -- Porto -- são pobres e a linguagem é confrangedora e insuportavelmente banal e magazinesca.
Há algumas boas páginas -- melhor fora --, em especial as que são centradas na aldeia de Sedielos (Régua), terra-natal do autor: o quadro de caça às águias, predadoras dos rebanhos, que ciclicamente a aldeia em peso promove, é do melhor que o livro tem. E nem falta o maluquinho de aldeia, o Taranta, a dar a tonalidade trágica de acento camiliano, que narrativas deste género exigiam.
Poderia ser um bom romance em mãos de mestre. Mesmo que em 1939, Ferreira de Castro e José Régio, cada um a seu modo, houvessem já transformado o romance português -- este com o Jogo da Cabra Cega (1934); aquele, a partir de Emigrantes (1928) -- não se seguia forçosamente que um romance mais académico tivesse  de ser por força dispensável (quem desdenha, por exemplo de Rachmaninov por antes dele ter havido Schönberg ou Debussy ou Stravinski? Só um pateta); nem seria preciso que o autor tentasse equiparar-se a Aquilino Ribeiro -- de quem está a anos-luz. Bastaria não ter sido tão acomodatício, previsível, superficial; ou, estilisticamente, afastar-se da vulgaridade da escrita postiça, no seu dar-se ares modernaços, para que pudesse ser algo que se lesse a contento, 75 anos depois. Mas não, já era irrelevante quando saiu dos prelos. 

terça-feira, maio 20, 2014

o romance em 1930



Teresa Leitão de Barros (1898-1983), escritora e crítica literária do Notícias Ilustrado, quando se publicou A Selva (1930) escreveu, entre outras, duas coisas importantes, que o tempo, que é mauzinho, veio confirmar: a primeira é que, publicados os dois romances, este e Emigrantes, dois anos antes, Castro sobressaía como o grande romancista da sua geração: «Ferreira de Castro consagrou-se a si próprio, quando escreveu as mais admiráveis páginas dos seus últimos romances. Os seus personagens, que ficam bem de pé, bem erguidos perante a nossa mais incondicional admiração, esmagam e afugentam os fantoches de tanto romanceco que contribuiu para divinizar alguns autores de sorte. São colossos amesquinhando pigmeus.»
Na verdade, quem, de 1930, importa hoje? Só Castro e Aquilino, que era da geração anterior. Morto Raul Brandão, nesse preciso ano, Assis Esperança não resistiu ao tempo (pese embora o magnífico Servidão, de 1946). Da geração de Ferreira de Castro, Régio avançaria com o importante Jogo da Cabra Cega, em 1934, que então passou despercebido, como seria de esperar; Miguéis terá o modesto Páscoa Feliz em 1932, esperando ainda cerca duas décadas para voltar a publicar; Nemésio, com o modestíssimo Varanda de Pilatos (1927), só em 1944 virá com o assombroso Mau Tempo no Canal; João Gaspar Simões romancista menor, nem é deste campeonato (o interessante Elói, também de 1932, não ganha no confronto com a Cabra Cega regiana); e Francisco Costa e Tomás de Figueiredo só nos anos 40 começam a publicar romances. Para além do que pululava pelos jornais, no elogio mútuo ou interessado, só mesmo Aquilino e Castro hoje importam.
Acrescenta também Teresa Leitão de Barros no Notícias da Tarde, acertadamente, podemos dizê-lo agora, à distância de 83 anos: «Como obra literária integralmente bem realizada, "A Selva" pertencerá, um dia, à História onde se analisam os livros definitivos e grandes que neste século foram escritos em língua portuguesa.»
"Neste século", atrevia-se a crítica, ainda em 1930. Olhando para trás, verificamos que acertou na mouche, mesmo com todos os grandes textos romanescos, e foram felizmente alguns, que se imprimiram até ao ano 2000...

Teresa Leitão de Barros, «Um grande livro do século XX», apud Jaime Brasil, Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931.

foto: Maria Antónia Fiadeiro (org.), Mulheres Século XX -- 101 Livros, Lisboa, Câmara Municipal [2001]