sábado, 4 de maio de 2019

RETROSPETIVA: «FLASH GORDON»



  Ao som da eletrizante banda sonora dos Queen, o herói interplanetário imaginado por Alex Raymond voltou a salvar o Universo, mas não o próprio filme. Uma extravagante ópera espacial a meio caminho entre o ridículo e o sublime que continua a ser reverenciada por muitos cinéfilos.

Titulo original: Flash Gordon 
Ano: 1980
País: EUA/ Reino Unido
Duração: 111 minutos
Género: Ficção Científica / Aventura / Super-heróis
Produção: Dino De Laurentiis Company
Realização: Mike Hodges 
Argumento: Lorenzo Sample Jr. e Michael Allin 
Distribuição: Universal Pictures 
Elenco: Sam J. Jones (Flash Gordon), Melody Anderson (Dale Arden), Max Von Sydow (Imperador Ming), Topol (Hans Zarkov), Ornella Muti (Princesa Aura), Timothy Dalton (Príncipe Barin), Brian Blessed (Príncipe Vultan), Peter Wyngarde (Klytus) e Mariangela Melato (Kala)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas: 27, 2 milhões de dólares (valor referente apenas ao mercado doméstico)

No reino do improviso

Por certo um dos mais caros improvisos da história da 7ª Arte, à primeira vista Flash Gordon tinha tudo para ser um sucesso. Ao orçamento milionário somava-se um elenco estelar, um realizador consagrado e uma das mais icónicas bandas sonoras de sempre. Apesar de tudo isso, o filme naufragou nas bilheteiras, sendo ainda hoje apontado como exemplo de trash movie. O que correu mal, afinal? Como foi possível uma promissora ópera espacial descambar numa espalhafatosa marcha dos desalinhados?
Revisitar os segredos de bastidores de Flash Gordon equivale a elencar os capítulos de um desastre anunciado. Difícil é perceber o exato momento em que o projeto descarrilou e entrou numa roda viva.
Para melhor percebermos o que se passou, temos de começar por retroceder no tempo; mais precisamente até meio da década de 1970. Quando George Lucas, então um jovem e desconhecido cineasta que crescera a ler as histórias de Flash Gordon, procurou obter os direitos da personagem junto do produtor italiano Dino De Laurentiis. Adaptar o seu ídolo de infância ao grande ecrã era um sonho antigo de George Lucas. Face à recusa de De Laurentiis, o realizador decidiu criar (com os resultados sobejamente conhecidos) a sua própria saga espacial. O sucesso retumbante de Star Wars seria, de resto, o mote para o lançamento de Flash Gordon. E, como mais adiante se perceberá, uma das causas do seu fracasso.
Com a revitalização do género ficção científica em curso, De Laurentiis percebeu que a conjuntura seria propícia ao regresso de Flash Gordon ao grande ecrã, após uma longa ausência de quase 30 anos. Frederico Fellini, seu compatriota, foi o primeiro realizador escolhido para capitanear o projeto. Apesar do cineasta italiano ter adquirido os direitos da personagem, acabaria, inexplicavelmente, por nunca fazer o filme. Fellini seria, ainda assim, homenageado no filme ao emprestar o seu nome à mascote felina da Princesa Aura.

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Falecido em 2010, Dino De Laurentiis
 produziu em vida mais de 250 filmes, 

entre eles Barbarella (1968).
De Laurentiis não esmoreceu e escolheu então o britânico Nicolas Roeg para escrever e dirigir a almejada longa-metragem baseada no aventureiro interplanetário imaginado por Alex Raymond (perfil disponível neste blogue). Roeg realizara em 1976 The Man Who Fell to Earth, obra cultuada pelos fãs de ficção científica. Prefigurando-se, portanto, como o homem certo para a função. Algo que o tempo (e De Laurentiis) se encarregariam de desmentir.
Após um ano de isolamento autoimposto ( período em que leu todo o material relacionado com Flash Gordon a que conseguiu deitar a mão), Roeg apresentou a sua proposta de argumento a De Laurentiis. Este não ficou, porém, nada impressionado com o que leu e vetou-a sem apelo nem agravo. Ao que parece, a abordagem de Roeg não primava pela fidelidade às histórias canónicas. O próprio reconheceria mais tarde ter feito uma arrojada reinterpretação do conceito original, infundindo-o de elementos metafísicos, como apresentar Flash Gordon como uma espécie de messias simbólico.
Precavendo novas divergências criativas - e já após a inevitável demissão de Roeg -, De Laurentiis contratou Mentor Hubner para desenhar os storyboards que serviriam de suporte gráfico à produção. Emulando a sofisticada estética das tiras originais, as ilustrações de Hubner invocavam amiúde painéis de banda desenhada.
Em paralelo, Sam Peebles, autor de um dos mais emblemáticos episódios de Star Trek, escrevia uma nova versão do enredo. A qual nunca viria a ser conhecida, já que, por razões que a própria razão desconhece, De Laurentiis dispensou os serviços de Peebles e contratou Lorenzo Sample Jr., seu habitual colaborador com quem havia trabalhado recentemente no remake de King Kong. Sample fora também argumentista e produtor-executivo da série televisiva de Batman com Adam West, celebrizada pelos seus elementos kitsch.
A diretiva de De Laurentiis era clara: ele queria que o filme fosse divertido e fiel ao material original. O problema é que, no seu entendimento, isso significava ser necessariamente engraçado, algo que Flash Gordon nunca foi.
De Laurentiis prosseguia entretanto a sua demanda por um realizador. Após ter recebido uma "nega" de outro seu patrício, Sergio Leone, a sua escolha recairia sobre Mike Hodges. Nascido em terras de Sua Majestade, Hodges alcançara a consagração ao dirigir Get Carter, em 1971.

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Mike Hodges foi o 8º realizador cogitado
 para dirigir Flash Gordon.
Com o projeto em marcha avançada, seguiu-se a escolha do elenco. Kurt Russell era o preferido de De Laurentiis para interpretar Flash Gordon. Por considerar a personagem unidimensional, o ator recusou, no entanto, o papel. Já Arnold Schwarzenegger seria descartado devido ao seu denso sotaque austríaco. Abrindo dessa forma caminho a um protagonista improvável.
Um ilustre desconhecido praticamente sem experiência de representação, Sam J. Jones foi o eleito para assumir o papel que pertencera no passado a Buster Crabbe e Steve Holland. Ao que consta, Jones chamara a atenção da madrasta de De Laurentiis ao participar num episódio de The Dating Game, programa televisivo que, nos anos 60 e 70, promovia encontros às cegas, e que, entre outros, retirou do anonimato Tom Selleck e Farrah Fawcett. Mais habituado a posar para revistas como a Playgirl, o currículo de ator de Sam Jones resumia-se a uma pequena participação em 10, filme erótico em que contracenara com Bo Derek.

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Sam Jones numa produção fotográfica para a Playgirl.
Outra das escolhas pessoais de De Laurentiis, Melody Anderson relutou em aceitar o papel de Dale Anderson. A exemplo de Kurt Russel, a atriz considerava a sua personagem demasiado monótona. Se o apolíneo Flash Gordon era um arquétipo varonil, de Dale Arden esperava-se que fosse a típica rapariga da porta ao lado. Graças à insistência de De Laurentiis, Melody Anderson acabaria mesmo por aceitar aquele que, ironicamente, seria o papel mais importante da sua medíocre carreira.
Quem aceitou de bom grado interpretar o crudelíssimo Imperador Ming foi Max Von Sydow, admirador incondicional de Flash Gordon desde os seus verdes anos. A sua prestação dramática destoaria aliás num filme  em que vários dos seus colegas pareciam atuar em piloto automático (ou não saber, de todo, representar).
Entre os inúmeros estorvos nocivos que marcaram a rodagem da película, destacou-se desde logo a barreira linguística. Metade da equipa era britânica, a outra italiana e nem sempre era fácil a comunicação entre elas. Apesar de fluente em Inglês, De Laurentiis contratou uma conterrânea para lhe traduzir todos os textos para italiano. Sucede que os conhecimentos da senhora em relação à língua de Shakespeare eram, na melhor das hipóteses, rudimentares, o que deu azo a todo o tipo de equívocos, para desespero do realizador Mike Hodges. Que, a dada altura, perdeu por completo o controlo da produção.
Um bom exemplo do regabofe instalado no set foi a partida de futebol americano improvisada por Sam Jones em plena Sala do Trono. Apesar de inspirada, a cena não constava no guião, tão-pouco a coreografia de cheerleader executada por Melody Anderson. Saltar para a frente da câmara enquanto gritava "YEAH!" foi outro improviso de Sam Jones, uma vez que ninguém fazia ideia de como terminar o filme.

Uma das mais memoráveis cenas de Flash Gordon
foi na verdade um improviso de Sam Jones.
Como se isso não bastasse, Sam Jone, uma bomba de testosterona, envolveu-se em várias escaramuças nos intervalos das filmagens. De uma delas resultou um enorme arranhão na face que só seria disfarçado com recurso a uma cirurgia plástica, e que deixou De Laurentiis à beira de um ataque de nervos. O limiar crítico da paciência do produtor seria, porém, ultrapassado após nova tropelia de Jones. Alegadamente devido à falta de pagamento, o ator não regressou ao set após as férias natalícias.
Com o protagonista em paradeiro incerto quando faltava ainda fazer a edição final, coube a um ator anónimo dobrar as suas falas no filme. Nada que impedisse Jones de processar De Laurentiis por violação contratual. Tal como o restante elenco, o contrato de Jones contemplava duas sequelas, as quais foram inviabilizadas pelo fracasso comercial daquele que deveria ter sido o primeiro capítulo de uma trilogia.
Mesmo os que desprezam Flash Gordon já em algum momento das suas vidas vibraram ao som do eletrizante tema principal da sua banda sonora com a assinatura dos Queen. No entanto, se tivesse dependido da vontade de Mike Hodges, esta teria ficado a cargo dos Pink Floyd. De Laurentiis nunca tinha sequer ouvido falar nos Queen, cujo empresário foi determinante para a sua inclusão no projeto. Depois do exemplo pioneiro dos The Who em Tommy (1975), Flash Gordon tornou-se, assim, um dos primeiros filmes a ter uma banda sonora composta, produzida e interpretada por um grupo rock.

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Da autoria dos Queen, a banda sonora de Flash Gordon
 é uma das mais icónicas da história do cinema.
Sob uma revoada de críticas e elogios, a estreia mundial de Flash Gordon teve lugar a 5 de dezembro de 1980. No mercado norte-americano, as suas receitas ficaram, porém, muito abaixo do esperado. A culpa, segundo Lorenzo Sample Jr., foi de Star Wars, que instituíra um novo paradigma para o género.
Mesmo com um orçamento três vezes inferior, o capítulo inaugural da saga de George Lucas cativara o público com uma trama sólida e efeitos especiais convincentes. Ou seja, tudo aquilo que faltava a Flash Gordon. Que, com o tempo, se transformaria num obra de culto para cinéfilos de todo o mundo, sendo amplamente referenciada em filmes como Ted (2012).

Enredo

Para aliviar o tédio, o Imperador Ming do planeta Mongo diverte-se a causar furacões, sismos e outros desastres aparentemente naturais na Terra.
Em Nova Iorque, o astro do futebol americano Flash Gordon embarca num pequeno avião onde viaja também a jornalista Dale Arden. Em pleno voo, o cockpit da aeronave é atingido por um meteorito e os pilotos desaparecem sem deixar rasto.
Flash assume os comandos do avião e, a muito custo, consegue aterrá-lo na estufa do Dr. Hans Zarkov. O destrambelhado cientista acredita que as catástrofes que vêm assolando o mundo têm origem extraterrestre, e que algo (ou alguém) anda a interferir com a órbita da Lua.
Convicto da sua teoria, Zarkov construíra em segredo um foguete espacial para poder investigar os estranhos fenómenos atmosféricos. Quando o seu assistente se recusa a embarcar na nave, Zarkov, de pistola em punho, obriga Flash e Dale a acompanharem-no na sua jornada nas estrelas.
O foguete espacial de Zarkov despenha-se no exótico planeta Mongo e o trio de ocupantes é imediatamente capturado por soldados e levado à majestática presença do Imperador Ming. Feitas as devidas apresentações, o déspota, tomado pela lascívia, ordena que Dale seja incluída no seu harém. Flash ainda procura resistir, mas é subjugado e deixado inconsciente.

Dr. Hans Zarkov (Chain Topol), Dale Arden (Melody Anderson) e Flash Gordon (Sam J. Jones)
Flash, Dale e Zarkov num tête-à-tête com Ming (em baixo, ladeado por Klytus, chefe da sua polícia secreta).
Max von Sydow no papel do Imperador Ming
Intuindo a ameaça que Flash Gordon poderá representar para o seu poderio, Ming ordena a sua execução e a reprogramação mental de Zarkov, cujo brilhante intelecto pretende colocar ao seu serviço.
Transportado para uma câmara subterrânea, Flash Gordon recebe uma injeção letal. No entanto, seduzido pela Princesa Aura ( filha de Ming), o médico responsável pela execução aplica-lhe um antídoto que reverte o processo.
Durante a fuga que se segue, Flash vê Zarkov a ser lobotomizado por Klytus, o tenebroso chefe da polícia secreta de Ming. Sem tempo para acudir ao amigo, Flash parte com Aura para Arbória, reino governado pelo Príncipe Barin, o amante secreto da princesa.
A meio da viagem a bordo de uma nave roubada, Aura, rendida aos encantos de Flash, ensina-o a usar um comunicador telepático para contactar Dale. A jovem rejubila ao saber que Flash está afinal vivo e, encorajada por ele, consegue escapulir-se para fora dos aposentos de Ming após drogar uma das suas aias.
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Flash recebe a inesperada ajuda da filha de Ming.
Dado o alerta, Klytus envia Zarkov para intercetar Dale, ignorando que o cientista resistira à reprogramação mental a que fora submetido. Dale informa Zarkov que Flash está vivo e, juntos, escapam de Mingo City, a capital de Mongo. A sua fuga é, contudo, interrompida pelos Homens-Falcão do Príncipe Vultan, sendo levados para Sky City, a cidade flutuante que serve de lar ao povo alado.
Flash e Aura chegam, entretanto, a Arbória. Acedendo ao pedido da amante, o Príncipe Barin oferece guarida a Flash, prometendo mantê-lo são e salvo.
No entanto, tão logo Aura abandona Arbória, Barin, consumido pelo ciúme, impele Flash a participar num antigo ritual de iniciação. Consistindo este em enfiar a mão através dos buracos abertos no tronco oco de uma árvore, dentro do qual repousa um escorpião cujo veneno causa uma morte lenta e agonizante precedida de loucura.
Depois de Flash ter conseguido escapar à picada letal, Barin força-o a nova tentativa. Numa manobra de distração, Flash finge ter sido picado pelo escorpião e coloca-se em fuga. Com Barin no seu encalço, são ambos capturados pelos Homens-Falcão.
No palácio imperial, Klytus informa Ming de que Flash Gordon está vivo e este concede-lhe plena autoridade para descobrir o responsável. Acabada de regressar a Mongo, a Princesa Aura é presa e sujeita às sádicas sevícias de Kala e Klytus, os torcionários de Ming.
Extorquida a confissão de Aura, Ming condena a filha ao degredo na lua gelada de Frigia. Mas apenas depois de o seu enlace com Dale Arden ter sido consumado.
Em Sky City, Flash e Barin são obrigados a travar um duelo mortal para diversão de Vultan e horror de Dale e Zarkov. Apesar de levar a melhor sobre o seu adversário, Flash poupa a vida de Barin, que assim se torna seu aliado.

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Flash e Barin num duelo mortal.
Klytus e os seus sequazes chegam a Sky City, mas são mortos por Barin e Flash. Temendo as previsíveis represálias por parte de Ming, o Príncipe Vultan ordena a evacuação da cidade, deixando o quarteto de forasteiros entregue à sua sorte.
Ming desembarca em Sky City e, impressionado com as façanhas de Flash Gordon, oferece-lhe a regência da Terra em troca da sua lealdade. Perante a firme recusa do seu interlocutor, Ming ordena a prisão de Barin, Dale e Zarkov e a destruição do reino dos Homens-Falcão.
Deixado para morrer, Flash encontra um jet ski voador e consegue escapar à iminente destruição de Sky City. Enquanto cruza os céus de Mongo, o herói entra em contacto com Vultan, refugiado com o seu povo em Arbória, e convence-o a participar numa ofensiva contra Mingo City.
Montado no seu jet ski voador, Flash finge atacar sozinho a capital de Mongo. Ato contínuo, Kala envia Ajax, um imponente contratorpedeiro, para matá-lo. A nave é emboscada pelos Homens-Falcão e Flash assume os comandos, investindo com ela sobre Mingo City. Quase em simultâneo, a Princesa Aura liberta Barin e Zarkov da masmorra onde se encontravam confinados.
Sam J. Jones como Flash Gordon
Flash lidera o ataque dos Homens-Falcão a Mingo City.
Ao mesmo tempo que a sumptuosa cerimónia de casamento de Ming e Dale Arden tem início e Flash se aproxima de Mingo City, Kala ativa um campo de força para rechaçar o ataque. Vultan informa Flash que o campo de força só poderá ser atravessado numa manobra suicida. Sem hesitar, Flash voluntaria-se para pilotar o Ajax, abrindo caminho para a invasão dos Homens-Falcão.
Numa tentativa desesperada para evitar o sacrifício de Flash, Barin e Zarkov invadem a sala de comando a partir da qual é ativado o campo de força. Kala recusa-se a desativá-lo e é morta por Barin.
Sem saberem como desativar os escudos, Barin pede a Zarkov que continue a tentar fazê-lo enquanto ele se dirige ao Setor Alfa 9. É lá que se encontra o gerador que alimenta o campo de força, o qual Barin consegue desligar segundos ante da colisão fatal.
Flash aponta Ajax para o salão do palácio imperial onde decorre o casamento, e Ming é empalado pela antena pontiaguda que adorna a proa da nave.
Gravemente ferido, Ming recusa a oferta de Flash de lhe poupar a vida se ele deixar a Terra em paz. Em resposta, Ming usa o seu anel energético para tentar matar Flash. Mas o aparato claudica e nada acontece. Ming aponta então o anel sobre si próprio, sendo aparentemente vaporizado segundos antes de terminar a contagem decrescente para a destruição do nosso mundo.
Com Mongo libertado do jugo imposto por Ming, Aura e Barin são aclamados como os novos governantes e Vultan é nomeado comandante supremo do Exército Imperial.
Zarkov confidencia a Flash e Dale que não sabe como irão regressar a casa. Barin convida-os a ficarem mas Dale anseia por voltar ao bulício de Nova Iorque.
A cena final mostra o anel de Ming a ser apanhado do chão ensanguentado por uma mão enluvada. Os créditos começam a rolar no ecrã ao som da ferina gargalhada do vilão até surgir a palavra "Fim" antes de lhe ser acrescentado um ponto de interrogação.

Trailer 




Prémios e nomeações: Apesar das várias indicações para prémios de grande prestígio, designadamente os BAFTA e os Saturn Awards (respetivamente, nas categorias de melhor banda sonora e melhor filme de ficção científica), Flash Gordon não logrou arrecadar nenhum deles. A título individual, porém, Max Von Sydow teve o seu currículo abrilhantado com um Marshall Trophy para melhor ator secundário. Em sentido inverso, Sam Jones foi nomeado para o Razzie Award de pior ator e dividiria com Melody Anderson o Stinker Award para pior casal protagonista.

Curiosidades

*Alex Raymond criou Flash Gordon em 1934 para competir diretamente com Buck Rogers, aventureiro espacial de matriz literária surgido meia dúzia de anos antes. As tiras de Flash Gordon depressa ofuscaram as do rival, sendo adaptado ao cinema pouco tempo depois. Entre 1936 e 1940, o herói protagonizou três séries no grande ecrã (Flash Gordon, Flash Gordon Trips to Mars e Flash Gordon Conquers de Universe) estreladas pelo ex-nadador olímpico Buster Crabbe. Ironicamente, Crabbe interpretaria também Buck Rogers numa produção similar;
*Originalmente um jogador de polo, na sua longa-metragem Flash Gordon é apresentado como um astro do futebol americano por ser esse um desporto muito mais popular em terras do Tio Sam;

FLASH GORDON - 70 ANOS DE GIBIS -  :: Breve Histórico sobre GIBIS - Década de 1940 - Belíssimo desenho de Alex Raymond, seu criador.

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Flash Gordon pelo traço do seu criador (cima)
 e interpretado por Buster Crabbe.
*Envergar os sumptuosos paramentos de Ming requeria apreciável esforço físico da parte de Max Von Sydow, já que o peso dos mesmos ultrapassava os 30 quilos. Devido ao desconforto que daí advinha, o ator conseguia apenas manter-se de pé durante breves minutos;
*Ming destrói planetas em tributo ao grande deus Daizan, palavra japonesa para "crueldade extrema";
*A T-shirt branca com o logótipo "Flash" estampado no peito foi ofertada por uma fã anónima. Sam Jones fez questão de usá-la em diversas cenas, na expectativa de poder vir a conhecer a misteriosa mulher cuja identidade nunca foi, porém, revelada;
*O apalpão de Vultan a Dale Arden foi um improviso de Brian Blessed, sendo portanto genuína a reação surpreendida de Melody Anderson ao atrevimento do colega com quem contracenava;
*Antes de ceder a cadeira de realizador a Mike Hodges, Nicolas Roeg escolhera Debbie Harry (à época, vocalista da banda new wave Blondie) para o papel de Dale Arden. Ming, por seu turno, teria sido interpretado por Keith Carradine, o meio-irmão do lendário David Carradine, da não menos lendária série televisiva Kung Fu;
*O símbolo de Ming inclui um esquadro e um compasso estilizados, elementos tradicionalmente conotados com a Maçonaria. O tirano de Mongo faz também a saudação maçónica em dois momentos distintos da película;
*Os efeitos psicadélicos nos céus de Mongo foram obtidos com recurso à mistura de tintas multicoloridas em tanques cheios de água e criativamente iluminados;
*Nas tiras originais, Kala (no filme, uma general do Exército Imperial de Ming) era a soberana dos Homens-Tubarões de um reino submarino de Mongo. Inexistente no cânone (e também nas séries clássicas que o filme homenageia), Klytus foi uma inovação cinematográfica. No primeiro rascunho do enredo, ambas as personagens possuiriam poderes psíquicos e estava igualmente prevista a participação de Thun, o Homem-Leão que, na BD, é um fiel aliado de Flash Gordon. Apesar de omisso na película, Thun figurava em alguns dos cartazes promocionais distribuídos nos cinemas de vários países meses antes da estreia oficial de Flash Gordon;

Thun, o Homem-Leão figurava num
 dos cartazes promocionais de Flash Gordon.
*Artista das histórias de Flash Gordon na segunda metade da década de 1960, coube a Al Williamson ilustrar a adaptação oficial do filme aos quadradinhos. Williamson nunca disfarçou contudo o seu desagrado quer em relação a esta releitura do herói quer em relação à escolha do ator para representá-lo. Publicado originalmente pela Whitman em 1981, esse volume especial seria lançado no ano seguinte em Portugal pela TV Guia;

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Em Portugal, a adaptação oficial do filme
 foi lançada em 1982 pela TV Guia.
*A par do Reino Unido, Itália foi outro dos países onde Flash Gordon foi bem-sucedido nas bilheteiras. Facto que ficou a dever-se, essencialmente, à participação de duas beldades autóctones: Ornella Muti (Princesa Aura) e Mariangela Melato (Kala);
*Cunhado em 1941 por Wilson Tucker, o termo "space opera" (ópera espacial) não possui qualquer relação com música. Define, sim, um subgénero da ficção científica que enfatiza a aventura melodramática, as batalhas interplanetárias e o romance cavalheiresco ambientados principalmente no espaço sideral. O termo é também um trocadilho com "soap opera", nome dado aos folhetins radiofónicos dos anos 30 e 40 vulgarmente patrocinados por fabricantes de sabão;

Veredito: 73% 

Flash Gordon é um daqueles estranhos exemplares cinematográficos que tem de ser visto com o espírito certo para ser devidamente compreendido e apreciado. Aos olhos de um espectador desconhecedor das tiras originais ou das séries clássicas do herói, o filme, pelo seu envoltório espampanante, surgirá como um hino ao mau gosto. Isto porque toda a estética que, na década de 1930, Alex Raymond considerava avançada foi conservada em cada detalhe da película.
Trocando por miúdos, a ideia era recriar toda a atmosfera das histórias clássicas, com figurinos carnavalescos, cores berrantes e um ingénuo maniqueísmo. Elementos que reforçam o apelo nostálgico do filme, cujo valor intrínseco varia, obviamente, consoante o lugar que ocupa na memória afetiva de cada um. Sendo, naturalmente, mais suscetível de agradar aos fãs da velha guarda do que aos mais jovens. Mas mesmo estes ficarão, por certo, rendidos à sensacional banda sonora dos Queen.
Depois de Superman, the Movie, Flash Gordon foi o segundo filme de super-heróis que vi quando era ainda pessoa de palmo e meio. Mesmo após tantos anos, continua a ser, para mim, sinónimo de pura diversão e uma das mais bem conseguidas adaptações de BD.




segunda-feira, 15 de abril de 2019

HERÓIS EM AÇÃO: CAVALEIRO DA LUA


  Sob os sortilégios lunares, um fantasma de prata assombra os ímpios e vela pelos viajantes em jornadas noturnas. É essa a missão sagrada do Punho de Khonshu e do homem de alma multiplicada que a abraçou em busca de expiação para os seus pecados.

Denominação original: Moon Knight 
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Doug Moench (história) e Don Perlin (arte conceitual)
Estreia: Werewolf  by Night nº32 (agosto de 1975)
Identidades civis: Marc Spector, Steven Grant e Jake Lockley 
Espécie: Humano
Local de nascimento: Chicago, Illinois 
Parentes conhecidos: Elias Spector (pai, falecido), mãe incógnita, Randall Spector (irmão, falecido) e Diatrice (filha)
Ocupação: Ex-pugilista, ex-militar, ex-agente governamental e ex-taxista, desdobra-se atualmente entre os seus compromissos de empresário, filantropo e vigilante urbano.
Base operacional: Mansão Spector (Long Island, Nova Iorque)
Afiliações: Ex-Fuzileiro Naval, ex-agente da CIA, ex-membro do Comité, dos Vingadores da Costa Oeste e dos Vingadores Secretos, colabora ocasionalmente com os Filhos da Meia-Noite (grupo de nove seres com ligações ao Oculto reunidos pelo Dr. Estranho para enfrentar ameaças sobrenaturais) com o seu recém-criado alter ego de Senhor Lua. A despeito da inquestionável lealdade para com os seus aliados, o Cavaleiro da Lua, mercê da sua peculiar psicologia, funciona sempre como um verso solto entre a comunidade heroica, mesmo quando trabalha em equipa.
Némesis: Raul Bushman
Poderes e parafernália: Devido às suas múltiplas personalidades, o Cavaleiro da Lua possui uma incrível resistência psíquica, o que diminui a eficácia dos ataques telepáticos de que possa ser alvo e o torna menos suscetível à hipnose. Possui, ademais, uma enorme tolerância à dor física, ao ponto de ignorar ferimentos potencialmente fatais apenas para poder prosseguir o combate em que está envolvido.
Os diferentes treinos a que foi sucessivamente sujeito como pugilista, fuzileiro e agente secreto tornaram Marc Spector exímio no combate corpo a corpo. Mestre em diversas artes marciais, a partir da síntese de todas elas desenvolveu um estilo de luta único e extremamente difícil de imitar. Uma das poucas pessoas capaz de o fazer é o Treinador, supervilão dotado da habilidade de mimetizar qualquer técnica de combate. Mas mesmo ele fica impressionado com a forma de lutar do Cavaleiro da Lua, que prefere receber um golpe a bloqueá-lo se isso lhe permitir contra-atacar o seu oponente ou lhe conferir alguma vantagem tática.
Do robusto inventário de recursos e habilidades do Cavaleiro da Luz fazem parte a investigação criminal, a estratégia militar, a furtividade e a proficiência com armas de fogo e de arremesso. Atleta de nível olímpico e especialista em explosivos, é também um excelente piloto capaz de manobrar com destreza os mais variados modelos de aeronaves. Não é, pois, por acaso, que elege o seu helicóptero em forma de meia-lua como transporte preferido nas suas missões de combate ao crime.
No período coincidente com a sua filiação nos Vingadores da Costa Oeste, o Cavaleiro da Lua adquiriu poderes sobrenaturais em consequência da sua possessão por Khonshu. Durante essa fase, o herói teve a sua força e reflexos ampliados em função das fases da Lua. Sob a Lua Cheia, por exemplo, os seus poderes atingiam o auge e conseguia erguer aproximadamente duas toneladas. Desenvolveu ainda uma forma de perceção extrassensorial que, além de ocasionais visões premonitórias, lhe permitia detetar entes sobrenaturais e com eles comunicar. Com o subsequente exorcismo de Khonshu, os superpoderes do Cavaleiro da Lua desapareceram como se nunca tivessem existido.
Graças à apreciável fortuna acumulada enquanto mercenário, Marc Spector adquiriu um arsenal de armas especiais, bem como todo o tipo de equipamento sofisticado essencial às suas atividades de vigilante urbano. Com destaque para a sua frota de veículos de temática lunar. Além do já mencionado helicóptero em forma de meia-lua, o Cruzado do Crescente tem ainda à disposição uma limusina blindada e um planador sugestivamente batizado de Asa de Anjo. Em comum, o facto de todos esses veículos serem autónomos e poderem ser operados remotamente.

O helicóptero em forma de meia-lua é o veículo mais icónico
 da frota utilizada pelo Cruzado do Crescente.
Originalmente, o Cavaleiro da Lua envergava um traje de kevlar, o qual substituiu por um fabricado de carbonadium, metal radioativo várias vezes mais resistente e flexível do que o aço. Dada a sua afinidade com armas de arremesso, tem nos dardos em forma de crescente a sua imagem de marca, embora também não dispense as boleadeiras e os bastões extensíveis com arpéus incorporados.
Notabilizado pelos seus métodos ultraviolentos - com assomos de sadismo - o Cavaleiro da Lua não hesita em mutilar ou até mesmo matar os seus adversários. Aos criminosos reincidentes, por exemplo, crava crescentes metálicos na testa, assinalando-os de forma indelével. Pior sorte teve Raul Bushman, o impiedoso mercenário africano responsável pela aparente morte de Marc Spector, que teve a face esfolada a sangue-frio pelo seu antigo associado.
Sem surpresa, no submundo de Nova Iorque o Cavaleiro da Lua tem reputação de maníaco, sendo profundamente temido tanto pelos delinquentes comuns como pelos criminosos fantasiados.

O Estigma do Crescente assinala os criminosos irrecuperáveis.

Vulnerabilidades: A mente fraturada de Marc Spector é o seu maior ponto fraco. Numa alucinante jornada na orla da insanidade, cada passo parece levá-lo para mais longe da razão. Apresentando-se Spector como uma espécie de tratado ambulante da loucura - palavra que, de resto, tem a sua raiz etimológica em "luna", termo latino para "lua" -, é-lhe cada vez mais difícil descortinar a linha que separa a realidade do delírio.
Inicialmente pensava-se que Marc Spector padeceria de esquizofrenia ou de um severo transtorno dissociativo de personalidade. Sendo agora claro que os múltiplos heterónimos por ele criados ao longo dos anos são uma consequência direta de ser o avatar de Khonshu. À divindade são atribuídas quatro facetas (tantas como as fases da Lua), obrigando, desse modo, Marc Spector a desenvolver personalidades capazes de refletir cada uma delas.
Em última análise, a mente de Spector foi "colonizada" por Khonshu e dessa circunstância sobreveio uma gradual diluição da sua identidade, na medida em que os seus alter egos adquirem por vezes vida própria sobrepondo-se ao seu verdadeiro eu.

Um herói multifacetado e em permanente crise de identidade.

Crescentes e eclipses

Criado pelo escritor Doug Moench e pelo artista Don Perlin para ser um vilão descartável da personagem-titular, o Cavaleiro da Lua fez a sua estreia em agosto de 1975, nas páginas de Werewolf by Night nº32. Numa história em duas partes, concluída na edição seguinte, o Lobisomem mediu forças com o misterioso mercenário contratado pelo Comité (sindicato do crime de Los Angeles) para capturá-lo. Ao descobrir as verdadeiras intenções dos seus empregadores (o Comité planeava usar o Lobisomem como arma), o Cavaleiro da Lua ajudou o seu alvo a escapar. 
Caído nas boas graças dos leitores, o Cavaleiro da Lua ressurgiria meses mais tarde na forma de uma aparição demoníaca, e novamente para enfrentar o Lobisomem. Também os editores da Marvel, em especial Marv Wolfman e Len Wein, simpatizaram com a personagem. Intuindo o seu potencial narrativo,  brindaram-no com a sua primeira aventura a solo em Marvel Spotlight nº28 (junho de 1976). A história, assinada por Doug Moench e Don Perlin, apresentou o Cavaleiro da Lua como um agente infiltrado no Comité para sabotar as nefastas atividades da organização.
Estava dado o mote para a participação do Cavaleiro da Lua nas histórias de alguns dos mais ilustres moradores da Casa das Ideias, como o Homem-Aranha ou o Incrível Hulk. Após vários anos a abrilhantar títulos alheios, em 1980 o Cavaleiro da Lua ganharia por fim uma série própria. Moon Knight revelaria o passado de Marc Spector como mercenário e introduziria aquele que seria o seu arqui-inimigo (e presumível carrasco): Raul Bushman. Sendo ainda sugerido que a suposta ressurreição de Spector não passara, afinal, de uma experiência de quase morte e que a visão de Khonshu fora fruto de uma alucinação.

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A estreia do Cavaleiro da Lua em Werewolf by Night nº32 (cima) e a capa
do primeiro número do seu título a solo.
A boa prestação comercial de Moon Knight levou a Marvel a incluía-lo na restrita lista de títulos disponibilizados apenas em lojas de banda desenhada. Ausente das bancas, as vendas da série caíram a pique até ao inevitável cancelamento. Com o último número a ser lançado em junho de 1984.
O resto da década de 1980 ficou marcado pela transferência do Cavaleiro da Lua para Marvel Fanfare e, depois, para West Coast Avengers, onde assentaria arraiais durante um longo período e sofreria profundas transformações. Até que, em 1989, lhe foi atribuída nova série própria, Marc Spector: Moon Knight. Mais duradoura do que a anterior, seria publicada até 1994 e daria azo ao lançamento de dois volumes especiais: Marc Spector: Moon Knight Special Edition nº1 e Moon Knight: Divided We Fall.
Seguiu-se um longo estio editorial, interrompido apenas em 1999. Ano em que foi lançada High Strangeness, nomeada para o Comics Buyer's Fan Guide na categoria de melhor minissérie.
Após novo interregno prolongado, desde 2006 que o Cavaleiro da Lua vem protagonizando consecutivas séries mensais, quase todas com existência abreviada pelas fracas vendas. Destaque para aquela que foi lançada em 2014, com a particularidade de cada edição ser escrita por um autor diferente, refletindo desse modo as múltiplas personalidades do herói. Reforçadas entretanto pelo Senhor Lua, um detetive janota criado por Marc Spector para colaborar com a polícia nova-iorquina.
Em janeiro de 2018, no contexto de Marvel Legacy, o mais recente reboot do Universo Marvel, o Cavaleiro da Lua voltou a ser contemplado com um título próprio. Com o arco de histórias inaugural a sair da pena de Max Bemis, também ele portador de um transtorno mental.
Crescentes e eclipses de uma carreira editorial influenciada não pelas fases da Lua, mas pelos voláteis humores do mercado de quadradinhos norte-americano.

Senhor Lua, o mais recente alter ego de Marc Spector.

O Punho de Khonshu 

Chicago serviu de berço a Marc Spector, o irreverente filho de um rabino judaico cuja família,  a meio da década de 1930, trocara a Checoslováquia pelos Estados Unidos para escapar ao antissemitismo que alastrava pela Europa. Apenas para descobrirem que, embora em menor escala, os judeus também eram discriminados em terras do Tio Sam.
Marc cresceu revoltado com esta realidade e não conseguia compreender por que motivo o pai não revidava contra aqueles que perseguiam o seu povo. Aos seus olhos, o pacifismo paterno mais não era do que uma expressão de covardia.
Mal atingiu a maturidade, Marc abraçou uma promissora carreira como pugilista. Após um par de anos a competir no campeonato de pesos-pesados, alistou-se nos Fuzileiro Navais. Treinado para executar operações especiais, os seus talentos não passaram despercebidos à CIA que o recrutou pouco tempo depois.
Ao serviço da CIA Marc trabalhou em conjunto com Randall Spector, seu irmão mais novo. Randall havia no entanto traído a agência e contrabandeava armas e outro material bélico. Quando a namorada de Marc descobriu o esquema, foi brutalmente assassinada por Randall. Em retaliação, Marc caçou o irmão que, aparentemente, sucumbiu à explosão de uma granada.
Após este incidente, Marc abandonou a CIA para se tornar um mercenário. Depressa ganhando reputação de fazer qualquer coisa a troco da quantia certa. Durante uma missão em África travou amizade com Jean-Paul DuChamp, um soldado da fortuna francês de quem se tornaria inseparável.
Mais ou menos por essa altura, Marc começou a trabalhar com Raul Bushman, mercenário de sangue frio para quem a vida humana era insignificante. À medida que o tempo ia passando, Marc ia ficando mais incomodado com a selvajaria do seu seu associado. Pela primeira vez na vida, a sua consciência agitava-se, levando-o a questionar as próprias ações.

Raul Bushman e o seu bando espalhavam o terror por terras africanas.
Nos confins do Sudão, o grupo de mercenários liderado por Bushman tropeçou numa escavação arqueológica a cargo do Dr. Peter Alraune, um egiptólogo norte-americano que havia encontrado a tumba de um antigo faraó.
Convicto de que o sarcófago escondia ouro e outras riquezas, Bushman assassinou o Dr. Alraune para poder pilhar o túmulo. Enquanto isso, Marc procurou facilitar a fuga de Marlene, a filha do malogrado Dr. Alraune.
Ao aperceber-se da traição de Marc, Bushman espancou-o selvaticamente, arrastando-o em seguida para o deserto a fim de garantir-lhe uma morte lenta e dolorosa. Moribundo, Marc procurou abrigar-se do Sol inclemente no interior do túmulo profanado. Auxiliado por Marlene, prostrou-se aos pés de uma estátua de Khonshu, o deus egípcio da Lua.

Marc Spector agoniza aos pés de Khonshu.
Era, porém, tarde demais. Esvaído em sangue e castigado pelos elementos, Marc morreu nos braços de Marlene. Ressuscitando milagrosamente ao fim de alguns minutos.
Perante a incredulidade de Marlene, Marc alegou ter tido uma visão de Khonshu, que o restituiu ao mundo dos vivos depois de ele ter aceitado a missão sagrada que a divindade lhe confiara.
Marc removeu então a mortalha branca que adornava a estátua de Khonshu e usou-a para envolver o próprio corpo, como se de um manto se tratasse. Depois de derrotar Bushman em combate, pôs um ponto final à sua carreira de mercenário e retornou aos EUA. Assistido por Marlene e DuChamp, sua amante e mais fiel aliado, empreendeu uma cruzada de vingança como o Cavaleiro da Lua, o Punho de Khonshu.
Embora inicialmente não fosse claro se o encontro de Marc Spector com Khonshu fora real ou apenas uma alucinação gerada pela sua mente delirante, o vínculo entre ambos foi confirmado com o tempo. É, pois, na ambígua condição mental do Cavaleiro da Lua que reside boa parte do apelo da personagem.

Um fantasma de prata assombra a cidade que nunca dorme.

Miscelânea

*Apesar do apreciável número de autores de ascendência judaica na indústria dos comics, o Cavaleiro da Lua é um dos poucos super-heróis assumidamente judeu;
*Cruzado do Crescente, Legionário Lunar, Punho de Khonshu, Demónio da Lua, Aluado ou Cara de Lençol são alguns dos cognomes atribuídos ao Cavaleiro da Lua;
*Na sua primeira aparição, em Werewolf by Night nº32, o alter ego do Cavaleiro da Lua foi identificado como Mark Spector, sendo renomeado de Marc Spector na edição seguinte. Também no Brasil o herói começou por ser crismado de Cavaleiro de Prata pela RGE, a primeira editora a publicá-lo em Terras Tupiniquins, no seu lendário Almanaque Premiere Marvel. Designação só revista em meados dos anos 1980 após a sua transição para a Abril, que privilegiou a tradução literal da nomenclatura original da personagem;


A estreia do Cavaleiro da Lua em terras de Vera Cruz sob a égide da RGE.
*Durante a sua passagem pelas fileiras dos Vingadores da Costa Oeste, no final da década de 1980, o Cavaleiro da Lua viveu um tórrido, porém problemático, romance com Tigresa, sua colega de equipa. Khonshu reprovava a relação, o que gerou tensões entre a entidade e o seu avatar. Seriam, no entanto, outros os fatores a ditar a separação do casal, mormente o facto de ambos valorizarem sobremaneira a sua independência. Mais recentemente, o Cavaleiro da Lua envolveu-se com Eco, sua ex-parceira no combate ao crime. Duas almas atormentadas que encontraram consolo uma na outra até Eco ser assassinada pelo Conde Nefária;
*Com uma personalidade cada vez mais fragmentada, são hoje dez os heterónimos de Marc Spector. Aos clássicos Steven Grant, Jake Lockley e Cavaleiro da Lua, somam-se agora o Senhor Lua, Homem-Aranha, Capitão América, Wolverine e Eco. Nesta multidão intermutável de alter egos há ainda lugar para uma menina de nove anos não identificada cuja personalidade Marc Spector começou a manifestar recentemente;

Reunião dos Vingadores?
Não, apenas o Cavaleiro da Lua a confraternizar com os seus amigos imaginários.

*Na lista das cem melhores personagens de banda desenhada de todos os tempos elaborada pela plataforma IGN, o Cavaleiro da Lua surge na 89ª posição, descrito como um conceito próximo do que seria o Batman com distúrbios de personalidade;
*Frequentemente percecionado como uma espécie de Batman genérico da Marvel, o Cavaleiro da Lua dificilmente escapa às comparações com o Homem-Morcego da DC. Se é verdade que existem vários aspetos comuns às duas personagens (ambos são milionários que usam uma parafernália de gadgets temáticos para combater o crime), são também muitos aqueles que as diferenciam. Charlie Huston,  escriba responsável pela revitalização do Cruzado do Crescente em 2006, inverteu a polaridade das análises vigentes ao observar que as personalidades e as motivações dos dois heróis não poderiam ser mais contrastantes. Ao passo que Bruce Wayne combate o crime para vingar a morte dos seus pais às mãos de um meliante, Marc Spector aceitou ser o avatar de Khonshu como forma de expiar os seus infindáveis pecados cometidos enquanto soldado da fortuna. Por outro lado, se Bruce Wayne criou a persona Batman para fazer justiça pelas próprias mãos, os vários alter egos de Marc Spector servem, em primeiro lugar, para o ajudar a lidar com os seus demónios interiores. Também os respetivos métodos são muito distintos entre si: ao contrário do Homem-Morcego, o Cavaleiro da Lua não tem pudor em tirar a vida aos seus inimigos. E se o primeiro usa cores escuras para se camuflar nas sombras, o segundo traja de branco com o intuito de ser visto na noite. Curioso notar, ainda assim, o paralelismo existente entre Jake Lockley (o taxista que Marc Spector usa para obter informação nas ruas) com Fósforos Malone, o disfarce usado por Bruce Wayne para se infiltrar no submundo do crime gothamita;
*Também denominado Khensu ou Khons, Khonshu é o antigo deus egípcio da Lua. O seu nome significa "viajante", o que poderá estar relacionado com a trajetória descrita por esse corpo celeste no céu noturno. À semelhança de Thoth, outra das divindades adoradas no Antigo Egito, Khonshu está associado à passagem do tempo e à criação de novas vidas. Padroeiro dos viajantes noturnos, era por estes invocado para os proteger de ataques de salteadores ou de animais selvagens;
*Ainda sem vaga no universo cinematográfico da Marvel, em 2006 o Cavaleiro da Lua quase ganhou uma série televisiva. O projeto ficou encalhado, mas nesse mesmo ano Marc Spector foi referenciado como especialista em lobisomens em Blade: The Series. Apesar da sua influência nos quadradinhos, o Cruzado do Crescente demora a expandi-la a outros segmentos culturais. Circulam, porém, rumores de que isso estará prestes a mudar. Em janeiro de 2017, por exemplo, James Gunn, realizador dos Guardiões da Galáxia, publicitou no Twitter a sua vontade de dirigir um filme baseado no herói.



quarta-feira, 27 de março de 2019

CLÁSSICOS REVISITADOS: «SUPER-HOMEM VERSUS HOMEM-ARANHA»


  Convocada para deleite dos fãs, a mais titânica batalha do século XX opôs os campeões da Marvel e da DC, inaugurando uma nova era nas relações entre as duas editoras. Um sonho impossível tornado realidade e a pedra angular de um admirável legado comum que importa celebrar em tempos de rivalidades exacerbadas.

Título original: Superman versus  The Amazing Spider-Man
Licenciadoras: Marvel Comics / DC Comics
País: EUA
Autores: Gerry Conway (argumento), Ross Andru (ilustrações) e Dick Giordano (arte-final) 
Data de publicação: Janeiro de 1976
Categoria: Crossover
Protagonistas: Super-Homem, Homem-Aranha, Lex Luthor e Doutor Octopus
Coadjuvantes: Lois Lane, Mary Jane Watson, J. Jonah Jameson, Morgan Edge, Ned Leeds, Jimmy Olsen, Betty Brant e Steve Lombard 
Cenários: Metrópolis, Nova Iorque, Tanzânia e satélite do Gangue da Injustiça

Edições em português

Ainda inédito no retângulo lusitano, aquele que foi o "pai" de todos os crossovers teve a sua primeira versão em língua portuguesa a cargo da brasileira EBAL. Inserto na coleção Almanaque dos Heróis, de periodicidade anual, em 1977 Super-Homem contra o Incrível Homem-Aranha foi lançado em formato gigante idêntico ao original.
Em janeiro de 1986 (data em que se assinalava o 10º aniversário do primeiro lançamento em terras do Tio Sam), foi a vez da Abril republicar este volume histórico. Que, em março de 1993, seria reeditado pela última vez sob os auspícios da mesma editora. Desta feita no número inaugural da série trimestral Grandes Encontros Marvel & DC, na qual eram revisitadas outras iniciativas editoriais conjuntas das duas arquirrivais. Ambas as edições da Abril foram lançadas no chamado formatinho económico e distribuídas em Portugal.

A edição da EBAL era praticamente um fac-símile da original.

Crónica de um sonho (im)possível

Quando se reuniram em 1975 para produzir uma adaptação do clássico O Feiticeiro de Oz, a Marvel e a DC abriram um precedente e criaram a expectativa da iminente realização de um sonho que povoava a mente de 99,99% dos fãs de super-heróis: ver as personagens das duas gigantes dos quadradinhos juntas numa mesma história.
Curiosamente, nos anos que antecederam este primeiro empreendimento conjunto das duas companhias alguns dos seus assalariados trataram de oferecer ao leitores um aperitivo daquilo que se tornaria corriqueiro na cultura nerd: os crossovers. Para os menos versados neste tipo de jargão,  trata-se de uma técnica literária (traduzível como "intersecção") que consiste em inserir num mesmo evento fictício personagens provenientes de núcleos diversos, desprovidas de qualquer relação anterior entre si.
Um desses tímidos ensaios ocorreu em dezembro de 1972, nas páginas de Justice League of America nº103. Escrita por Len Wein, a história em causa mostrava como, após dominar as mentes de um grupo de foliões fantasiados na noite de Halloween, o vilão Félix Fausto lhes concedida superpoderes. Por conta disso, a Liga da Justiça teve de medir forças com sósias do Capitão América, Homem-Aranha e outros heróis da Marvel.
Apesar desta e de outras brincadeiras inócuas, apenas em 1975 começou a ganhar forma aquele que era um sonho tido como impossível. Nesse ano, David Obst, agente literário da privança de Stan Lee, resolveu levar a sério as exigências dos leitores por um crossover Marvel / DC.


A primeira coprodução oficial Marvel/DC (cima)
e o cameo do Capitão América numa história da Liga da Justiça.
Depois de sondar à porfia Stan Lee e Carmine Infantino - presidente da Marvel e editor-chefe da DC, respetivamente - Obst convenceu-os a apostar na ideia que batizou de "A batalha do século". Contudo, não era uma simples banda desenhada que ele tinha em mente. Com conhecidas aspirações a produtor cinematográfico, Obst pretendia, ao invés, que as duas editoras patrocinassem um filme protagonizado pelos seus dois maiores ícones: Super-Homem e Homem-Aranha.
Perante a descrença dos mandachuvas da Marvel e da DC no que à exequibilidade de tal ideia dizia respeito, Obst não desanimou e continuou a tentar levar água ao seu moinho. Até que, por fim, lá conseguiu arrancar a ferros um princípio de acordo entre as duas editoras com vista à realização de uma joint venture perspetivada como uma dádiva para os leitores.
Importa ressalvar, porém, que o referido acordo só foi possível graças à amizade que unia Stan Lee e Carmine Infantino desde os tempos em que,  durante a Idade de Ouro, ambos haviam colaborado na mesma tira diária.

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David Obst foi o piloto da mudança
nas relações entre Marvel e DC.
Entretanto, na sede da DC estava instalada uma enorme azáfama. Decorriam por aqueles dias as negociações referentes ao elenco e ao enredo do vindouro filme do Homem de Aço que a Warner Bros. aceitara produzir a contragosto. Escusado será dizer que seus executivos nem queriam ouvir falar numa coprodução megalómana com a sua mais direta concorrente.
Por outro lado, desde que, em 1971, assumira a liderança da Editora das Lendas, Carmine Infantino levara a cabo uma série de profundas mudanças. E também assegurara algumas contratações tão vultuosas quanto controversas. Além de ter garantido os préstimos de Neal Adams, um dos mais promissores artistas da sua geração, e de Denny O'Neill, escriba virtuoso, Infantino conseguira desfalcar a Casa das Ideias de dois dos seus maiores talentos: Jack Kirby e Gerry Conway. Proeza que, naturalmente, em nada contribuiu para a melhoria das relações entre as duas concorrentes.
Descartada a produção de uma longa-metragem, a alternativa natural foi o lançamento de uma história aos quadradinhos que pusesse frente a frente os campeões da Marvel e da DC. Concordando ambas com a paridade das suas participações no projeto.
Foi, pois, ao abrigo desse acordo de cavalheiros que a DC indicou Gerry Conway para escrever a história. Uma escolha que, diga-se de passagem, nada teve de inocente. Além de já ter sido argumentista tanto do Super-Homem como do Homem-Aranha, Conway era também uma espécie de broche na lapela de Carmine Infantino, conhecido pela sua feroz competitividade em relação à Casa das Ideias (ainda que a recíproca não fosse verdadeira).
A arte ficaria a cargo de Ross Andru - então ao serviço da Marvel após uma longa temporada na DC - e que, tal como Conway, tinha a particularidade de já ter trabalhado nas histórias dos dois heróis que iriam protagonizar o crossover.
Ficou igualmente estipulado que Stan Lee e Carmine Infantino supervisionariam todo o projeto, com este último a ficar também responsável pela conceção da respetiva capa, a qual seria arte-finalizada por Ross Andru.
Um dos segredos de bastidores mais bem guardados prende-se, de resto, com o trabalho desenvolvido por Ross Andru. Por respeito ao seu colega de ofício, só muitos anos mais tarde Neal Adams revelaria ter sido secretamente incumbido de retocar o rosto do Super-Homem em várias sequências da história. Processo idêntico aplicou John Romita Sr. às expressões faciais de Peter Parker. Por contraste, Gerry Conway dispôs de ampla liberdade na estruturação da narrativa, que poucos ajustes sofreu.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Os comentários de Stan Lee e Carmine Infantino
 ao primeiro crossover das editoras que lideravam.
Lançado em formato gigante, Superman versus The Amazing Spider-Man chegou às mãos dos leitores norte-americanos em janeiro de 1976. Coincidência ou talvez não, nesse ano os EUA celebravam o seu bicentenário em meio a profundas divisões internas e incertezas quanto ao futuro, na ressaca da derrota militar no Vietname e da renúncia do Presidente Nixon motivada pelo escândalo Watergate.
Ao colocarem de lado as suas diferenças, a Marvel e a DC transmitiram à sociedade estadunidense um importante sinal de união em tempos conturbados. Um gesto difícil de reproduzir no atual ambiente de animosidade entre os fãs das duas editoras. Que não se assumindo como inimigas mortais, voltaram a estar de costas voltadas após três décadas de cooperação. Sendo Superman versus The Amazing Spider-Man pedra angular desse legado comum que, agora mais do que nunca, importa evocar.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)



A conceção da icónica capa de Superman versus The Amazing Spider-Man (cima)
e a página de abertura com a respetiva ficha técnica.

Enredo

Em Metrópolis, o Super-Homem trava o rasto de caos e destruição deixado por um robô gigante controlado por Lex Luthor. Apesar de capturado pelo Homem de Aço, o vilão consegue enviar um pequeno dispositivo roubado dos Laboratórios S.T.A.R. para uma das suas bases secretas.
Simultaneamente, o Homem-Aranha derrota a quadrilha do Doutor Octopus após uma gorada tentativa de assalto a um banco nova-iorquino.
Transferido para uma prisão federal de segurança máxima projetada para acomodar supervilões, Octopus tem Luthor como companheiro de cela. Da admiração mútua e do desejo comum de destruírem os homens responsáveis pelos seus recorrentes fiascos nasce então uma aliança entre os dois malfeitores. Combinando a sua genialidade científica, Luthor e Octopus rapidamente engendram um plano de fuga que os devolve à liberdade.
No dia seguinte, Peter Parker, fotógrafo freelancer do Daily Bugle, acompanhado da sua namorada, Mary Jane Watson, comparece a uma conferência de imprensa que antecede o lançamento do ComSat, um sofisticado satélite meteorológico capaz de alterar os padrões climatéricos. No evento marcam também presença os repórteres do Daily Planet e da rede WGBS, Clark Kent e Lois Lane, vindos expressamente de Metrópolis para fazer a respetiva cobertura noticiosa.
Afoita como sempre, Lois Lane trepa ao cimo de um andaime para melhor poder observar o satélite, mas escorrega e cai de uma altura de vários metros antes de ter a queda amparada por Peter Parker. Perante o olhar desconfiado de Mary Jane, Lois agradece ao jovem fotógrafo por lhe ter salvado a vida.
Subitamente, porém, Luthor entra em cena disfarçado de Super-Homem e dispara uma rajada ótica sobre as duas mulheres, teletransportando-as para local desconhecido.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
O momento em que Luthor, disfarçado de Super-Homem, sequestra Lois e MJ.
Enquanto o falso Homem de Aço voa para longe, Peter e Clark, incrédulos com o que acabaram de presenciar, correm a trocar as suas roupas civis pelos seus vistosos uniformes.
Culpando-se mutuamente pela abdução das suas caras-metades, o Super-Homem e o Homem-Aranha envolvem-se numa acesa discussão, observada de longe por Luthor e Octopus.
Ciente da enorme desproporção de poderes entre os dois heróis, Luthor usa uma pistola de raios para infundir o Escalador de Paredes com radiação similar à de um sol vermelho. Deixando desse modo o Homem de Aço vulnerável aos golpes de um furioso Cabeça de Teia.
Quando a radiação se dissipa e o Super-Homem recupera a sua invulnerabilidade, os dois heróis percebem ter sido ludibriados e deduzem que Luthor e Octopus estão por detrás do ardil. Ambos concordam então em unir esforços para recapturarem os seus inimigos e resgatarem as suas namoradas. Acordo selado com um vigoroso aperto de mão que deixa o Cabeça de Teia a ver estrelas.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Depois do confronto, a reconciliação selada com um vigoroso passou bem.
Seguindo o rasto dos vilões até à Tanzânia, na África Oriental, o Super-Homem e o Homem-Aranha veem-se obrigados a defrontar um robusto guerreiro indígena que Luthor dotou de força ampliada e de uma espada irradiada com energia de um sol vermelho.
Vencido o oponente com a preciosa ajuda de elementos da tribo Masai, os dois heróis voam para a órbita terrestre - com o Homem-Aranha a fazê-lo aos comandos de uma nave roubada da base africana de Luthor. É lá que se encontra estacionado o satélite abandonado do Gangue da Injustiça onde Luthor e Octopus estão aboletados.
Graças ao dispositivo programador furtado por Luthor dos Laboratórios S.T.A.R., ele e Octopus assumiram o controlo do ComSat, que pretendem usar para interferir com a atmosfera terrestre e chantagear os governos mundiais. Numa singela demonstração do potencial destrutivo da máquina, Luthor dispara uma combinação de raios laser e de ondas sónicas sobre a superfície terrestre. Ato contínuo, violentos terramotos e furacões irrompem um pouco por todo o globo.
Enquanto o Super-Homem fica aturdido depois de ser atingido em cheio por uma rajada sónica de alta intensidade, o Homem-Aranha tomba inanimado quando o sistema de suporte vital do satélite é comprometido.
Tão logo recobra a consciência, o Homem de Aço investe sobre o Doutor Octopus, arrancando-lhe dois dos seus tentáculos mecânicos. Já o Escalador de Paredes prefere recorrer à psicologia para semear a discórdia entre os dois vilões.
Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Os heróis contra-atacam.
Ao escutar o discurso do herói aracnídeo, Octopus compreende enfim que, se consumado, o diabólico plano de Luthor resultará na ruína da civilização humana, não restando nada para governar. Perante o desespero de Luthor, Octopus usa então um dos seus tentáculos remanescentes para inutilizar o painel de controlo do ComSat, impedindo dessa forma uma calamidade de proporções bíblicas.
Enquanto o Homem-Aranha se encarrega de neutralizar os dois vilões, o Super-Homem voa a supervelocidade para a Terra a fim de impedir que um gigantesco maremoto arrase a Costa Leste dos EUA.
De regresso a Nova Iorque, os dois heróis congratulam-se mutuamente pelo êxito da sua parceria antes de levarem os respetivos némesis sob custódia.
No epílogo, Clark Kent e Lois Lane participam num animado encontro duplo com Peter Parker e Mary Jane Watson.


Segundo Round

Ao abrigo do memorando de alternância entre as duas editoras, em julho de 1981, cinco anos após o lançamento da história original, coube à Marvel assumir a produção do segundo encontro entre o Super-Homem e o Homem-Aranha. Descrita como a "sequência espiritual" da batalha do século, Superman and Spider-Man foi escrita por Jim Shooter (com base numa premissa de Marv Wolfman) e desenhada por John Buscema, contando ainda com uma luxuosa equipa de arte-finalistas onde pontificavam, entre outros nomes sonantes, Joe Sinnott, Terry Austin e Bob Layton.
Em vez de um volume especial, a história foi publicada em Marvel Treasury Edition nº28 e surpreendeu pela escolha dos antagonistas: Doutor Destino (tradicionalmente associado ao Quarteto Fantástico) e Parasita, vilão clássico do Homem de Aço, porém menos afamado do que Brainiac ou Zod, que se perfilavam como candidatos mais óbvios. Previsivelmente menos impactante do que a sua antecessora, a história contava ainda, à laia de bónus, com as participações especiais da Mulher-Maravilha e do Incrível Hulk.
A primeira edição em português ficaria por conta da brasileira RGE, em 1982. Seguindo-se, sete anos mais tarde, a inevitável republicação com a chancela da Abril. Sendo que apenas esta última desembarcou na ocidental praia lusitana.

O reencontro do Homem de Aço e do Escalador de Paredes
 em Marvel Treasury Edition nº28 (1981).

Apontamentos

*Ausente do cânone das duas editoras que o produziram, este primeiro encontro entre o Homem de Aço e o Escalador de Paredes tem sido, contudo, referenciado em vários títulos da Marvel no curso dos anos. A primeira vez que tal aconteceu foi em What If? nº1 (fevereiro de 1977), quando o alienígena conhecido como Vigia agraciou os leitores com pequenos vislumbres de universos paralelos. Num deles, era possível ver o Homem-Aranha prestes a ser atingido na face pelo punho cerrado do Super-Homem (identificado apenas pela manga azul do seu uniforme). Levando inclusivamente o Vigia a interrogar-se se aquele duelo teria tido lugar na realidade primordial ou numa qualquer realidade alternativa. Também Avengers Forever nº8 (julho de 1999) inclui um flashback que mostra a fuga de Lex Luthor e do Doutor Octopus da prisão. Mais recentemente, em Mosaic nº4 (janeiro de 2017), uma das memórias do Homem-Aranha mostra-o a golpear repetidamente o torso do Super-Homem camuflado nas sombras;

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Entre as memórias do Homem-Aranha esmiuçadas por Mosaico
 figura o seu duelo com o Super-Homem (2ª imagem a contar de cima).

*Paralelamente ao confronto dos protagonistas, Superman versus The Amazing Spider-Man proporcionou também o encontro de vários coadjuvantes. Num deles, ambientado num bar, Morgan Edge e J. Jonah Jameson (respetivamente, presidente executivo da rede WGBS e diretor do Daily Bugle), queixam-se da estranha propensão de Clark Kent e de Peter Parker para desaparecerem em situações de crise. Recorde-se que, à época, Clark trabalhava como pivô no principal telejornal da WGBS (celebrizada como Rede Galáxia, no Brasil), ao passo que Peter colaborava como fotógrafo freelancer daquele que é um dos mais influentes jornais nova-iorquinos;
*Dirigindo-se aos puristas, no prefácio de Crossover Classics - série antológica que compila alguns dos encontros Marvel / DC realizados ao longo dos anos - Gerry Conway esclarece que a ausência de explicação para a presença do Super-Homem e do Homem-Aranha no mesmo universo fora deliberada por não ser esse o objetivo da história. A despeito disso, o The Official Crisis on Infinite Earths Crossover Index, publicado em março de 1986, situa os eventos na Terra Crossover, realidade divergente onde as personagens de ambas as editoras coexistem. Posteriormente, a Marvel designaria essa mesma realidade de Terra - 7642;
*O satélite devoluto que, na história, serve de esconderijo à dupla Luthor / Octopus pertencera outrora ao Gangue da Injustiça. Conceito desenvolvido em 1974 por Len Wein e Dick Dillin, tratava-se de uma organização criminosa muito ativa durante a Idade de Bronze, e que tinha na Liga da Justiça a sua principal adversária. Sucessivamente desmantelada e reconfigurada, dela fizeram parte arquiduques do crime, como o Joker ou próprio Luthor, além de um apreciável rol de vilões menores, nomeadamente o Ladrão das Sombras ou o Capitão Bumerangue;
*À boleia do sucesso de Superman versus The Amazing Spider-Man, a Marvel e DC promoveram múltiplas sinergias até ao início deste século. Um longo e prolífico ciclo de cooperação editorial encerrado com chave de ouro, em 2003, com o magnífico JLA/Avengers. E que teve o seu ponto mais alto em 1996, com o lançamento da Amalgam Comics. Sob o selo desta editora gerida conjuntamente pela Marvel e pela DC foram publicados vários volumes especiais estrelados por personagens amalgamadas, como o Super-Soldado (mescla do Super-Homem com o Capitão América) ou o Garra das Trevas (resultado da fusão de Batman e Wolverine).

Cover
JLA/Avengers, o último crossover Marvel /DC.

Vale a pena ler?

Obra capital na história da 9ª Arte, Super-Homem versus Homem-Aranha temperou com a sua mística o imaginário de toda uma geração e ocupa um lugar muito especial na memória afetiva dos leitores da velha guarda. Em particular daqueles que tiveram o privilégio de lê-la no formato original, dada a sua abordagem cinematográfica.
A despeito das suas especificidades, "A batalha do século" é uma típica narrativa da Idade de Bronze: simples, eficaz e um pungente apelo à suspensão da descrença. Com a dinâmica dos seus protagonistas a ser alimentada pela nobreza ostensiva do Homem de Aço e pelo sentido de humor do Cabeça de Teia. Os dois representam também duas eras diferentes. O primeiro dos super-heróis, o Super-Homem é um símbolo da Idade de Ouro da banda desenhada, ao passo que o Homem-Aranha, surgido na Idade de Prata, é o maior ícone desse período histórico. O confronto entre ambos metaforiza, no fundo, o sempre latente conflito entre o velho e o novo.
Ver Luthor e o Dr. Octopus nos seus uniformes clássicos e isentos dos enfadonhos psicodramas que marcam as histórias atuais  - as mais das vezes, eivadas de relativismo moral - é um salutar lembrete de tempos menos insalubres, em que heróis e vilões não se confundiam.
Além de um divertido exercício de escapismo, Superman versus Homem-Aranha definiu ainda os preceitos para futuros crossovers. Cuja fórmula, salvo honrosas exceções, consiste ainda hoje em fazer os heróis medirem forças entre si antes de as unirem para enfrentar um inimigo comum. Exemplo que deveria ser presentemente seguido pelas editoras que produziram este clássico e que têm no cancerígeno sectarismo dos seus fãs uma das maiores ameaças ao seu futuro. Mas talvez as respostas aos problemas atuais possam ser encontradas no passado. Afinal, este não tem de ser apenas o refúgio espiritual de nostálgicos desencantados com o desvirtuamento dos seus ídolos de infância.




sábado, 9 de março de 2019

GALERIA DE VILÃS: MÍSTICA


  Terrorista sanguinária ou combatente da liberdade? Rebelde com causa ou fanática sem coração? Num mundo pintado a preto e branco mas repleto de zonas cinzentas, a mutante das mil caras é tudo isso e muito mais. Ou não fossem as suas motivações tão camaleónicas quanto a sua aparência.

Denominação original: Mystique
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Dave Cockrum (conceito), Chris Claremont (história) e Jim Mooney (arte)
Estreia: Ms. Marvel nº16 (abril de 1978)
Identidade civil: Raven Darkholme 
Espécie: Homo Superior (nomenclatura científica para a subespécie humana com poderes inatos, vulgarmente conhecida como mutantes)
Local de nascimento: Presumivelmente, algures na Áustria
Parentes conhecidos: Barão Christian Wagner (marido, falecido), Ralph Brickman (marido, falecido), Charles Xavier (marido), Irene Adler / Sina (companheira, falecida), Graydon Creed (filho, falecido),  Kurt Wagner / Noturno (filho), Gloria Brickman (filha) e Anna Marie / Vampira (filha adotiva)
Ocupação: Terrorista internacional, mercenária, aventureira e ex-agente secreta ao serviço dos governos norte-americano e germânico.
Base operacional: À natureza clandestina das suas atividades está associada a itinerância. Nunca permanecendo muito tempo no mesmo local, já esteve sediada em latitudes e longitudes  tão diversas como a Terra Selvagem, Washington D.C. ou a ilha de Alcatraz, ao largo da baía de São Francisco. 
Afiliações: Ex-líder da Irmandade de Mutantes e da Força Federal, ex-membro do X-Factor, do Tentáculo e do Departamento de Defesa dos EUA, aderiu recentemente ao Clube do Inferno, embora prefira agir por conta própria.
Némesis: X-Men e qualquer inimigo declarado da raça mutante
Poderes e parafernália: Mutante metamórfica, Mística detém a incrível habilidade de induzir psionicamente a reconfiguração das suas células biológicas. Consequentemente, consegue imitar na perfeição a aparência de qualquer ser humano ou humanoide, ao ponto de replicar com precisão retinas, padrões vocais e impressões digitais. Expediente que lhe permite, entre outras coisas, ludibriar eficazmente sistemas de segurança baseados no reconhecimento dessas características únicas de cada indivíduo.
As suas transformações fisionómicas não se restringem, todavia, a matrizes orgânicas. Mística possui a não menos assombrosa capacidade de reproduzir peças de vestuário e outro tipo de acessórios fabricados a partir de diferentes materiais, como óculos, brincos ou carteiras. Uma vez que os seus poderes lhe permitem criar a indumentária mais adequada às circunstâncias, Mística nunca veste roupa verdadeira - o mesmo é dizer que, tecnicamente, anda sempre desnuda.
Apesar da provecta idade (especula-se que terá nascido há mais de um século), Mística conserva um aspeto jovem. O segredo reside no facto de os seus poderes retardarem os efeitos degenerativos do envelhecimento celular, expandindo-lhe desse modo a longevidade. Para a qual muito contribui também a sua imunidade a um amplo espectro de toxinas e venenos desenvolvida sempre que é exposta a substâncias desse tipo.
O aprimoramento dos poderes de Mística decorreu da sua exposição a níveis perigosos de radiação quando tentava salvar Sapo, seu colega de equipa na Irmandade de Mutantes. Graças às novas propriedades regenerativas adquiridas no processo, a vilã consegue agora cicatrizar muito mais depressa do que um ser humano normal, sendo também menos suscetível a doenças e infeções. O seu fator de cura não é , porém, comparável ao de outros mutantes, nomeadamente ao de Wolverine.
Ainda mais extraordinária é a sua capacidade de mudar de posição os seus órgãos vitais, por forma a sobreviver a disparos, esfaqueamentos e outros ataques potencialmente fatais. Em razão disso, a mente de Mística é virtualmente inexpugnável a intrusões telepáticas. Nem mesmo o Professor X consegue capturar-lhe a mente, ou sequer ler-lhe os pensamentos.

Bela e perigosa,
Mística é uma assassina de classe mundial.
Especialista em operações de infiltração e sabotagem, Mística possui notáveis dotes de representação, domina como poucos as tecnologias de informação e é fluente em, pelo menos, onze línguas, entre as quais o português. É também uma brilhante estrategista e as suas competências em combate desarmado ombreiam com as da Viúva Negra.
Após quase um século a fazer-se passar por outras pessoas, Mística desenvolveu a peculiar capacidade de detetar disfarces através da leitura da linguagem corporal de quem os usa. Aprendeu também a camuflar o seu odor corporal, o que a torna irrastreável tanto para cães pisteiros como para detentores de sentidos aguçados, como Wolverine ou Dentes-de-Sabre.
Sempre que a missão o justifica, Mística utiliza um arsenal diversificado, dando primazia às armas de fogo, visto tratar-se de uma atiradora exímia. Por vezes faz-se transportar num sofisticado avião equipado com a mais avançada tecnologia furtiva e dispõe de dezenas de esconderijos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Recursos financiados pela colossal fortuna de B. Byron Biggs, um dos seus incontáveis alter egos.
Conotada com dezenas de atentados terroristas um pouco por todo o mundo e com um número indeterminado de assassinatos no currículo, Mística foi em tempos descrita por Nick Fury, ex-diretor da SHIELD, como uma ameaça à segurança internacional e uma das mulheres mais perigosas do planeta. Reputação perfeitamente merecida e que muito diverte a mutante das mil caras.

Fraquezas: Originalmente, Mística conseguia apenas imitar a aparência de outros seres humanos, não conseguindo, porém, editar o seu próprio código genético. Em virtude dessa condicionante, continua a ser-lhe de todo impossível adquirir eventuais poderes ou habilidades das pessoas em quem se transforma. Ao mimetizar, por exemplo, o seu filho Noturno, Mística não pode teleportar-se. Do mesmo modo que, antes de ter os seus poderes aprimorados, revertia à sua verdadeira forma se inconsciente.
Outra limitação aos formidáveis poderes de Mística decorre da sua incapacidade de reajustar a própria massa corporal. Qualquer transformação em pessoas de maior estatura física requer da sua parte um enorme esforço. Quanto maior for a diferença de peso e de altura em relação ao indivíduo replicado maior será a dificuldade de Mística em manter a forma assumida.
Por outro lado, as constantes alterações fisionómicas de Mística afetam subtilmente o seu tecido cerebral sob a forma de esquizofrenia. Distúrbio mental que imprime volatilidade à sua personalidade, tornando-a imprevisível e, por vezes, errática na sua tomada de decisões.

Raven Darkholme turns into Mystique
Camaleão humano.
Rapsódia azul

Principalmente como antagonista - embora, também, como ocasional aliada -, Mística é uma velha conhecida dos X-Men. Foi, no entanto, nas histórias de uma outra ilustre moradora da Casa das Ideias que fez a sua estreia.
Tudo começou quando o artista Dave Cockrum mostrou a Chris Claremont - com quem trabalhara em Uncanny X-Men - os esboços da sua nova personagem: uma escultural transmorfa de pele azulada. Claremont batizou-a de Mística e, com o beneplácito do colega, introduziu-a como vilã da Miss Marvel (Carol Danvers, atualmente conhecida como Capitã Marvel). Com Mística a apresentar as suas credenciais  em Ms. Marvel nº16, edição datada de maio de 1978.
No entanto, nesta sua primeira aparição, Mística não exibia a sua verdadeira forma, uma vez que operava sob disfarce. Isso só aconteceria dois meses depois, em Ms. Marvel nº18, com ambas as histórias a serem desenhadas por Jim Mooney, que  acabou assim creditado como coautor da personagem.
Nos seus primórdios, Mística nutria um profundo rancor pela Miss Marvel, pese embora a origem desse sentimento não tenha sido devidamente explicitada. A série da heroína foi cancelada antes que as reais motivações da sua inimiga fossem conhecidas.
Chris Claremont revelaria mais tarde que a ideia era ligar Miss Marvel a uma perturbadora visão de Sina (mutante precognitiva íntima de Mística) em relação ao futuro. Um futuro no qual a heroína causaria grande sofrimento a Vampira, a filha adotiva de Mística. Levando dessa forma a vilã a procurar por todos os meios impedir a concretização da profecia.

Ms. Marvel Vol 1 16
Foi nesta edição de Ms. Marvel
  
que Mística fez a sua estreia.


Mística revela enfim a sua verdadeira forma
 mas não as razões do seu ódio pela Miss Marvel. 

Ironicamente, as ações de Mística tiveram como consequência, anos mais tarde,  a absorção dos poderes da Miss Marvel por parte de Vampira. O que, efetivamente, causou grande sofrimento emocional à jovem e ditaria o afastamento de mãe e filha. Com ambas a demonstrarem desde então sentimentos contraditórios em relação uma à outra.
Claremont revelaria ainda que pretendia estabelecer Mística e Sina como pais biológicos do X-Man Noturno (com a primeira a transformar-se em homem para o ato de conceção). Proposta prontamente vetada pela Marvel, ao abrigo do rígido regulamento moral imposto pela Comics Code Authority. Que, entre outros constrangimentos, à época proibia o uso de personagens declaradamente homossexuais ou bissexuais. Por conseguinte, só muito tempo depois Mística passaria a ser explicitamente retratada como fazendo parte desta segunda categoria, vivendo maritalmente com Sina até à morte desta.
Mas quem é, afinal, Raven Darkholme, essa rapsódia em tons de azul que adotou Mística como nome de guerra?
Apesar dos vários exercícios de continuidade retroativa realizados ao longo dos anos, o passado de Mística permanece envolto na obscuridade, fazendo dela um enigma tão fascinante quanto indecifrável.
Uma vez que não é conhecida a sua filiação, ignora-se se Mística terá sido concebida por humanos, mutantes ou uma mistura de ambos. Outra incógnita é a sua data de nascimento, embora se presuma que terá vindo ao mundo cerca de cem anos atrás - provavelmente, numa qualquer localidade austríaca. Nada se sabe também acerca da sua infância, exceto que os seus poderes terão despontado por volta dos doze anos de idade.
Numa das suas primeiras missões sob disfarce no estrangeiro, no auge da Guerra Fria, Mística teve um brevíssimo affair com Victor Creed, o assassino mutante conhecido como Dentes-de-Sabre. Uma relação que teria sido inconsequente para ambos se dela não tivesse resultado um filho. Para perplexidade e desgosto de Mística, o seu bebé nasceu humano. O que a levou a dá-lo para adoção tão logo se restabeleceu do parto. O nome do menino era Graydon Creed.
Ao descobrir a verdade sobre o seu passado, Graydon passou a odiar os mutantes. Já adulto, lançaria uma feroz campanha política contra eles antes de ser assassinado por uma versão futura da própria mãe.
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Graydon Creed num comício antimutante.
Antes desses eventos, Mística foi casada com o Barão Christian Wagner, um influente membro da aristocracia germânica, e daria à luz um segundo filho. Kurt Wagner foi fruto da relação extraconjugal mantida pela sua mãe com o demónio Azazel, tendo por isso nascido com a aparência de um demónio de olhos amarelos e pele azulada. Prestes a ser linchada pelos aldeões, e já depois de ter assassinado o marido na vã tentativa de encobrir a sua infidelidade, Mística atirou o bebé ao rio. O pequeno Kurt seria, no entanto, resgatado por uma cigana que o perfilharia. Só muitos anos mais tarde ficaria a conhecer a identidade da sua verdadeira mãe, com quem continua a manter uma relação distante.
Ao lado de Sina, o grande amor da sua vida, Mística encontraria relativa estabilidade emocional, sem nunca renunciar à sua luta pela libertação dos mutantes, que considerava oprimidos pela Humanidade. Do desejo da parelha de constituir família resultou a adoção de Vampira, uma jovem proscrita nascida com a habilidade de absorver poderes e memórias alheios.
Foi também nessa fase da sua vida que Mística fundou e liderou a terceira encarnação da Irmandade de Mutantes, organização terrorista que se batia pela supremacia dos Homo Superior. Após o atentado falhado contra o Senador Robert Kelly orquestrado pelo grupo, o sentimento antimutante exacerbou-se ainda mais entre a população humana. Levando o Governo norte-americano a criar uma força-tarefa especial para dar caça a mutantes fora da lei.
Temendo pela vida, Mística e alguns dos seus apaniguados da Irmandade de Mutantes aceitaram integrar a Força Federal (Freedom Force, no original), a troco de um indulto presidencial para os seus muitos crimes passados. Quando a Força Federal foi dissolvida e substituída pelo X-Factor, Mística colaborou brevemente com o grupo.
Mas depressa voltaria a trilhar o seu próprio caminho. Sempre com os inimigos da sua espécie na mira e com uma guerra racial no horizonte.  Uma guerra que estava convicta que poderia apenas ter como desfecho a vitória dos Homo Superior. Mas que também em vários momentos ajudou a evitar. Chegando assim ao presente enleada nas agrugras e doçuras desse infindável túnel de contradições que é a sua vida.

Mystique in Uncanny X-Men
Mística à frente da sua Irmandade de Mutantes, da qual também fazia parte Sina,
 sua amante e companheira de longa data.
Miscelânea

*Diferente do que vem sendo mostrado no cinema (e, também, em algumas séries animadas dos X-Men), Mística não é o braço-direito de Magneto na Irmandade de Mutantes. Na banda desenhada rareiam, com efeito, os encontros entre ambos, conhecendo-se por isso apenas de raspão. Acresce ainda o facto de Mística ser dona de uma personalidade muito forte e independente, nada compatível com funções subalternas;
*Mística não suporta a própria aparência, pelo que evita sempre observar o seu reflexo no espelho. Assume, porém, com alguma frequência a sua verdadeira forma antes de iniciar duelos. Presume-se que este subterfúgio objetivará surpreender e confundir os seus adversários;
*Apesar de não lhe agradar tirar a vida a outros membros da sua espécie, fá-lo-á sem pestanejar se os considerar irremediavelmente perdidos para a causa mutante ou se estiverem a trabalhar para o inimigo;
*Desconhecendo-se a sua exata data de nascimento, supõe-se que Mística terá vindo ao mundo em setembro de um qualquer ano no dealbar do século XX. Quando, certa vez, foi presenteada com um colar de safiras (pedra preciosa tradicionalmente associada a quem nasce em setembro), Mística perguntou ao seu benfeitor como sabia o seu mês de nascimento;
*Num exercício de continuidade retroativa influenciado pela proximidade existente entre as versões cinematográficas das duas personagens, num passado recente o escritor Brian Michael Bendis alterou drasticamente a relação entre Mística e o Professor Xavier no universo canónico dos X-Men. Algum tempo após a morte do seu mentor, os Filhos do Átomo ficaram em choque com a última vontade inscrita no testamento de Xavier: que todo o seu património revertesse a favor da sua esposa (ninguém menos do que Mística). Um casamento de que nenhum dos cônjuges teria, aparentemente, conhecimento, e que terá resultado da ação de um misterioso viajante do tempo;
*Reflexo da notoriedade alcançada por via da sua participação na franquia cinematográfica dos X-Men iniciada na viragem do século, desde 2009 que Mística ocupa a 18ª posição na lista dos cem melhores vilões de todos os tempos organizada pelo site IGN. À frente, por exemplo, de grandes expoentes de malignidade como Thanos (também da Marvel) ou General Zod, da rival DC. Mística é também considerada uma das personagens femininas mais sensuais dos quadradinhos, o que explica em boa medida o seu sucesso dentro e fora deles.

Mutante das mil caras.

Noutros media

Fora dos quadradinhos, Mística começou por ser antagonista recorrente dos pupilos do Professor Xavier em X-Men: Animated Series, no ar entre 1992 e 1997. Nesta sua primeira versão animada, a vilã comandava a Irmandade de Mutantes e agia frequentemente em conluio com o Senhor Sinistro, Magneto e Apocalipse. Caracterização que conheceria ligeiras nuances em produções subsequentes. Em Wolverine and the X-Men, por exemplo, Mística mantinha um relacionamento amoroso com Logan ao mesmo tempo que conspirava com o Mestre do Magnetismo contra a Humanidade.

Mística em X-Men: Animated Series.
No cinema, Mística foi originalmente interpretada pela ex-modelo Rebecca Romijn na primeira trilogia dos X-Men produzida entre 2000 e 2006. Após o reboot da franquia, desde 2011 que uma sua versão mais jovem vem sendo representada pela oscarizada Jennifer Lawrence. Com a particularidade de a personagem ser agora retratada mais como uma anti-heroína do que como uma vilã.
Apesar da sua versatilidade, o  futuro de Mística  no grande ecrã é incerto, dado o cansaço já manifestado por Lawrence relativamente às exigências do papel, designadamente as longas horas despendidas com a respetiva caracterização.
Mesmo que venha a confirmar-se a saída de Jennifer Lawrence, isso em nada comprometeria a participação de Mística numa franquia onde vem sendo figura-chave. Dada a multiplicidade de formas assumidas pela mutante das mil caras, qualquer outra atriz poderia ser escalada para o papel. Certo é que Mística regressará ao grande ecrã já no próximo mês de junho, quando Dark Phoenix chegar às salas de cinema norte-americanas.
Imagem relacionada
Jennifer Lawrence (esq.) e Rebecca Romijn encarnaram Mística no cinema.