O ano começou e decidi escrever algo que era suposto ter escrito no início do ano anterior mas acabei por não fazer por pura preguiça: os meus filmes favoritos do ano. No início de 2018 era para ter escrito uma lista dos filmes que eu mais gostei de ver no cinema em 2017; logo à primeira só me lembro de três filmes: Lego Batman: O Filme, Silêncio de Martin Scorcese e A Odisseia (um biópico sobre a vida de Jacques Costeau) A lista que faço agora contém os filmes que mais gostei de ver no cinema este ano, independentemente de serem filmes feitos este ano, no ano passado ou à dez anos, e os que foram exibidos em festivais também contam. A selecção baseia-se em quais foram aqueles que me deixaram mais satisfeitos ao sair da sala, contente com o produto final. A lista está organizada por ordem cronológica.
Eis a minha lista.
Coco

Eu literalmente acrescentei este filme na lista à última da hora, pois lembrei-me que vi este filme logo no dia 1 de Janeiro, julgando este tempo todo que eu o tinha visto no ano passado. Para mim este é o melhor filme da Pixar desde Toy Story 3, também do mesmo realizador, Lee Unkrich. Elenco excelente, direcção artística fenomenal, a história sólida, mesmo com clichés, é um filme fantástico que valeu a pena esperar. O filme foi concebido por Unkrich em 2010, logo após a estreia de Toy Story 3 e foi revelado pouco tempo depois. Coco foi também vítima de decisões terríveis feitas pela Disney, tais como registar direitos de autor para o nome "Dia dos Mortos", o feriado que serviu de inspiração para o filme, uma acção que foi extremamente criticada pela comunidade mexicana nos Estados Unidos. Outra acção da Disney que foi também criticada foi a de colocar A Aventura de Olaf, uma curta-metragem com personagens do filme Frozen antes do filme; imensos pais criticaram esta decisão, o que levou a vários cinemas remover a curta-metragem. Eu felizmente vi o filme sem o filme do Olaf. A última coisa que queria ver num filme da Pixar era os personagens irritantes do Frozen.
Três Cartazes à Beira da Estrada

Uma enorme surpresa que foi este filme. Fui ver o "Três Cartazes" num sábado, depois de uma semana de trabalho frustrante e cansativo. A história de uma mãe (Frances McDormand) que coloca cartazes a criticar a polícia da cidade de Ebbing, no estado do Missouri, por terem desistido da investigação do assassinato da sua filha. O trailer faz este filme parecer uma comédia negra ao estilo dos Irmãos Coen (que, coincidência ou não, Frances McDormand é casada com um dos irmãos e faz o papel principal em um dos seus filmes mais famosos, Fargo, recebendo dois Óscares de Melhor Actriz com os dois filmes) mas o filme acaba por ser mais deprimente do que cómico porque os polícias, apesar da sua negligência no caso da morte da rapariga, são também figuras trágicas. O chefe da polícia, (Woody Harrelson), vive os últimos dias da sua vida devido a um cancro, enquanto o seu colega (Sam Rockwell, a desempenhar um papel cinco estrelas), um agente xenófobo e violento, vive sozinho com a sua mãe, sem amigos para conviver. O personagem de Sam Rockwell é o que torna este filme numa obra-prima contemporânea.
Ah sim, e Peter Dinklage, o actor anão de A Guerra dos Tronos, aparece neste filme, para completar este elenco de luxo. Este seria o meu filme favorito da corrida aos Óscares deste ano se não fosse o filme seguinte.
Linha Fantasma

O filme mais recente de Paul Thomas Anderson e o último filme de Daniel
Day-Lewis, que retirou-se da carreira de actor antes da estreia deste
maravilhoso filme sobre um designer de alta-costura de Londres dos Anos 50, que se apaixona por uma empregada de uma estalagem no campo. Linha Fantasma é estilo e substância misturadas de forma homogénea, desde a direcção de fotografia pitoresca dos cenários campestres e do centro de Londres, e a excelente banda sonora de Jonny Greenwood, até ao desempenho do elenco, ambições dos personagens e o argumento que chega a ter momentos bastante imprevisíveis. O meu filme favorito da corrida aos Óscares, que infelizmente levou apenas uma estatueta para casa na categoria de Melhor Guarda-Roupa; Gary Oldman fez um papel engraçado como Churchill em A Hora Mais Negra, mas Day-Lewis merecia o prémio de Melhor Actor pelo papel de Reynolds Woodcock (sim, é como se chama o personagem), Jonny Greenwood merecia o prémio de Melhor Banda Sonora e PT Anderson merecia o de Melhor Realizador/Filme, pois foi ele próprio quem trabalhou meticulosamente na cinematografia deste filmaço. Mas pronto, Guilhermo del Toro ganhou as duas estatuetas e ele bem mereceu. Falemos sobre A Forma da Água mais à frente.
A Morte de Estaline

Uma produção da Gaumont e de várias produtoras europeias, este filme de humor negro é baseado na BD do mesmo nome, editada pela Dargaud. Um elenco de luxo que inclui Steve Buschemi, Michael Palin, Olga Kurylenko, Jeffrey Tambor, entre outros excelentes actores, todos eles a representar figuras históricas, todos eles envolvidos no caso da morte do líder da União Soviética em 1953. Momentos cómicos, momentos inesperados, o filme é divertido, não preciso de dizer muito mais, vejam e agradeçam-me de pois. Como era de esperar, A Morte de Estaline foi banido na Rússia, como também foi banido no Cazaquistão e no Quirguistão.
Roma

Este filme, produção da Netflix, não merece ser visto numa televisão, muito menos num tablet ou telemóvel, pois perde-se a experiência toda nesses dispositivos, e
David Lynch concorda comigo, Eu tive sorte em ver
Roma no Festival de Cinema de Sintra e Lisboa deste ano, no Centro Cultural Olga Cadaval, em um dos seus dois auditórios com um sistema de som fantástico e ecrã gigante; o filme mais recente de Alfonso Cuarón - realizador mexicano responsável por filmes como
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban,
Gravidade e, na minha opinião, um dos melhores filmes da década de 2000,
Os Filhos do Homem - conta a vida de uma empregada, Cleo, que trabalha para uma família numerosa de classe média-alta no distrito de Roma, nos arredores da Cidade do México, numa narrativa que decorre no espaço de um ano, entre 1970 e 1971.
Roma é um filme semiautobiográfico, Cuarón afirma, pois Cleo foi inspirada na vida de uma criada que viveu com a família do realizador na altura em que este era miúdo. Para além disso, certos momentos-chave do filme acontecem dentro de cinemas onde filmes da época são exibidos, tal como
Perdidos no Espaço, com Gregory Peck, que serviu de inspiração para o filme anterior de Cuarón,
Gravidade.
O filme foi filmado a preto e branco, e presumo que foi feito dessa maneira mais por motivo de substância do que de estilo; não só o preto e branco emana o factor nostálgico (como fotografias de viagem, só que a preto e branco em vez de tons de sépia), como também revela que a cor é desnecessária no que toca a exprimir emoções e mostrar o lado mais emotivo e brutal do filme; comparo esse aspecto com o filme fenomenal de Sergei Eisenstein,
O Couraçado Potemkine, onde o lado visceral da violência do filme é de tal maneira chocante que, se colorissem o filme (como o que Ted Turner tentou fazer a diversos clássicos como
O Mundo a Seus Pés), o efeito seria o oposto, as cores tornam-se resíduos que estragam o filme. A direcção de fotografia espectacular de Cuarón é o único elemento que ele precisa para contar a história, pois a câmara comporta-se como um personagem no meio da acção, seguindo os passos da protagonista pelas ruas de Roma, nas praias de Tuxpan e por aí fora, em cenários genuínos e sem cortes de edição, apenas sequências longas para deixar o espectador mais focado na figura principal, Cleo, que passa por tudo e mais alguma coisa neste filme.
Ah sim, e para quem tem interesse em ver o filme, aviso-vos já, este filme é Forte. Não é apenas forte com "f" minúsculo, é "Forte". Este foi sem dúvida, o filme mais comovente que vi desde
Amor Cão, a obra-prima de Alejandro G. Iñarritu, amigo de longa data de Cuarón e um dos "Three Amigos" do cinema.
Roma deixou-me de tal maneira deprimido que saí do cinema quando o filme acabou e fui direito a um café e pedi uma fatia de bolo para me reconfortar. Filmes que me deixam destroçados são raros, e Roma merece todas as boas críticas que tem recebido. Na minha opinião, o vencedor do Prémio da Academia de Melhor Filme Estrangeiro, sem sombra de dúvida.
Menções Honrosas
- A Forma da Água: eu gostava de colocar este filme na lista dos cinco favoritos, e até certo ponto estava incluído, até me lembrar que vi o Coco este ano. Para ser sincero este filme não é o melhor trabalho de Guilhermo del Toro, mas não é mau de todo. Sexo com homens-peixe à parte, o filme tem uma atmosfera rica, com o seu estilo vintage e tons esverdeados, achei o elenco bom, a história engraçada... É um filme bom, não há dúvida, mas não é, na minha opinião, o mais forte entre os concorrentes para Melhor Filme nos Óscares do ano passado. O que vale é que del Toro recebeu o Óscar de Melhor Realizador e de Melhor Filme, estatuetas que o homem mereceu. Agora os "Three Amigos" têm ao todo nove estatuetas: dois de del Toro, dois de Cuarón e cinco de Iñarritu.
- Ready Player One - Jogador 1: este aqui tem defeitos, imensos defeitos, e também não é um filme feito para toda a gente. Eu sei disso pois um casal de velhos foi ver o filme na mesma sessão que a minha e saíram da sala passados vinte minutos. Mas vou ter que ser sincero, o filme até é divertido. Não só pelo lado nostálgico ao ver O Gigante de Ferro a lutar contra Mechagodzilla ou o Alan Silvestri a tocar (basicamente) remixes da banda sonora do Regresso ao Futuro, mas também porque a história em si é interessante, e é o tipo de filme que Steven Spielberg gosta de realizar. Sendo o primeiro filme de ficção científica de Spielberg em anos, eu estava com imenso interesse em vê-lo.
- Os Incríveis 2: esperei quase quatorze anos para ver este filme. Adoro a história, adoro os personagens, adoro a banda sonora, adoro a direcção artística, adoro a acção, adoro Brad Bird quando realiza filmes animados. Porque é que este não está na lista dos cinco favoritos? Este filme deixou-me esfomeado por mais Incríveis, pois este universo criado por Brad Bird é que merece ter sequelas; em vez de a Pixar fazer sequelas desnecessárias para filmes que já são perfeitos, porque é que não pediram a Bird para escrever a sequela logo depois de ter realizado Ratatui? Infelizmente, considerando o tempo que Brad Bird demorou a escrever e realizar a sequela, não devemos ter um Incríveis 3 num futuro próximo. Pode parecer uma razão absurda para não estar no Top 5, mas Os Incríveis 2 deixou um vazio em mim, faltava qualquer coisa para me deixar satisfeito.
- Homem-Aranha - No Universo Aranha: é um filme com personalidade, com estilo e com substância, algo muito raro nos filmes animados de hoje. Aliás, tem muito mais personalidade do que os filmes de super-heróis que a Marvel e a DC têm regurgitado nesta década. Eu fiquei farto dos filmes de super-heróis depois de ter visto Os Vingadores e O Cavaleiro das Trevas Renasce, no ano longínquo de 2012. Desde então, só tenho visto apenas dois filmes do género: Lego Batman: O Filme e Homem-Aranha - No Universo Aranha, e digo-vos que, nas mãos certas, filmes animados de super-heróis são muito mais interessantes. Digo "nas mãos certas" pois Phil Lord e Chris Miller (Clone High, Chovem Almôndegas, O Filme Lego) foram a escolha perfeita como produtores, e no caso de Lord, argumentista. Eles sabem fazer filmes para os fãs de qualquer coisa, ou neste caso, fãs do Homem-Aranha, desde referências a filmes anteriores do personagem até à homenagem a Stan Lee e Steve Ditko. É muito bom, e seria fantástico, só que pouco provável, que este filme roubasse todos os prémios de animação que a Disney normalmente ganha nesta altura do ano.