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terça-feira, abril 23, 2019

aviõezinhos

Parece que, na semana passada, o deputado do PAN interrogou António Costa sobre a possibilidade de o aeroporto de Beja ser alternativa ao 'Portela+1'. Parece que o chefe do Governo não respondeu, ou terá respondido afastando a hipótese sem mais. Esteve mal, pois o que se quer de um governante, entre outras coisas, é que veja para além da conjuntura.
Não me apetece nem tenho tempo para tecer considerações, necessariamente parcelares, sobre a insistência numa solução arranjada à pressa, que não só mantém os riscos para os residentes em Lisboa e concelhos limítrofes, como os acrescenta e que será uma catástrofe ambiental irremediável. A Zero está em campo desde o início, e ainda bem. A sua avaliação é demolidora: «Todo este processo tem sido pautado por uma flagrante falta de transparência por parte do Governo, mesmo com sonegação de informação, e não permitindo qualquer escrutínio por parte de terceiros, sejam os cidadãos ou mesmo outras entidades públicas, precisamente o inverso daquele que é o espírito da lei, que pretende que uma Avaliação Ambiental, seja ela uma AIA ou uma AAE, seja um instrumento técnico de suporte à decisão, no sentido de garantir a melhor decisão possível.»
Mas a resistência não pode ser apenas legalista e institucional, tem de ser de todos, a começar pelos que vão sofrer na pele esta arbitrariedade. E bem me parecia que o povo da Margem Sul não iria fazer figura de rebanho para abate sem estrebuchar. Resistência inteligente, não violenta, de preferência com humor, que é a mais eficaz.
A acção de ontem, levada a cabo pelo até agora por mim ignorado grupo Rebeldes pela Vida, será, certamente, a primeira de muitas destes e doutros cidadãos que se dão ao respeito (as fotos e o filme).
Que ela tenha ocorrido numa sessão de aniversário do PS, mostra bem aquilo em que o PS se tornou; e que nessa sessão, em que dois gorilas engravatados atiram pelo ar o activista que interpelava a assembleia, fosse de justa homenagem a Alberto Martins -- sem querer comparar momentos políticos incomparáveis --, não deixa de ser uma triste ironia.
em tempo: não eram gorilas, mas agentes da PSP - Corpo de Segurança.





quarta-feira, abril 17, 2019

"um conflito entre entidades privadas e os motoristas"

Não faço ideia se os motoristas têm razão ou não; por feitio, pendo sempre para os trabalhadores contra os patrões associados, mesmo quando me lixam o programa da Páscoa, como será o caso.
No entanto, há coisas um pouco mais importantes do que as disputas entre trabalhadores e patrões, e uma delas é o funcionamento do Estado. Por isso, é sem paciência que ouço o primeiro-ministro dizer que a luta laboral em curso se trata de "um conflito entre entidades privadas e os motoristas", o que, não sendo mentira, não chega para um político que se assume socialista. O que deveria dizer é que o país não pode estar à mercê de privados, e que a política tem agir em conformidade.
É um socialismo de caricatura, sem outro rasgo que não seja a conquista e manutenção do Poder, e por isso condenado (a indigência dos cartazes às eleições europeias, tratadas como se fossem legislativas é um eloquente exemplo da falta de rasgo da politicalha aparelhística).  O problema é que para lá dele, PS, a nível macropolítico não há nada, ou o que há -- com excepções de escasso peso eleitoral --, é feio: os partidos à direita são meros títeres dos interesses e do financismo prevalecente; à esquerda, os mortos-vivos do marxismo e os inconsistentes das chamadas políticas de inclusão ["a todos e a todas", e outras parvoíces] -- algumas, só algumas, porém válidas.
Para além disto, um lúmpen primário e silvestre que se alimenta e alimenta a boçalidade mediática,  sempre aproveitada por espertalhões.
António Costa limitou-se a repetir o que Rui Rio disse ontem, com a agravante de ter o menino nos braços.  É pouquíssimo como discurso, e revelador do impasse político e ideológico a que chegámos.

segunda-feira, março 25, 2019

os castelos não protestam -- ou se a Direita é estúpida, a Esquerda é analfabeta, e dá todos os dias disso o testemunho -- ou ainda: foda-se, que é demais

Ao contrário dos artistas plásticos, que foram estender a mão pedinte a António Costa, numa das mais degradantes manifestações de dependência de que há memória, os castelos não falam, não protestam não têm poder nem influência mediática. O mesmo se passa com a generalidade das populações que vivem em seu redor, boa parte no interior do país, pobre e despovoado.
Por isso, o processo de descentralização para as autarquias, sem meios nem massa crítica, e sem um euro associado nessa transferência  de trinta e três castelos, como anunciou o Diário de Notícias, é despudorado e indigente, cultural e politicamente.
Normalmente, o património cultural português degrada-se e afunda-se silenciosamente; a não ser quando permite estadão e espavento, pois a miséria cultural e cívica das elites políticas é um espelho da do povo português, de onde a maior parte foi parida. Não por culpa do povo, é claro, mas das outras elites, que o mantiveram ignaro e desvalido, de que se tem vindo a libertar desde o 25 de Abril, é bom lembrar.
Até agora, a única voz que ouvi a verberar esta fraude cultural foi a de Miguel Sousa Tavares. Costumamos criticar a Direita por não valorizar a cultura do ponto de vista político, rebaixando a pasta de ministério para secretaria de estado; mas para que serve um Ministério da Cultura com uma porcaria de política como esta, a não ser esportular clientelas e influencers (como gosta de dizer a saloiada merdiática)? 
Pior do que ausência de políticas é esta política de se ver livre de empecilhos que só dão chatices, dores de cabeça e não rendem votos. A verdade é que a Cultura com o Governo apoiado pela Geringonça, que também apoio, sem pertencer a nenhum partido, bateu no fundo.

(Por engano, escrevi "Gerinçonça", e fica muito bem, pois é difícil ser-se mais sonso que isto.)  


terça-feira, fevereiro 12, 2019

presos políticos catalães julgados por 'rebelião', 'sedição' e 'devio de fundos'

Qualquer democrata deve demonstrar a sua repugnância pelo que se passa hoje em Madrid.  Não basta vociferar, e bem, contra as hungrias e as polónias; ou tomar parte das mal contadas histórias da Venezuela, sobre a qual muito haverá que falar. Se o governo português tem e deve conter-se, como sempre tenho defendido, nesta delicadíssima questão -- e 'conter-se' não significa arriar as calças, como por vezes sucede --, não se segue que a sociedade portuguesa, onde se incluem os partidos políticos, não tome posição, fazendo ver ao poder castelhano-espanholista-franquista (que este fim-de-semana juntou 45 mil infelizes em manif madrilena) que há limites para a indecência em sociedades civilizadas. Podiam aprender com outros países europeus e não fazer esta figura triste de politicamente subdesenvolvidos.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

cheira a podre e aa conspiratas fachas: felizmente há a imprensa

Não fora Joana Amaral Dias, honra lhe seja, e não saberíamos do conteúdo da auditoria à Caixa Geral de Depósitos relativa ao período 2000-2015, embora há que tempos se falasse dos grandes devedores. Não é tanto, embora seja importante, o desastre de cada negócio: uns correram mal, outros serão suspeitos de trafulhice a vários níveis -- cabe às autoridades apurar. Não é tanto, pois: trafulhices e maus negócios não começaram nem ficarão por aqui; o que é especialmente repugnante é 1) os prémios de gestão atribuídos aos quadros que descapitalizaram o banco público, o despudor e o abuso aí estão à vista de todos, e os premiados não pintam a cara de preto porque não têm vergonha na dita; 2) o encobrimento, obviamente protegendo o sindicato dos interesses com a activa cumplicidade das cúpulas políticas; 3) o alheamento ou a raiva dos cidadãos duramente extorquidos com impostos, desviados para alimentar o regabofe. Também isto cria bolsonaros & trumps, ainda mais do que as questiúnculas fracturantes.


O antigo ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, com quem não me encontro há vários anos, foi, pelo seu primeiro casamento, um familiar muito próximo, e conhecemo-nos ainda desde a adolescência dele e a minha jovem adultez (sou poucos anos mais velho). Creio que nunca aqui lhe fiz referência por essa razão e também, diga-se com frontalidade, por não ter e nunca ter tido pachorra para as empresas, para as bolsas e temas quejandos -- nunca leio as páginas de economia dos jornais, a não ser quando aparece um bom cronista, fenómeno pouco frequente. Vem isto a propósito da minha admiração pela sua substituição no Governo -- além de académico destacado, geria uma pasta que apresentava óptimos resultados para o Governo apresentar, além de ser pessoa de excelente trato -- logo a remodelação não me fez muito sentido (não foi, certamente, por causa da timidez  do ministro, factor parece que importantíssimo aí para o jornalismo raso e acéfalo da intriga política.)  Ainda por cima, substituído por um advogado, homem de confiança do PM, o que é mais ou menos como nomear um veterinário para director clínico do Santa Maria. Até que há dias se fez luz: havia um secretário de estado, parece que bastante competente, Jorge Seguro Sanches, que andava a tornar-se demasiado saliente. Havia que removê-lo, para cair sec. de estado, tinha primeiro de cair o ministro. É a minha leitura, e duvido que haja outra convincente.

Entretanto, a história do genro de Jerónimo de Sousa parece ter sido tratada de forma enviesada, segundo revela O Polígrafo . Não há que admirar: há uma extrema-direita subterrânea, larvar, vermínica,  motivado  pelos gelados ventos de leste, apostada em aproveitar a degenerescência política em que temos andado, desde o cavaquismo. Goste-se mais ou menos (e eu nem mais nem menos), o PC é um dos baluartes do sistema democrático, tal como existe desde 1974. Miná-lo é a tentativa de aspirar uma grossa fatia de eleitorado descontente que, a exemplo, por exemplo da França, alimentaria essa extrema-direita. Esperemos que 1) não seja bem sucedidos e 2) que se enganem.


quinta-feira, dezembro 20, 2018

é para acabar com o Aborto Ortográfico a manif de amanhã?

Contem comigo!
E, já agora, contra a porcaria da série canadiana que passa no segundo canal. Suspensão imediata. Vamos parar com tudo, pá!...
E o Pacto de Estabilidade e Crescimento, entra nas cogitações?


actualização: Vim no carro a ouvir a TSF. Não me lembro de me ter rido tanto em viagem matinal, à custa destes tontinhos.
Por falar em tontinhos: o pseudojornalismo tabloide que andou a alimentar isto enterrou-se mais uma vez; nada que os incomode, rapidamente passarão a outra coisa qualquer. Atrasos de vida, estão bem uns para os outros.

quarta-feira, novembro 28, 2018

feias, porcas e más: as televisões privadas como retretes públicas, das antigas, ou saudades da RTP do tempo do fascismo

A sic e a tvi são detentoras de uma concessão, por parte do Estado, ou seja, de todos nós, do sinal de emissão do serviço de televisão. Mais de 90% da programação daquelas estações é má ou muito má. A informação da tvi é superior à da sic; esta tem um grande momento aos sábados, ao fim da manhã, com a transmissão dos documentários da BBC sobre vida selvagem. Quanto ao resto, concursos, telenovelas, parvoíces. Mesmo os canais informativos são pobres, salvam-se alguns programas de debate ("Quadratura do Círculo" e "O Eixo do Mal" na sic; "Prova dos Nove" e "Governo Sombra" na tvi). É muito pouco. 
Mas o que me espanta, perante a indiferença geral, é o à-vontade e a impunidade com que ambas as estações generalistas poluem o espaço público com inanidades e badalhoquices, dos talk shows matinais, em que apresentadores idiotas expõem ao voyeurismo mais grosseiro os infortúnios deste e daquela, até à promoção da mais vulgar boçalidade com os "Casados de Fresco" ou o "Love on Top", -- enfim o esterco despejado em casa das pessoas, quantas vezes com a justificação cínica e vigarista de que é daquilo de que elas gostam (ou até precisam...).
Não falo na cm-tv, a mais ampla cloaca comunicacional, pois está no cabo, e aqui, outros problemas se levantam. O que mais me incomoda, embora não me espante, é a passividade do Estado diante do oportunismo descarado dos operadores, da falta de ética e doutro critério que não seja o de gerar lucro, lançando mão de tudo o que lhe for permitido. 
E pergunto: mas por que diabo devemos nós, e connosco o estado português, que atribuiu as concessões a estes operadores, contribuir para encher os bolsos aos donos e accionistas da sic e da tvi, cuja contrapartida pelo bem público de que se servem é o de espalhar os seus dejectos comunicacionais pelas casas dos portugueses e pelas nossas ruas, através dos painéis publicitários?

Ainda sou do tempo em que as casas de banho públicas das estações da CP do Cais do Sodré e do Rossio eram um antro de porcaria, iam para lá os que gostavam de chafurdar ou os incautos que desconheciam o ambiente. Que haja quem queira fazer televisão com o nível de wc público de país incivilizado, é um problema seu; mas que beneficie do Estado, para o fazer, e que o mesmo Estado contribua, pela inacção, inconsciência, cobardia, para esta caca, isso é que é indesculpável.
Não sei quando se extinguem os prazos das respectivas concessões, mas aqui é que era uma boa oportunidade para a ministra Graça Fonseca introduzir um bocado de civilização, civilidade e civismo nestas pocilgas, ou retirar-lhes a licença para degradar.

segunda-feira, novembro 19, 2018

no LEFFEST #6

Shoplifters -- Uma Família de Pequenos Ladrões, de Hirokazu Koreeda, Japão, 2018 («Selecção oficial - Fora de competição»). A ideia é esta, é velha e por vezes verdadeira: as famílias podem ser o inferno, pelo maltrato ou pelo descaso, e o filme gira em torno duma falsa família de pequenos marginais / biscateiros. É interessante e por vezes ternurento; mas, Palma de Ouro em Cannes?... Não havia por lá melhor? Palma de Ouro para um filme que, a terminar (vide traila), quase parece um daqueles pastelões das manhãs da tv de gouchas & companhia, das famílias do coração e semelhantes bugigangas ideológicas;  mas que encaixa na perfeição nas parvoíces antifamilialistas,  lá isso encaixa. Deve ter sido este pechisbeque sociológico do politicamente correcto que encantou o júri de Cannes e a imprensa americana (vide orgasmos finais no mesmo traila).

segunda-feira, novembro 12, 2018

e que tal o aeroporto de Beja + tgv?

Desde os governos de Marcelo Caetano que se fala na necessidade de um segundo aeroporto que sirva Lisboa. Mais um sinal de que este não é um país para ser levado a sério, e muito menos a miséria das suas elites dirigentes.
Depois dum risco sério de catástrofe, ontem, e de se perceber que nem Montijo (por questões de segurança e risco para as populações) nem Alcochete (pelo atentado ecológico à Reserva Natural do Tejo e pelo risco para a segurança dos voos que comporta uma tão grande concentração de aves) não constituem aparentemente alternativa, pergunto:
não seria mais viável aproveitar o aeroporto de Beja, já construído, com uma linha de comboio de alta velocidade? quanto tempo demoraria o percurso de 178 km entre Beja e Lisboa em tgv?; não ficaria mais barato do que construir um novo aeroporto?; não seria mais seguro para as populações?

sexta-feira, novembro 02, 2018

ainda vai a presidente do Brasil,

o coiso que mandou prender o Lula, com as provas que toda a gente viu. Palhaço.

segunda-feira, outubro 29, 2018

o que a democracia não aguenta

64 mil homicídios por ano, mais seis mil perpetrados pela polícia
imprensa hegemónica ao serviço das oligarquias
30 partidos com representação parlamentar, o que equivale a ingovernabilidade permanente
poder judicial a fazer política, abrindo caminho a todos os tiriricos
a esquerda que quando se porta como os outros, caindo nas malhas e tecendo as teias da corrupção, é pior que os outros

com isto tudo, o partido mais votado acabou por ser... o PT, veremos se terá a inteligência política e o sangue frio para os próximos anos

Haddad deu um bom sinal

terça-feira, outubro 09, 2018

nótulas de diversão sobre o caso de extorsão a Cristiano Ronaldo

Estamos a assistir, em directo e a cores, a uma despudorada tentativa de extorsão por parte de um escroque que exerce advocacia, com a conivência ou a passividade (ou mesmo manipulação, quem sabe?) da senhora que há nove anos se cruzou com Cristiano Ronaldo, alimentada, claro, pelo Spiegel (o 'Espelho'...) e pelo jurnalismo de reputagem global.
Não vou fazer minha a vox pop que me tem saído ao caminho: do desculpabilizante "aquilo foi excesso de aquecimento [exercido pela senhora, note-se], e o homem não se aguentou" (empregada duma tabacaria); ou o avinhado "só passados nove anos é que passou a doer-lhe o cu!" (empregado dum café de bairro). Por outro lado, também não vou dar à senhora outra dignidade que não seja aquela que lhe é intrínseca como ser humano -- mesmo que a própria possa, eventualmente, não ter dela consciência --, tornando-a símbolo das vítimas de opressão, uma nova Kathryn Eufémia sucumbente ao machismo dominante, convenhamos.
Para já, parece ser a palavra de um contra a de outro: a senhora diz que foi abusada ou violada, Cristiano Ronaldo diz que não. Vale mais a palavra de um do que a de outro? Poderia dizer que não, se não tivesse havido já uma transacção financeira avultada em favor da senhora. Perante a mais do que evidente escroqueria, dou mais valor à palavra de Ronaldo, apesar de rico e poderoso, do que à da alegada vítima.
Mas vamos admitir que Cristiano Ronaldo foi um  patife, pois uma penetração exercida contra vontade qualifica um pulha. Houve um acordo entre advogados, a senhora foi indemnizada, duplamente bem indemnizada, e a história acabou ali. O mais só tem o nome de extorsão, como qualquer pessoa percebe. A não ser que os savonarolas cá da Parvónia defendam que Ronaldo deva pagar mais, e ainda outra vez, ou talvez ser extraditado para a america (pronunciar com sotaque), e, porque não?, até a uma sentençazinha a prisão perpétua...
Repare-se que não faço qualquer juízo de valor sobre a decisão de a senhora ter subido ao quarto, era o que me faltava. Cada indivíduo é livre de ter o sexo que quiser, com quem quiser, como quiser, a pagar ou de borla; já não é livre de arrecadar umas coroas valentes e passados uns anos querer mais, à boleia do ar do tempo.


(Agora a brincar: pode aqui até dar-se o caso de um erro de percepção mútua. E se Ronaldo era, aos 23 anos um incompetente na matéria? (tem-se visto); se o rapaz pensava que era só entrar por ali adentro, à Largadère? Ah pois... )

sábado, setembro 29, 2018

por falar em parolos

O conhecido Carrilho veio a terreiro aos gritinhos, a propósito do caso Mapplethorpe. Com desassombrada parvoíce -- "Serralves em perigo?"-- fala duma "visão parola e censória da arte". 

Sobre a questão da censura, não vale a pena perder mais tempo (aqui post e comentários); sobre a parolice, tem graça, vindo de um parolo que andou a negociar com a imprensa a reportagem fotográfica do seu casamento com uma apresentadora de televisão. O Carrilho porém é tão parolo que não se exime em pôr-se em biquinhos de pés, lembrando, linha sim linha não, o seu papel ministerial. Reconheço, com pena, que ele foi um muito bom ministro da Cultura, mesmo que em tempo de vacas obesas, o que também, sublinhe-se, nunca fez de si alguém especialmente potável.

Ainda a propósito de parolos, o último número de circo do cansativo Rui Moreira, aproveitando-se do caso. Bem fez Braga da Cruz, que é um tipo sólido e pouco impressionável e mandou Moreira dar sangue, não lhe aparando a politiquice. Eu percebo Rui Moreira: para ele é o prestígio internacional, que receia seja afectado, "a propósito da exposição do artista Robert Mapplethorpe".    O artista Robert Mapplethorpe... Faz-me lembrar uns indigentes a quem deram certa vez responsabilidade editorial. Um dia tiveram de legendar uma fotografia do Saramago, que ficou assim: "Escritor José Saramago" -- não fosse alguém pensar que o homem seria sapateiro.

Já agora: Pacheco Pereira pediu na "Quadratura do Círculo" que lhe fizessem uma entrevista sobre o caso, pois estava com "vontade de partir a loiça toda". Avisem-me quando isso acontecer.

quarta-feira, setembro 26, 2018

um serviço educativo para o fisting

Dizer que houve censura das fotografias do Mapplethorpe em Serralves, significa que não sabe o que é (e foi) a censura. Depois, condicionamentos de admissão a menores de dezoito anos, estão consagrados pela lei e pelo estado de direito, sem que ocorra a alguém vir esgrimir o argumento estafado, estafado.
Creio haver também um equívoco sobre a interpretação das restrições. Não se trata de pornografia, obviamente, mas, nalguns casos, de imagens bastante violentas. E se nem todas as imagens de sexo explícito são pornográficas, como toda a gente deveria saber, nem  tudo o que está classificado para maiores de dezoito anos tem que ver forçòsamente com pornografia, idem-aspas.
Mas talvez seja avisado haver alguma prevenção quando se expõem imagens de meio braço enfiado num ânus ou um tipo a urinar para a boca de outro. Além disso haverá, quem tenha preconceitos, haverá quem seja conservador, haverá quem seja moralista -- e com todo o direito a sê-lo; haverá ainda quem não tenha preconceitos nem seja moralista, mas considere (pobres retrógrados, coitados) que para crianças de dez anos (ou de oito, ou de treze) aquelas e outras imagens não sejam pròpriamente aconselháveis, como fàcilmente se perceberá. As razões atendíveis para condicionar o acesso são várias, o que deveria ter sido, aliás, previsto pelos vários intervenientes da coisa, poupando-nos à patetice da semana, que parece querer chegar ao Parlamento.
Claro que há imensos argumentos que podem aduzir-se, contra a imposição de uma idade mínima de visionamento de uma parte da exposição: desde o cínico 'ninguém é obrigado a ir' à monumental má-fé intelectual de Pedro Lapa: "hoje é por causa do sexo, amanhã é por causa da raça" -- sem perceber, ou não querendo perceber, que o silogismo se pode aplicar, por exemplo, à pedofilia, que há cem anos se mostrava alegremente por todos os salões de arte, e hoje seria o cabo dos trabalhos para o fazer -- mesmo com estas prevenções que alguns agora classificam como censórias. (Lembra-se, aliás benèvolamente,  da não existência de raças humanas. Todos percebemos o que ele quis dizer, mas rigor, que diabo!, rigor nas palavras.)
Censura? Nem por isso, apenas uma histeria grotesca de activismo kitsch e excitação de umas cabecinhas com uma razoável massa de esterco encefálico.


Fotos aqui, serviço público.


P.S. - Para quem tiver paciência, remeto para a leitura dum velho post de 2007, exactamente sobre este tema, mas então a propósito do Tintin no Congo (o debate também tem graça). A minha perspectiva era a mesma, o que não invalida a grande admiração pela obra do Hergé...

sexta-feira, setembro 21, 2018

baixa cozinha

Acabou, por agora, a chicanice da direita sem vergonha em torno da Procuradoria-Geral da República, excepto para Passos, que deus tem, num textículo que por aí circula, que não li nem torno a ler, assestando a mira em Rui Rio, que a gente não somos parvas. Entretanto, um zero à esquerda fala de 'pacóvios suburbanos', ou Rio a limpar PSD de atrasos de vida -- missão impossível.

Não quero ver Joana Amaral Dias vestida, e muito menos nua.

A extraordinária cacetada do reitor Cruz Serra numa medida tão demagógica quanto imbecil, a de diminuir o número de vagas nas universidades de Lisboa e Porto, para favorecer não sei bem o quê, se o interior, se a província. Os resultados estão à vista: as 1066 vagas a menos, originaram apenas 98 no resto do país. As famílias dos alunos que se vejam forçadas a mandar os filhos estudar para longe, que se lixem, como sucede[ia?] com as do Infarmed, em jogada igualmente miserável. Por isso, quando o PS manda afixar dispendiosos outdoors que alardeiam qualquer frase feita de propaganda básica como "as pessoas em primeiro" ou lá o que é, a vontade que dá é esfregar-lhos na tromba, metaforicamente, é claro.

quinta-feira, setembro 20, 2018

Egas e Becas: é pena, pá, mas são só melhores amigos

O Egas e o Becas (e o Cocas, o Monstro das Bolachas, o Conde de Kontarr, etc., etc.) ainda chegaram a tempo de preencher o meu imaginário infantil. A «Rua Sésamo» deve ter-se estreado na RTP aí por 1976, andava eu entre os onze e os doze anos.
Nessa altura, no tempo do "Ciclo Preparatório" (!), fazíamos um jornal na escola, o Vikings, dinamizado pelo mais inteligente dos meus colegas -- ou o mais divertido dos meus colegas inteligentes, o João Carlos Seguro Seco (há décadas que não o vejo). Nesse jornalinho, de que saíram vários números (perdi-os todos num incêndio), as personagens da «Rua Sésamo» eram omnipresentes, pois trata-se talvez da mais genial série pedagógica para a infância que alguma vez foi produzida.
Nunca me apercebera de que se tratava de um casal gay , nem eu nem nenhum dos meus amigos. E nunca nos apercebemos porque, em linguajar tecno-burocrático, 'não se aplica'.
Como qualquer rafeiro ordinário, a imprensa generalista pouco séria abanou a cauda, salivou e gozou o vómito da aldrabice.  Este tal Mark Saltzman, de quem nunca ouvira falar, é apresentado como o criador das personagens, quando toda a gente sabe que quem criou todo o universo da «Sesame Street» e do Muppet Show»  foram o glorioso Jim Henson e Frank Oz. Saltzman foi um dos argumentistas. Eu até admito que o homem tenha respondido honestamente à pergunta, dizendo inspirar-se na sua vivência doméstica com o companheiro para a escrita das deliciosas trapalhadas e quiproquós da dupla, e que a revista de gay lifestyle, tenha extrapolado, e a partir a pasquinada global tenha começado a ladrar -- dou sempre o benefício da dúvida a criaturas que não conheço de ginjeira, o que por vezes me causa amargos de boca, mas já estou velho para mudar.
No entanto, com assombroso bom senso, para os tempos que correm (gosto destas tiradas conservativas, e conversativas também) a Sesame Workshop já veio pôr os pontos nos is -- são bonecos, não têm orientação sexual..., e mais importante, um dos verdadeiros criadores, Frank Oz, não só desmente, como se questiona, de modo gentil e inteligente, sobre o interesse da  questão.
 Os comics underground, da revista Mad para baixo (e já nem falo das tijuana bibles) sempre brincaram com as identidades sexuais das personagens de BD,  a começar pela parelha Batman & Robin enquanto casal homossexual, um clássico. Mas estamos no domínio da 9.ª Arte. Isto é outra coisa, particularmente estúpida e obviamente dolosa, que de artístico não tem nada -- mas felizmente um fogacho de cabeça de fósforo, que já nem deita fumo nem cheiro. 

segunda-feira, setembro 17, 2018

um ajustamento e um acrescento lateral ao meu post e comentários sobre o caso Serena Williams

Mantendo a posição de princípio que aqui expus, gostaria de acrescentar o seguinte: A circunstância de ter uma bisavó brasileira mulata (logo, descendente de escravos), a avó Ida, sempre me divertiu e não perco ocasião para a propalar. Ainda ontem ao jantar, o meu pai, que já conta 87, me falava das suas bisavós, que ainda teve a sorte de conhecer, o que na sua geração não era comum. A uma, os bisnetos, todos miúdos, chamavam 'Avó Velha' (distinguindo-a, portanto da avó (mais) nova; quanto à outra bisavó, o meu pai, os irmãos e os primos recorriam dois nicks: ou 'Avó Pequenina', distinguindo-a da filha, que era muito alta, ou então 'Avó Preta' (viva a santa inocência das crianças!).


Este parágrafo memorialístico para significar que embora os traços genéticos dessas minhas boas antepassadas pouco se tenham manifestado visivelmente em mim, a não ser no cabelo encaracolado (o meu pai tem a pele claríssima e olhos azuis da mãe), e portanto nunca ter experimentado qualquer tipo de discriminação, sempre tive uma sensibilidade especial para essas questões, que, no entanto (convém esclarecer) não advém desse meu património histórico pessoal bastante acarinhado por mim, mas de uma consciência ética ao nível do mais básico senso-comum, em primeiro lugar, e depois pelo facto singelo da inexistência actual de raças humanas -- e digo actual, porque já existiu, de facto, uma outra raça de homem, morfologicamente diferente, o célebre Homem de Neanderthal, que, no entanto, permanece nos nossos genes (parece que em quantidades ínfimas, mas variáveis de indivíduo para indivíduo), por cruzamento com o Sapiens Sapiens, vingando estes e extinguindo-se os outros, menos adaptados aos desafios do meio envolvente. Além disso, sempre olhei para um racista no nosso tempo como um pobre diabo e atrasado mental, portanto sem categoria de cidade (já a xenofobia é um perigoso compósito de medo e pulhice egoísta).

Pondo-me na pele de um negro das Américas -- em princípio, menos difícil para mim do que para a loiríssima e parece que sacerdotiza J. K. Rowling, rapariga da minha idade --, concedo, compreendo e aceito que possa haver alguma amargura, atendendo aos terríveis antecedentes da escravatura. Mas também sei que qualquer homem ou mulher negros com discernimento e sem estarem gafados do tifo activista, estabelecem todas as diferenças entre um cartoon sobre uma protagonista global que se portou objectivamente mal e um propósito racista do cartoonista, embora também aceite que a forma como a oponente está representada, que na altura não valorizei, possa ser dúbia, e originar outra interpretação, embora, quanto a mim, já um pouco forçada

No entanto, trata-se sempre de questões -- quer a descriminação quer a liberdade --, demasiado importantes para que os tontinhos dos activismos vários fiquem sem contraditório.

(Ainda para o lado da Serena: no ténis, sou do Benfica, ou seja: não percebo nada da modalidade, nem quero perceber. Aliás, nunca pratiquei desporto, que é coisa que me aborrece. Mas se é verdade o que dizem sobre a existência de sexismo no ténis, então a fúria dela poderia ter razão de ser -- se o árbito não estivesse certo, como dizem que esteve --, o que não invalida, antes pelo contrário, a pertinência e o valor do cartoon do australiano Mark Knight.)



quarta-feira, setembro 12, 2018

Serena Williams, touradas, clima, folclore, patetices, o politicamente correcto

Ser anti-racista não significa ser estúpido. A caricatura vive da deformação propositada. Serena Williams parece ter tido um comportamento lamentável. O cartoonista australiano Mark Knight fez um desenho alusivo. Se a protagonista do episódio é negra, como querem que se faça a caricatura? Eliminando os traços fisionómicos negróides (lábio grosso, nariz achatado, carapinha)? Isso sim, seria racismo, particularmente boçal e doloso: o branqueamento do tipo étnico da atleta.
Mais censura e policiamento fascistóide. Não há diferença de natureza, apenas de grau, entre a 'indignação' destes talibãs ocidentais e, por exemplo, a selvajaria do caso dos cartoons do Maomé. 
 

Ocorrem-me agora outros dois casos recentes, que, por razões diferentes, me suscitam ora dúvida, ora perplexidade: o das touradas e o do colóquio na Universidade do Porto sobre o clima.
 

Sobre a tourada, teria muito a dizer, até porque estou entalado entre a minha posição de princípio desfavorável do ponto de vista ético (apesar de incoerente, porque bife com batatas fritas será sempre o meu prato favorito) e o inegável significado cultural e histórico das corridas -- ao qual não consigo ser insensível --, para já não falar da incrível beleza plástica da lide a cavalo ou a vertiginosa insanidade duma pega de caras.


A propósito da conferência do Porto, só tenho a minha ignorância a evidenciar e perguntas a fazer: estes tipos são cientistas e académicos que defendem uma posição minoritária, ou não passam de mercenários e prostitutos a soldo do lóbi das fósseis? Se são cientistas, como aceitar a pressão e os insultos que vieram a público e um protesto assinado por alguns cientistas portugueses eminentes?; se não passam de vigaristas, como nos é dado a entender, como pode a Universidade do Porto acolhê-los, ainda por cima com uma sua catedrática à cabeça da organização? A universidade é para debater inter pares;  se não são pares, não têm nada a fazer ali, arrendem uma sala num hotel para se entreterem; se o são, o que assistimos na semana passada precisa de ser analisado nos seus contornos políticos.

sábado, setembro 08, 2018

de novo os Descobrimentos, e acabando com a questão

Durante as minhas férias, Luís Filipe Thomaz publicou um artigo sobre a questão dos Descobrimentos. Como escrevera que era a sua visão do problema a que me interessava, deixo aqui o registo. 

Historiador, e não um sócio-coiso em estudos pós-coloniais -- não devo errar se disser tratar-se do maior historiador português vivo daquele período. Aliás, basta comparar o seu texto com a indigência pateta do abaixo-assinado, ou lá o que é, para ver a desproporção da qualidade e a diferente natureza de entre historiografia e activismo.

Repito que não me pronuncio sobre a pertinência de um museu (mas digo já que não sou a favor, e estou, neste particular, mais próximo da posição de João Paulo Oliveira e Costa), mas apenas sobre o acerto da palavra Descobrimentos, que remeto para aqui, verificando, com agrado, que temos posições semelhantes quanto ao fundo da questão, ressalvando as óbvias distâncias do cabedal de cada um no que respeita à História da Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Mais do que o atrevimento da ignorância, irrita-me o sectarismo ideológico e pior, a glossolalia impostora, a vassalagem aos bonzos e o espírito de manada. 

quarta-feira, setembro 05, 2018