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sábado, janeiro 12, 2019

vozes da biblioteca

«Era engenheiro de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Évora, mais para o sul, até S. Domingos; e aquela jornada, em Julho, contrariava-o como uma interrupção, afligia-o como uma injustiça.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Era um homem de olhos pequeninos, penetrantes, entrincheirados nuns óculos de míope, e tinha os cabelos raros e revoltos sobre a testa vasta e luzidia.» José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz (1932)

«"Lembre-se do que lhe disse, Austin, todas as infâncias são estranhas, o que equivale a dizer que nenhuma delas o é."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

sábado, outubro 13, 2018

«"Bem", disse Austin, "tinham vindo do Museu de Arte Moderna, onde viram os seus Matisse e os seus Miró, acabaram por encontrar-se no Louvre, diante de um quadro neutro, talvez a inevitável Gioconda, Molero diz que vastas multidões de peregrinos solitários se encontram, a dois, diante da tela da Gioconda, cedendo ao apelo publicitário do mais enigmático de todos os sorrisos, bem, conheceram-se no Louvre".» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Ervas, rebentos, raízes, tudo sumido na voragem da sede e do calor.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

«"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou.lhe cama; só não lhe dou moça."» Machado de Assis, D. Casmuurro (1901)

quinta-feira, julho 19, 2018

«Pela falaceira do "Lagarto" soubemos, porém, que a parte central de Lisboa estava ocupada por densas forças; Chiado abaixo passavam, a todo o momento, camionetas transportando guardas-republicanos e, de quando em quando, descia da Avenida da Liberdade pesado tanque, com atitude de anfíbio cauteloso.» Ferreira de Castro, O Intervalo (póstumo, 1974)

«Com o sol a pino, ardendo por cima das árvores sem folhas, os soldados, atrás uns dos outros, na "bicha de pirilau", viam à sua frente apenas dois ou três homens da companhia de comandos e sentiam os passos dos que os seguiam, afastavam os ramos carregados de espinhos que lhes rasgavam os camuflados e a pele.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«"Há muito mais", disse Austin, "havia um amigo da família que tinha o Rato Mickey tatuado no peito e que pedia ao rapaz para bater na tatuagem, bate com força, com mais força, agora uma esquerda, agora uma direita, mete um crochet, mete um uppercut.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

terça-feira, março 13, 2018

«Saudades do campo, ânsias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima disto, o meu dorido amor a quantos sítios guardavam para a minha memória do coração vestígios da infância, que tão depressa passara com as flores doutra mais formosa Primavera...» Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico (1861)

«--Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados sob a testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«"Molero detém-se numa tia que lhe comprou um aparelho para endireitar os dentes", continuou ele, "os outros rapazes ainda se riram um pouco por causa disso, um aparelho daqueles estava deslocado no meio ambiente, ali os dentes tortos cresciam em perfeita liberdade."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

terça-feira, novembro 25, 2014

adornado de mimos e ternuras

«"O que parece definitivamente ter acontecido foi a revelação para ele, vindo de um meio em que proliferava a cópula a taxímetro, em quartos alugados, de uma ligação sexual adornada de mimos e ternuras, muitas dentadinhas no lóbulo da orelha, muitas festinhas no sexo, muita languidez no olhar, ela fazia-o sair lentamente, com uma paciência infinita, das águas negras do bowling e de outros jogos tenebrosos, anotando Molero a páginas oitenta e quatro que o rapaz tinha o ego desfeito, o ego era uma papa [...]».

Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

segunda-feira, agosto 04, 2014

coração, bússola doida

«Austin acendeu outro cigarro. "Temos aqui uma anotação, na margem da página catorze, uma anotação feita a lápis", disse ele. "Diz: coração, bússola doida." "Literário", disse Mister DeLuxe, "e, além de literário, devia ser para apagar porque está escrito a lápis". Austin acenou com a cabeça. "Está a lápis", insistiu Mister DeLuxe. "É óbvio", disse Austin, sem saber bem porquê.»

Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

sexta-feira, março 01, 2013

sobre O QUE DIZ MOLERO


Grande literatura é isto:  domínio da palavra a benefício da narrativa, espessa, sumarenta, cheia de coisas a dizer e de indícios doutras que ficam por enunciar. Estórias e estorietas, há muito quem conte, alguns até reputados de bons escritores; mas O que Diz Molero (1977) é a história, narrada de forma múltipla, dum escritor de obra escassa, sete títulos, três dos quais sob o pseudónimo Dennis McShade.
Li-o por volta de 1983, e voltei agora a ele, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro. Por esse então, final da adolescência, apesar de muitas referências me escaparem -- que não as da BD (Dinis Machado terá sido o único escritor português a ter aposto numa obra literária os nomes de Zig e Puce...) ou as dos Westerns de John Ford; é um livro cheio de cinema (até na prosa) e quadradinhos --, havia também uma memória que me era familiar: o imaginário lisboeta das décadas de 1930-1940, que me foi transmitido pelo meu pai, da mesma geração do autor: as figuras populares, suas alcunhas e seus maneirismos; a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial, o modo como eram ansiosamente seguidas e as próprias implicações sociais e políticas desses dois cataclismos entre nós; o cinema de Hollywood e os filmes em 31 partes do Flash Gordon; os comics americanos, Dick Tracy e Mandrake, os combates de boxe... Referências pulp e eruditas, de Camilo Pessanha a Jorge Luis Borges, fluindo naturalmente, porque reflexo da vida e da vivência.  Não sei se algum vez um livro me deu tanto prazer a reler.
A verdade é que em que O que Diz Molero a prosa é rigorosamente vigiada e calibrada, tão fundamental quanto o inventário da infância se presta  a todas as derrapagens do sentimentalismo : não há lamechice, mas ternura, um humor terno e nunca boçal.
Nota aos jovens leitores: tem até vampiros... -- não daqueles de ecrã, que ocupam os escaparates dos híperes, mas o tenebroso "Vampiro Humano", tenebroso para o rapaz(o protagonista do romance, ou um dos protagonistas) e para os seus amigos de correrias e partida pelo Bairro.