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quinta-feira, maio 04, 2017

o debate Macron-Le Pen, ou o deus-milhão e o campo de concentração

Assisti a quase todo o debate. Excessivamente agressivo de parte a parte, mas já se esperava. Le Pen a encostar Macron a financismo predatório, sem novidade; Macron a mostrar a verdadeira face de Le Pen, a do chauvinismo.


As coisas não são, porém, assim tão simples: reduzir Macron a homem de mão dos potentados financeiros e Le Pen a uma edição actualizada do pai, embora não seja totalmente falso, traduz-se num esquisso caricatural que serve para a indigência dos telejornais e para a fauna peticionária do facebook, mas que resulta num primarismo de análise que a complexidade do(s) problema(s) não sustenta.


Macron deixou Le Pen a patinar com a questão da saída da França do euro, neste sentido: numa economia integrada como a da Zona Euro, o abandono de um dos seus membros, neste caso a França, traria uma avalancha de custos que resultaria insustentável para o status quo, não apenas económico mas também político. Macron tem aqui toda a razão, mas  o que nenhum disse é que a saída da França do euro implicaria o fim da moeda única, e, nesse caso, o problema posto por Macron deixaria de existir. Não havendo moeda única, seria o regresso às moedas nacionais, e aí, a França, como uma das grandes economias mundiais, teria argumentos superiores a outros países, como, por exemplo, Portugal. Le Pen poderia ter explorado este caminho, no entanto, é possível que tenha querido evitar abordar (mais) um cenário de débacle, guardando possíveis argumentos para a sua proposta de referendo sobre a permanência da França na União Europeia.


Le Pen tomou a iniciativa e marcou pontos no tema do radicalismo islâmico. Fez orelhas moucas ou esquivou-se como pôde às farpas desferidas por Macron sobre o cadastro da Frente Nacional em matéria de racismo e xenofobia e revolveu, e bem, a chaga do laxismo da república em relação ao fundamentalismo islâmico, ao defender, e de novo bem, a dissolução de todas essas pretensas associações culturais e desportivas espalhadas de norte a sul da França, fachadas legais e veículos do fascismo islâmico, contando com a cumplicidade interesseira dos maires, da direita à esquerda, a troco duns milhares de votos para as respectivas reeleições. E tão bem sucedida foi nessa argumentação que, onde Le Pen dizia mata!, Macron jurava esfola!.


Acredito numa vitória de Macron, por poucos, no que será uma derrota para esta V República, que parece moribunda. Quanto a Le Pen, penso que terá uma grande votação, o que fará sempre dela uma vencedora, e, numa conjuntura semelhante, futura presidente.


Quanto aos democratas e pessoas de esquerda que dizem não votar em Macron, o único qualificativo que lhes assenta é o de tontinhos, pois se estamos em modo de caricatura, a escolha que se lhes apresenta é esta: o 'deus-milhão' ou o campo de concentração. Há dúvidas entre um e outro?...


sexta-feira, março 03, 2017

o faz-de-conta vai sair-nos caro

daqui
Enquanto arranjam um pretexto para torpedear a Le Pen, deixam que o anormal da foto se babe livremente em enormidades
Mais vale ilegalizar os partidos neo-fascistas, racistas e xenófobos e varrer todo este lixo da vida pública, em vez de andarmos a criar vítimas, que irão capitalizar nos votos.  
Depois, para grandes males, grandes remédios. Isto vai sair-nos caro.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

elogio Marine Le Pen

Nunca pensei algum dia vir a elogiar a líder da Frente Nacional. Esta força política representa (apesar de algum aggiornamento patínico pró liberal), tudo o que mais odeio: o racismo e o ultramontanismo católico, já para não falar em todo o lixo do antissemitismo, do colaboracionismo traidor com a Alemanha nazi e do colonialismo, que está ali representado.

Não esquecendo todas estas nódoas, de que ela se tornou a carinha laroca visualmente aceitável (ao contrário do boi do pai), não há que escamotear a dignidade, ainda por cima educada, com que recusou cobrir-se com um véu. A senhora estava ali, não como fiel, mas como líder política, representando uma fatia importante do eleitorado francês.

Sem deixar de reconhecer a fundamental importância cristã e católica na identidade nacional portuguesa, o iluminismo e as revoluções políticas puseram a Igreja no lugar que lhe pertence, o templo. Cumpra quem quiser, desde que não mace os outros. Sempre achei deplorável que um estado laico como o português ande com os padres atrás, de cada vez que há um acto oficial. Como foi ridículo, e afrontoso para muitos, assistir à beijoca do presidente da República na mão do papa, por muita simpatia que eu tenha por Francisco.

Voltando a Le Pen,  que não me merece a mínima confiança. Com o gesto de ontem, marcou pontos e deu um sinal correcto do que se espera de uma política ocidental. Para vergonhas, já por cá existem as criaturas do politicamente correcto, como esta triste ministra sueca que se diz feminista. 

No momento histórico actual vivemos uma guerra (palavras como 'conflito' ou 'crise' pecam por defeito) com várias trincheiras: a mais violenta é a que se trava com o financismo predador internacional, sem rosto, sem pátria, nem princípios; a outra, insidiosa e não menos perigosa trava-se com o integrismo religioso, hoje muçulmano (mas também hindu e budista -- não esqueçamos o que se passa na Birmânia, com a, pelo menos, passividade cúmplice da outrora heroína dos Direitos Humanos Aung San Suu Kyi), ontem cristão, quiçá amanhã renascido. Está na natureza das religiões, e contra elas nunca se pode baixar a guarda.

sexta-feira, outubro 21, 2016

Rússia, Síria, Iraque, Ucrânia, UE, Estados Unidos, Estado Islâmico: histórias da carochinha com gente dentro.

Donald Tusk -- um dirigente polaco aceitável, o que não é comum -- diz que A estratégia da Rússia é enfraquecer a UE. Como Tusk não é propriamente um político mentecapto -- embora eles andem aí -- esta declaração de absoluta fraqueza é mais um dos muitos exemplos de como a UE não precisa do contributo de nenhum inimigo externo para se enfraquecer.
Para começar, a UE está moribunda. A política agressiva da Alemanha debilitou-a drasticamente; e o Brexit foi o seu golpe de misericórdia. A partir de agora, ninguém acredita na União Europeia, infelizmente. O seu comportamento miserável em relação à Grécia, a tentativa de tutela sobre Portugal, a estranha tolerância em face do Grupo de Visegrad -- coio de países com governos fascizantes e malsãos --, torna evidente que a União Europeia escusa de procurar as culpas em Putin. A não ser que seja mais um frete à sempre inteligente política externa dos Estados Unidos, a que a Europa -- por vezes justificadamente, em especial no tempo da Guerra Fria -- nunca deixou de se prestar.
Vejamos: a Rússia é um país imperial; os Estados Unidos, idem; a Alemanha pretende voltar a sê-lo, acobertada convenientemente pelos outros países da União Europeia. Papel a que a Inglaterra não se quis prestar -- e bem, infelizmente para nós, países periféricos --; e  que a França pensa que pode driblar, com a manha do manhoso Hollande. É claro que não vai driblar nada, e que mais cedo ou mais tarde, irá bater com a porta: ou porque Hollande achará insustentável para a sua posição política; ou porque Le Pen tratará de fazer os estragos necessários. É uma questão de tempo, e vai acabar mal.
No meio disto tudo, uma propaganda agressiva contra a Rússia (Síria, Ucrânia) manejada pelos americanos e tendo como alvo as massas ignaras do facebook -- propaganda que faz muito lembrar a usada na fragmentação da Iugoslávia, fortemente induzida pelas Alemanha, Áustria e Vaticano.
A pressão sobre a Rússia não tem nada que ver com direitos humanos nem com as crianças de Alepo, para os quais as potências (ao contrários da sua opinião-pública) se estão nas tintas, mas sim -- como é óbvio e qualquer pessoas com um mínimo de conhecimento de geopolítica sabe, com os equilíbrios e áreas de influência.
O hagiógrafo de Salazar, Franco Nogueira, glosando ao invés o seu orago, dizia, e bem, que "em política internacional, o que parece não é". Portanto, bem podem acenar com as vítimas de Alepo, e com os misteriosos capacetes brancos e com todas as tragédias (veremos como será agora em Mossul), que a Rússia não vai largar os seus pontos estratégicos no Médio Oriente, incluindo a única base naval que tem no Mediterrâneo.
O resto, são histórias da carochinha, povoadas por punhados de bandidos e milhares de inocentes de carne e osso, que sofrem os embates da História -- como milhões de seres humanos antes deles.

Em tempo - por entre as cortinas de fumo, é impecável a posição do governo português, expressa por António Costa.

terça-feira, junho 16, 2015

está bem servida a UE

A estrema-direita xenófoba já tem um grupo no Parlamento Europeu. Marine Le Pen agradece, sarcástica, ao presidente Schulz o ter dificultado a vida aos ditos nacionalistas. Enquanto isso, Tsipras precisa de paciência de santo para lidar com marionetas avinhadas, nulidades presidenciais, sócio-democratas vendidos & outros obtusos. Com tristes destes, a União Europeia está bem servida e com futuro radioso à frente. Só espero que Tsipras não vergue. 

segunda-feira, março 24, 2014

Do ouro sobre azul das estrelas da UE ao Bleu Marine: um horizonte vermelho de sangue

Por baixo do ar modernaço de Marine Le Pen, com que quer tranquilizar a boa consciência burguesa, move-se a pestilência do racismo, em especial antissemita, o vírus do ultramontanismo católico, o pus da homofobia, a animalidade violenta da extrema-direita, conluio involuntário de simplismo e crime. Estou mesmo a ver aqueles militantes da Frente Nacional: um perfeito rassemblement de marginais desocupados e pequenos e grandes frustrados, inspirados por alguns intelectuais, nostálgicos da grandeur que só encontram nos livros de História e gostariam de poder recuperar.
Não se segue que a FN ganhe daqui a oito dias, o problema é que estão a implantar-se, com a involuntária cumplicidade do sistema francês, medíocre e corrupto e bloqueado. Daí começar a tornar-se aceitável à consciência da pequena-burguesia urbana, para ela empurrada por ausência de alternativa, pelo inferno em que degenerou o seu quotidiano.
Então, pouco faltará para começarem a errar pelas ruas das cidades da província francesa as milícias para-fascistas, os vigilantes. A pequena-burguesia temerosa que neles votará, irá servir de carne para canhão como costume; os muçulmanos franceses (são quantos milhões?...) e outras minorias em perigo não ficarão à espera que lhes tratem da saúde.
O horizonte francês é sangrento.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Paul De Grauwe, ao contrário do homem do caldo entornado, com passagem por Marine Le Pen

Os cadernos de Economia dos jornais provocaram-me sempre um interminável bocejo, só de lhes ler as gordas da primeira página. O seu destino era o caixote do lixo (ou, mais tarde, da reciclagem), normalmente com as páginas por abrir. A crise mudou tudo. Se  a maioria daqueles artigos de opinião persiste intragável -- ou porque escrevem com os pés, os economistas-publicistas; ou porque, além de escreverem com os pés (há excepções; houve excepções: Leonardo Ferraz de Carvalho, por exemplo), não passam, boa parte deles, de debitadores da vulgata que está a deixar a Europa neste lindo estado. (Preparem-se: a Frente Nacional da Marine Le Pen vai ganhar o poder em França -- é uma questão de tempo, pouco -- e depois é que eu gostaria de me rir, se não tivesse todas as razões para chorar...) A coluna de Daniel Bessa, no Expresso, é exemplo dessa conformação baça à ortodoxia do pensamento económico-político dominante.
Não assim com o belga Paul De Grauwe, professor da Universidade Católica de Lovaina e na London School of Economics, na esplêndida coluna "Torre de Marfim", que o mesmo Expresso publica mensalmente, creio. Entre outras coisas, percebe-se que ele não tem mentalidade de funcionário cumpridor sem rasgo, como Vítor Gaspar, e muito menos da sua boca se soltariam cacarejos imbecis  à Camilo Lourenço. Não, De Grauwe é inteligente, é culto e sabe pensar. Vale a pena ler o que Paul Krugman diz a este respeito, num post brilhantemente titulado, nada a ver com os bois que escrevem o economês rarefeito na imprensa.
Na "Torre de Marfim" deste sábado, com clareza meridiana, explica porque é que a imposição da política austeritária a países do sul só servirá para os empobrecer, não resolvendo, pelo contrário, agravando, as respectivas economias: quando os vários países desenvolvem políticas recessivas para controlo do défice, o bloqueio torna-se um facto e um fardo pesado. Se eu e o meu vizinho estamos a poupar mais, nem eu lhe compro nem ele me compra a mim, logo ambos estagnamos ou ambos vamos ao fundo.
De Grauwe é demolidor para com a Comissão Europeia, que acusa de estar ao serviço dos países credores do Norte, em vez de equilibrar a sua acção relativamente a todos os países da Zona Euro. E transcrevo o final da sua crónica: «É tempo de a Comissão  agarrar o seu papel de defensora dos países devedores com o mesmo vigor com que defende os interesses dos credores. [...] As nações devedoras do sul enfrentam hoje um legado de níveis insustentáveis de dívida que continuará a arrastá-las para baixo durante muitos anos, se não décadas. A incapacidade das nações credoras e da Comissão Europeia que as representa de pensarem em termos dos interesses de todo o sistema cairá sobre eles como uma vingança quando os credores tiverem de aceitar a restruturação da dívida dos países do sul da zona euro.»