sábado, 18 de maio de 2019

"Na rua das Lojas Escuras" de Patrick Modiano

Excerto
"na vida, não é o futuro que conta, mas o passado."

Acabei de ler "Na rua das Lojas Escuras" do francês vencedor do prémio Nobel da literatura de 2014 e tal como referido na justificação do galardão, é mais uma obra sobre a busca de memórias do tempo da ocupação nazi em França para conhecimento da identidade e das origens do protagonista tal como o anterior que lera. Este romance também ganhou o prémio literário Goncourt em 1978.
Guy Roland foi acolhido por um detetive que o encontrou sem ele se recordar de quem era, passou uma década a trabalhar escritório dele sem nunca descobrir o seu passado, mas o patrão reforma-se e recomeça a busca, encontra duas pessoas que associam o seu rosto a um grupo noctívago em Paris do tempo da ocupação nazi. Aos poucos e a partir de fotografias que lhe mostram daquela época Guy pensa reconhecer-se vai seguindo as pistas e as pessoas relacionadas, umas morreram, outros foram mortos e alguns desapareceram sem rasto. Terá sido Howard da Luz relacionado com um ator e uma bela russa? Talvez McEvoy que trabalhava num consulado sul americano e usaria um nome falso? Seria então antes Steer ou Jimmy? Quem são aqueles que lhe parecem de carreiras duvidosas em torno daquele grupo. Aos poucos surgem-lhe memórias em espaços onde sente já ter morado. Quem é aquela mulher Denise com quem tudo aponta ter vivido e alguns o reconhecem como o companheiro? O que se passou na fronteira com ele e ela?
A reconstituição da memória e da identidade do protagonista numa pesquisa através de fotos antigas, excertos de textos, notícias, testemunhos e endereços da sua investigação vão montando a vida de um grupo de pessoas com várias origens numa Paris sitiada pelo nazismo, onde muitos viviam sobre um disfarce em que ele estava incluído.
Na narrativa vai perpassando a neblina que ofusca a montagem desta auto-identidade, cruzando pistas falsas e verdadeiras, questões que mantêm o suspense. Um romance que não deslumbra mas agrada, embora haja obras-primas que por si só me parecem justificar um Nobel, esta não me parece ser o caso, contudo gostei e é um bom pequeno romance.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

"MACBETH" - William Shakespeare



Excertos
"Melhor estar morto com quem, p'ra nossa paz, nós despachámos, do que viver em roda-viva a vida que não nos dá descanso."
"As coisas más reforçam-se no mal"

Acabei de ler mais uma peça de teatro escrita pelo inglês Shakespeare: "MacBeth", já conhecia a trama desta obra através da sua adaptação por Verdi de uma ópera com o mesmo nome. Apesar do enredo estar muito bem aproveitado, o original tem sempre uma outra densidade.
Neste livro o texto foi traduzido para uma representação no teatro nacional de São João no Porto, é assumido que se procurou, dentro do possível, respeitar a forma de verso e a métrica original. No estilo notei um certo compromisso entre o modo de expressão dramático antigo e a linguagem contemporânea, não conheço a versão em inglês para me pronunciar da qualidade tradução, mas gostei da escrita adotada.
Na trama, com envolvimento do fantástico medieval,  Macbeth é um aliado do rei da Escócia que após uma luta vitoriosa junto com Banquo contra nórdicos se cruzam com bruxas que emitem oráculos sobre a ascensão a rei do primeiro e da descendência real do segundo. Este anúncio alimenta a ambição do protagonista que é reforçada pela pressão da esposa e enquanto o soberano o enche de honrarias na cada dele, ele, na ânsia do seu fado, comete regicídio idealizado por Lady Macbeth, seguido de outros crimes que os levam ao trono. A partir de então nasce o receio da vingança e o remorso no casal pelo sangue derramado. Ela com pesadelos de culpa e ele a assombrações das vítimas, na busca de soluções as bruxas vaticinam de forma dúbia a sua derrota e identificam os rivais. O usurpador monta ciladas e guerras mas estas apenas conduzem ao cumprimento do destino traçado pela justiça.
Não sendo um trama sobre ciências ocultas, estas desempenham um papel no enredo que vai no sentido apontar que o mal só conduz à infelicidade onde a justiça no fim triunfa sob o peso na consciência do remorso e do arrependimento dos culpados não havendo fuga a tal destino Divino.
Embora a estória seja simples, o recurso à retórica antiga com regras poéticas rígidas criam alguma complexidade à compreensão do texto que é compensada pelo ritmo acelerado dos acontecimentos, uma obra pouco extensa e pela mensagem moral que atravessa toda a narrativa, alimentando o suspense da leitura desta tragédia medieval ao estilo do grande mestre dramático que é Shakespeare. Gostei muito.


sábado, 11 de maio de 2019

"O Mistério do Quarto Amarelo" de Gaston Leroux


Acabei de ler o romance policial "O Mistério do Quarto Amarelo" do francês Gaston Leroux autor da famosa obra "O fantasma da ópera" que serviu de base a um dos maiores sucessos mundiais do género dramático musical.
Quando optei por comprar esta obra, junto com outra do mesmo tipo, esteve na base não só o desejo de minha mãe em ler um romance policial, como também o facto de na minha adolescência ter sido este o género que me manteve preso à leitura, precisamente através desta coleção de livros de bolso e baratos cujas obras agora voltaram a ser reeditadas ao fim de várias décadas e nas mesmas condições. É verdade que o meu gosto de ler depois amadureceu para outros estilos e formas mais complexas, profundas e com maior exigência no reconhecimento do respetivo valor literário por agentes culturais. Foi então um revisitar o tipo de obras da juventude e apesar de já não ler de forma igual ao passado, pelo que a análise do texto e as técnicas da narrativa merecem-me agora uma posição crítica bem diferente e já não aprecio de forma igual certos malabarismos, mesmo assim foi agradável esta leitura de entretenimento fácil e um tipo de experiência que penso repetir.
O Mistério do Quarto Amarelo, enquadra-se naquele estilo de obra onde uma tentativa de crime ocorre num espaço fechado que torna inexplicável a fuga do culpado e onde todas as testemunhas podem ser suspeitas do ato, até que um génio na resolução de enigmas vai recolhendo pistas em paralelo com os investigadores oficiais, a recolha de provas e a ocorrência de outros acontecimentos que parecem fisicamente impossíveis, junto com a capacidade de observação metódica do protagonista leva a que este consiga não só reconstituir toda as situações, como ilibar inocentes acusados pela justiça seguidora dos métodos tradicionais.
Um texto simples, com uma sequência empolgante e momentos de suspense, com uma escrita escorreita numa trama agradável para o género em que se enquadra e bem estruturada e por isso considerado por muitos como um clássico da literatura policial do início do século XX, com referências assumidas a Conan Doyle e a Edgar Poe. Gostei.

domingo, 5 de maio de 2019

"Coração Impaciente" de Stefan Zweig


Excertos
"muitas vezes, a coragem não é mais que o disfarce da fraqueza."
"a piedade é espada terrível, espada de dois gumes; quem não sabe manobrar essa espada o melhor é não lhe pôr as mãos."
"vale sempre a pena aceitarmos qualquer coisa de muito pesado, muito difícil para tornarmos a vida mais leve a um outro ser."

Acabei de ler o único romance do austríaco Stefan Zweig "Coração Impaciente", escritor de várias biografias de personalidades históricas e de numerosos contos e novelas onde ele por norma explora a força dos sentimentos humanos até à exaustão paroxismal que conduzem à destruição ou ao sacrifício extremo das pessoas. Esta obra é um exemplo perfeito, embora mais extensa, deste último género, onde demonstra que a piedade é de uma exigência máxima para o seu detentor, caso contrário, é mera cobardia e pode provocar uma agressão máxima ao alvo desse sentimento.
Zweig neste romance usa a sua técnica habitual em contos e novelas, a partir do conhecimento de uma situação ou personagem intrigante, o narrador conta a revelação que lhe foi contada de um caso onde um sentimento ou um comportamento levou ao desenlace extremo e onde o confidente se sente culpado das consequências dessa situação.
Em Coração Impaciente e comunicada ao narrador a valentia e heroicidade de um militar presente num restaurante onde o visado nota que está a ser alvo da conversa, só que este mais tarde cruza-se com ele e confidencia-lhe como a sua medalha de valentia na 1.ª grande guerra o envergonha, pois resultou de uma fuga a uma série trágica de cobardias onde a consequências da sua irresponsabilidade de após um jantar, em casa de um recém-conhecido muito rico e rejeitado em sociedade, ter convidado a filha do anfitrião para dançar por não ter percebido que a mesma era paraplégica. Este incidente desencadeará nele uma compaixão para com a vítima que o levará uma série de ações em cadeia e a despertar sentimentos na doente, sendo ele devidamente avisado pelo médico da paralítica que a piedade é um sentimento que exige sacrifício extremo do seu autor, sendo o próprio doutor um exemplo de escândalo social por ter sido capaz de assumir todas as obrigações que a piedade cobra, precisamente onde o tenente sabe que falhou por medo.
Apesar de uma trama densa e trágica, a leitura é muito fácil devido à elegante e excelente escrita de Zweig, onde o pormenor das obrigações de cada um pelos sentimentos assumidos individualmente, cruzados com as descrições das relações sociais e comportamentos coletivos e pessoais, tanto em meio civil como militar, quer na perspetiva médica como psicológica, visão de doente, familiares, amigos e estranhos são tecidos com tal mestria cuja macieza no prazer de ler cobre a dureza dos aspetos focados no romance, o que o torna numa obra-prima literária. Gostei muitíssimo


sábado, 27 de abril de 2019

"A minha prima Rachel" de Daphne du Maurier


"A minha prima Rachel" da inglesa Daphne du Maurier é o típico romance mistério, bem adaptável ao cinema, literariamente muito bem escrito que deseja fornecer ao leitor uma obra de lazer, despretensiosa e sem cair na vulgaridade do livro de cordel de suspense.
Phillip foi desde tenra infância órfão e criado pelo seu primo Ambrose, um grande proprietário rural, entre os dois desenvolveu-se uma relação pai-filho que o tornou não só herdeiro natural e um admirador do seu protetor. Quando ele chega a adulto, Ambrose, por razões de saúde, vai passar o inverno em Florença, aí conhece a prima Rachel, apaixona-se, casa-se, pouco depois adoece e morre sem alterar o seu testamento de solteiro, mas antes enviara uma carta ao seu protegido com a suspeita de a sua esposa o estar a matar por dinheiro. Algum tempo após este falecimento, Rachel vem a Inglaterra conhecer as propriedades do marido e o primo, quando este já a odeia e a responsabiliza da morte de Ambrose, mas este ódio transforma-se ao recebê-la em sua casa. Quem é esta mulher? Uma virtuosa que amou o marido ou uma impostora que vem tentar alcançar o que deveria ter herdado? A situação mantém-se dúbia, com reviravoltas até Phillip a conhecer plenamente na última página da trama.
Excelentemente escrito, com uma tensão permanente, com retratos do estilo de vida senhorial rural na Cornualha no século XIX, é um romance, como outras desta escritora, simpático que dá gozo ler e feito para dar prazer. Gostei


terça-feira, 23 de abril de 2019

23 de abril - Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

Todos anos este blogue celebra o Dia Mundial do Livro com a listagem das minhas leituras preferidas em várias categorias decorridas ao longo de um ano iniciado nesta dia comemorativo, assim para os últimos 12 meses os eleitos foram:

Melhor livro de ficção Portuguesa
Gonçalo M. Tavares continua a ser o escritor contemporâneo de Portugal que mais admiro e este romance, que já tem alguns ano,s é para mim mais uma maravilha, falei dele aqui.

Melhor livro de ficção Canadiana

Li-o em inglês "Hag-Seed", mas encontra-se traduzido como Semente de Bruxa, foi a primeira leitura a concluir deste ano literário, um romance que é uma versão moderna de "A Tempestade" de Shakespeare em torno de uma representação desta peça, um jogo de espelhos, falei do livro aqui.

Melhor livro de ficção de expressão lusófona
Não foi uma decisão fácil, tinha dúvidas entre várias opções, este é um livro já com algumas décadas, falar dos sonhos e desilusões sobre a descolonização de Angola e a realidade após a independência, olhando para dentro do País, mas é uma lição de história e uma obra de compreensão e reflexão sobre este Povo e talvez represente um Estado que passou a ser diferente com o atual Presidente da República, mais pormenores aqui.

Melhor livro de ficção escrito em língua estrangeira
Literariamente talvez tenha lido textos mais ricos e não estava muito convencido sobre a obra antes de a ler, mas depois este livro tocou-me profundamente e foi por esta surpresa positiva que foi o escolhido, a resenha do seu conteúdo aqui.

Melhor clássico de literatura Mundial
Será a maior peça de teatro da história de arte dramática? Não sei. Um livro excelentemente traduzido mas acompanhado do texto original. Resenha aqui

Melhor ensaio
Um ensaio que assume que o homem pelo seu engenho assumiu o papel que atribuía a Deus ou aos deuses, só que isto em vez de garantir uma humanidade mais segura pode ser a sua maior ameaça de destruição. Excelente tema de reflexão, li-o em inglês, mas está traduzido em papel. Resenha aqui.


terça-feira, 16 de abril de 2019

"Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco

Regressei à literatura portuguesa com "Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco e escrito no início do último quartel do século XIX.
A obra é uma paródia sobre o estilo de vida provinciano rural, com padres devassos, homens e mulheres promíscuos que vivem na hipocrisia e má-língua dos pecados alheios mas que por conveniência financeira são capazes de aceitar uma vida dentro das regras morais.
Eusébio tem uma farmácia e um casal de filhos é amigo do abade que tem uma amante, o regresso do Brasil do irmão desta, após longe ter feito fortuna, irá levar a uma revolução na vida desta comunidade, onde a moral e os bons costumes são chaves de beneficiar deste filho retornado à terra que por sua vez está ávido de reconhecimento social público.
Camilo que está à época em conflito com as novas ideias literárias procura nesta paródia reagir aos seus adversários, pelo que satiriza o realismo escrevendo com muita adjetivação e com uma riqueza lexical enorme, sendo que em tal excesso de palavras muitas destas caíram em desuso ou são regionalismos, pelo que nos parecem estranhas, embora no contexto se perceba. Nesta novela o contraste com o seu contemporâneo Eça de Queirós torna-se flagrante no modo de parodiar os problemas nacionais, ambos génios no domínio da língua, só que com estilos bem diferentes e o autor de Os Maias é de uma elegância ímpar.
Igualmente o escritor aproveita para explicar alguns comportamentos e expressões que caracterizam a sociedade da sua época cheia de vícios privados mas defensora de virtudes públicas e para falar de alguns reviravoltas políticas no conturbado período que se seguiu à luta entre absolutistas e liberais defensores do regime Constitucional. 


sábado, 13 de abril de 2019

"Três homens num barco" de Jerome K. Jerome

Acabei de ler o livro "Três homens num barco" do inglês Jerome K. Jerome, o romance narra os preparativos e a subida de três jovens e o cão do autor ao longo do Tamisa a partir de Londres, transformando-se assim num livro de viagem contado cheio de humor cavalheiresco britânico do final do século XIX.
Um texto muito fácil, com um teor juvenil e pleno de humor, embora muitas vezes as aventuras sejam contadas com um tom hiperbólico que talvez não pareça muito conveniente no século XXI. Pelo meio existem descrições da paisagem, das estruturas no rio, povoações e da personalidade dos protagonistas o que cria um excelente retrato desta zona da Inglaterra naquela altura.
O seu contínuo humor e a facilidade de leitura justificam porque esta obra foi um sucesso desde o início como livro de lazer e divertimento e estímulo dos jovens à leitura. Uma narrativa simpática e agradável.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

E-book "Risco escuro na claridade" de Maiky da Silva



Li o ebook "Risco Escuro na Claridade" do brasileiro Maiky da Silva, um texto em forma epistolar mas onde o autor assume não serem cartas e na minha opinião assemelham-se mais a crónicas sucessivas que vão desenrolando um meada como um risco escuro a caminho da liberdade.
O protagonista, um órfão e acolhido por uma casal familiar que o trata ostensivamente de forma inferior face aos verdadeiros filhos, na sua revolta interna decide assumir o papel de louco e a situação torna-se não só convincente para aqueles com quem convive, como talvez para ele próprio, só que de repente ele passa a ser tratado pior do que um animal enjaulado e da revolta interna e de uma oportunidade surgirá a possibilidade do salto para a claridade.
Escrito como uma memória num desabafo desesperado e introspetivo, o texto desenrola-se num estilo de poesia sob a forma de prosa. Maily da Silva, ainda um jovem que revela grande potencial, escreve um lindíssimo texto onde a negritude da situação não macula a beleza da escrita e levanta imensas questões sobre o comportamento humano. Uma obra que é um grito no escuro que levanta belas ondas à sua volta como o quadro de Edvard Munch. Valeu a pena esta descoberta.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

"As sete mulheres de Barba Azul" de Anatole France

Excerto
"A minha avó dizia que a experiência não serve, na vida, para nada e que permanecemos, no que somos, sempre os mesmos."

O pequeno livro com o conto "As sete mulheres de Barba Azul" do francês Anatole France vencedor do prémio Nobel de 1921. Razão porque despertou curiosidade passar por mais um autor com este galardão.
Neste conto Anatole France inverte o sentido da estória tradicional e em vez de um Barba Azul  mau, sanguinário e assassino em série das suas seis anteriores mulheres, mas descoberto pela curiosidade da sétima, temos aqui um bom e ingénuo nobre que não aprendeu nada com as mulheres que foi tendo e o enganaram sucessivamente e que as foi perdendo por diversas causas inocentemente até à última que lhe prepara a cilada final.
Bem escrito e a narrativa talvez pretenda dizer que a própria humanidade ininterruptamente não se corrige com os seus erros do passado, repetindo-os sem aprender com a história.
O conto pode ferir alguma sensibilidade feminista pelo facto de na trama todas as mulheres serem más, mas penso que não é essa a intenção do escritor e sim a recomendar para as pessoas não cairem sempre nos mesmos erros e não deixa de ser um pequeno e barato livro divertido.

sábado, 6 de abril de 2019

"Uma conjura de Saltimbancos" de Albert Cossery

Excerto
"são precisos ócios para aguçar o sentido crítico e elaborar um ideal."

O escritor Egípcio de escrita francesa Albert Cossery é o autor do elogio literário de vícios como o ócio, a preguiça e do gozo do comodismo social dos mais pobres, com recurso à ironia, sarcasmo e humor. "Uma conjura de Saltimbancos" é já o quinto livro que leio deste escritor e não foge à sua temática típica e estilo de narrativa.
Teymour foi para o estrangeiro movido pelo pai para tirar um curso de Engenheiro Químico, onde levou uma vida de pleno gozo até lhe ser exigido o regresso, preocupado em mostrar a validade do investimento paterno compra um diploma para exibir mas o regresso a sua cidade de província sem divertimentos parece tornar-se numa tortura, até que os seus amigos lhe mostram como é possível gozar a cidade no ócio e sem trabalhar tornando aquela terra uma maravilha para viver como qualquer outra, entretanto o chefe da polícia tem no grupo de jovens os seus espiões e a obsessão de que estes malandros estão a conspirar contra a segurança do Governo, entretanto vários ricos da região desaparecem misteriosamente o que parece suportar a sua teoria de que a coberto da boa-vida e do gozo com mulheres desta juventude perdida se esconde uma conjura.
Um romance divertido numa trama que se desenrola com a lassidão típica de quem leva a vida a aproveitar o dia-a-dia sem nada de útil fazer. Gostei e com uma escrita de fácil leitura


quinta-feira, 4 de abril de 2019

"Ilusões Perdidas" de Honoré Balzac


Excertos
"A avareza começa onde termina a pobreza."
"...onde começa a ambição terminam os bons sentimentos."
"Faz como eu, escreve hipocrisias em troca de dinheiro e sejamos felizes."

Acabei de ler o volumoso romance "Ilusões Perdidas" do francês do século XIX Honoré Balzac. A obra foi inicialmente publicada em três tomos separados em anos sucessivos, criando uma trilogia e aqui reunidas num único livro com mais de 700 páginas.
Balzac estudou a sociedade francesa pormenorizadamente e através de dezenas de romances montou o retrato dos vários tipos de pessoas que compunham o seu povo, criando um conjunto intitulado "A comédia humana". Ilusões perdidas faz parte desta coletânea. Aqui se mostra o poeta provinciano sonhador cujo sucesso o tornam ambicioso e o luxo de Paris o cega da manha hipócrita da alta sociedade decadente e imoral da capital, enquanto familiares, trabalhadores e honestos, se sacrificam até à miséria na terra de origem, mas onde os mesmos males, embora de forma mais simples, também minam todas as relações sociais e criam as suas vítimas.
A primeira parte decorre na cidade do sudeste de França: Angoulême, David filho de um tipógrafo, é um sentimentalista inventor sem aptidão para o negócio que fica com a empresa do seu pais egoísta, avarento e explorador do seu herdeiro. O jovem mantém uma amizade com Lucien, pobre mas descendente de nobreza pelo lado da mãe, este sente-se  poeta e tenta subir socialmente fazendo uso da sua beleza perante uma das principais damas casadas da cidade. O primeiro casa com a irmã do segundo, Eve,  e o poeta consegue despertar a paixão na madame Bargeton até rebentar o escândalo de adultério e ambos partem para Paris.
A segunda parte é em Paris, onde a necessidades de preservar as aparências sociais leva, de uma forma apressada, a madame afastar-se de Lucien. Este sem rendimentos, apesar de alertado por escritores idealistas honestos e pobres, entra no meio jornalístico onde genialmente usa a pena como crítico literário e de teatro ao sabor dos seus interesses pessoais e políticos, desvalorizando obras-primas, inclusive de amigos, arranja uma atriz como amante, endivida-se para exibir luxo face à mulher que o abandonou, entra em conflito com ela através dos seus artigos e esta arma um estratagema de vingança em que o poeta ingénuo e provinciano cai em desgraça e na miséria.
Na terceira parte regressamos à cidade inicial, onde David luta pela sobrevivência da tipografia perante um concorrente desleal e oportunista, mas gere mal o negócio ao se dedicar à sua invenção de novos tipos de papel até que também lhe caem nas mãos as dívidas do cunhado feitas na capital. Eve tenta gerir a situação, mas tanto em Paris como na província, a maldade não ajuda os bem intencionados  trabalhadores e a Lei favorece os aristocratas e os ricos usurários e oportunistas. Lucien regressa miserável e a madame volta como mulher do novo Prefeito da cidade e o conflito agrava-se...
Balzac junta à linguagem da literatura clássica do século XIX, partes de descrição prolixas e prosaicas das disfunções da sociedade em França, inclusive os vícios legais e das pessoas, sem omitir o confronto ideológico pós revolução francesa com o regresso da monarquia que cria duas correntes artísticas e jornalísticas, onde teatro, literatura e jornalismo em vez de se enfrentarem com honestidade entre si se destroem sem respeito pelo valor das ideias ou das obras produzidas. Já então os interesses editoriais em conluio com a crítica literária esmagavam grandes artistas e escritores originais enquanto elogiavam obras medíocres tornando-as sucessos imerecidos. Um retrato social por cheio de comentários sobre os problemas da sociedade e dos vícios dos seus personagens que abrem frequentemente pistas para o percurso em que a trama irá seguir.
Um clássico da literatura que é ao mesmo tempo uma lição sobre a realidade do mundo de então, mas que de facto é muito semelhante ao atual, onde a injustiça dos poderosos é a força que move a sociedade.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

domingo, 17 de março de 2019

"A importância de ser Earnest - e outras peças" de Oscar Wilde


Excertos
"Oh, dever é o que nós esperamos dos outros, não é o que nós próprios fazemos."
"Digo-te que há tentações terríveis, às quais para ceder é preciso ter força e coragem. É jogar toda a nossa vida num momento, arriscar tudo numa cartada."
"A verdade é raras vezes pura e nunca é simples."

Um livro com quatro peças de teatro com destaque para aquela que talvez seja a mais famosa do britânico Oscar Wilde: "A importância de ser Earnest", muitas vezes traduzido corretamente em português para "Ernesto", apesar de na nossa língua não carregar no senso comum um significado para além de mero nome próprio de pessoa (curiosamente o meu segundo nome) enquanto em inglês também quer dizer sério, confiança e solene, etc.
As outras peças são: "O leque de Lady Windemere",  "Uma mulher sem importância" e "Um marido ideal" e todas são pouco extensas, divertidas e com críticas implícitas à moral hipócrita, comportamento interesseiro e guerra dos sexos na aristocracia inglesa no final do século XIX em Londres. 
Apesar de os diálogos parecerem meras conversas banais, ocas e preconceituosas numa sociedade de fachada, vai-se construindo uma denúncia e crítica social mordaz cheia de bom humor que faz o retrato de uma elite que vive de bons rendimentos sem trabalho e pronta para a coscuvilhice no convívio social, havendo sempre um final com alguma lição de moral ou de cedência ao bom-senso sem contudo resultar numa mudança de estilo de vida.
Assim, temos quatro peças que são um prazer de leitura e diversão que sem ofender denunciam muito do mal que grassa nas elites sociais que se lê com muito gosto.

domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

sexta-feira, 8 de março de 2019

"A Guerra das Salamandras" de Karel Capek


Excertos
"Não podemos fruir calmamente dos dons da nossa civilização nem dos frutos da nossa cultura enquanto existirem à nossa volta milhões e milhões de seres infelizes e inferiores, mantidos artificialmente num estado animal."

"Terá de ser sempre a natureza a aparar os golpes dos homens? Estás a ver? Nem tu próprio acreditas que eles vão ajudar-se a si próprios! Estás a ver? No fundo gostarias de te fiar que a humanidade vai ser salva por alguém ou alguma coisa!"

Acabei de ler "A Guerra das Salamandras" do checo Karel Capek, uma alegoria e uma sátira divertida e também uma denúncia distópica sobre a via suicida da civilização gananciosa que leva a humanidade à escravidão e à autodestruição. Publicado em plena ascensão do nazismo, este regime é criticado subtil, inteligente e metaforicamente, tal como a estratégia desastrosa e interesseira dos restantes Países Europeus para enfrentar aquela perigosa ideologia. Contudo este romance não perdeu qualquer atualidade e pode-se ver nele as denúncias dos erros do neoliberalismo, os perigos da hipocrisia em democracia e ainda a ameaça de catástrofe ecológica provocada pelo Homem e sua tecnologia no presente. O livro poderia ter sido escrito tal e qual hoje como denúncia dos vícios da globalização no presente.
Toda a estória é alegórica: O comandante Van Toch, um checo da marinha mercante ao serviço da Holanda numa ilha da Indonésia, descobre uma espécie de salamandra desconhecida, consegue relacionar-se com elas e verifica que as mesmas são ótimas caçadoras de pérolas em troca de utensílios, pois têm vocação de construção de estruturas subaquáticas e espírito comercial e social. Van Toch desenvolve então um projeto com o apoio de um capitalista judeu colega de escola para criar um império comercial usando como mão de obra estes animais povoando numerosos recantos do Índico com estes animais. Aos poucos o segredo torna-se público e alvo do interesse de todas os Países que querem adquirir salamandras como mão de obra escrava barata para o meio marinho, dada as suas capacidade laborais e de engenharia, só que estas desenvolvem a capacidade de falar e de aprender a cultura dos homens. A mudança e crescimento da economia global torna-se então gigante e dependente desta espécie que debaixo de água desenvolve secretamente a sua própria nação até se revoltar contra a exploração dos humanos e declarar-lhes guerra para os dominar.
Não é possível classificar o estilo literário de Capek nesta obra, onde há um desfile de escrita criativa: temos textos com estilo escorreito e quase vitoriano; partes que correspondem a excertos de peças jornalísticas, incluindo parangonas de arte gráfica numa linguagem bem distinta; atas de empresas com as suas especificidades; artigos científicos, sobretudo biologia e geologia; capítulos que são puro ensaio filosófico sobre o rumo da humanidade e baseados no comportamento das duas espécies cujo confronto se adivinha; análises sociológicas e sátiras ao modo de ser dos vários povos que não apenas europeus(o português nem é esquecido); etc. construindo assim uma panóplia de géneros e formas com uma imaginação fértil enorme.
Apesar da denúncia do destino sombrio do rumo da humanidade e momentos catastróficos, o bom humor e a ironia atravessam toda a obra, inclusive a intervenção do autor perante conveniência de alcançar um fim digno para o Homem no livro ou não fosse este o verdadeiro protagonista da estória e alvo do alerta e aviso de Karel Capek.
Uma obra genial ao nível de "O admirável mundo novo", "1984" e outras distopias marcantes da história da literatura, mas com a particularidade de não ser deprimente mas sim divertida. Uma obra-prima.
Como curiosidade, outra obra deste autor criou a palavra hoje usada internacionalmente de "robot" e diz-se que não recebeu o prémio Nobel da literatura para não irritar Adolfo Hitler.